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Em importantes momentos da historiografia das artes, vê-se fluidamente as influências e interferências de pensamentos e reflexões do campo das artes visuais expandindo-se e sendo apropriados por outras linguagens de arte. Esse movimento presente principalmente nas relações de arte na contemporaneidade tem suas bases lançadas há longa data.

Em outro salto pelo tempo, retomaremos ligeiramente a relação das artes visuais e da dança a partir do Renascimento. As observações traçadas em diante têm como pretensão não uma análise paralela entre as duas linguagens, mas elencar pontos de recorrência e contato a fim de possibilitar uma análise do ponto de vista dos movimentos culturais e suas relações historiográficas.

Após a grande difusão que o balé teve a partir da sua sistematização pelas Escolas Reais de Dança, formando bailarinos profissionais, professores e mestres (maîtres) de balé com seus manuais didáticos, o espaço dos palácios já não abrigava essa arte, que buscava alcançar outros públicos. Espalhados por cidades como Moscou, São Petersburgo, Copenhagen e Londres, o balé agora com ares de espetáculo reclamava espaços para grandes audiências. Assim como nos relata Alberto Tassinari (2001) em O espaço Moderno, na Renascença, período fértil para todas as artes e ciências, surgia a técnica da perspectiva na pintura, preconizada pelo artista italiano Giotto de Bondone para valorizar a profundidade dimensional da imagem. Essa técnica, apoiada na utilização do ponto de fuga foi o que

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inspirou a construção dos palcos e plateias dos teatros de estilo italiano ―caixa preta‖, como os Municipais de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. O que Tassinari considerou como ―anti-espacial‖ na pintura renascentista, talvez possa ter sido reelaborado pelas cenas dos balés que eram executados no espaço real perspectivo dos teatros.

Em relação ao espaço, a dança moderna, ou a dança da fase de formação - primeiras décadas do século XX - rompe pouco com o território cênico, estando ainda muito presente nos teatros e nas salas de espetáculos. Precursores da dança moderna como Isadora Duncan, Martha Graham, Ruth St Denis, Emile Jacque Dalcrose e Rudolf von Laban, experimentaram em algum momento de suas carreiras outros espaços para a dança, inclusive no contexto da cidade, por meio de uma relação de transposição, sem o objetivo de estabelecer discussões com a natureza do espaço urbano. Essa relação surgirá com toda intensidade na dança contemporânea, ou no que desejamos chamar de fase de desdobramento da dança moderna.

Assim, fundamentamos a ideia de que a disposição em estabelecer o diálogo com a cidade é uma característica da dança contemporânea. Esse intercâmbio pode passar tanto por questões físicas como pelo projeto urbanístico, a arquitetura, o fluxo de trânsito e de comunicação, quanto por questões de ordem sensível, subjetiva e relacional.

É a partir dos experimentos de Jacks Pollock e Allan Kaprow, o surgimento dos

Happnings e posteriormente da Performance Art, na década de sessenta, que se coloca definitivamente em cheque a galeria e consequentemente o conceito de arte. Reforçamos que toda a representatividade dada a esses experimentos como marcos de ruptura e divisão da história das artes não é um consenso entre os pesquisadores, e que há controvérsias entre diferentes pontos de vista. Natural, até porque, tratamos da arte como um processo que se desenrola no tempo e na história e que mesmo as ações factuais então no meio de outras ações vindas anteriormente, e outras que ainda serão desdobradas.

É a partir desse momento em que o artista migra para o espaço público e o processo de criação da obra é a ―própria obra‖, que se percebe um fazer cênico nas artes visuais. Um fazer artístico próximo do teatro e da dança que revela a ação de um corpo ativo no ambiente da cidade. Dessa forma, temos uma prática artística hibridizada por meio de corpos em plena ação/movimentação no espaço, e de espectadores/observadores/participantes como testemunhas do acontecimento. Esse fazer se abre generosamente para várias possibilidades de recepção, que pode tanto ser visto por um olhar específico das artes visuais, da dança e até

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Ballét Stagium em apresentação nas comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco – 1974 - fonte: http://www.stagium.com.br/ mesmo do teatro, considerando o teatro como linguagem que historicamente abarca outras práticas artísticas.

No campo da produção específica da dança, um exemplo nacional do pioneirismo da desmaterialização do espaço institucional são as ações do Ballet Stagium, que por meio de suas pesquisas inovadoras quanto à apropriação de espaços não convencionais para dançar, se torna um ícone da dança brasileira. Com forte engajamento político, desde a

década de setenta, o Ballet Stagium, dirigido por Marika Gidali e Décio Otero, fez frente às mordaças da ditadura militar e começa a traçar um caminho próprio em recusa aos ditames de uma cultura eurocêntrica baseada na alienação crítica da sociedade. Em busca de uma dança que pudesse falar sobre o Brasil, aderiu ao movimento nacionalista preconizado pelo Teatro Oficina e pelo Teatro Arena que vislumbravam

o

rompimento do espaço tradicional como instrumentos estético e metodológico de suas criações. Pouco antes, a música popular e o cinema novo já anunciavam a busca por uma identidade nacional e a valorização de temas locais.

Além de primar por uma produção artística de qualidade técnica e estética, Marika Gidali fez do Ballé Stagium um referencia internacional de acessibilidade e formação de público. Adaptável a espaços diversos que vão desde hospitais, estações de metrô, praias, aldeias indígenas e outros, percebe-se na sua produção do grupo um desejo efetivo de dialogar com a cidade em uma força avessa aos espaços institucionalizados. Entretanto vale destacar o empreendedorismo de uma dessas ações em 1974. Em uma verdadeira expedição artística, coordenada pelo teatrólogo nacionalista Pascoal Carlos Magno, o Ballét Sagium percorre todo o Rio São Francisco dançando sobre um tablado montado no convés da barcaça Juarêz Távora, ação que alcançou a população das aldeias ribeirinhas ao longo do trajeto e por conseguinte define o caráter social e comprometimento político empreendido pela dança do grupo. Dessa ação M. Gidali reflete:

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Conhecer aqueles lugares depauperados, pobres, nos fez questionar o que seria o Ballet Stagium: com que direito você dança em uma terra onde as pessoas morrem de fome? Descobrir valores é a vida do Ballet Stagium. É retratar a riqueza, buscar as origens, as inspirações, assim a gente vai levando um intercâmbio entre o que a gente conhece como civilizado e que não é civilizado. (DANELON, 2008)

O movimento de ruptura do espaço institucional aconteceu tanto nas artes visuais como na dança, mas suas trajetórias e inquietações são distintas. No contexto específico da dança, a busca por um contato mais aproximado com o observador como é o caso do Ballét Stagium na década de setenta, deu passagem a diálogos com o contexto das cidades em suas questões de ordem mais subjetiva.