Chapter 4: Findings and discussion
4.4 Limitations & when motivation fails
Todos nós somos caixas de ressonância para o nosso tempo19.
No começo do século vinte, com a crise canavieira, muitas pessoas se mudaram das regiões Agreste e Zona da Mata paraibana para as cidades litorâneas próximas à capital. “O processo de industrialização das cidades de João Pessoa e Bayeux contribuiu para esta migração. Com a população rural vieram também diversos folguedos como o boi-de-reis, por exemplo” (LIMA, 2010, p.14). É nessa época, por volta dos anos setenta, que ocorre a concentração de manifestações populares nas cidades de Bayeux e Várzea Nova, em Santa Rita.
José Francisco Mendes, Mestre Zequinha, começou a brincar o Cavalo Marinho, ainda criança, como dama no grupo de Mestre Zé Marcos de Belém de Caiçara, região Agreste da Paraíba. Quando se casou em 1967, foi morar no sítio Moreno, da Usina Santa Helena, no município de Sapé, Zona da Mata paraibana, onde trabalhou cortando e limpando cana. Nesta época, conheceu os mestres Severino Rosa, Zé Biu, Cazuza e Luiz Gomes. Dois anos depois se mudou para Várzea Nova, cidade próxima à Santa Rita, onde conheceu o grupo de boi-de-reis de Mestre Manuel Lucas. Foi nesse grupo que Mestre Zequinha foi “passando pra terceiro galante, pra segundo galante, depois pra primeiro. Aí, botaro eu pra brincar de contramestre. Porque o mestre foi achando que eu tava já... praticando muito, né? Valorizando minhas dança, né? Eu já sabia muita música, já sabia das figura, dos bicho, quase tudo” (MESTRE ZEQUINHA apud LIMA, 2010, p.17).
Na década de setenta, brincou de Mateus no grupo de Mestre Raul: “Brinquei um bocado de ano... brinquei uns seis ano, aí foi o tempo que ele foi pra São Paulo” (op.
cit., idem). Sua primeira atuação como mestre se deu em 1992 em Várzea Nova, distrito
do município de Santa Rita, próxima a Bayeux, segundo o mestre
19 Fala do Prof. Jefferson Fernandes Alves anotada na disciplina “Seminários de Dissertação II”
Foi aí que eu inventei o grupo. Comecei um boi-de-reis, mas vi que não dava certo um boi-de-reis porque os menino num dançava bem as dança que eu tinha pra butar, aí eu fiquei dançando cavalo marinho, porque era três trupe só. Mas depois começou a desandar tudo e eu decidi acaba (op. cit, p.18).
Nessa época, Mestre Zequinha já morava em Bayeux, cidade próxima à capital João Pessoa, e trabalhava como vigia noturno.
Mestre Zequinha era o Mateus no grupo de Cavalo Marinho de Mestre Gasosa, José Raimundo da Silva, por sua vez, herdou o boi-de-reis de Mestre Messias, no qual brincava como contramestre. Mestre Zequinha deu continuidade ao grupo quando Mestre Gasosa morreu em 2003, o qual passou a se chamar Cavalo Marinho de Mestre Zequinha.
Cada música ou conjunto de músicas e loas do Cavalo Marinho representa um quadro da brincadeira. Para oferecer uma noção acerca da composição de uma apresentação do Cavalo Marinho de Mestre Zequinha, valho-me da divisão contida no encarte do CD Cavalo-marinho e boi de reis na Paraíba, produzido com patrocínio da PETROBRÁS por Agostinho Lima, professor do Departamento de Música da UFRN. Ele divide a brincadeira em quatro partes, a saber:
A primeira parte retrata a Chamada do Mateus, Birico e Catirina. O Capitão chama cada uma destas figuras e troca diálogos com elas. Eles reafirmam a irmandade entre Mateus e Birico, negros fugidos a quem o Capitão oferece o emprego de animar a festa. Essas figuras realizam um jogo de espelho para provar que são parecidos e logicamente irmãos. Também se apresenta neste grupo Catirina como mulher dos dois, que, primeiramente, é repudiada pelo Mateus e o Birico por ser feia, mas depois a aceitam para a brincadeira.
A segunda parte da brincadeira é quando o mestre, com os galantes, pede ao dono da casa para brincar em seu terreiro „até a barra do dia quebrar e o galo cantar‟. Geralmente o mestre fica no centro de duas filas de galantes, que realizam as coreografias diante do banco ou conjunto de músicos. Neste momento são cantadas as seguintes músicas: 2) Salvas, composto pela sequência de três músicas: Ô gente que
casa é essa?, Deus te salve casa santa e Abre-te porta do céu. A poesia destas salvas
iniciam a brincadeira do Cavalo Marinho avisando a chegada do brinquedo no terreiro da casa do Capitão, pedindo-lhe para entrar nela e anunciando o começo do festejo; 3)
proteção e, em seguida, fazem saudações de boa noite aos presentes que assistem ao folguedo; 4) Na chegada dessa casa, esta música faz alusão ao ato de fincar uma bandeira para designar que naquele local encontra-se um grupo brincando. Os versos seguintes pedem à dona da casa permissão para brincar “hora e meia de relógio” e que a proprietária cuide da brincadeira, pois a mesma também lhe pertence durante aquele intervalo de tempo; 5) Senhora dona da casa, esta música dá continuidade à anterior e emenda uma série de vivas e avisos em seus versos como, por exemplo, “Viva santa Madalena/Na igreja de Belém” e “Maria foi passear/Esse passeio de Maria/Vai fazer mamãe chorar”; 6) Fulô, São Gonçalo do Amarante e Trancelim, correspondem às evoluções com os arcos – estrutura feita a partir de uma mangueira de jardim ou de um bambolê ornamentado com fitas coloridas. Cada música corresponde a uma sequência coreográfica distinta de utilização dos arcos; 7) Mamãe tá chorando/Não chore dama
do rei, provavelmente, este quadro deriva do Boi de Reis devido à utilização das
espadas para encenar uma luta entre o Mestre e o primeiro Galante; 8) Capim da lagoa, é uma música com um verso base sobre o qual o cantador pode tecer variações de acordo com suas capacidades de improvisação sobre este. Geralmente versos como este são utilizados para fazer a ligação entre um quadro e outro do Cavalo Marinho; 9)
Campeia, música que fala da vida campestre;
Na terceira etapa da brincadeira, começam a entrar as figuras. Elas não possuem uma ordem rígida de entrada, dependem de vários fatores como a perícia do Brincante e do grupo possuir o brinquedo – a armação de determinada figura, a percepção do interesse do público pelo mestre, dentre outros fatores. A única que geralmente finaliza a apresentação é o Boi. 10) Loa, toada e baiano do Cavalo Marinho, configura o verso para a entrada da figura do Cavalo Marinho, seguido de seu cortejo de galantes, que representa o dono da festa dada em homenagem aos santos reis do oriente; 11)
Margarida, é uma das figuras deste Cavalo Marinho caracterizada por uma boneca alta,
bem vestida e ornamentada. Sua música fala de uma moça bonita que da janela chama a atenção dos passantes; 12) O Bode, diferente da figura do Boi, aparece no final da brincadeira. Esta personagem dança suavemente, sem tentar bater no público como faz o Boi; 13) A Burra, é uma figura ornamentada do Cavalo Marinho que traz em seus versos o desejo de dançar para o povo ver; 14) O Jaraguá, possui uma cabeça de pássaro com dentes; quem dança debaixo desta figura com cerca de três metros, leva consigo um apito que o faz assobiar como um pássaro. Durante sua evolução esta figura
tenta bicar as pessoas que assistem à brincadeira; 15) Gigante, representa provavelmente um estrangeiro alto que procura sua mulher Izidora. O capitão acusa nos versos de sua música, que devido a ele a alma do Boi se perdeu; 16) Aboio, caracterizado por versos de vaqueiros tangendo o gado, nos quais se procura sustentar as vogais ê ou ô o mais agudo possível, alcançando desta maneira maior projeção da voz. Nesta brincadeira os versos são de louvação para a entrada do Boi; 17) Chamado do
Boi, é a chamada da figura do Boi que é trazida por Birico e Mateus junto aos tocadores
para receber uma benção da música. Em seguida, ele sai a correr na tentativa de acertar os negros que tomam conta da festa e o público; 18) Jesus Nasceu, neste quadro a figura do Boi, guiada por Mateus e Birico, passa entre os espectadores abaixando sua cabeça para que lhe façam carinho e coletando doações em dinheiro que os brincantes denominam de Vendas ou Sorte; 19) Morreu meu Boi, esta parte da brincadeira talvez faça menção a um conto popular no qual Mateus mata o Boi do Senhor de Engenho porque sua esposa, Catirina, que está grávida, deseja comer a língua do Boi. Neste Cavalo Marinho o Boi é dado como morto e os brincantes fazem um círculo em sua volta chorando e soluçando; 20) Masseira é um tabuleiro onde a farinha é amassada para se fazer o pão. Neste quadro, os brincantes escondem pães e bolachas, além de simularem que estão fazendo estes alimentos; 21) Partilha do Boi, após sua morte, o Boi é partilhado entre os presentes. Oferecendo as partes do Boi os brincantes aproveitam para fazer gozações; 22) Se alevanta Boi, assim como Jesus Cristo, o Boi é morto e ressuscita. A base melódica da música da morte do Boi e a deste quadro é a mesma; 23) Engenho é a retomada da brincadeira que fala sobre a vida no engenho. Os brincantes dançam ao redor de uma bolandeira e, fingindo serem animais, são tangidos por Mateus;
A quarta e última parte do Cavalo Marinho é caracterizada por músicas e danças de despedida e agradecimento aos presentes. 24) Despedida, é a música que antecede o final da brincadeira na qual os brincantes dançam em fila indiana pelo espaço de apresentação; 25) Bravo, é cantado com versos que homenageiam os presentes e os próprios brincantes. Também pode ser seguido de vivas aos espectadores e a alguma autoridade ou alguém a quem o grupo queira agradecer.
Figura 06 – Algumas das figuras do grupo de Cavalo Marinho de Mestre Zequinha. Encarte do CD
Cavalo-marinho e boi-de-reis na Paraíba, foto: Agostinho Lima, Bayeux - PB, 2010.
Além das figuras de animais, existem também as figuras de máscara, que entram alternando-se entre as figuras de animais. Segundo Mestre Zequinha, em seu grupo existem Brincantes, contando com ele, que tem o conhecimento para botar as figuras do Véio Fri, o Abana Fogo e Mané Chorão.
O Véio Fri é um velho friento que é “velhinho por fora, mas novinho por dentro”. Ele chega na roda procurando, entre as pessoas, que assistem à brincadeira, uma mulher para se casar. O Abana Fogo é um vaqueiro que chega na festa com um lampião dizendo que vai colocar luz nas cidades. Ele posiciona seu lampião embaixo de um banco e vai girando ao redor dele recitando a loa: “Já botei luz em João Pessoa, vô botá luz em Santa Rita. Ê Abana Fogo”. Diferente das duas figuras anteriores que se apresentam de calça, paletó e máscara característica, Mané Chorão veste um short, com camiseta e possui o rosto pintado de branco. Ele chora porque perdeu ou roubaram seus bens. O Capitão o consola dizendo que alguém da brincadeira ou que está assistindo a ela irá lhe dar outro em restituição. Uma de suas loas: “Buaaaaaaaáá!, Mestre: Que foi, Seu Mané? – Zezinho que roubou a calcinha de Zefinha que era pano de coar café. Buaaaaaaaaáá. – E agora mestre? Como é que a gente vai fazê café? Buaaaaaaaááá. Mestre: – Se preocupe não, Seu Mané, que fulano vai lhe dá um calcinha nova”20.
20Todas estas descrições e loas foram fornecidas por Mestre Zequinha em aulas de Cavalo Marinho entre
Infelizmente, no grupo pesquisado não se encontram mais os quadros pertencentes às figuras descritas acima, devido a falta de Brincantes que saibam botar essas figuras e além o tempo reduzido oferecido para as apresentações deste Cavalo Marinho. Mestre Zequinha realizou demonstrações a nosso pedido durante as aulas, em que pudemos observar as músicas, loas e as composições corporais dessas figuras.
Este enredo, base do Cavalo Marinho de Mestre Zequinha, que apresentei pode sofrer variações em sua sequência, seja pela quantidade de Brincantes seja devido principalmente ao tempo dado para a apresentação: “Primeiro vem a chamada do Mateus, de Birico e da Catirina. Aí vêm as outras parte da brincadeira se tiver tempo, porque, às vezes, dão vinte minuto pra gente brincá. A gente mal começa já tem que colocar o Boi”21.
Cada música deste folguedo é seguida por uma coreografia específica, às quais os brincantes seguem e fazem variações a partir dos passos de dança característicos dessa expressão de Cavalo Marinho. Segundo Mestre Zequinha, no Cavalo Marinho existem três passos ou trupés22. Esta última denominação, segundo os Brincantes, deve- se ao som do sapateado no chão. Os passos base deste CM são: dois passos ou passo só, galope ou trupé e contra dança ou trupé rebatido, como ilustrados nas figuras abaixo em demonstração realizada pelo ator Vitor Blam.
Figura 07 – Dois passo ou Passo só. Foto: Alan Monteiro, ensaio do coletivo UZUME teatro, SESI Centro João Pessoa – PB, 2011.
21 Fala de Mestre Zequinha em aula ministrada em maio de 2010 no Theatro Santa Roza.
22 Vídeos demonstrativos destes passos, bem como de um exemplo como estes foram trabalhados pelo
Observo o passo galope e o trupé rebatido como originados ou variações do passo só. O galope assemelha-se a um galopar de cavalo em sua sonoridade. Enquanto o passo só possui duas marcações com o pé, cada uma na extremidade do movimento, o galope é executado com três batidas dos pés no chão e marcado com uma pausa entre elas. Durante a brincadeira, ao executarem este passo, é comum os Brincantes levantarem o joelho neste momento de pausa. O trupé rebatido é semelhante à umbigada encontrada em algumas das expressões da dança do Coco. Ele é executado marcando-se sete batidas do pé no chão e uma virada brusca de cento e oitenta graus. Ao contrário do passo galope no qual a pausa marca o contra-tempo, existe uma oitava pisada que marca o recomeço, ou seja, a repetição desse passo.
No modo de dançar pesquisado, ainda, existem o passo balanço ou trupé balanço, o xaxado e o passo tesoura.
Figura 08 – Trupé Balanço com calcanhar. Foto: Alan Monteiro, ensaio do coletivo UZUME teatro, SESI Centro João Pessoa – PB, 2011.
Figura 09 – Trupé Balanço com ponta de pé. Foto: Alan Monteiro, ensaio do coletivo UZUME teatro, SESI Centro João Pessoa – PB, 2011.
Figura 10 – Xaxado. Foto: Alan Monteiro, ensaio do coletivo UZUME teatro, SESI Centro João Pessoa – PB, 2011.
Este Cavalo Marinho possui muitas variações do passo tesoura no modo como Mestre Zequinha dança, assim, opto por colocar uma imagem que exemplifica uma das execuções deste Brincante sobre esse passo.
Figura 11 – Tesoura de joelho. Foto: Alan Monteiro, ensaio do coletivo UZUME teatro, SESI Centro João Pessoa – PB, 2011.
O passo balanço altera o equilíbrio do corpo produzindo um leve balançar no tronco. O xaxado impulsiona o corpo para frente devido à velocidade do pé que bate no chão. O passo tesoura caracteriza-se por variações de trançados entre as pernas que desafiam o equilíbrio do Brincante, ao mesmo tempo em que ele pode deslocar-se pelo espaço.
Assim, como Mestre Zequinha nos mostrou a partir das muitas variações desses passos do Cavalo Marinho e as músicas com que eles podem ser dançados, consigo perceber que nesta prática existem muitas características, detalhes que fotografias não conseguem captar com exatidão23. Acredito que estes detalhes proporcionam acesso a uma segunda natureza do corpo, diferente de seu modo cotidiano de uso. Uma natureza própria do brincar e da brincadeira. “Não é a dança chegar em você. É você chegar na
23 Para mais detalhes sobre os passos deste Cavalo Marinho praticado por Mestre Zequinha e suas
dança” 24. O aprendizado das danças populares consiste em descobrir no próprio corpo a
corporeidade da Brincadeira. Se ela é mais terra e eu sou ar, é meu o trabalho de descobrir como chegar nesse tônus, nessa energia condizente com a brincadeira. Para outros contextos além da dança, pode-se repensar essa ordem.
“Esses são os passó do Cavalo Marinho. Mas se você quiser pode colocá outros que você acha que cabe. É o que a inteligência dé” 25. As denominações destes passos
não seguem uma forma rígida. É comum aos Brincantes mais experientes, como Mestre Zequinha, mudarem o nome de alguns passos quando questionados em momentos diferentes. O que é perceptível é saber executá-los em sua plenitude. Isso talvez demonstre a natureza de um aprendizado originado na observação. Do mesmo modo é difícil precisar em qual música eles podem ser dançados. Sobre isso Mestre Zequinha diz que “dá pra dançar qualquer passo que você achá que dá pra dançar. Agora - tem que ouvir a música” 26. O mestre chama a atenção nesta fala para a percepção dos
toques do pandeiro, pois é esse o instrumento que fornece a base rítmica para os Brincantes executarem os passos de sua dança. Do mesmo modo a rabeca o faz com o canto. Observando de outro ponto, é como se o pandeiro reforçasse a execução da dança e a rabeca da música.
É possível perceber nas apresentações ou em demonstrações de Mestre Zequinha a existência de algumas músicas que são acompanhadas tradicionalmente por determinados passos. Exemplo disso é o Campeia que é dançado com a contradança ou trupé rebatido. O passo galope é usado com frequência nesta dança. Ele pode ser utilizado em praticamente todas as músicas. Do mesmo modo existe também nesta manifestação a capacidade de improvisação e variação acerca dos passos, como é o passo para a música do Vamo Guerriar, a dança das espadas, que é dançada com uma variante do passo só. Outro exemplo é o passo tesoura, que é mostrado por Mestre Zequinha com diferentes modos e trançados das pernas.
Quando questionado sobre como aprendeu o Cavalo Marinho, Mestre Zequinha nos conta que aprendeu “de pequeno. Tinha uns oito ou dez ano de idade. Eu via o povo brincá no meio da rua, via aquelas figura mascarada, me escondia de medo (coloca as
24 Fala de Juliana Pardo – Cia MundoRodá no curso “Treinamento Técnico do Ator em Danças
Populares”, ministrado na sede do LUME Teatro em Fevereiro de 2009.
25 Fala de Mestre Zequinha em aula ministrada em maio de 2010. 26 Idem.
mãos no rosto e continua a fala), mas eu ficava ali, vendo. Depois juntava meus amigo da rua e ia tentá imitá no quintal lá de casa”27. Mestre Zequinha hoje tem sessenta e dois
anos: “Eu aprendi sozinho. Sozinho mode de assim que ninguém me ensinava. Ensinava assim de eu ficar olhando e aprendia os passo” 28. A persistência, a prática, parece
desenvolverem algo em nós, principalmente, no corpo que somos, fazendo com que algo aconteça. É neste instante, nesse movimento orientado pela repetição, que parece se formar a experiência: “quando passa tempo sem brincá parece que as coisas sai do juízo. Até os menino quando vai ensaiar parece que esquece das coisa. Eu não. Posso ficar o tempo que for que eu sei brincá”29.
Uma tradição configura-se não somente por sua identidade, ou seja, pela perpetuação das relações de saber/fazer, gerando sua capacidade de visibilidade e discursividade. Ela respira, tem vida e se diferencia em si mesma. Produz novos conhecimentos ou reorganiza os já existentes em um processo de aprendizado que parte da tradição, da memória, para a atualização, pois as tradições se inventam. Assim, a tradição recria a si mesma. Neste caminho, tanto da tradição como de quem parte do tradicional, como é o caso desta pesquisa, acredito ser necessária uma passividade feita
de paixão, como a que se refere o filósofo da educação Jorge Larrosa Bondía (2002)
quando trata do sujeito da experiência, definindo-o
[...] não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura. Trata-se, porém, de uma passividade anterior à oposição entre ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponibilidade fundamental, como uma abertura essencial (BONDÍA, 2002, p.24, grifos meus).
Bondía explica esta passividade feita de paixão em oposição ao binômio