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Nesse sentido, tomamos não somente as imagens como portadoras de informações, mas as fotografias em sua materialidade preservada. Imagem congelada e texto anexado se fundem em um documento/monumento, resultado da ação humana e dos exercícios voltados para a preservação da memória da escola. No limite, as imagens indicam escolhas, afinal, “a História e os diversos registros históricos são sempre resultados de escolhas, seleções e olhares de seus produtores e dos demais agentes que influenciaram essa produção” (PAIVA, 2006, p. 20).

Desse modo, direcionamos o nosso “olhar” para as fotografias que encontramos durante a pesquisa sobre a EAAPB. O que elas nos contam sobre o cenário, o que comunicam? O que podemos perguntá-las? Seguimos, em busca de novas respostas ou de novas questões, na trilha já indicada por Peter Burke, perspectiva do que se convencionou chamar de “virada pictórica” (BURKE, 2004, p. 15).

Na perspectiva da “virada pictórica”, tal como sugere Peter Burke, as imagens interpretam, ou ainda, recriam o mundo, exercendo certo deslumbramento no historiador, que se vê desafiado a explorar esse tipo de fonte. Sobre esse assunto, acompanhamos as reflexões e preocupações de Pesavent, nos termos que se seguem:

Quanto ao uso da imagem pelo historiador, tomado no seu valor de traço, dele se espera que transmita uma espécie de testemunho sobre o passado. Afinal, os historiadores têm expectativas de verdade para com as imagens do passado. Historiadores querem ver na imagem traços visíveis daquilo que teve lugar um dia, como marcas que restaram de um outro tempo e que podem dizer algo sobre o presente de sua elaboração e de sua leitura pelos homens daquela época já distante. A “verdade” buscada, contida na imagem antiga, não se aproxima do conceito de veracidade, mas sim do sintoma ou rastro, constituindo como que uma pegada ou impressão de vida e energia deixada pelo passado, a atestar a presença do humano, de uma experiência e de uma sensibilidade (PESAVENTO, 2008, p. 19).

Assim, tomamos as imagens como um produto cultural, social e datado (portanto desnaturalizado) como fonte, através das quais, nos esforçamos para compreender um fenômeno social. Portanto, a imagem é um vestígio do passado, mas não o passado em si. No caso específico das fotografias, Miriam Moreira Leite lembra-nos de que “devem ser consideradas pelos historiadores da mesma forma que outra prova qualquer – avaliando mensagens que podem ser simples e óbvias ou complexas e pouco claras”, tempo em que também nos adverte para o fato de que as fotografias nunca apresentam toda a verdade, ou

seja, “nunca contém toda a verdade e muitas vezes se limitam a registrar aspectos visíveis, de matéria-prima a ser elaborada” (LEITE, 2001, p. 26-27).

Assim, considerada como fonte e não como meras ilustrações, mas como capaz de oferecer respostas diferentes aos problemas já conhecidos ou ainda gerar novas questões, a fotografia precisa de crítica, tal como qualquer outra fonte, uma vez que as imagens não são neutras, tampouco objetos naturais como já afirmamos. Pelo contrário, são socialmente construídas. Nesse sentido, Thomas Popkewitz sugere que os pesquisadores educacionais necessitam:

Entender que o olho não apenas vê, mas é socialmente disciplinado pela ordem, divisão e ‘criação’ das possibilidades da organização do mundo e do sentido da identidade individual. Ao questionar como os olhos vêem, é possível questionar também como os sistemas de ideias ‘tornam’ realidade o que é visto, pensado e sentido. Tais perguntas sobre a razão – ou seja, a construção social da razão (e as relações de poder embutidas nesta) – são os princípios pelos quais o agente ‘vê’ e age para efetuar uma mudança (Popkewitz, apud FISCHMAN, 2008, p. 119).

Nessa perspectiva de análise, aproximamo-nos de Ana Maria Mauad, que ,parafraseando o historiador francês Jacques Le Goff, considera a fotografia como imagem/documento e imagem/monumento.

A fotografia é uma fonte histórica que demanda por parte do historiador um novo tipo de crítica. O testemunho é válido, não importando se o registro fotográfico foi feito para documentar um fato ou representar um estilo de vida. No entanto, parafraseando Jacques Le Goff, há que se considerar a fotografia, simultaneamente como imagem/documento e como imagem/monumento. No primeiro caso, considera-se a fotografia como índice, como marca de uma materialidade passada, na qual objetos, pessoas, lugares nos informam sobre determinados aspectos desse passado- condições de vida, moda, infra-estrutura urbana ou rural, condições de trabalho etc. No segundo caso, a fotografia é um símbolo, aquilo que, no passado, a sociedade estabeleceu como a única imagem a ser perenizada para o futuro. Sem esquecer jamais que todo documento é monumento, se a fotografia informa, ela também conforma uma determinada visão de mundo (MAUAD, 1996, p. 8).

Considerando as reflexões realizadas, indagamo-nos: o que nos diz então a imagem fotográfica de alunos, professores e mestres da EAAPB? (Cf. acima) Como monumento, o

que mostra da realidade de seu tempo? Como sinal do passado (monumento), que informações carrega? O que informa e o que conforma?

No exercício da crítica, há sempre o primeiro passo, o que Maria Ciavatta chamou de primeiro olhar:

O primeiro olhar é sobre o próprio objeto fotográfico, o artefato, o simulacro, a imagem fotográfica e a história da fotografia. A fotografia como recriação da realidade, como simulacro que é e não é, ao mesmo tempo, o objeto real, a fotografia no que mostra e no que dissimula, como conhecimento dissociado da experiência que redefine a própria realidade (CIAVATTA, 2009, p. 114-115).

Aqui o primeiro desafio ao historiador: “como chegar àquilo que não foi revelado pelo olhar fotográfico” (CARDOSO; MAUAD, 1997, p. 405). Não podemos cair na tentação de simplesmente indicar “o fato” a que tal fotografia se refere. É preciso considerar que a imagem congelada comporta uma representação da ação humana e é preciso, como tal, explicá-la, ainda que de forma aproximada. O fundamental é considerar as relações, os elementos sociais presentes por trás do visível, ou seja, por trás da realidade que foi congelada. Segundo Kossoy (2001, p. 101), é preciso considerar a Realidade Exterior (2ª realidade) no sentido de o instante registrado na fotografia, os elementos visíveis; bem como a Realidade Interior (1ª realidade) que indica a contextualização do momento que foi congelado. Tal procedimento significa “olhar” o que não está visível, ir além da imagem selecionada. Nesta perspectiva de análise, olhemos mais uma vez a imagem, fotografia 5.

É preciso fazer uma análise iconográfica da imagem, detalhar, inventariar o conteúdo e os seus elementos icônicos. Nesse caso, percebemos que estamos diante de uma cena “fabricada”109. No interior da Escola (ou do Quartel de Polícia), professores e professoras,

mestres das oficinas e alunos estão em pouse devidamente montada. Os alunos aparecem perfilados (lado esquerdo). As professoras ocupam um espaço de destaque, perfiladas na parte direita da imagem fotográfica. Na escada, os homens, provavelmente professores, mestres e o corpo dirigente da Instituição. As crianças perfiladas, oriundas das camadas desfavorecidas, sugerem uma época em que o Estado dedicava cada vez mais atenção aos problemas que apareciam nas cidades, por exemplo, menores nas ruas, e assumia a preocupação com a instrução pública (preocupações assistencialistas e formação compulsória da força de trabalho). Na imagem (2ª realidade), a ideia da disciplina e da hierarquia está presente com

109 Com esta expressão temos em mente que a disposição das pessoas na fotografia não é aleatória, ao contrário,

muita força, conformando e informando sobre um determinado contexto do início do século XX (1ª realidade), em que estavam presentes, na perspectiva do Estado brasileiro, a disciplina e a hierarquia como valores que deveriam nortear as transformações urbanas que aconteciam no País.

As mesmas ideias podem ser vistas em outra fotografia. Na imagem abaixo, disciplina e hierarquia são elementos presentes na cena congelada, representação do tempo. Nesta imagem, podem ser vistos alunos na parte superior da fotografia. Na base, professores e mestres das oficinas e, no centro da imagem, Áurea Pires, a primeira professora da EAAPB110.

Foto 6 – Primeiros Professores, Mestres e alunos da EAAPB, 1910.