2 Theoretical background and previous studies
2.3 Characteristics of the selected discourse markers
2.3.3 Like
Após mais de dois séculos52, os ideais de transferência da capital para o interior do país tomavam forma. Dentre 26 projetos apresentados, o Arquiteto Lucio Costa venceria o concurso, ao apresentar a única proposta, no entendimento do júri do concurso, condizente com a capital do Brasil. De um traçado simples, seria projetada a cidade onde se instalaria a “capital do futuro”. Brasília simbolizou um evento somente “perceptível aos espíritos evoluídos, aos homens de idéias avançadas, aos contemporâneos do futuro” (BICCA, 1985, p. 105).
Em que pese a integração do país conter uma perspectiva econômica, por meio do fortalecimento das ligações entre o centro econômico mais dinâmico localizado no sudeste e as demais partes do país, o que tornou possível a construção de Brasília como parte do processo de reorganização do território, a cidade rapidamente foi marcada por questões notadamente ideológicas (HOLANDA, 2002, pp. 290-294). Reproduziu a idéia de um estado acima das classes sociais, autônomo, e o simbolismo de uma nova era de modernização de um país até então agrário, portanto uma “cidade nova para uma nova sociedade” (OLIVEIRA, 2005, p. 12-13).
As linhas arquitetônicas modernistas53 transformaram-se num símbolo da cidade e do país. O ideário modernista não se conteve em pensar uma nova cidade e foi além, ao imaginar uma nova nação. Se para a política e a economia Brasília
52 A idéia da construção de uma nova capital para o Brasil remonta ao século XVIII, por meio do
Marquês de Pombal em 1761 e José Bonifácio em 1823, surgindo, dessa época, inclusive, o nome Brasília (CODEPLAN, 1992, p. 15). A idéia foi apresentada à Assembléia Geral do Império no ano de 1823, por José Bonifácio, com o fundamento de que a nova capital, além de absorver excedentes populacionais das cidades litorâneas, permitiria uma maior segurança ao Estado e dinamizaria um novo mercado produtivo no centro do país. (HOLANDA, 2002, p. 284). Em 1824, a Constituição Brasileira estabeleceu como meta a implantação da capital do país no planalto central, o que somente foi materializado mais tarde, a partir da Proclamação da República quando uma comissão técnica – a Missão Cruls – demarcou o quadrilátero no centro do país que reuniria as condições geológicas, climatológicas e ambientais favoráveis (HOLANDA, 2002, p. 284). A partir de então, a pedra fundamental foi lançada em 1922, na região onde hoje está localizada a Região Administrativa de Planaltina. Novamente, a Constituição de 1930 previu a implantação da cidade, fato que se repetiu na Constituição seguinte, de 1946, ocasião em que se estabeleceu medida mais pragmática, voltada para a nomeação de especialistas técnicos que finalmente fixariam a localização definitiva da futura cidade. Dez anos depois, o recém empossado Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, atendendo às disposições do seu plano de metas, faria publicas as regras para o concurso que elegeria o projeto da nova capital.
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representava a ocupação do interior, a integração do país e a meta-síntese do plano de metas do governo Juscelino, para os modernistas a cidade simbolizava, tanto em termos arquitetônicos quanto em termos urbanísticos, a construção de uma nova nação. Lucio Costa traçou do vazio uma capital moderna, que aos seus olhos deveria ser capaz de influir nos destinos da nação.
Nas palavras do próprio urbanista, cerca de um terço dos trabalhadores deveriam retornar aos seus estados de origem. Os demais seriam empregados nas atividades agrícolas do entorno do Distrito Federal e, outra parte, serviria à administração federal. Havia a utopia de que um ministro de estado e um motorista ocupassem o mesmo bairro. Lucio Costa agiu como um grande “intérprete de sonhos e sentimentos” que contagiaram candangos e pioneiros, os quais trabalharam ativamente na transformação da realidade, na construção da nação acima das classes, motivados pela confiança inspirada por JK (OLIVEIRA, 2005, p.258).
Consolidada a capital, tornava-se urgente protegê-la, o que resultou na inscrição de Brasília como patrimônio cultural da humanidade por meio de suas quatro escalas de tombamento54. Como esclarece Campofiorito (2007, p. 2), havia a exigência, por parte da Unesco, de que o poder público local protegesse a cidade, estabelecendo defesas legais, o que veio a acontecer por meio do Decreto n. 10.829, de 1987. A preocupação da Unesco era apenas com a proposição urbana e arquitetônica original, por isso a cidade foi tombada de forma inovadora, a partir das quatro escalas que expressavam as funções ou necessidades consagradas pela Carta de Atenas (habitação, trabalho, cultura e circulação). Portanto o objetivo foi atender àquela instituição e salvaguardar a cidade modernista, protegendo-a sem imobilizá-la fisicamente, pelo contrário, permitindo, com a exceção do resguardo de alguns monumentos
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O espaço mais destacado na paisagem da cidade tornou-se, sem dúvida, o eixo monumental, que corresponde à faixa que compreende a praça dos três poderes, a esplanada dos ministérios, a catedral, o teatro nacional, a torre de televisão, o centro de convenções até as proximidades da estação rodoferroviária. A escala gregária, a seu turno, se mostra nos quatro cantos do cruzamento central dos eixos rodoviário e monumental. Mas pode ser encontrada ainda no centro urbano, nos comércios locais e na Avenida W3. Trata-se de espaços para agregar as pessoas, permitir a interação em torno de bares, de cinemas, teatros, etc. A escala bucólica refere-se ao acesso ao lago, às amplas áreas verdes e a cobertura vegetal que marca toda a paisagem urbana da cidade. Onde não houver terrenos comprometidos com a edificação, ali estará uma faixa de terra non aedificandi reservada ao cerrado, aos bosques, à recreação e ao lazer. Por fim, a escala residencial, que constava no projeto original por meio de dois tipos distintos, as superquadras, compostas por habitação coletiva – blocos de apartamentos - e as habitações unifamiliares, projetadas para abrigar as famílias de maior poder aquisitivo no Lago Sul e no Lago Norte (CAMPOFIORITO, 2007, pp. 3-5).
excepcionais55, que as edificações ficassem liberadas para modificações que não rompesse com a escala em que se inseriam (CAMPOFIORITO, 2007, pp. 1-2).
Embora tenham surgido algumas modificações ao projeto original, como, por exemplo, a criação de novas quadras não previstas, a transformação de outras como a avenida W356 e o superdimensionamento do comércio local (que passou a atender a todo o Distrito Federal e não apenas às superquadras) as condições urbanísticas de Brasília foram mantidas (HOLANDA, 2002, p. 325). A maior modificação ao projeto foi social, a partir da criação precoce de cidades-satélites em áreas distantes do Plano Piloto, para abrigar grande parte da população mais humilde que ajudou a construir a cidade (PAVIANI, 1989, p. 65).
Materializou-se no espaço uma cidade seletiva, ao mesmo tempo em que surgia uma ampla ocupação dispersa, formada pelas Regiões Administrativas do Distrito Federal e por municípios goianos. Surgia a “Brasília Metropolitana”, composta pelo Plano Piloto (Brasília 1) em conjunto com as cidades-satélites (Brasília 2) e o Entorno do Distrito Federal (Brasília 3), segundo Paviani (1989, pp. 54-55).