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O Programa de Educação Integral, em Pernambuco, foi criado em 2008, a partir da Lei Complementar nº 125, de 10 de julho de 2008, com o objetivo de reestruturar o ensino médio no Estado. Segundo Dutra (2014, p. 2), “o referido programa priorizou a melhoria da qualidade da educação, tendo como uma das metas a ampliação de matrículas no Ensino Médio Integral”. Nesse sentido, houve reordenamento da rede, visando a garantia da adesão dos estudantes a essa modalidade de ensino.

Em 2009, o governo criou a Secretaria Executiva de Educação Profissional para administrar as escolas de referência. Secretaria essa que tem autonomia administrativa e financeira e é responsável pelos Programas de Educação Integral e Educação Profissional. A primeira comporta as Escolas de Referência em Ensino Médio- EREMs e a segunda as Escola Técnicas Estaduais (ETEs), todas de tempo integral.

As EREMs apresentam matriz curricular voltada para a formação Integral do estudante. Segundo Dutra (2014, p. 3), “tem-se aí, dessa forma, uma educação voltada não

apenas para a construção dos conhecimentos cognitivos, mas pautada por uma filosofia na qual o homem é sujeito de sua história, intervindo na realidade e no seu contexto social, a fim de transformá-lo”.

Foram criadas, em 2010, cento e sessenta EREMs no Estado, visando, para Dutra (2014, p. 3), a uma formação voltada para a qualidade social. O autor também cita que o Programa de Educação Integral fundamenta-se em Costa (2008), “que defende a construção do ser humano na sua inteireza, ou seja, nas suas quatro dimensões: cognitiva, afetiva, espiritual e da corporeidade”.

Considerando o fato de que cada município pernambucano dispõe de, pelo menos, uma escola de tempo integral, escolheu-se desenvolver este estudo na EREM Senador Nilo Coelho, única escola que oferece essa jornada no município de Dormentes, Pernambuco. Esta escola tornou-se de Referência em Ensino Médio Senador Nilo Coelho – EREMSNC, conforme decreto nº 34.608, de 12 de fevereiro de 2010. Por meio do Decreto nº 37.826, de 31 de janeiro de 2012, a EREM Senador Nilo Coelho passa a atender em jornada Integral. Nesse sentido, espera-se compreender como se dão as práticas de gestão escolar voltadas para a gestão do conhecimento em uma escola de tempo integral.

4 A GESTÃO DO CONHECIMENTO: A ESCOLA COMO UMA COMUNIDADE DE APRENDIZAGENS?

A escola, enquanto instituição privilegiada na formação intelectual e cidadã de pessoas, necessariamente, precisa atuar de modo condizente com a realidade social na qual está inserida. O que remete a situar a instituição escolar, com todas as suas especificidades, na sociedade do conhecimento, caracterizada por instabilidade, globalização e avanços tecnológicos que, se por um lado potencializam a aprendizagem e o conhecimento, por outro, geram competitividade e desconfiança.

A sociedade do conhecimento demanda uma escola que repensa a si própria incessantemente, que tem entre as premissas de seu funcionamento a visão de uma organização e que, portanto, todos os que a integram são partícipes de um mesmo projeto. Para que haja a efetivação de tal proposta, as ações de gestão do conhecimento são imprescindíveis para o crescimento dos indivíduos e das organizações educacionais, devendo, assim, servir de norte para a atuação da gestão escolar, posto que o conhecimento e os processos que envolvem sua construção não podem ser tratados esporadicamente. Tudo isso demanda a adoção de estratégias bem definidas, que objetivem gerir os conhecimentos de maneira que garanta uma escola que aprenda e continue a aprender sempre, envolvendo a todos na formação integral do estudante.

Construir a mudança em educação, como meio de propiciar o sucesso dos processos pedagógicos e administrativos na sociedade contemporânea, implica na necessidade de investimentos formativos, abertura a mudanças e superação das práticas rotineiras e automatizadas, muitas vezes norteadas por sistemas de ensino restritos a normas preestabelecidas. Contudo, é no contexto escolar que essa mudança pode ser efetivamente construída, a partir do planejamento de ações direcionadas à construção, à partilha, ao registro, à publicização e à incorporação de novos conhecimentos.

Com o conhecimento gerido de modo articulado, a escola supera antigas ideias que a situam apenas como lugar de ensino e expande para um espaço ilimitado de potencialização de aprendizagens, culminando em uma comunidade que evolui continuamente. Segundo Senge (2013, p. 472), “é importante que ‘esse espaço social’ seja criado e mantido conscientemente. Mas também, é importante perceber que a criação de comunidades de aprendizagem é um processo natural que não precisa ser controlado ou manipulado”. Nesse sentido, aprender a conviver com os outros, respeitando as diferenças e compreendendo que todos têm potencialidades e limitações, é indispensável para que se aprenda em conjunto,

pois, trata-se da integração de diferentes pessoas, que nem sempre comungam das mesmas ideias, mas que juntas podem construir novas aprendizagens que venham a promover o desenvolvimento individual e organizacional.

A escola como comunidade de aprendizagens promove a autonomia do estudante e torna sua voz cada vez mais ouvida, planejando e desenvolvendo a formação do cidadão do mundo, aquele que cria, participa e compreende o todo da escola, da sociedade e do mundo. Nessa direção, tem-se uma instituição com foco na aprendizagem dos alunos e com esse objetivo, precisa tornar-se também aprendente. Hargreaves (2003, p. 215) afirma que

se quisermos que as instituições educativas se tornem verdadeiras comunidades de conhecimento para todos os alunos, então o ensino tem de ser transformado numa verdadeira profissão aprendente para todos os docentes.

Assim, é necessário que a escola promova uma aprendizagem que atenda aos anseios da sociedade do conhecimento e, simultaneamente, forme bons cidadãos, o que só é possível a partir de uma aprendizagem contínua e transformadora, norteada por práticas democráticas.

A gestão do conhecimento, quando desenvolvida em uma escola que pensa e reflete suas ações, suscita oportunidades para que essa sistematize suas aprendizagens de modo crítico e articulado, levando em consideração aspectos da sociedade do conhecimento – tais como incerteza, competitividade, mudanças aceleradas nos campos sociais, econômicos e culturais – e, assim, paute-se em modelos de criação de conhecimento, mantendo sua natureza política e foco nos processos pedagógicos. É seguindo esse percurso que a escola ganha alicerce para tornar-se uma comunidade de aprendizagens. Nesse processo, é fundamental a atuação de um gestor escolar flexível, preparado para lidar com o novo, com capacidade de inovação e apto para motivar alunos, professores e demais membros da comunidade escolar para aprenderem em conjunto e continuamente, prezando pela reflexão e avaliação constantes, através de uma participação autônoma.

Em uma escola que funcione como comunidade de aprendizagem, o diálogo é uma prática recorrente e abrange a integração de diferentes ideias e pontos de vista, garantindo, assim, uma partilha permanente que envolve todos os atores inseridos no contexto escolar, não limitando a aprendizagem a professores e estudantes, mas estendendo-a à própria escola, enquanto organização, para que se promovam mudanças que suscitem a conquista de avanços nos processos e nos resultados institucionais. Nessa perspectiva, Alarcão (2011, p. 89) sugere que é importante a existência de

uma escola que reflita sobre os seus próprios processos e as suas formas de atuar e funcionar. Uma escola que analise, desconstrua e refaça as suas opções e a sua ação curricular. Uma escola que saiba criar suas próprias regras. Mas que, ciente da sua autonomia responsável, saiba prestar contas da sua atuação, justificar os seus resultados e autoavaliar-se para definir o seu desenvolvimento.

Em uma comunidade assim, caracterizada por Alarcão (2011, p. 89) como “uma escola que se alimente do saber, da produção e da reflexão dos seus profissionais”, na qual nenhum processo de aprendizagem se finda, tratando-se de um ciclo que se renova sempre através do diálogo, da reflexão e da busca pelo desenvolvimento, todos os sujeitos que nela convivem se sentem pertencentes e importantes para a construção do sucesso institucional. Dessa forma, reitera-se que é necessário

cultivar pedagogias que enfatizem a criatividade; que desenvolvam conhecimentos aplicados como forma de melhorar a capacidade de resolução de problemas; que promovam aprendizagem permanente e a capacidade de adaptação e de mudança (HARGREAVES, 2012. p. 369).

Nessa direção, todos os atores são ativos na construção e partilha dos novos conhecimentos, os quais devem ser publicitados, incorporados à instituição e aplicados, propiciando a qualificação contínua de todos e a formação de estudantes capazes de usufruir dos benefícios da sociedade e atuar com vistas à transformação no que se refere aos malefícios, combatendo, ainda, as formas de injustiça e desigualdades.

No contexto escolar estudado, perguntou-se aos entrevistados, em caráter sugestivo, como a escola poderia tornar-se uma comunidade de aprendizagens. Isso propiciou a expressão da visão que possuem de um termo que, embora soasse como novo, mostrou-se bastante tratável, para alguns entrevistados. Como é possível verificar em:

“É[...] a educação do século XXI, ela não só enxerga a matemática, ela não só enxerga a ortografia, ela enxerga o ser humano. Esse ser humano precisa saber, também, viver bem em sociedade, viver com as diferenças, que é o que a gente convive diariamente com a escola e tem que saber que todo mundo tem potencial pra ensinar, e a gente pode aprender também com todo mundo, desde em todas as camadas, todas as situações a gente tem um aprendizado que pode ser tirado dela” (EF1).

“Eu acho que é promovendo esses momentos na escola; no início do ano mesmo a gente até fez até uma proposta de trabalho lá pra todos. Uma vez por semana parar e naquele momento, toda a escola estar fazendo leitura, porque um dos problemas maiores é a leitura, também e com todo funcionário, só que aí termina ficando só no papel e no professor que é o que sempre estuda; os outros terminam sempre sem ter essa ligação com os demais, só o professor” (EP3).

As falas dos dois entrevistados trataram da importância de abranger os processos de aprendizagem a todos os atores da comunidade escolar, demonstrando ser essa, ainda, uma limitação na instituição pesquisada, por concentrar as atividades de aprendizado no campo da docência. Alarcão (2011) aborda a importância de uma gestão que traz para a arena educativa da escola todo o elemento humano que a integra, não restringindo a aprendizagem a estudantes e professores.

A primeira fala menciona a necessidade de atender aos anseios da sociedade do século XXI, que exige muito mais que a transmissão de conteúdos, principalmente com relação a Língua Portuguesa e Matemática, mas a formação do elemento humano, do cidadão. A esse respeito, Hargreaves (2003, p. 91) afirma que “o ensino não é uma prática exclusivamente cognitiva e intelectual, mas também social e emocional”. O pensamento do autor vai ao encontro do que diz os entrevistados:

Não trabalhar só com conhecimento intelectual, não trabalhar só com o cognitivo. Por eu estar numa escola integral, existem outras áreas que precisam ser vistas. Esse aluno precisa ter lazer; esse menino, essa menina precisa ter outras habilidades desenvolvidas na escola, que não é só intelectual, nem só cognitiva (EP1).

Eu acho que nesse sentido, estreitando os laços, a parceria é uma palavra que eu uso muito, quem tá no nosso colegiado escuta muito eu falar, é uma palavra que eu bato na tecla, parceiro, nós somos parceiros. Eu digo para os alunos. Alunos, estudantes, nós somos parceiros, olhem pra mim, gestor parceiro seu, olhe pra o professor, é um parceiro seu na construção do seu conhecimento (EG1).

A perspectiva de formação integral do ser humano está presente nas falas dos dois entrevistados e reitera a função social da escola. A fala do gestor sugere o estabelecimento de parcerias entre estudante e professor, como também entre estudante e gestor, o que se constitui um elemento de suma relevância para o sucesso dos processos de ensino e aprendizagem. Nesse intuito, acredita-se que essas parcerias devem ser estendidas a todos os segmentos que compõem a instituição, como também a outros órgãos da sociedade, a fim de desenvolver uma efetiva comunidade de aprendizagem.

Nessa direção, este trabalho, que objetiva analisar as ações de gestão escolar com ênfase nas práticas de gestão do conhecimento, pretende propor diretrizes para a constituição e consolidação de escolas aprendentes, tomando como referência o aporte teórico estudado e a análise dos dados coletados. Assim, a seção a seguir apresenta os resultados detalhados das

entrevistas realizadas, como também, a análise dos documentos selecionados, levando em consideração: a construção do conhecimento na escola; a partilha do conhecimento; as formas de registro conhecimento; a publicização dos conhecimentos na escola; a incorporação e aplicação dos conhecimentos nas práticas escolares.