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Lidelsesproblematikken

Kapittel III. Filosofiske redegjørelser og normative valg

3.2 Lidenskapens overkommelse – Nietzsches perspektivisme

3.2.2 Lidelsesproblematikken

Pelo altíssimo índice de presença nas casas das pessoas, por seu caráter “modelador”, uma das ideias que predominam hoje, não sem razão, é a de que a televisão é uma das grandes responsáveis pelo comportamento das novas gerações.

Sabe-se que os meios de comunicação de massa, mais especificamente a televisão, veiculam modos de ação. Muitos desses modos são simplesmente internalizados ou podem ser apropriados de diferentes maneiras pelos receptores.

No que diz respeito à compra de produtos veiculados pela publicidade na TV, somente MTJ (9-F) admitiu já ter pedido algo: “– No início desse ano [2011] eu pedi que eu ganhasse de Natal uma boneca da Barbie, mas o papai falou que é muito caro”. Por outro lado, é interessante notar que outras crianças, como MSJS (11-M), fizeram comentários como: “– Nunca pedi nada para mim, mas minha mãe sempre compra coisas que passam na TV, como Nescau e sabão Omo”. AGMF (11-F), quando questionada porque nunca pediu, respondeu: “ – É muito caro e às vezes tu pode ter uma coisa igual e mais barato. Uma boneca da Barbie é mais caro só porque é da Barbie, mas tem muita boneca igual a ela que é mais barato”. De certa forma, essa resposta surpreendeu o pesquisador e, quando investigou-se mais a fundo, a conclusão foi de que são os próprios pais que fazem comentários dessa natureza.

S. Pereira (1999) diz que há variadas maneiras de ver televisão, formas diferenciadas de mediação e de situações específicas que tendem a favorecer o maior ou menor consumo, admitindo igualmente que este pode ser influenciado pela posição socioeconômica da família, pela zona de residência, estilos educativos parentais, idade, sexo, etc. A autora considera, ainda, que crianças e jovens desde muito cedo tendem a ver os mesmos programas que os seus pais, fato constatado na comunidade São Pedro.

Ainda em relação ao consumo, LOR (14-M) respondeu: “– A única coisa que compro é Coca-Cola, mas não é porque passa na TV e sim porque realmente acho melhor que as outras”. Por outro lado AGFR (15-F) menciona seus desejos em relação aos produtos exibidos na televisão: “– Na verdade não compro porque não tenho dinheiro, mas quando eu tiver vou querer ter quase tudo, as coisas boas, né?”. Quando questionada sobre o que seriam as coisas boas da TV, ela diz: “– As roupas

de algumas atrizes. Por exemplo, acho as roupas da Teodora [Fina Estampa] muito bonitas”.

Nas respostas dadas, o diferencial está no fator financeiro, que sem dúvida é o essencial, porque indispensável, e não pode ser descartado ao se analisar hábitos de consumo de produtos veiculados na televisão.

O imaginário também está repleto de algumas celebridades da TV, em especial femininas: “– Talvez um dia eu compre alguma roupa parecida com a da Patrícia Poeta ou da Teodora” (PSJ, 17-F); “– As roupas da Helen Ganzaroli, Eliana e da Paula Fernandes me chamam atenção e se eu tivesse dinheiro eu compraria” (KGS, 16-F).

Sobre a questão do consumo é importante considerar que

[...] é, também, um veículo de narcisismos, por meio de seus estímulos estéticos, morais, sociais; e aparece como o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda a gente. Por isso, o entendimento de que o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, ambos fundados no mesmo sistema da ideologia (SANTOS, 2001, p. 49). Lembra-se ainda a dependência do modelo brasileiro de televisão em relação ao suporte publicitário, pois “aqui ela surgiu como um empreendimento comercial, balizado pelos interesses de empresas privadas que vislumbraram na nova tecnologia a possibilidade de uma frente de expansão dos seus negócios” (LEAL FILHO, 2006, p. 9). O suporte publicitário ligado ao consumo constitui matriz fundamental dentro do sistema capitalista e repercute de forma significativa no cotidiano das pessoas.

Dadas as proporções do ato ou desejo de consumo entre os jovens, é pertinente conhecer ao que os adolescentes mais assistem.

Quadro 13: Programas mais assistidos pelos adolescentes da comunidade São Pedro

Adolescentes Programa 1 Programa 2 Programa 377

LOR (14-M) Globo Esporte Agora é Tarde Fantástico

PSJ (17-F) Malhação Telenovela Eliana

AGFR (15-F) Telenovela Telenovela Programa do Gugu

AGM (17-M) Globo Esporte CQC/ Telenovela Fantástico KGS (16-F) Telenovela Todo mundo odeia o Chris Fantástico

Todas as adolescentes, bem como uma das duas crianças (MTJ, 9-F), admitiram serem fortemente atraídas pelos produtos veiculados na mídia, assim

como gostariam de comprar caso tivessem dinheiro para tal, porém reconhecem que são apenas desejos.

Esse desejo também pode estar atrelado ao fato de as meninas ficarem muito mais tempo dentro de casa, e consequentemente na frente da TV, uma vez que os meninos são mais arrojados e de vez em quando arriscam a aventurar-se em passeios por locais próximos da comunidade, seja pelo rio, seja pela estrada e são bastante atraídos pelo futebol, pela pelada no final da tarde, no campinho da comunidade.

É necessário considerar que o fato de não estar apto à posse do bem não significa que a pessoa tenha o seu desejo extinto, ou seja, mesmo no imaginário aquele produto tende a repercutir e gerar outras formas de comportamento. Assim, o consumismo torna-se “o modo que o imaginário econômico encontrou de se legitimar culturalmente” (COSTA, J., 2004, p. 77).

O mesmo autor enfatiza ainda que

[...] a atitude consumista não depende do nível de renda. É uma atitude diante da vida, e, por conseguinte, diante dos objetos que se pode possuir. No Brasil, a maioria tem uma renda pessoal ou familiar desprezível, mas mesmo assim, se comporta como se tivesse uma renda alta, quando se trata de usar objetos e coisas descartáveis (COSTA, J., 2004, p. 84).

A partir de García-Canclini, não é mais tão fácil lançar o olhar tradicional sobre ato de consumo, pois o

Consumo é o conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropriação e os usos dos produtos. Esta caracterização ajuda a enxergar os atos pelos quais consumimos como algo mais do que simples exercícios de gostos, caprichos e compras irrefletidas, segundo os julgamentos moralistas, ou atitudes individuais, tal como costumam ser explorados pelas pesquisas de mercado (GARCIA-CANCLINI, 2010, p. 60).

O consumo também serve para pensar, afirma García-Canclini (2010). Ora a racionalidade econômica, ora a racionalidade sociopolítica interativa são manifestas no ato de consumir. “Consumir é participar de um cenário de disputas por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo” (GARCIA-CANCLINI, 2010, p. 62).

Pode-se dizer que, na comunidade, o consumo se dá muito mais de forma simbólica que material, ou seja, notam-se muito mais gírias, comportamentos, penteados, gestos, que propriamente bens materiais.

Considerando que na televisão também se encontram as matizes sobre a qual se formam as novas concepções de mundo, é natural que as representações por ela trabalhada deixem de ser unicamente interpretativas e também se tornem criadoras de existência. É importante lembrar também que toda orientação para as atitudes das pessoas é fruto de seu repertório; logo, aquilo a que elas assistem na TV acaba somando-se a suas concepções prévias.

Cohen afirma que, se a imprensa “pode não conseguir, na maior parte do tempo, dizer às pessoas o que pensar, por outro lado ela se encontra surpreendentemente em condições de dizer aos próprios leitores sobre quais temas pensar alguma coisa” (COHEN, 1963, p. 13 apud WOLF, 2008, p. 143-144).

Muitas pessoas na comunidade relataram que começaram a pensar em algumas temáticas a partir do conteúdo transmitido pela televisão. ASB (28-F) diz que “na televisão a gente vê e ouve falar de coisas que a gente nem imaginava que existia e a gente sabe que tem muitas pessoas na mesma situação, assistindo e vendo aquilo pela TV”.

Quando motivada a dar um exemplo, ela afirma:

Eu não sabia como mais ou menos que funcionava por detrás das coisas que acontecem na novela. Se eu não assistisse o Globo Repórter78 eu não iria saber das coisas, como o primeiro beijo na televisão, os atores e atrizes que fizeram as primeiras novelas. E engraçado que não passava todo dia. Já imaginou nos dias que não passava novela, o que as pessoas faziam? (ASB, 28-F)

Esses comentários indicam o caráter socializador da TV lembrado por Wolton (1996), que sinaliza para uma perspectiva diferente do que vinha, até então, sendo discutido sobre televisão. No prefácio à edição brasileira da obra Elogio do grande público – Uma teoria crítica da televisão, o autor comenta:

[...] Historicamente, a televisão é, até hoje, um instrumento na longa história da emancipação e da democracia. Devido ao seu próprio status: acessível a todos, gratuita, com possibilidade de oferecer mensagens de todas as naturezas, abertura para o mundo através das informações, dos documentários e dos filmes, ela é considerada por muitos, de direita e de esquerda, pelos liberais, pelos progressistas e por certos conservadores, como um instrumento de emancipação (WOLTON, 1996, p. 5).

78 Ela faz referência ao programa exibido no dia 09/12/11, que tinha como tema “60 anos de

Ainda de acordo com o autor, o laço social da TV apresenta dois sentidos. O primeiro está no fato de que um grande público anônimo assiste simultaneamente à televisão, consciente de que inúmeras pessoas estão naquele momento, fazendo o mesmo.

O segundo sentido está no papel de espelho da TV, uma representação da sociedade. “Ao fazer a sociedade refletir-se, a televisão cria não apenas uma imagem e uma representação, mas oferece um laço a todos aqueles que a assistem simultaneamente” (WOLTON, 1996, p. 124). Não distante dessa discussão está o depoimento de uma moradora, quando questionada sobre a função da TV. Ela disse: “– Sem TV, a gente ficaria isolado duas vezes” (NGL, 37-F).

A respeito do que os adultos mais assistem, foi obtido o seguinte quadro:

Quadro 14: Programas mais assistidos pelos adultos da Comunidade São Pedro

Adulto Programa 1 Programa 2 Programa 379

LSS (27-F) Telenovela Telenovela Programa do Gugu

SJS (38-M) Novela/Jornais Jornal Nacional Fantástico

ASB (28-F) Telenovela Telenovela Programa do Gugu

HSS (42-F) Telenovela Telenovela Fantástico

ML (39- F) Telenovela Jornal Nacional Fantástico

Vale ressaltar que, com exceção das novelas, os outros programas podem não ser assistidos por completo, ou seja, pode-se perder alguns momentos daquela programação e não parece existir a percepção de ter perdido algo importante. No caso das telenovelas, entretanto, a questão é bem diferente.