4.4 Economic sectors and the Post-Fordist regime of production
4.4.1 Limitations and incentives during crisis
Quando se analisa o aspecto empírico das capacidades, pode-se reconhecer a existência destas nas organizações a partir do comportamento repetido e padronizado que a caracteriza. Neste sentido, manter uma capacidade implica no exercício constante de suas atividades (rotineiras) por parte dos membros de uma organização.
Este aspecto faz com que muitos autores considerem rotinas como blocos de construção das capacidades, vislumbrando-as como formadas por rotinas componentes de mais baixo nível (COLLIS, 1994; DOSI et al., 2000; HELFAT; PETERAF, 2003; WINTER, 2000). Neste sentido, rotinas representam a concretização das capacidades.
Collis (1994), por exemplo, define capacidades como rotinas socialmente complexas que determinam a eficiência na qual as empresas transformam fisicamente inputs em outputs. De maneira similar, Winter (2000) conceitua uma capacidade como rotina de alto nível (ou coleção de rotinas) que junto com seus fluxos de implementação de entrada, confere a gestão da organização um conjunto de opções decisórias para produzir outputs significativos de um tipo particular.
Capacidades são vistas então como habilidades organizacionais para realizar e sustentar um conjunto de rotinas ou uma macro rotina. Esta relação entre os dois conceitos foi inicialmente apresentada em Nelson e Winter (1982), no contexto da economia evolucionária, cuja definição de rotina é central no modelo proposto por estes autores.
A economia evolucionária é uma abordagem comportamental da economia, baseada na biologia evolutiva, e tem como um importante pressuposto o elemento de continuidade das ações organizacionais. Esta área de estudos explica que, através das rotinas criadas e adaptadas, as organizações podem usar e atualizar sua base de recursos, através do desempenho e adaptações em suas atividades, para responder às mudanças ambientais e permanecerem competitivas (PREGELJ, 2013).
Para Nelson e Winter (1982), rotinas organizacionais são padrões de comportamentos organizacionais regulares e previsíveis e comparam-nas ao papel que os genes têm na teoria evolutiva da biologia. Nesta perspectiva, consideram que a rotina é uma característica persistente que determina o comportamento de uma organização; é herdado, no sentido de que organismos (rotinas) gerados no futuro herdam características dos presentes, sendo ainda selecionadas ao longo do tempo. Portanto, sofrem mutações e são selecionados neste processo evolutivo.
Os autores ainda estabelecem uma comparação metafórica em que as rotinas representam as habilidades de uma organização, uma referência às habilidades individuais. Nesta visão, rotinas são caracterizadas como programadas (envolvem uma sequência de passos), o conhecimento envolvido na realização delas é predominantemente tácito e contém escolhas realizadas muitas vezes sem que os indivíduos tenham consciência dela, ressaltando apenas como “a maneira que as coisas são feitas aqui” (DOSI et al., 2000).
Ao relacionarem rotinas com memória organizacional, Nelson e Winter (1982) afirmam ainda que as organizações tendem a lembrar das atividades ao realizá-las constantemente, defendendo que a maneira mais efetiva de se armazenar conhecimento é através da rotinização de atividades.
Dessa maneira, embora os termos relacionados às rotinas denotem uma ideia de manutenção ou estabilidade, representam um alicerce para explicar como os mercados e organizações evoluem, já que uma importante atividade organizacional diz respeito às avaliações da rotina existente que podem levar a pequenas ou grandes modificações e até mesmo a sua substituição.
Em outra importante definição, bastante adotada, rotinas são conceituadas como padrões repetidos e reconhecidos de ações interdependentes realizadas por múltiplos atores (FELDMAN; PENTLAND, 2003). A repetição das rotinas permite que se visualize a performance destas através de suas múltiplas instâncias, diferentes entre si mas que pertencem a uma mesma categoria identificada através de padrões. Estes representam um aspecto ostensivo relacionado a regularidades cognitivas e padrões abstratos.
Rotinas envolvem ainda a coordenação de múltiplos indivíduos envolvidos, com diferentes conhecimentos e objetivos. As ações realizadas por eles ocorrem em um contexto de ações criados por outros indivíduos, fornecendo às rotinas uma natureza coletiva através desta interdependência entre ações.
Além do aspecto ostensivo citado, há ainda outro performático, em que considera-se os padrões comportamentais vislumbrados em sua execução efetiva realizada por pessoas específicas em momentos e lugares específicos. Assim, a rotina é reconhecida explicitamente nesta visão.
As rotinas e capacidades assemelham-se conceitualmente por não estarem ligadas diretamente ao indivíduo (como uma habilidade pertencente a um funcionário, por exemplo), mas sim como um atributo organizacional. Assim, caracterizam-se como abordagens para resolução de problemas organizacionais coletivos (SCHREYÖGG; KLIESCH‐EBERL, 2007).
No entanto, estes dois conceitos se distinguem, já que rotinas tendem a ser mais limitadas quanto ao seu escopo organizacional e invocadas de maneira mais automática em resposta ao ambiente, não provendo tamanha liberdade decisória, como as capacidades (WINTER, 2000). Outra distinção importante é que capacidades caracterizam-se por um propósito organizacional evidente, o que nem sempre ocorre com as rotinas, caracterizadas muitas vezes como realizadas de maneira quase automática.
De qualquer forma, as rotinas são evidenciadas através dos processos que comunicam sua existência, já que um processo representa uma sequência de eventos interdependentes através das intervenções de indivíduos. Neste contexto, a interação entre indivíduos e processos estruturam rotinas e consequentemente capacidades de maneira crítica (FELIN et al., 2012; GRANT, 2010).
A relevância das rotinas para a organização é reconhecida na literatura (BECKER, 2004) ao enfatizar que estas favorecem a coordenação, provendo um balanceamento entre os interesses dos participantes; estabelece um grau de estabilidade ao comportamento organizacional; podem ser realizadas de maneira (quase) automática, economizando recursos cognitivos limitados; e permite que conhecimentos sejam relacionados e compartilhados.
Em geral, as capacidades envolvem dois tipos de rotinas: aquelas relacionadas a execução de tarefas individuais e as que coordenam tarefas individuais (HELFAT; PETERAF, 2003). As rotinas podem ainda ser mais ou menos flexíveis e adaptáveis, ou seja, mais propensas a alterações pelos seus próprios participantes provendo variação e heterogeneidade entre rotinas ao longo do tempo ou aderentes aos seus processos subjacentes resultando em limitada variação em nível organizacional (FELIN et al., 2012).