O contato exploratório com um programa de política pública de cultura a partir do campo de estudos da Ciência da Informação levanta mais perguntas do que “respostas de informação”.
O que se buscou fazer na primeira parte desta dissertação foi situar o estudo e a abordagem a partir mas memiações no âmbito da CI, enfatizando tanto a “não- passividade” dos atores dos processos de apropriação e comunicação da informação, sejam eles produtores, mediadores ou usuários, como também valorizando o contexto em que se situam os “fluxos” informacionais e comunicacionais. Para tanto, nos pautamos pela reconstrução do percurso de uma reflexão sobre a cultura e suas transformações, destacando a recepção mais recente desses estudos no Brasil e na América Latina.
Na segunda seção deste trabalho procuramos analisar o Programa Nacional me Cultura, Emucação e Cimamania – Cultura Viva – sob o âmbito da relação entre poder público e grupos culturais na formulação/implantação de políticas de cultura e fomento à articulação de redes sociais a partir da comparação entre diferentes lógicas, contextos e estratégias. Nosso foco principal foi o estudo de caso de uma rede local de Pontos de Cultural do município de Ribeirão Preto-SP e o que se buscou foi esboçar uma “tipologia” de ações/políticas culturais de modo a trazer novas perspectivas para a construção e o aprimoramento de indicadores e a elaboração/implantação de estratégias de mediação entre distintos modos de produção, circulação e apropriação do conhecimento no âmbito teórico-metodológico da CI.
Políticas culturais fundadas numa perspectiva esquemática e instrumental de “transmissão” ou “disseminação” de conhecimentos e valores institucionalmente legitimados não parecem ser a melhor opção para se pensar as questões aqui abordadas; ou seja, as contradições cotidianas que fazem a existência da cultura popular, seus modos de produção do sentido e de articulação no simbólico a partir de uma pluralidade de experiências estéticas e dos modos de fazer e usar socialmente a arte.
De modo mais promissor, a questão das memiações sociais nos contextos formativos permite ser pensada a partir do segundo caso analisado. Trata-se aqui de
uma cultura pedagógica apoiada em formas de experiência que não se restringem à mediação escrita, ligadas a modos de negociação entre conteúdos e significados historicamente estigmatizados, descriminados e deslegitimados. A construção do conhecimento é aqui um fenômeno ao mesmo tempo individual e social, e o saber, um produto da construção ativa dos sujeitos; tem caratér situamo, resultado de determinadas formas de negociação social. Trata-se daquela percepção mo político a partir mo cotimiano, de modo que “a cultura aqui não é oficial, não transmite informações boas nem más, não é propriedade de ninguém, é uma modo de ser, viver e morrer” (MARTÍN-BARBERO, 2013, p. 267).
Já a atuação “em rede”, e não a estritamente tecnológica, mas especialmente a semântica e humana, buscando influir em seu campus e se apropriar de seus habitus, é um desafio colocado em pauta. Sua efetividade, todavia, depende de algo mais do que seriedade no trabalho, afetividade entre Pontos, ou seus potenciais democráticos. Manifestações culturais específicas, como o teatro popular, por exemplo – cuja visibilidade costuma recair muitas vezes sobre artistas individuais ou pequenos grupos, ambos com um expressivo número na cidade –, parecem apresentar maior facilidade neste tipo de atuação em subunidades institucionais com diferentes níveis de mediações. De acordo com a literatura recente levantada nesta pesquisa sobre as implicações teórico-metodológicas da análise de redes sociais (ARS), a mobilização dessas relações para o empreendimento de ações sociopolíticas pode reforçar as capacidades de atuação, compartilhamento, aprendizagem e captação de recursos; o que por fim revela a centralidade do conhecimento e dos processos de apropriação de informações para a elaboração/implantação de ações/políticas públicas contemporâneas. No caso dos dois grupos de teatro estudados, a vinculação ao Projeto, mais que possibilitar a ampliação das oficinas e maior equipagem dos espaços, parece ter ampliado este potencial de atuação em diferentes campos e circuitos culturais a partir da base técnica e tecnológica que pode ser constituída.
Por fim, cabe ressaltar que esse novo “caráter instrumental” da política cultural não se refere a uma “mera política”, nem uma pura e simples instrumentalização da cultura: contrária aos ideais românticos do “investimento heroico em cultura”, a única lógica aceita atualmente para seu financiamento é de fato o da cultura enquanto recurso: para o desenvolvimento político, econômico e da educação (YÚDICE, 2006).
Há, nesse sentido, uma série de questões a ser consideradas: a deslegitimação recíproca de grupos com valores e memórias diametralmente opostas, que minam as propostas de constituição de redes socioculturais; a lógica de competição por recursos através da elaboração de editais, que embora constituam uma mudança de “paradigma” cultural que parece a melhor opção no momento, legitima formas de escrita letrada dominada por culturas consolidadas nos circuitos hegemônicos; o resultante “entesouramento” de informações; o atraso de recursos; as manobras políticas; tudo confluindo para uma certa deslegitimação das principais figuras mediadoras destinadas (por meio de recursos e habilidades) a fomentar uma lógica intercultural capaz de estabelecer processos colaborativos, enriquecimentos recíprocos e modos sociais de aprendizagem. O que, no entanto, não é de se surpreender: de acordo com Castells (2003), a lógica da sociedade em rede, por ser necessariamente fluída, quando hierárquica em sua gênese, costuma se realinhar a partir de uma nova morfologia que integra novos pontos e novas redes.
É evidente que, embora apresentassem não poucas falhas, as políticas públicas de cultura de Ribeirão Preto foram iniciativas pioneiras de um processo de criatividade multi, pluri e intercultural, que permitiu desvelar iniciativas e pontos nevrálgicos do desenvolvimento cultural das periferias da cidade. As ações/políticas culturais aqui elencadas, que serviram de estudo de caso, são assim apenas exemplos dos muitos que são possíveis de serem construídos a partir de realidades específicas. Atualmente, com a recente mudança de gestão da secretaria municipal de cultura, o que vemos todavia é a redução de um inovador programa de política pública de cultura aos chamados “prêmios” de cultura, isto é, a meros “programas de incentivo cultural”. O que reforça a necessidade, pensando em termos nacionais, da criação de “políticas Estatais” que deem respaldo a novas “políticas públicas”, apoiadas por sua vez em indicadores “interculturais” – ou seja, informações que permitam memiar entre as diferentes temporalidades e artes mo fazer cultural; ou pelo menos possibilitar um maior diálogo entre realidades de atores, movimentos e grupos muitas vezes “incomunicáveis”.
Diante dos atuais conflitos públicos nos modos de representar a vida social, em uma das vias promissoras nesse sentido, Yúdice (2006, p. 47) chamará atenção para a função política dos “mediadores” (onde poderíamos incluir os “profissionais da informação”) na elaboração e implementação de “políticas socioculturais” –
sensíveis a questões de formação, socioeconômicas e mais propriamente políticas – capazes de criar espaços onde as distintas narrativas culturais possam ser “concebidas e tornadas compatíveis”. As estratégias implícitas nos atos discursivos para determinar o valor de uma ação, objetivo ou propósito, poderiam assim ser capazes de contribuir para o fortalecimento e a expansão de “esferas públicas”: espaços não controlados pelo Estado nem pelo mercado onde os conflitos ganham visibilidade e as práticas ao comportamento democrático podem ser promovidas.
A consolidação de um amplo campo nacional de pesquisa em CI sensível a sua crucial inserção nos estudos culturais latino-americanos requer assim uma abordagem mais ampla de leitura – e não só dos textos técnicos e literários, como também das novas linguagens dos meios de comunicação e dos eventos ou manifestações culturais, baseadas fundamentalmente na repetição de símbolos e gestos e não necessariamente na solidificação de saberes em um substrato material específico; ou seja, a leitura como memiação: negociação de conteúdos, ativação de memórias e promução de significados que permitam a circulação cultural. Mais importante que “cultivar” seguranças teóricas, demarcando o campo de interesses e precisando a especificidade dos objetos de estudos, como em Martín-Barbero (2013, p. 238), trata-se de ultrapassar o meio e as estruturas das mensagens; ou melhor, as instituições consagradas da CI, e trabalhar no campo das experiências do receptor e das estratégias de recepção – isto é, os contextos culturais no qual tomam “forma”.
A abordagem a partir das mediações pode assim nos ajudar a compreender melhor tudo o que o pensamento clássico da CI ainda nos impede de “pensar por nós próprios”, tudo o que de nossa realidade social e cultural não cabe nem em sua sistematização nem em sua “dialética”. Torna-se portanto crucial prestar especial atenção aos outros momentos dos processos de informação; o que significa não ficar restrito ao universo de sua organização, pressupondo muitas vezes uma “recepção passiva”. Por outro lado, não se trata de adotar uma perspectiva menos redutora, mas ainda bastante problemática, do “cognitivismo” da recepção individualista; ou seja, como mera interpretação de significados que um emissor depositou numa mensagem. A questão fundamental refere-se ao reconhecimento dos condicionantes contextuais e culturais dos modos de produção do sentido e de articulação no simbólico a partir da constatação da pluralidade de experiências estéticas e dos modos de fazer e usar socialmente a cultura.
desenvolvimento de bancos de dados sob uma perspectiva quantitativa seja necessária para uma política de cultura nacional que vise atentar minimamente às especificidades dos diferentes grupos, questionamos se a estreita visão dessas ações – focadas na criação de indicadores sob uma perspectiva antropológica de cultura e positivista de informação – são questões suficientes para um campo de estudos que almeja um maior diálogo com os estudos culturais, as ciências sociais e as questões da comunicação. Sem esgotar o assunto, mas abrindo possibilidades de novas investigações, o presente trabalho foi um esforço teórico-metodológico que procurou buscar inspiração nas práticas socioculturais como ponto de partida para enxergar a Ciência da Informação em uma de suas frentes pouco exploradas. Mais que organização, um foco importante para a CI passa a ser assim os outros momentos do “fluxo” de informação: o da produção e recepção; tornando patente a necessidade de se pensar mais criticamente os contextos me recepção.
Ora, ler o campo de estudos da Ciência da Informação em chave cultural e política nos revela que a questão mais crucial já não pode ser em mais conhecimento, na lógica da pura acumulação e difusão quantitativa: mais que buscar “respostas de informação” para a “resolução de problemas”, torna-se patente para o pensamento crítico em CI a reformulação das próprias “perguntas de informação”; ou seja, de se pensar a partir das mediações culturais e políticas nas quais a reflexão sobre a formação de acervos, os formatos informacionais e os conteúdos das mensagens devem ser necessariamente remetidos. Em que medida o profissional da informação está preparado, com as métricas que tem à disposição, para lidar com as diferentes formas de troca e aquisição de conhecimentos que têm se tornado cada vez mais manifestas? Os novos movimentos politicoculturais, para citar apenas um exemplo, não estariam abalando muitas das seguranças teóricas das ciências sociais como um todo? Quais são os novos, se é que ainda seja correto chamá-los assim, “ambientes de informação”, tecnologias e dispositivos capazes de memiar entre, isto é, de comunicar conhecimento intercultural? Questões que nos colocam na trilha de novas problemáticas e caminhos cruciais para a área e que somente uma série de novas pesquisas poderá responder – já largamente empreendidas, a partir de diferentes dimensões, por algumas abordagens teórico- metodológicas que neste trabalho procuramos nos acercar.
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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA INFORMAÇÃO FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Termo de consentimento livre e esclarecido
O Sr.(ª) está sendo convidado(a) a participar do projeto de pesquisa Memiações Culturais na Sociemame ma Informação: um paralelo entre apropriações tecnológicas e políticas públicas me inclusão, de responsabilidade do pesquisador João Robson Fernandes Nogueira e sob orientação do Prof. Dr. Marco Antônio de Almeida.
Telefone para contato: (11) 952683606 Email: [email protected]
Essa é uma pesquisa que tem como objetivo estabelecer uma reflexão sobre as chamadas TICs (Tecnologia de Informação e Comunicação) e sua apropriação por parte de grupos, comunidades e indivíduos que buscam preservar e difundir manifestações da cultura popular. Analisamos que nessa chamada sociedade da informação vemos surgir mudanças que têm refletido em uma inédita e emergente constituição da memória social apoiada pelo desenvolvimento de políticas públicas de cultura. Nesse sentido, buscamos identificar se a chamada sociedade em rede tem contribuído para a mediação da cultura popular. Além da necessária revisão bibliográfica de autores das áreas da Ciência da Informação e das Ciências Sociais, empregamos uma metodologia de estudo de caso cujo foco são alguns Pontos e Pontões de Cultura do estado de São Paulo; acompanhando as relações entre a política do MinC em sua implementação, os arranjos institucionais que podem ou não viabilizá-la e os processos emergente de apropriação social da informação. Para tanto, o orientador propõe a realização de entrevistas com os gestores dos Pontos para a coleta de dados sobre as condições de ação e regras seguidas pela organização, verificando até que ponto os valores e ideias preconizadas pelo Programa Cultura Viva são de fato incorporados e postos em prática no
pelos Pontões de Cultura – minutas de reunião entre gestores, relatórios, os meios