2. METHODOLOGY
2.7. Literature review
Em função dos resultados parciais da pesquisa, que indicavam a existência de comunidades e/ou coalizões com fronteiras institucionais internamente divididas em subsistemas divergentes ou mesmo conflitantes, verificamos a necessidade de uma maior ênfase à análise de redes sociais (ARS) em combinação aos métodos mais tradicionais da teoria social por considerá-la um importante instrumento para a busca, apreensão e sistematização da forma pela qual os atores mobilizavam suas relações para a elaboração/implantação de políticas culturais (MARTELETO, 2007).
A noção de redes sociais é hoje amplamente utilizada em diferentes campos de estudo para caracterizar as novas formas de compreensão e organização social baseadas na “circulação horizontal de informações” a partir de uma “estrutura mínima de ordem” (VAZ, 2006). Ela designa, em geral, um conjunto de métodos, conceitos, teorias e modelos das ciências sociais, com diferentes matrizes disciplinares e epistemológicas, mas que conservam um objeto de estudos comum: o foco central nas relações sociais e nas regularidades que apresentam os grupos e indivíduos – e não em seus atributos. Esta perspectiva, segundo Marteleto (2007, p. 11), nos leva a uma compreensão da sociedade a partir dos “vínculos relacionais”, que podem assim reforçar capacidades de atuação, compartilhamento, aprendizagem, captação de recursos e mobilização dos sujeitos sociais.
De modo geral, uma rede social pode ser definida como sendo constituída de “um conjunto de unidades sociais e das relações que essas unidades sociais mantêm umas com as outras, direta ou indiretamente, por meio de encadeamentos de extensões variáveis.” (MERCKLÉ, 2004, p. 4 apum MARTELETO, 2007, p. 11). Uma característica que diferencia esta concepção é sua morfologia fluida, capaz de se adaptar às diversas circunstâncias e relações sociais: podem ser “densas” ou “difusas”, com conexões “fortes” ou “fracas”, dependendo do tipo de relação estabelecida entre os sujeitos em dado momento. Os componentes de uma rede nunca são fixos e costumam ter conhecimento apenas de suas conexões diretas; mas as múltiplas conexões indiretas que existem entre eles permitem que os “fluxos de informação” se estendam e acolham novos elementos em qualquer um de seus “nós” assim que passam a dividir os mesmos “códigos de comunicação” (CASTELLS, 2003). Essas unidades, por sua vez, podem ser indivíduos, grupos informais ou estruturas mais formais como organizações, associações ou empresas.
Dentre as diferentes concepções históricas e políticas dos estudos das ações coletivas na perspectiva das redes sociais, como “formas de estruturação da
sociedade da informação” ou metodologia de investigação das “ações sociais nas sociedades complexas”, Marteleto (2001, p.12) destacará como princípio geral seu entendimento como “espaços de troca coletiva e, portanto, qualificadores de informação e experiências”. Para a autora, há assim três princípios para o estudo das redes sociais: sua extensão e não-finitude em relação ao espaço local; a compreensão das redes densas, advindas das relações de proximidade (familiares e de vizinhança) e das redes ampliadas (relações de trabalho, associativas e participativas); e o entendimento de que, por meio da configuração das redes sociais e dos elos entre os atores, é possível analisar o comportamento individual e coletivo de seus membros. Por outro lado, haveria assim três planos básicos de redes existentes nos dias de hoje: a tecnológica (mecanismos e ferramentas de informática); a semântica (relações, elos, estratégias, etc.); e a rede humana (interações entre pessoas), as quais influenciam os procedimentos intelectuais e as relações sociais.
Baseada numa sociologia do conhecimento e da cultura que remete a Bourdieu30
e na teoria ator-rede da sociologia da ciência de Latour e Woolgar31
– que estudam as práticas e condições da pesquisa no lugar de considerar a “ciência feita” –, para Marteleto (2007, p. 10), a ideia de rede (por via conceitual ou metafórica) serve para estudar os processos coletivos de produção dos conhecimentos; o sistema de posições dos atores e as disputas nos campos; os capitais sociais, informacionais e simbólicos investidos nas práticas/políticas; a interação de atores humanos e não-humanos e suas complexas mediações nas redes sócio-técnicas de conhecimentos. De acordo com esta perspectiva, cada “campo social” possui objetos, regras, interesses e procedimentos específicos. E a cada um dos campos corresponde um ponto de vista fundamental sobre o mundo, “que cria o seu próprio objeto e que encerra nele próprio o princípio de compreensão e de explicação que convém a esse objeto” (BOURDIEU, 2001, p.119 apum MARTELETO, 2007, p. 9). Os atores que preenchem o espaço estrutural de um campo desenvolvem estratégias para a sua reprodução e/ou renovação, apresentando-se enquanto terrenos de lutas simbólicas.
Num texto posterior, Marteleto (2009, p. 34) destacará que os estudos a partir das redes sociais no campo da informação no Brasil iniciam-se em meados da
30 BOURDIEU, P. Science de la science et réflexivité.. Paris: Raisons d’Agir, 2001.
31 LATOUR, B; WOOLGAR, S. La vie de laboratoire: la production des faits scientifiques. Paris: La Découverte, 1996.
década de 1990, com a temática da “organização da sociedade civil e dos movimentos sociais para ações sociopolíticas”. O intuito desses estudos, que perduram até hoje, é “analisar a centralidade do conhecimento e dos processos de apropriação de informações para a mobilização e a participação social”. Na Comunicação Social e na Ciência da Informação atuais, segundo sua pesquisa, predominariam estudos sobre as relações interpessoais e as ações colaborativas na produção do conhecimento na internet, nas redes de conhecimento, nas redes cognitivas, e nas comunidades de práticas; para o estudo dos processos de produção, organização, apropriação, gestão e uso do conhecimento. Quanto às temáticas, em geral, referem-se às problemáticas associadas aos procedimentos de organização e de participação da sociedade civil em esfera nacional e internacional; à relação entre Estado, sociedade e políticas públicas; aos processos participativos, comunitários e de planejamento na saúde. Haveria ainda os estudos sobre as redes de organização e mobilização da sociedade para a participação dos atores sociais, em perspectiva interdisciplinar com as Ciências Sociais, e sobre as redes sociotécnicas e de inovação para o desenvolvimento local, reunindo “uma economia e geopolítica da informação aos estudos sociológicos das redes de informação”.
De acordo com a literatura recente sobre as implicações teórico- metodológicas do conceito “rede”, a determinação do posicionamento ocupado nas atuais estruturas de sentido que perpassam a configuração do tecido associativo e suas eventuais correlações com variáveis sociológicas mais tradicionais (como raça, gênero, idade, situação socioeconômica, profissão, situação geográfica, escolaridade etc.) permitiria explicar uma série de comportamentos, processos, condições ou fenômenos coletivos contemporâneos (MARQUES; CASTELO; BICHIR, 2011). Temos trabalhado desde o início da pesquisa, embora nesse ponto ainda intuitivamente, com a técnica “bola de neve”, através da qual os próprios integrantes, a partir de entrevistas “egocentradas”, vão progressivamente delimitando o tamanho, a densidade e as funções da rede social a ser analisada; o que possibilitou em etapas mais avançadas da pesquisa comparar as “proximidades” e “distâncias” entre os trânsitos, a frequência e intensidade das relações considerada sua natureza conflitiva ou cooperativa, os níveis de capital social e as condições de acesso ou restrição na criação de conteúdos e formação de novas redes (SILVA; ZANATA, 2011). Nesse sentido, buscamos de modo complementar realizar entrevistas com outros “Pontos” ou institucionais indicadas pelos gestores
das entidades que abrigavam os Pontos de Cultura como sendo os principais atores envolvidos em suas relações pessoais/institucionais (espaços cognitivamente reconhecidos como representantes de sua sociabilidade), observando os atributos dessas interações (conteúdos), as esferas de sociabilidade (familiar, vizinhança, amizade, associativa, diversão/lazer, profissional etc.) e outras variáveis socioculturais, como regras de comportamento, linguagem exclusiva, valores, significados etc.
Em um texto mais recente, para configurar os múltiplos espaços de trocas simbólicas a fim de ampliar as leituras do amplo e complexo espectro das questões relacionadas aos estudos das práticas e dos processos de informação, Marteleto (2010) recorrerá à concepção de “zonas de mediação”, isto é, “zonas de intercâmbio entre as partes em que a comunicação se produz”. Este conceito apresenta três dimensões: a propriamente social e comunicacional; a linguística e discursiva, na qual os diferentes recursos cognitivos e informacionais são acionados no compartilhamento de questões e em suas soluções; e a dimensão de produção de sentidos, “que se visualiza quando os elementos interativos, comunicacionais, informacionais e cognitivos clareiam uma zona de encaminhamento das ações individuais e coletivas”. As investigações que adotam a metodologia de ARS podem assim analisar as posições e interações entre os atores no contexto das redes e as múltiplas mediações que se produzem nos processos de produção, circulação e apropriação de informações (Ibidem, 2001, p. 36).