Já de posse de uma variedade de problemas, conceitos e indicadores provisórios, formulados através das aproximações teórico-metodológicas durante o primeiro ano do curso de mestrado, partimos para a escolha dos que mais valeriam a pena perseguir como focos principais de estudo. Em parte, o fizemos procurando descobrir se os acontecimentos que incitaram seu desenvolvimento eram típicos e disseminados, e observando como estes estavam distribuídos entre as “categorias de pessoas” e “subunidades organizacionais” formuladas no primeiro estágio da pesquisa. Buscamos assim desvendar de modo mais abrangente as principais relações sociais mediadas pelas entidades que abrigavam os Pontos de Cultura, assim como os “conteúdos” dessas interações e seus meios; os tipos de comunicação existentes; como se comportavam diante das possibilidades e
29 Embora conste neste trabalho somente a análise do Pontão de Cultura Sibipiruna, de Ribeirão Preto-SP (ver item 4.1 desta seção), o estudo de um ex Pontão de Cultura Digital da cidade de São Paulo, o Coletivo Digital, nos possibilitou um importante contraponto crítico ao trabalho que estava sendo realizado de modo mais aprofundado com a rede de Pontos de Cultura daquela cidade.
restrições com que se deparavam e como essas experiências eram discutidas e avaliadas pelos atores envolvidos – buscando sempre registrar esse material por meio de relatos detalhados sobre a “sequência de ações e eventos que conduziam a algum padrão de atividade” (BECKER, 1999, p. 31). De acordo com este procedimento, ao se descobrir a ocorrência de um dado fenômeno, primeiramente, deve-se certificar de que ele realmente “é o que parece” através de uma série de testes, para então delinear suas implicações teóricas a partir de um possível significado. Dessa forma, acompanhamos eventos, oficinas e manifestações culturais em diferentes espaços, coletando dados a partir da observação participante, de conversações casuais com membros do grupo e de entrevistas não- estruturadas com gestores dos projetos.
Importante neste norteamento foi a possibilidade de realizar entrevistas sobre coisas que tinham acontecido em atividades conjuntas ou que estavam em vias de acontecer – e também sobre as próprias aspirações individuais e experiências anteriores dos sujeitos da pesquisa (BECKER, 1999). Muitas evidências constituíram-se necessariamente dessas declarações feitas por membros do grupo em estudo, sobre determinados acontecimentos que tinham ocorrido ou que estivessem em processo. Todavia, de acordo com Becker, elas não devem ser consideradas em seu valor literal, e nem tampouco descartadas como desprovidas de valor. Há importantes ressalvas a serem feitas durante todo o processo de coleta e análise das conversações e entrevistas:
Teria o informante razões para mentir ou esconder uma parte do que considera como sendo a verdade? Vaidade ou conveniência o levariam a distorcer informações sobre seu próprio papel num acontecimento ou em relação a ele? Teve ele realmente a oportunidade de testemunhar a ocorrência que descreve, ou é a boataria a origem de seu conhecimento? Seus sentimentos sobre as questões ou pessoas em discussão o levam a alterar sua história de alguma maneira? (BECKER, 199, p. 35)
Como técnicas específicas de questionamento aos sujeitos de pesquisa, primeiramente, orientamos as entrevistas no sentido de deixar nossos interlocutores bem à vontade para descrever suas experiências político-culturais e o histórico das entidades que abrigavam o projeto; realizando deste modo algumas perguntas pontuais sobre seus sentimentos em relação a elas. Buscou-se com esta estratégia evitar o que Howard Becker (1999, p. 35) chama de “o problema do respondente
esperto” que age deliberadamente de modo a não confirmar o que ele supõe que seja a hipótese em teste. É muito mais eficaz se se quiser conhecer “a sequência de eventos que conduz a algum padrão de atividade” perguntar como a coisa aconteceu: “Quando você fez X pela primeira vez?, Como aconteceu que você veio a fazer isso?, Depois o que aconteceu?, E isso deu no quê?” (Ibidem, p. 36). As perguntas que sondam por detalhes concretos de eventos e sua sequência produzem, de acordo com Becker, respostas menos “ideológicas” e “mitológicas”, e nesse sentido mais úteis para a reconstrução de vivências e eventos passados. É certo que este tipo de questionamento deve incluir perguntas sobre aspectos mais subjetivos: “O que você pensou quando isto aconteceu?, Como você se sentiu em relação a isso?”. Todavia, as respostas para tais perguntas devem necessariamente ser interpretadas no que diz respeito ao contexto histórico de eventos revelados através dos primeiros questionamentos.
Um dos enfoques de Howard Becker é justamente a elaboração de métodos analiticamente apropriados para “ganhar acesso” aos grupos em estudo. De acordo com o autor, é comum que os entrevistados utilizem determinados padrões de resposta, isto é, tendências a dar respostas num certo estilo (aquiescente, socialmente desejável, e assim por diante), sem realmente considerar o conteúdo do item sob investigação. São exatamente essas precauções relativamente simples, tomadas “nas escalas das atitudes”, que permitem que a atribuição das variáveis sejam postuladas pelo “estudo em si” e não “às variáveis de padrões de resposta” (BECKER, 1999, p. 37). Outro problema relacionado a esta questão, e que envolve também questões éticas da pesquisa, se refere às promessas lícitas de serem feitas para as pessoas que nos propomos a estudar a fim de obter acesso a elas.
Nesse sentido, tentamos sempre demonstrar aos atores em estudo, na medida do possível, que não haveria motivos para acreditarem que certos tipos de informação e acontecimentos deveriam ser mantidos em segredo. Entretanto, percebemos também, mais ao final da pesquisa (geralmente no segundo ou terceiro encontro com cada entrevistado), que poderíamos ter acesso a outras dimensões da questão caso o gravador de áudio, presente nas primeiras entrevistas, estivesse desligado. Parece que a mediação do aparato físico, mesmo quando já havíamos deixado claro que as informações coletadas não seriam utilizadas para outros propósitos senão para fins acadêmicos, conservando a privacidade dos que assim o desejassem – até mesmo após terem assinado o “Termo de consentimento livre e
esclarecido” (ver o Apêndice desta dissertação) –, causava mesmo nestas condições certo desconforto. Muitas das declarações assim feitas, naturalmente, seguiram uma direção mais crítica sobre a situação de alguns grupos em específico ou sobre as políticas de cultura em geral. Importante destacar nesse sentido é que muitas vezes o próprio valor me evimência de uma declaração dependeu de nosso julgamento para determinar se ela poderia igualmente ocorrer em ambas às situações: enquanto o gravador estivesse desligado, um informante poderia dizer coisas que reflitam com exatidão sua perspectiva, mas que seriam inibidas, talvez até mesmo inconscientemente, pelo registro de seus discursos.
Na avaliação do valor dos itens de evidência, portanto, deve-se levar em conta o próprio papel do pesquisador no grupo, considerando que a maneira como os sujeitos em estudo definem este papel, afeta o que diriam e o que poderiam deixá-lo ver (BECKER, 1999).
O mais importante, todavia, é que na maioria das vezes tivemos motivos suficientes para acreditar que determinadas posturas dos atores e organizações em estudo combinavam-se ao que Becker (1999) chama de “traço comum de civilidade cotidiana”. O “princípio básico da vida cotidiana” é a falta de disposição dos sujeitos para “mentir” ou “dissimular” quando há perigo de serem descobertos: devido ao fato de que os vários aspectos das atividades em uma organização social são interligados, torna-se difícil para que as pessoas estudadas sejam bem-sucedidas em contar uma mentira coerente e ainda mais difícil agir de acordo com ela. Uma vez que os sujeitos em estudo geralmente não estão dispostos a serem apanhados numa mentira ou em incoerência, eles acabam por revelar suas “crenças verdadeiras”, isto é, como o fariam se o observador não estivesse presente. De acordo com Becker, a vida numa organização ou comunidade é como uma rede: o que se faz numa área de ação depende e tem consequências para outras áreas.
Procuramos assim sempre interferir de forma menos pronunciada possível em qualquer atividade, evitando deste modo nos mostrar demasiadamente importantes a ponto das pessoas observadas, inconscientemente, “fabricarem” seu comportamento segundo o que achavam que poderíamos esperar delas. A avaliação das evidências presentes em qualquer declaração foi assim feita de maneira diferenciada, de acordo com o contexto pelo qual surgiram e como foram questionadas – em público ou particularmente, de forma espontânea ou dirigida por um pergunta (BECKER, 1999).
2.4 Terceira etapa da pesquisa/Análise e Interpretação dos Dados: Modelos