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Este capítulo justifica-se a partir da premissa de que uma teoria é indispensável ao desencadeamento do processo de investigação. Tal premissa fundamenta-se no argumento de Theóphilo (2004, p. 75), com o qual se concorda integralmente, de que “[...] o processo científico não parte dos dados para a teoria; ao contrário, uma investigação tem sempre uma estrutura teórica na qual se baseia.” Nessa mesma linha de raciocínio, Demo (2000, p. 164) adverte que “A teoria é necessária para oferecer condições explicativas do fenômeno, trabalhando as razões de ser assim, e não de outra maneira.” Portanto, “[...] é fundamental construir base teórica de caráter explicativo.”

Esses posicionamentos são corroborados por Castro (1978, p. 15) quando considera que “Na prática científica, ‘teoria’ não é um termo reservado para formulações complexas, inacessíveis ou matematicamente formuladas. Ao contrário, refere-se aos princípios de organização, caracterização e discriminação dos dados ou eventos a serem coletados ou examinados.”

Tendo-se em conta os argumentos de Theóphilo (2004), Demo (2000) e Castro (1978), associados ao fato de que a teoria sobre a Controladoria não está consolidada, conforme as várias fragilidades apontadas na caracterização da situação-problema desta pesquisa e, considerando-se ainda os objetivos deste estudo, o intuito deste capítulo é apresentar um

framework que servirá de base para a sistematização da ECBC. Isto porque é fundamental

estabelecer a plataforma teórica sobre a qual o trabalho se sustenta.

Assim, este capítulo apresenta o resultado da incursão teórica procedida na bibliografia que trata de conceitos relacionados à construção de uma teoria. Buscou-se fazer deste tópico o Referencial Teórico para a tese, ou seja, ele foi desenvolvido de forma a compreender um constructo que leve em conta: o que é uma teoria? quais características (ou aspectos) precisam estar presentes num conjunto de conhecimentos para que esse possa ser chamado de teoria? quais as funções e objetivos de uma teoria? quando um corpo de conhecimentos, ainda incipiente, não alcança o status de teoria, que outros nomes pode receber?

Para tanto, percorreu-se o caminho da Epistemologia das Ciências Sociais, buscando entender o posicionamento de cada um dos autores pesquisados a respeito de o que é uma teoria. O resultado dessa revisão da literatura serviu de sustentação teórica para a sistematização da Controladoria enquanto teoria, que será apresentada nos capítulos seguintes. Por essa razão, este tópico é importante, ou seja, para se poder sistematizar a Controladoria como uma teoria ou, caso não seja possível, em alguma categoria de formulação, que não necessariamente uma teoria, mas como algo concorrente.

Parte-se, portanto, do pressuposto de que esse constructo é fundamental para se proceder ao esquema de sistematização do arcabouço teórico da Controladoria, buscando, se possível, dar a ela a configuração de teoria. Isso encontra respaldo em Martins (2004, p. 3) quando afirma que “Asserções feitas pelas teorias destinam-se a sistematizar o que se sabe acerca do mundo que nos cerca.” De igual forma, Kaplan (1975, p. 309) toca na questão da importância de se sistematizar: “A Teoria dá sistema às coisas conhecidas. [...] É certo que a sistematização efetuada por uma teoria tem como conseqüência simplificar leis e atribuir ordem a amontoados de fatos.” Ora, a produção científica divulgada sobre Controladoria carece dessa sistematização, carece de ser organizada na forma de teoria.

Ademais, tal empreitada reveste-se de relevância para a realização da pesquisa de campo, na medida em que se deseja verificar, através de pesquisa empírica, como os elementos da ECBC são aplicados pelas organizações. Sobre isso, lembra-se Bunge (1980, p. 13-14), o qual apresenta uma lista de possíveis problemas que a nova Epistemologia deverá abordar. Em sua lista, esses problemas são categorizados em lógicos, semânticos, gnosiológicos, metodológicos, ontológicos, axiológicos, éticos e estéticos. Dentre os problemas gnosiológicos, o autor cita: “Que relação existe entre a observação de um fato e as proposições que o representam?” e “Que relação existe entre os conceitos empíricos [...] e os teóricos [...]?” Esses tipos de problemas listados por Bunge (1980) estão presentes nesta tese, conforme se abordou no Capítulo 1.

Ressalte-se que a Controladoria é aqui entendida como pertencente à categoria das ciências sociais. Nesse sentido, uma ressalva importante a se fazer é com relação à questão sobre se a caracterização de uma teoria em ciências sociais é diferente daquela procedida nas naturais. Alguns autores, dentre eles Rudner (1976, p. 26), discutem que algumas características de uma teoria nas ciências sociais são as mesmas das naturais: “As características estruturais de

uma teoria sócio-científica são, precisamente, as mesmas de qualquer outra teoria científica.” Portanto, por concordar-se com esse aspecto ressaltado por Rudner (1976), toda a discussão procedida levou em conta esse ponto de vista.

Não obstante, há de se considerar que alguns aspectos merecem atenção diferenciada nas ciências sociais, em comparação com as naturais. Um exemplo disso é a questão da forma de comprovação das teorias. Segundo Martins (2004, p. 1), os aparatos de prova de uma teoria nas ciências sociais aplicadas são completamente diferentes dos que se utilizam numa teoria física, por exemplo, haja vista que as técnicas de verificação são diferentes. Assim, há de se ter o cuidado de, quando necessário, fazer as devidas adaptações.

Na mesma linha de raciocínio de Martins (2004), encontra-se Nepomuceno (2003), o qual faz uma interessante discussão sobre o método científico nas ciências naturais e nas sociais. Segundo o autor (2004, p. 74), “Nada é mais temerário e paradoxal do que o estudo da ação humana pautada nos manuais positivos das ciências naturais [...]” Um dos argumentos do autor para essa inconsistência de se tratar as duas como semelhantes está na instabilidade com que se lida com os constructos sociais. De forma taxativa, afirma (2004, p. 74):

O método científico das ciências naturais é incompetente para suportar explicações e previsões das ações humanas, porque elas não obedecem a uma regularidade do ponto de vista comportamental, embora possuam uma lógica experimental intrínseca. O mesmo método é também incompetente para descrever o comportamento da riqueza individual. [...] Trata-se, portanto, de fenômenos sociais que não obedecem à mesma regularidade dos fenômenos naturais.

Finalmente, agregue-se a esse contexto a assertiva de Oliveira Filho (1976, p. 265) de que, “Como todas as disciplinas científicas, as ciências sociais possuem objeto, métodos e finalidades específicos.”

Reputando-se, então, adequado o posicionamento de Rudner (1976), este estudo considera que as características estruturais de uma teoria sócio-científica seguem as mesmas regras daquelas utilizadas nas ciências naturais. No entanto, no que diz respeito aos procedimentos de prova, objeto, finalidades, método científico, dentre outros aspectos, é preciso fazer as devidas adaptações para as ciências sociais, conforme propõem Martins (2004), Nepomuceno (2003) e Oliveira Filho (1976), com os quais também se concorda. Em suma: em termos de características estruturais, as ciências naturais e sociais trilham o mesmo caminho; porém, em termos de procedimentos, objeto e métodos, isso não acontece.

Ainda sobre essa contextualização, lembre-se Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 57) que, ao discutir o conceito de paradigmas de Thomas Kuhn, faz referência às ciências maduras e às imaturas, sendo essas últimas “[...] aquelas que não dispõem de uma única teoria e nem de procedimentos metodológicos capazes de fundamentar a atividade dos pesquisadores.” O autor complementa (in CARVALHO, 1994, p. 57) que “As ciências sociais estariam enquadradas nesta categoria.” Em especial, esse é o caso da Controladoria, o que ajuda a justificar a realização deste trabalho.

Ressalte-se, por último, que, como se trata de uma incursão à bibliografia, este capítulo não é exaustivo e, por isso, deve ser visto como uma descrição sucinta para atender aos fins desta tese.