A ONG responsável pelo “Ponto de Cultura Projeto Kabuki”, denominada “Associação Cultural Quarteto de Cordas de Ribeirão Preto”, atua no desenvolvimento de projetos culturais e de espetáculos públicos desde meados da década de 1990, com foco em ações de defesa, de incremento e de produção de pesquisas e estudos científicos e técnicos nas áreas de cultura e artes. Segundo a primeira edição da revista do Pontão, a entidade possuiria modernas estruturas metodológicas, estando ainda “em estreita relação com as tendências mundiais de ensino de artes, oportunizando aos jovens e futuros artistas, competência técnica e conhecimento” (p. 20). Antes de ser integrada como Ponto de Cultura, a instituição já contava com mais de vinte arte-educadores, oferecendo cursos nas áreas de dança e música – violino, viola de concerto, violoncelo, contrabaixo, violão, cavaquinho, bandolim, viola caipira, piano, flauta, musicalização para bebês, balé clássico e contemporâneo, jazz, danças populares, sapateado e dança de rua. E as atividades incluídas com a vinculação ao Projeto dos Pontos foram os cursos de teatro e percussão, totalizando um número de 500 alunos matriculados no primeiro ano de convênio – número que teria crescido em 200 alunos no ano seguinte e outros 200 no ano posterior.
Como consta nesta revista, os cursos objetivavam “a capacitação e a formação integral do educando, o exercício consciente da cidadania e a preparação e qualificação de jovens para o trabalho” (p. 20), tendo alguns de seus alunos aprovados em cursos de música de instituições universitárias públicas e privadas e outros inseridos no mercado – como, notoriamente, na Orquestra Sinfônica do município. A ONG também é responsável por manter um quarteto de músicos, uma camerata e uma orquestra de jovens instrumentistas, desenvolvendo ainda atividades num bairro periférico da cidade.
Para Frederico, educador de violão e articulador da entidade à “rede”, em depoimento à nossa pesquisa, essa “integração” teria oferecido “uma nova possibilidade de ação” à instituição, permitindo assim “completar” suas áreas de interesse:
A gente escolheu a percussão, e num âmbito mais social, pra fazer complementação ao curso de violão que nós temos lá na vila tecnológica... Que são uma população mais de baixa renda, e a
gente identificou que o acesso a elementos percussivos seria de um acesso mais imediato [...]. Um pandeiro, trabalhar a questão rítmica... A metodologia empregada foi a “educação continuada”, isto é, os cursos de percussão e teatro tiveram a duração dos três anos do Projeto – diferentemente de alguns Pontos que trabalharam com oficinas mais pontuais, de curta duração. E uma importante questão apontada quanto à vinculação ao Projeto, além da possibilidade de fazer apresentações no teatro municipal da cidade, por exemplo, se refere ao aprimoramento do suporte técnico para o trabalho desenvolvido:
Nós conseguimos hoje um projetor [...]. Então a gente pode dar aula multimídia, pode passar filmes específicos, conteúdo [...]. Os percussores levam o [aparelho de] som pra sala, tem um acompanhamento, tem uma metodologia... O aluno tem uma cópia do CD pra levar pra casa pra ele poder tá estudando [...]. Então a gente tá mais conectado com equipamento de primeira linha, antigamente os equipamentos eram muito ruins [...]. Doação sempre foram equipamentos obsoletos que às vezes não atendiam as nossas necessidades de software, de algumas coisas que a gente necessita pra realizar o trabalho. Então o Ponto foi muito positivo nesse sentido, pra equipar e ampliar as atividades das entidades. Além das aquisições tecnológicas e implantação de novos cursos, o reconhecimento como Ponto de Cultura teria permitido à associação, como consta na segunda edição da revista supracitada, “se inserir de forma definitiva no movimento cultural de Ribeirão Preto e, com isso, refletir e debater a cultura, através da rede que se formou com os demais pontos de cultura” (p. 10). Com o resultado de sua ação arte-educativa e com os alunos em etapas de formação mais avançadas, foram instituídos ainda os chamados “grupos de referência”, constituídos por uma orquestra de cordas e os grupos de teatro, chorinho e dança experimental:
Nestes ocorreram atividades de prática profissional simulada que se desenvolvem de forma concomitante com o conhecimento teórico/prático, fundamentando os conhecimentos, construindo competências, desenvolvendo habilidades e solidificando o desenvolvimento conjunto.
Assim, ao vivenciar o significado e a dimensão de estar inserida numa rede de pontos de cultura, a ACQUARP pôde, nestes dois anos, compartilhar com os demais pontos uma articulação solidária, onde foram implementadas ações conjuntas que mudaram significativamente o perfil cultural de Ribeirão Preto (p. 11).
– direcionado aos pais dos alunos – como uma importante dimensão da educação fora do âmbito mais formal de ensino; como consta no seguinte techo de um dos depoimentos dados a nossa pesquisa:
A gente fez esses cursos-piloto, como coral e viola caipira. Nós abrimos algumas vagas destinadas aos pais pra que haja essa aproximação entre os pais e os filhos no aprendizado musical. Então o pai ia sentir como é o processo musical e também poder discutir o aprendizado, as dificuldades. Os elementos que permeiam o fazer musical se estendem pra família. O que acontecia muito era que às vezes o aluno estudava em casa, e o pai não tinha uma vivência pra saber se ele está fazendo certo, se ele está executando certo, se aquilo é daquele jeito. Então nós resolvemos trabalhar alguns cursos pontuais pra ver como é essa interação dos pais com os alunos. Com base não apenas nos instrumentos e metodologias da cultura erudita clássica (da “arte pela arte”, “arte como estranhamento”), mas agregando diferentes elementos da cultura popular brasileira, em ações sociocomunitárias e socioeducativas, o perfil de ação/política desta entidade possibilita trazer ao debate novas perspectivas de mediação entre os valores, práticas e sentidos de um processo modernizador latino-americano relativamente recente e suas formas de diálogo e apropriação numa perspectiva cultural; isto é, lida em chave política, social e comunicacional – e não apenas “artística” e “literária”.