Chapter 5.0: Empirical Evidence and Discussion
5.2 Hungarian populists
5.2.3 Orbán and corruption
Foto 2 – Cadeira escolar, década de 1920. Autor desconhecido. Acervo do NDPEP.
Neste capítulo, seguimos tendência (já consolidada entre os principais teóricos da História da Educação) que valoriza as singularidades e as particularidades e que observa, também, os diversos atores envolvidos no processo educacional, bem como os acontecimentos no interior das instituições escolares95. Daí abrirmos o capítulo com a imagem
de uma cadeira escolar, objeto deste cenário interior e lugar de alunos que se desejavam mais ordeiros e pacatos. O que pretendemos é a construção de uma explicação para um fenômeno educacional em particular, a realidade educacional da EAAPB, enxergando-na em um quadro social, econômico e político amplo, mas, ao mesmo tempo, considerando seus aspectos particulares. Dito de outro modo, a ideia é falarmos sobre os detalhes de suas árvores, sem perdemos de vista a floresta em que seus troncos estão enraizados. Neste esforço, consideramos, portanto, a ideia de totalidade como um conceito dialético (dinâmico), marcado pela presença de diversos elementos que, de uma maneira ou de outra, se relacionam e que, no
95 Trabalhamos com a ideia de instituição escolar em seu sentido estrito (tal como mostramos no primeiro
capítulo), diferentemente, portanto de instituição educacional (ou instituições educacionais) em sentido amplo, como pensa Justino Pereira de Magalhães. Cf. Magalhães, 2004, p. 53.
limite, podem dar conta da compreensão racional de “um fato qualquer” (KOSIK, 1976, p. 35) 96.
Nesse sentido, acreditamos na História da Educação como especialidade disciplinar que “ganha legitimidade justamente na medida em que se articula com a totalidade histórica” (CASTANHO, 2010, p. 96); ou, como indica Magalhães: “A história da educação é um discurso científico sobre o passado educacional, nas suas diversas dimensões e acepções (grifo nosso) [...]” (MAGALHÃES, 2005, p. 97).
Nessa perspectiva, direcionamos nossa atenção para dentro dessa escola, utilizando- nos da ideia de cultura escolar para estudarmos o seu funcionamento, seu cotidiano, os elementos que constituem o seu espaço interno e, portanto, as práticas escolares aí desenvolvidas, ao passo em que consideramos a realidade que vai se metamorfoseando ao longo do tempo, dialogando com as políticas públicas vigentes, bem como com as exigências que lhes são apresentadas pelo capital, ou ainda: nosso objetivo é analisar a constituição interna da EAAPB, seus aspectos organizacionais, pedagógicos e administrativos, tomados em movimento, pois inseridos no contexto das reformas mais amplas que caracterizam a educação brasileira na década de 1920 e nos anos subsequentes. Nesse sentido, investigamos a organização da escola, sua implantação, o funcionamento e o movimento de acomodação (acolhimento pela sociedade), ao mesmo tempo em que, como “instituição viva”, experimentou transformações, sobretudo advindas da discussão e consolidação de uma legislação específica para o ensino profissional no país97. Assim, direcionamos nossa atenção para o espaço físico, o tempo (rotinas escolares), os conteúdos ensinados, o método de ensino predominante, os rituais (sobretudo os cívicos), e os valores que se pretendia transmitir aos alunos.
Ao considerarmos a ideia de cultura escolar, já definida neste trabalho como o conjunto do fazer escolar (o que é ensinado, inculcado, os objetivos que se pretendem alcançar), nosso esforço será no sentido de, ao nos aproximarmos tanto quanto possível da “caixa preta da escola” (GOODSON, 1995, p. 118; JULIA, 2001, p. 13), produzirmos, a partir dos elementos construídos nesse esforço de aproximação, um discurso capaz de tornar menos
96 Nas palavras desse teórico: “Na realidade, totalidade não significa todos os fatos. Totalidade significa:
realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjuntos de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK, 1976, p. 35).
97 Também temos como referência a ideia apresentada por Magalhães, segundo a qual “As instituições
educativas são organismos vivos, cuja integração numa política normativa e numa estrutura educativa de dimensão nacional e internacional é fator de conflito entre os campos da liberdade, criatividade, sentido crítico e autonomização dos atores e o normativismo burocrático e político-ideológico estruturante” (MAGALHÃES, 2004, p. 124).
opaca esta realidade educacional e, portanto, esta experiência de educação profissional na Paraíba.
Destarte, ao observamos como o cotidiano interno da escola (e, portanto do processo educacional) dialoga com os aspectos socioeconômicos presentes no seu entorno, temos em mente uma realidade profundamente contraditória, cuja explicação melhor se coaduna com os preceitos do materialismo histórico (tal como mostramos no primeiro capítulo), cuja preocupação metodológica com a totalidade torna inviável a exclusão de quaisquer que sejam os aspectos ou as inquietações relacionados à práxis do Homem. Segundo Sanfelice:
[...] a dimensão da identidade de uma instituição somente estará mais bem delineada quando o pesquisador transitar de um profundo mergulho no micro e, com a mesma intensidade, no macro. As instituições não são recortes autônomos de uma realidade social, política, cultural, econômica e educacional. Por mais que se estude o interior de uma instituição, a explicação daquilo que se constata não está dada de forma imediata em si mesma. Mesmo admitindo que as instituições adquirem uma identidade, esta é fruto dos laços de determinações externas a elas e, como já dito, “acomodadas” dialeticamente no seu interior (SANFELICE, 2007, p. 78-79).
Consideramos a indicação de Dominique Julia, segundo a qual a noção de cultura escolar significa mais atenção às práticas e aos aspectos internos da escola. É um convite aos historiadores da educação a darem mais atenção aos aspectos que dizem respeito ao funcionamento interno das escolas, sem que análises macropolíticas sejam deixadas de lado98. Seguindo essa linha de reflexão, entendemos que nos aproximamos da noção de cultura escolar proposta por Faria Filho, que a compreende como “a maneira em que numa situação histórica concreta e particular são articuladas e representadas, pelos sujeitos escolares, as dimensões espaço-temporais do fenômeno educativo escolar, os conhecimentos, as sensibilidades e os valores a serem transmitidos e a materialidade e os métodos escolares” (2008, p. 85), elementos que, para além de qualquer abstração, devem ser considerados como resultado “da ação dos sujeitos que fazem a escola” (BENCOSTTA, 2010, p. 40)99. É,
98 “A metáfora aeronáutica da “caixa-preta” adquiria valor de argumentação. Recusando estudos essencialmente
externalistas, como a história das idéias pedagógicas, das instituições educativas e das populações escolares, que tomavam como fontes privilegiadas os textos legais, propunha uma história das disciplinas escolares, constituída a partir de uma ampliação das fontes tradicionais. A defesa de uma viragem nos estudos históricos em educação não se fazia acompanhar por um desdém às análises macropolíticas. Pretendia, ao contrário, a aproximação entre estas e os estudos voltados para o interior das instituições de ensino” (FARIA FILHO, et all, 2004, p. 144).
99 Discutindo os alcances e os limites do conceito de cultura escolar, Bencostta conclui que: “Entendo o conceito
de cultura escolar como possuidor de multiplicidades de interpretações capazes de apresentar fragmentos explicativos do universo escolar, aptos a contribuir para o estudo dos fenômenos educacionais em seus mais variados aspectos históricos” (2010, p. 42).
portanto, a partir dessa perspectiva que consideramos a cultura escolar como uma categoria teórica que, do ponto de vista analítico, tornará possível compreendermos esta experiência escolar, ou dito de outro modo: a vida escolar na EAAPB100.
Nesse sentido, fizemos algumas escolhas de categorias inerentes à noção de cultura escolar, umas serão mais exploradas, outras menos, tais como: tempos e espaços, conhecimentos escolares, métodos de ensino, disciplinamento, sujeitos escolares e valores. Do ponto de vista das fontes, trabalhamos com relatórios de gestão, fotografias e todo um conjunto de leis que foram aplicadas ao ensino profissional pelo estado republicano.