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Por volta de 1960, a comunidade São Pedro era apenas um pequeno terreno, envolvido pela floresta, às margens do rio Pararijós. Nessa época, aquele pedaço de terra pertencia à senhora Maria Antônia de Lima. A transferência da família do Sr. Antônio Juarez56 de Anajás para o interior de Breves em pouco tempo permitiu o acesso àquele terreno. Logo depois da chegada da família, os pais do Sr. Antônio, adquiriram da Sra. Maria Antônia a propriedade. A partir daí, vários membros da família – cunhados, primos do Sr. Antônio e outros – migraram para esse espaço. Iniciou-se uma dinâmica familiar de trabalho nas terras. Juntos, iniciaram o trabalho na agricultura para garantir seu sustento e, ao mesmo tempo, fazer crescer a comunidade.

A história da comunidade, embora bastante vinculada à religião, tem, entretanto, um time de futebol como sua expressão inicial de organização e que recebeu o nome de Clube São Pedro. É importante considerar esse fato porque é o time de futebol, o clube, que possibilita a aproximação da recém-criada comunidade com outras da região.

O dia 12 de junho de 1974 marcou, de fato, a origem da comunidade com a celebração do culto que oficializou a fundação da capela e o início das atividades religiosas, para que, posteriormente, se organizasse a festividade. Em razão disso, é impossível compreender a comunidade São Pedro sem vinculá-la à religião, pois seu próprio nome já indica a relação.

Imagem 18:Capela da comunidade São Pedro Imagem 19:Algumas casas da comunidade São Pedro

56 Hoje é o líder da comunidade nos aspectos gerais. Há outra pessoa (BFC, 32-M), que atua como

A festividade de São Pedro, que começou a ser sistematizada a partir do início da década de 1980, é a maior manifestação cultural da comunidade, com grande participação de pessoas de outras comunidades e até mesmo da zona urbana. Geralmente a festividade inicia no dia 20/06 e sempre termina no dia 29/06. Conta com todos os elementos das festividades tradicionais: derruba de mastro, novena, bingo, candidatas da festa – colaboradoras que angariam fundos para a Igreja –, etc. No último dia da festividade, a presença do padre é indispensável para a celebração da missa e cerimônia de encerramento.

Imagem 20: Casas com novas estruturas na Comunidade São Pedro57

As terras da comunidade são cadastradas no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e todo ano os tributos devem ser pagos. Aqueles que conseguem ter uma renda um pouco maior e têm melhores condições se reúnem para pagar os impostos. “Isto mostra o espírito de união e sentido da palavra comunidade, trabalhado intensamente pela liderança religiosa da comunidade” (BFC, 32 -M).

Em geral, as casas na comunidade têm dois cômodos, pequenas varandas ou simplesmente um pequeno espaço na frente da casa, antes da porta de entrada e, em sua maioria, foram construídas pelos próprios moradores com ajuda de vizinhos. Nesse espaço, encontram-se bancos de madeira, que antes da chegada da televisão eram muito utilizados para a roda de conversas entre vizinhos,

57 No início da pesquisa de campo, em janeiro de 2011, havia apenas uma casa sendo construída em

estrutura diferente das outras, ou seja, com uma estrutura de dois andares. No mês de dezembro de 2011, ela estava praticamente concluída. Nesse intervalo, duas outras casas também começaram a ser construídas no mesmo formato.

principalmente ao cair da noite. Agora este fato ocorre mais entre moradores da mesma casa.

Esse aspecto apresenta uma indicação significativa da presença da TV na comunidade, sinalizando, para este pesquisador, mudança nas formas de sociabilidade. Se, por um lado, já não há mais tamanha aproximação por meio da “televizinhança”, por outro há uma aproximação, mesmo que forçada, com os membros da família. Afirmação que pode ser constatada nas observações e discussões apresentadas neste trabalho.

Dificilmente há quintais nas casas. Sua disposição faz ou com que estejam sobre as águas ou de fundo para estas. Toda a alimentação, quando não conseguida por caça e pesca, é comprada na cidade. Há dois bares na comunidade, que funcionam nas próprias casas dos moradores. A justificativa para a existência dos bares é que ultimamente há um fluxo significativo de pessoas da cidade que visitam o local aos finais de semana e proporcionar atendimento ao visitante é obter complemento no orçamento.

Para as pessoas da cidade, a comunidade é um balneário, apenas um local de diversão. Para as pessoas da própria comunidade, há uma distinção que precisa ser feita, como se nota no depoimento do líder religioso da comunidade:

Muitas pessoas da cidade ainda não se deram conta de que esse espaço é o local de vivência de outras pessoas. A abertura da estrada foi muito bom inclusive para nós, mas de alguma maneira nos tirou a privacidade. Agora muitos moradores daqui já começaram a fazer cercados em volta de suas casas. Era uma coisa que antes era impensável e agora é aceitável porque muitas vezes quando vêm outras pessoas da cidade que a gente não conhece, geralmente tem gente daqui viajando. E aí fica difícil, né? (BFC, 32-M).

A construção de cercados nas casas, antes impensável para os moradores do local, tornou-se necessária, configurando-se como uma característica que representa proteção e isolamento, bem como demonstra uma semelhança com as estruturas das casas da cidade.

A abertura da estrada, ainda sem pavimentação, que dá acesso à comunidade e a chegada da energia elétrica ocorreram na transição do final da década de 1990 para o início do ano 2000, por obra da Prefeitura, após demanda dos moradores. A distância a ser percorrida entre o centro da cidade de Breves e a comunidade, pela estrada, é de cerca de 20 km. Se for considerado o acesso pelos

rios, a distância pode chegar a 100 km ou mais, segundo estimativas dos próprios moradores.

Percorrer a distância Breves-São Pedro ou vice-versa, provoca uma sensação de lonjura, pois as dificuldades aumentam o tempo dispendido. Por terra, no período quente, a areia densa se concentra em alguns lugares causando também o perigo das derrapagens; no inverno, as chuvas próprias do período causam o aparecimento de poças e até mesmo pequenos lagos no leito da estrada e boa parte do caminho torna-se bastante escorregadio. Por via fluvial, tanto no período das cheias quanto da seca, a dificuldade é o fato de, em vários trechos, os rios permitirem somente o tráfego de barcos pequenos, às vezes apenas uma tolda.

O padrão de renda é de um salário mínimo ou menos para a maioria das pessoas, o que se deve principalmente às bolsas do governo ou às pensões e/ou aposentadorias. Há aqueles que, mesmo com esses recursos, trabalham na fabricação de farinha, extraem madeira, açaí, caçam, pescam ou exercem outras atividades na cidade para garantir o aumento da renda.

De acordo com o líder comunitário (AJ, 63-M), a terceira geração começa a se estabelecer na comunidade. As crianças, em sua maioria, hoje apenas estudam. Há cerca de uma década, era comum pais levarem seus filhos para suas atividades braçais. Hoje, os que vão, principalmente adolescentes, já o fazem por vontade própria. Pela manhã bem cedinho, os homens saem para seus afazeres, enquanto as mulheres providenciam o preparo dos alimentos. As crianças e adolescentes saem para estudar.

Nesse horário as mulheres, em geral, preferem o rádio à TV. Se há apenas uma ou duas crianças e/ou adolescentes em casa, as mães impõem facilmente sua vontade e os menores acabam acatando normalmente a decisão, ficando apenas circulando, brincando pela casa. Porém, quando há mais crianças e/ou adolescentes, acaba-se por ligar a TV, já que eles conseguem unir-se e reivindicar isso. Algumas vezes ficam ligados ao mesmo tempo rádio e televisão. Em outras ocasiões, as mães acabam desligando o rádio, por conta da tarifa de energia, que pode aumentar consideravelmente.

À tarde, geralmente com o homem já em casa, os adultos costumam dormir; algumas crianças e adolescentes vão para a escola. Os poucos que ficam de pé, geralmente os mais novos, aproveitam para assistir à TV. À noite, como será melhor comentado no próximo capítulo, as pessoas parecem seguir um ritual, segundo o

qual a maioria, senão todos, permanecem diante da TV, principalmente no horário das telenovelas. É o período de reunião da família para assistência da televisão.

Em raros momentos percebe-se todas as pessoas da mesma casa repousando ao mesmo tempo após o almoço, mas é muito comum que a maioria o faça.

Em geral, os diálogos estabelecidos pelos moradores durante o dia convergem para aquilo que se ouve no rádio e principalmente para o que é transmitido na TV. É comum alguns comentarem de dentro de suas próprias casas com os vizinhos, ao mesmo tempo em que fazem suas atividades rotineiras.

Antes da chegada da energia elétrica, dois geradores, forneciam energia à população da comunidade desde o início da década de 1980, sendo que havia um revezamento no funcionamento não oferecendo mais que 12 horas de uso de energia por dia. A água utilizada é retirada do rio e tratada pelos moradores para consumo. Algumas famílias consomem água mineral, comprada na cidade.

No que diz respeito ao aspecto educacional, a comunidade conta com uma escola com quatro salas de aula e toda a estrutura para o funcionamento – copa, banheiros, biblioteca, secretaria, sala de informática. A primeira escola, em madeira e com apenas duas salas de aula, foi fundada na comunidade em 29/06/1985. Hoje, com um novo prédio em alvenaria, (reinaugurado em 29/06/2010),

conta também com uma

residência para professor. Entretanto, durante o período de pesquisa, não havia nenhum professor residente.

Pelo fato de ser uma escola polo58, a escola da comunidade funciona nos períodos matutino, vespertino e noturno, atendendo alunos de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. No ano de 2011 contava com 146 alunos matriculados.

58 DE acordo com a SEMED/Breves, Escola Polo é uma escola que apresenta estrutura física e

organizacional adequada para o ensino, construída, geralmente, em alvenaria). Em se tratando de escola polo na zona rural, sua estrutura permite atender alunos de várias comunidades.

Os profissionais que atuam na escola são: três professores de Ensino Fundamental, um professor de Informática e um Coordenador Pedagógico, duas serventes e um zelador.

A comunidade conta ainda com um posto de saúde, em que também há estrutura para o profissional responsável morar, embora ele não o faça. O corpo profissional é constituído por um enfermeiro e um técnico em enfermagem.

Em relação às questões dos meios de comunicação, é possível afirmar que a existência da sala de informática possibilita comentários sobre computadores, Internet e as possíveis funções dessa tecnologia, embora ainda não esteja claro, para seus usuários, que boa parte do uso a que se destina a técnica só seja possível com a presença da Internet ainda indisponível tanto para a escola como para a comunidade.

Imagem 23: Professor e alunos em atividade na Sala de Informática em São Pedro Imagem 22: Posto de Saúde da comunidade São Pedro

Há apenas duas casas que têm antena rural para funcionamento de celular. Uma da vivo e outra com serviço da tim, porém somente uma família possuía aparelho de celular no período em que foi realizada a pesquisa.

Das 30 casas, 27 possuem TV; 24, aparelhos de rádio; 23, geladeira; 12 têm aparelho de DVD e 24 possuem fogão a gás, mas geralmente não se abre mão do fogão a lenha. É importante notar que, antes mesmo da chegada da energia elétrica interligada, alguns moradores já acompanhavam a programação da TV por meio da energia fornecida pelos dois geradores que funcionavam no local.

A primeira fase de assistência à TV era comunitária. Todos se reuniam no barracão da comunidade para assistir. Quando a energia elétrica interligada chegou à comunidade, a compra de antenas parabólicas e de aparelhos televisores aconteceu em massa.