7. Analysing the scope and application of CSR in Norfund
7.1 Limited ownership, limited influence?
Uma vez que se evidenciou que a Controladoria possui uma base teórica que se encontra em fase de desenvolvimento, tendo em vista o normativismo e a falta de consenso, busca-se, agora, entender a segunda inquietação referenciada. Assim, há de se recorrer, novamente, ao pensamento de Demo (2000, p. 22) quando adverte que não pode haver teoria maior que a prática, nem mesmo prática sem teoria, se a pesquisa desejar obter credibilidade pública. Na verdade, o casamento entre teoria e prática é o que importa, sem entrar no mérito da discussão de qual é maior. Em complemento, Lakatos e Marconi (1985, p. 114) afirmam que “[...] qualquer teoria deve ajustar-se aos fatos. Quando isso não ocorre, a teoria deve ser reformulada, ou então, rejeitada.”
De qualquer maneira, os argumentos de Demo (2000) e Lakatos e Marconi (1985) denotam que o problema da incipiência da doutrina sobre Controladoria, ora retratado, não deve ser trazido à tona sem a discussão de como está a sua prática. Dessa forma, a segunda inquietação, ou seja, a fragilidade da evidenciação da prática passa a ter seu espaço nesta discussão.
Ressalte-se entretanto que, ainda que se tenha criticado o predomínio normativo que tem imperado na pesquisa sobre Controladoria até o final do século XX, não se pode negar que neste início de século ela tem experimentado um paradigma de pesquisa, por assim dizer, diferenciado. Isso porque se encontram disponíveis estudos que buscam descrever a realidade, ao invés de limitarem-se a dizer como essa realidade deveria ser. Como exemplos, podem-se citar os trabalhos de Giongo e Nascimento (2005), Oliveira e Ponte (2005) e Calijuri et al. (2005). Porém, mesmo tendo sido o fenômeno Controladoria estudado sob diversas faces, como no caso das pesquisas ora citadas, entende-se que carece de especificações mais concretas das condições em que ocorre, ou como tal fenômeno pode ser influenciado por outras variáveis.
Nessa mesma linha de raciocínio encontra-se Frezatti (2004, p. 2), cujo argumento é de que “[...] os estudos empíricos, quanto à questão metodológica, na contabilidade gerencial estão ainda em um estágio em que existem muitas coisas para serem comprovadas de acordo com as regras aceitáveis do mundo acadêmico.” Concorda-se com as palavras de Frezatti (2004) por se entender que ilustram a situação-problema caracterizada, em especial porque os estudos empíricos enumerados anteriormente, por exemplo, furtam-se de análises mais aprofundadas, alicerçadas no rigor metodológico demandado pela academia.
Tal cenário, por si só, espelha que ainda há espaço para pesquisas empíricas sobre esse tema. Mesmo assim, lembra-se Anderson e Schmidt (1961, p. 11), para os quais, na prática, há falta de uniformidade na natureza e extensão das responsabilidades da Controladoria, e acontece, na maioria das empresas, em função das variações nas capacidades e interesses da equipe de executivos. Na verdade, pode-se ir além e pensar que essas variações podem ocorrer em função da visão cultural do país sobre o tema, em função do porte da empresa, do modelo de estrutura organizacional, do estágio de desenvolvimento gerencial, do modelo e estilo de gestão etc.
Nesse sentido, poder-se-ia questionar até que ponto não é uma característica necessária e até mesmo desejável que os arranjos da Controladoria tenham suas formas peculiares em função das particularidades de cada organização. Mesmo que se entenda que sim, ou seja, que contornos de Controladoria se dêem em função das características da organização que a recebe, considera-se que alguns princípios e pilares básicos devem nortear as funções dessa área. Por essa razão, este texto é construído sobre a premissa de que uma estrutura conceitual sobre Controladoria é fundamental.
Tendo em vista o que se disse até aqui, pode-se pensar num rol de inquietações a respeito do que se encontra no escopo da Controladoria. Por exemplo: seria ela responsável pela auditoria interna, pelo processo de formulação de estratégias, avaliação de desempenhos, compliance, governança ou somente, ou preponderantemente, pela Contabilidade Financeira, pela gestão de tributos? Só existe Controladoria enquanto unidade organizacional ou há uma área de estudos, um ramo do saber, com esse nome? Sobre esse último aspecto, inclusive, Carvalho (1995, p. 3), com o qual se concorda, assevera que “[...] observa-se a ausência de esforços para o esclarecimento de quais são os conceitos, princípios e corpo teórico que possui a Controladoria.”
Esse último conjunto de idéias remete novamente a Demo (2000, p. 9-10) quando discute que a razão de ser mais profunda da ciência é a capacidade de questionar e, sobretudo, de se questionar. O autor explica que “Nas ´certezas`, o conhecimento aquieta-se, porque já não questiona adiante, enquanto na dúvida vive de questionar.” Concorda-se com as palavras de Demo (2000), e entende-se que nesse pensamento esta tese encontra fundamento, uma vez que os aspectos motivadores desta pesquisa são a inquietação de se saber o que está acontecendo, de fato, na Controladoria, bem como a necessidade de se sistematizar o conhecimento difundido sobre o assunto. Ademais, Kaplan (1975, p. 37) adverte que “Pretendendo-se que a ciência nos diga alguma coisa acerca do mundo ou que tenha interesse prático, ela deve conter, em algum ponto, elementos empíricos.” Mais adiante (1975, p. 315) complementa que, para que a teoria seja um retrato da realidade e para se chegar a uma teoria bem fundamentada, é preciso dedicar-se a descobrir como as coisas são.
Enfim, cabe ainda dizer que esta tese teve sua motivação num problema detectado por Carvalho (1995, p. 30-31), ao concluir a primeira parte da sua análise crítica da literatura:
Essas observações trazem à tona um fato já anunciado no início deste tópico, ou seja, as opiniões colhidas nas obras pesquisadas não permitem [sic] que se responda, de forma inequívoca, uma série de perguntas fundamentais para a compreensão do assunto, como, por exemplo: o que é a Controladoria e quais as teorias e princípios conformam o seu campo de conhecimentos? Qual a sua relação ou dependência das ciências que se preocupam, cada um a seu modo e sob seu prisma específico, com o processo de criação de riqueza pelos agentes econômicos (Economia, incluindo Finanças, Administração e Contabilidade)? O que delas importou e que contribuição nova trouxe à realidade prática das empresas e à evolução das pesquisas acadêmicas? Qual a missão do órgão Controladoria no seio das organizações empresariais? Quais suas funções? Etc. O assunto está a exigir uma pesquisa profunda para que as citadas questões e indefinições possam ser definitivamente esclarecidas. Como não se inclui no escopo deste trabalho empreendê-la, deixamos registrado o problema para ser explorado em pesquisas posteriores.
Em resumo, entende-se que este estudo contempla questões que visam a, justamente, questionar a plataforma teórica em que se assenta a Controladoria, bem como trazer-lhe proposições com base naquilo que se encontrar da visão da realidade, obtida por meio de pesquisa empírica. Dito de outra forma, significa que se constata a necessidade de se inventariar aquilo que está sendo feito no Brasil, pelas organizações, em termos de Controladoria.
Tendo em vista o cenário anteriormente contextualizado e considerando-se a importância em se explicitar claramente o problema de pesquisa, haja vista a assertiva de Mattar (1999, p. 58)
de que “A pesquisa científica é uma atividade voltada para a solução de problemas”, pode-se estabelecer que a problemática fundamental desta tese reside no seguinte:
i) as evidências empíricas sobre o que tem sido feito, na prática, em termos de Controladoria no Brasil, são insuficientes para retratar a realidade de forma abrangente, ou seja, os resultados das pesquisas são muito específicos;
ii) há diferenças entre os estudiosos de Controladoria no que se refere às suas funções e atribuições, sua missão, propósitos etc., ou seja, os autores divergem;
iii) como decorrência dos dois itens anteriores, o arcabouço teórico em que se assenta a Controladoria é incipiente ainda, não está consolidado; e
iv) não se sabe até que ponto a realidade da Controladoria tem explicado tal arcabouço teórico, uma vez que, como já registrado, teoria e prática devem caminhar juntas.
Esquematicamente, tem-se:
Ilustração 2 - Síntese do problema de pesquisa
Finalmente, é mister ressaltar que a situação, ora apresentada, é um problema de pesquisa porque, como explica sabiamente Kerlinger (1980, p. 3), “A ciência é um empreendimento preocupado exclusivamente com o conhecimento e a compreensão de fenômenos naturais.” Como, nesta tese, se está colocando a preocupação com o que tem acontecido com o
Assunto:
Tema:
Problema:
Controladoria
Teoria e prática da Controladoria
Em geral, a prática é desconhecida, cientificamente
O arcabouço teórico é frágil e não está consolidado
Necessidade de unir teoria e prática
A literatura apresenta divergência entre os autores
conhecimento na área de Controladoria, e o que tem sido feito desse fenômeno na prática, denota-se a inquietação em se querer fazer ciência e investigar esse problema com o devido rigor metodológico.
Vale igualmente ressaltar que, de acordo com as categorias de tipo/natureza de problema de pesquisa discutidas por Theóphilo (2004, p. 114-115), a problemática desta tese é de natureza empírico-conceitual, pois trata de questões relativas à plataforma teórica da Controladoria, além daquelas que se referem à falta de evidência empírica que a suporte.