1. Innledning
1.3. Leseveiledning
Reafirmo que meu trabalho enquanto encenador carrega certa nostalgia pelas opções estéticas eleitas em cada momento dos processos criativos. Essa constatação se torna importante, pois pode se delinear a partir dela um recorte poético do meu trabalho ou estabelecer um ponto de vista sobre a trajetória da minha produção artística.
Anos atrás, eu pensava que o regador seria para sempre o conceito poético do meu trabalho artístico. Surgiu em 2007, na montagem do espetáculo ―Vermelho Cotidiano‖ para a Cia Bailar de Dança, em Uberlândia. Esse trabalho propunha a questão: ―Quanto de vermelho tem a sua vida?‖. A ideia se configurava em uma investigação sobre o vermelho no cotidiano das cidades contemporâneas. Durante a montagem associamos o vermelho a outras simbologias da água, buscando escapar das associações com a cor azul.
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Entendemos que a água poderia ser elaborada no espetáculo pelo seu sentido de violência, risco e energia, como também pela analogia ao afeto, à fluidez, e à inconstância a que se refere também ao vermelho. A partir dessa definição, a manipulação de doze regadores vermelhos conduziu à trama estrutural e poética do trabalho, além de definir a linha de pesquisa do treinamento e movimentação dos bailarinos. Esta companhia tinha a dança de salão como estética principal, mas também o desejo de arriscar em outras linguagens, agregando técnicas do jazz dance e da dança contemporânea por meio de aulas regulares com professores destas técnicas/estéticas. Além disso, fazíamos estudos teóricos por meio da leitura de textos e vídeos sobre aspectos históricos da arte, com objetivo de também instrumentalizar intelectualmente o grupo acerca do trabalho a que se propunha realizar. Vejo hoje que esta proposta metodológica permanece de forma aperfeiçoada em meu trabalho artístico. Releituras conceituais, pesquisa de linguagem, estudo técnico com elementos cênicos e estudos teóricos são partes fundamentais da criação do espetáculo ―Anjos d’Água‖, desenvolvido no capítulo 3.
Nesse sentido ―Vermelho Cotidiano‖, o segundo espetáculo montado para a Cia Bailar de Dança, transitava entre linguagens e apresentava como resultado final uma cena hibridizada por diferentes técnica/estéticas de dança. Expunha a busca do grupo por investigar possibilidades na dança diferente do contexto da dança de salão, no qual a utilização convencional dos elementos dramatúrgicos fossem eles, expressões na relação entre o ‗casal‘, passando pelo uso narrativo da música e a padronização dos figurinos, eram alvo de refuto.
―Vermelho Cotidiano‖ apresentava cinqüenta minutos de duração, treze coreografias formatadas entre solos, duos, trios e cenas coletivas que eram executadas por um elenco de dez bailarinos na faixa etária dos vinte e cino anos. O estudo da cor, o uso repetido e seriado dos regadores como elementos cênicos, a própria pesquisa da movimentação e a pesquisa sonora dialogavam com os conceitos do movimento minimalista da década de sessenta. Esse movimento que se iniciou nos Estados Unidos e se alastrou pelo mundo, muito influenciou o pensamento estético da arte contemporânea, inclusive fundamenta a linha estética de grupos remanescentes da dança moderna, como o mineiro Grupo Corpo.
A imagem poética do regador me fascina desde sempre. Não como memória de infância, nem tão pouco saudosismo geográfico-temporal, pois esse objeto não fez parte da minha construção imagética consciente. Na minha casa não havia regadores e não tenho
40 “Impregnação” - Desvio para o Vermelho– Cildo Meireles (1967-1984) –
Instalação monocromática – Inhotim – foto: Pedro Mota
lembranças desse objeto e nenhum outro momento. Enfim, não sei de onde veio essa fixação. Carma? Possibilidades! Devaneios.
Também acho necessário pontuar que foi nesse momento que se desenvolveu o meu desejo de aprofundar o namoro com as artes visuais. Essa relação acompanha minha pesquisa até hoje, uma vez que busco encorpar o debate sobre a cidade por meio de referências e bibliografias em sua maioria pertencentes ao universo das artes visuais correlacionadas à dança.
O contato com o trabalho do artista Cildo Meireles ―Desvio para o Vermelho‖ (1967- 1984) no Centro de Arte Contemporânea Inhotim em 2006, me fez desenvolver o interesse pela leitura e pesquisa no universo das artes visuais, buscando trazer questões conceituais debatidas nesse âmbito para a dança e o teatro. Esta obra de
Meireles além de ser
impregnada de sensações físicas me levou a pensar sobre o tema em um ―desvio‖ para o corpo e depois para uma apropriação cênica do tema para dança. Um ano depois de ter conhecido a obra de Cildo Meireles, em uma conferência em Campinas/SP, articulada pelo Programa de Pós-Graduação da UNICAMP Cildo ofereceu referências poéticas e estéticas fundamentais para montagem de ―Vermelho Cotidiano‖, inclusive traçando uma reflexão de como o tema da cor surgiu na pintura, migrou para a escultura e instalação e que agora poderia ganhar movimento no corpo da dança.
No mesmo período – final de 2008 - veio novamente ao Brasil no Teatro Alpha em São Paulo, Pina Bausch e sua companhia. Naquele momento, estava eu também me dedicando ao estudo da dança-teatro e suas arruelas, como tema da monografia de conclusão do curso de graduação que tratava do estudo da Performance Art e do trabalho do artista Renato Cohen. Bausch e Maguy Marin, a primeira alemã e a outra francesa, eram as minhas principais referencias de criação e pensamento coreográfico, pautado na ideia da teatralidade na dança, uso de objetos cênicos, despadronização dos corpos e dança autobiográfica. Estes assuntos e elementos estéticos comuns nas obras dessas criadoras me instigavam e são presentes tanto
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nas metodologias técnicas quanto no arremedo poético da criação de ―Anjos d’Água‖, objeto de analise dessa pesquisa. A pesquisa que estava em desenvolvimento naquele momento de encerramento do curso de graduação apresentava afinidades com essas referências, pois se enquadravam no conceito de work in progress, cunhado por Cohen em voga no mundo das artes cênicas a partir daquele período. Esse conceito também é trazido para o objeto dessa pesquisa quando se considera que em ―Anjos d’Água‖ o trabalho continua vivo e em constante transformação, mesmo depois da estreia. Não necessariamente no conceito estrito de work in
progress, pois a adaptação às diferentes fontes exige as mudanças no espetáculo, que podem porém, ser previsíveis. Todavia, o estudo de work in progress e práticas artísticas realizadas nessa ideia de certa forma ofereceu também possibilidades para a criação dos ―Anjos‖, principalmente no que tange ao encadeamento das cenas e a estrutura dos jogos coreográficos. ―Água‖ era o título do espetáculo que a Tanztheater Wuppertal trouxe na ocasião. A água era a temática principal e a coreógrafa escolheu falar do Brasil pela capacidade hídrica do país. Para a criação deste trabalho Pina fez desde 2001 sistemáticos estudos sobre São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Eu, entretanto, fui para assistir ao espetáculo sem saber de nada disso. Tudo muito interessante, um preciosismo estético aliado a um profundo bom gosto artístico que, a meu ver, apresentou soluções de direção e dramaturgia pautadas por referências muito precisas, além de um acabamento cênico impecável.
No encaminhamento para o final do espetáculo, de repente rompe a cena um bailarino para falar sobre a chuva. Vestido de nuvem e com um regador na mão! Ironia do destino? Coincidência? Inconsciente Coletivo do Jung? Não só por essa cena, mas por todo o espetáculo, saí do teatro me sentindo um nada! Definitivamente ultrajado com tamanha poesia. Fiquei alguns dias calado, sem poder falar de nada, nem de ninguém, nem de arte. Assistir esse trabalho fez transformações no meu pensamento de criador e gerou redemoinhos e vazios na forma de pensar sobre a dança e suas ressignificações, ao mesmo tempo. Fui arrebatado, uma imagem encalacrada na minha memória. Um regador!
O vermelho veio de Cildo e a água veio da Pina. Influências e ressonâncias, fixadas na construção poética de um artista em processo.
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―Aguadores de Iphá‖ TerraCotta (2010) Gustavo Henrique – dança contemporânea Festival Internacional Dança Ribeirão Ribeirão Preto/SP - foto: J. Carlos
Anos depois, em 2009, o regador ressurge na montagem do espetáculo ―Aguadores de Iphá‖
que criei para o TerraCotta Dança
AfroContemporânea. Outra companhia de dança da cidade de Uberlândia, que tem como foco a investigação da cultura negra e suas interfaces com a dança contemporânea. Assumidamente o trabalho apresenta a água como imagem poética por meio da apresentação do mito da criação da chuva. Um ―Orixá‖ imaginário que se constrói pelos movimentos do break-dance e da capoeira, abria o espetáculo, trazendo como todo bom Orixá sua ―arma‖ em destaque. Nesse caso, um regador!
Nessa fase, já era nítido que o que me perseguia, ou melhor, era recorrente na minha poética, não era o objeto [regador] e sim o conteúdo [água]. A duração do trabalho é de aproximadamente uma hora, dividido em três partes principais que apresentam coreografias executadas pelos bailarinos com regadores, ora nas mãos, ora nos pés, ora como elemento cenográfico! Overdose! Nesse trabalho, é de fato o regador o condutor de toda a dramaturgia sendo eixo para a definição de todos os outros elementos dramatúrgicos como a musica, o figurino, a luz, inclusive a composição coreográfica e a relação entre os bailarinos. ―Aguadores de Iphá‖ foi criado como uma obra para espaços convencionais – teatro caixa preta – e para sua criação, foi pautada na relação comum deste espaço, apresentando uma cena basicamente frontalizada e escondendo do público a relação dos bastidores por meio do jogo das coxias e dos recursos cenotécnicos do espaço teatral. Mesmo na busca por um resultado outro que pudesse fundamentar a ‗dança contemporânea‘ anunciada no sobrenome do grupo, este trabalho, ao meu olhar, permaneceu delineado nos padrões convencionais, sobretudo na relação como o espaço.
Depois desse espetáculo o trabalho com o TerraCotta começa a ampliar suas dimensões, apresenta o desejo de continuar a investigação sobre a percepções estéticas e sensoriais da dança contemporânea. Surge assim a nova pesquisa do grupo e o regador permanece.
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―Anjos d’Água” TerraCotta (2010) – dança contemporânea/ intervenção urbana – Praça Tubal Vilela – Uberlândia/MG
foto: Jorge Henrique Pall. Por conta de um edital público surge o espetáculo ―Anjos d’Água‖ em 2010. Esse edital requereu projetos que de alguma forma fossem pensados articulando o tema natal e espaços públicos, visando um movimento artístico na cidade em ocasião da data. A temática natalina foi ressignificada, promovida pelo desvio dos temas e enredos tradicionais do natal, enquanto questões sobre o uso da Praça Tubal Vilela e seus equipamentos arquitetônicos foram ganhando mais relevância. Interessou-nos naquele momento, e ainda nos interessa, a investigação sobre elementos materiais e imateriais que compõe o imaginário das pessoas que conviveram com a fonte d‘água em
pleno funcionamento e que até 2010 presenciavam o abandono desse
equipamento relegado ao
esquecimento. Numa sociedade pragmática e emergente como a da cidade de Uberlândia, qual seria a função de uma fonte de água ou de
um chafariz? Ornamento
arquitetônico? Isso justifica os gastos públicos para sua manutenção? Justifica a mobilização social para
sua preservação? Agora, por escolha deliberada de manter a recorrência, novamente os regadores tomam a cena e estabelecem o diálogo entre a arquitetura e os observadores.
Depois desta trajetória o significado dos regadores ganha mais propriedade. A proposta de utilização dos regadores, ao mesmo tempo em que alargou o referencial simbólico-perceptivo do objeto também retomou sua função prática que é carregar água.
A análise da simbologia deste objeto, recorrente e ressignificado na observação de algumas das minhas criações, transbordou para a reflexão sobre o momento atual de minha trajetória enquanto pesquisador, que investiga a si mesmo. Esse recorte da função do objeto, enquanto recipiente de transporte e espalho de água, me faz pensar de forma análoga e metafórica nas minhas referências artísticas e desejos de criação. A busca pelo abandono de vaidades, a fluência de algo que estava represado e agora precisa ser espalhado. O reconhecimento da generosidade do conhecimento e do trabalho partilhado e compartilhado.
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A percepção do processo criativo entre dois caminhos. O primeiro que se refere aos instrumentos poéticos, afetivos, simbólicos no campo da construção de dramaturgias de obras cênicas, e o segundo que trata do domínio das habilidades no campo dos procedimentos técnicos para reflexão operacional no trabalho do encenador. Caminhos que parecem correr na mesma direção, mas que apresentam distanciamentos que geram paradoxos e contrapontos no fazer artístico e que reconheço como uma maneira pela qual se organizam os meus modos de criar e refletir a arte. Faço uma relação: do mesmo jeito que no trabalho prático-corporal foi possível reconhecer as influências do meu pai dentre de mim, na dissertação foi possível reconhecer e reencontrar autores que consideram e valorizam o território interno do encenador que é permeado mais por perguntas e incertezas do que por respostas e clarezas. Situação que me mantém vivo nesse movimento entre os espaços internos e externos, e busca uma articulação do território (íntimo) subjetivo com o território (público) coletivo.
1.2 Espaço urbano articulado: Experiência na gestão pública e encadeamento do