CULTURE, IDENTITY AND LANGUAGE
4.4 LANGUAGE AND CULTURE
Conforme havíamos planejado, no início do segundo semestre letivo de 2011 as duas turmas, dessa feita voltadas para a disciplina Estágio Supervisionado IV, também foram reservadas à Prof.ª Maria José e a nós. Isso nos permitiu – ressaltamos – dar continuidade ao intento de congregar os mesmos graduandos que haviam cursado a disciplina Estágio Supervisionado III no semestre anterior, entre os quais estariam os sujeitos que elegeríamos para a nossa pesquisa doutoral.
De imediato, constatamos uma redução na quantidade de alunos matriculados. Contaríamos apenas com 10 (dez) graduandos, somadas as duas turmas, sendo que um desses estudantes (uma aluna, melhor dizendo) não havia participado de nossas reuniões
durante o primeiro semestre letivo de 2011 por ter cursado a disciplina Estágio Supervisionado III em ano pregresso. A não participação da licencianda na fase de planejamentos reduzia suas chances de integrar nossa lista de sujeitos de pesquisa em potencial. Para minimizar o problema, demandamos a ela que passasse a trabalhar em parceria com um dos estagiários cujo projeto seria desenvolvido no transcurso do semestre em vigor.
Outrossim, procedemos a um levantamento e concluímos que, em sua quase totalidade, os alunos matriculados em março de 2011 na disciplina Estágio Supervisionado III e que não estavam mais conosco no semestre letivo seguinte: (i) ou creditaram em junho (ou já tinham creditado antes) a disciplina Estágio Supervisionado IV; (ii) ou não foram aprovados em junho no Estágio Supervisionado III (em função de sua baixa frequência às atividades da disciplina). Apenas uma aluna que poderia estar conosco não se matriculou para cursar o Estágio Supervisionado IV. Julgamos que sua ausência se tenha devido a motivos particulares (separação do cônjuge e doença do pai), que não guardaram relação com desistência acarretada por eventual incompatibilidade de tal graduanda quanto à nossa proposta de “pesquisa docente”.
Em 19 de agosto, conseguimos marcar uma reunião com a diretora de outra escola pública estadual, situada no mesmo bairro em que se localiza a UFPA. Com duas escolas servindo-lhes como opções ao exercício de suas atividades, pensávamos que, a partir de então, os nossos estagiários encontrariam menos problemas relativamente à conciliação entre seus horários de estágio e suas demais tarefas, acadêmicas ou não.
Durante a reunião, a diretora, velha conhecida de nosso orientador de doutorado, disponibilizou-nos por escrito os horários das aulas / turmas de Matemática do Ensino Médio. Após o encontro, fomos conhecer o laboratório de Informática da escola. No caminho rumo ao laboratório, pudemos perceber que se tratava de um colégio cujo prédio havia sido recém-construído e que, além disso, havia passado por uma pintura geral durante o mês de julho, o que lhe dava, em nossa opinião, um aspecto agradável. Encontramos ali uma estrutura física que julgávamos superior à da outra escola. Posteriormente, ao conhecerem o colégio, os estagiários concordaram conosco.
Ao chegarmos à nossa casa, montamos uma planilha composta por quatro tabelas. Cada tabela dizia respeito à disponibilidade de turmas em determinado período (manhã ou tarde) de uma das escolas, de sorte que a planilha completa trazia opções (manhã e tarde) de ambos os estabelecimentos. Observamos uma coincidência: as duas escolas possuíam
(cada qual) duas turmas de Ensino Médio pela manhã e três turmas à tarde, totalizando, os dois colégios, 10 (dez) turmas. Não levamos em consideração, nesse levantamento, turmas de terceiro ano, nas quais seria delicada a realização de um trabalho de pesquisa nos moldes em que propúnhamos, uma vez que a respectiva clientela exige, mais do que o público de outros anos, a execução de programas com a maior quantidade possível de conteúdos, haja vista exames para admissão em instituições educacionais de nível superior. No que tange aos conteúdos trabalhados durante as aulas-investigações, as pesquisas docentes sobre a própria prática que seriam realizadas pelos estagiários deveriam coadunar-se com o programa de cada classe/ano/escola, de tal forma que não houvesse prejuízo a alunos e a professores. A ideia era justamente contrária a essa possibilidade de prejuízo: objetivávamos melhorar resultados de ensino e de aprendizagem. Contudo, era consenso entre nosso orientador e nós que o trabalho dos estagiários deveria permanecer restrito a turmas de primeiro e de segundo anos do Ensino Médio. As classes de terceiro ano não seriam consideradas.
À semelhança do que vínhamos fazendo desde o semestre letivo anterior, continuaríamos tentando sensibilizar os professores – que iriam acolher os estagiários (dessa feita nos dois colégios) – quanto à necessidade de que tais graduandos pudessem dispor do tempo (à frente das turmas em que estariam lotados) necessário à execução de seus projetos de pesquisa docente. Durante o período em que os licenciandos cursaram a disciplina Estágio Supervisionado III, na escola com a qual estávamos trabalhando há mais tempo, nem todos os professores titulares permitiram-lhes a regência de classe, e quando a permitiram, tratou-se de uma quantidade de aulas que consideramos exígua. Em contraposição à referida postura, na segunda escola, em agosto, deparamo-nos com pessoas solícitas (a começar pela própria diretora do estabelecimento) não somente quanto à nossa proposta de um número maior de aulas a cargo dos graduandos, mas também quanto à nossa proposição de que houvesse “aulas e pesquisas conjugadas” sob a responsabilidade desses estagiários. Sempre estivemos cientes de que:
Todo trabalho de campo para a coleta de registros que vão se constituir nos dados da pesquisa tem de começar com as negociações que permitirão a entrada do pesquisador no campo (...). Geralmente os professores da escola ficam receosos de que o desvelamento de seu trabalho possa acarretar críticas ou outras conseqüências negativas. A negociação, portanto, terá de garantir ao professor que todos os dados coletados terão caráter sigiloso e que qualquer divulgação, na forma de relatórios,
tese, monografias etc., será discutida previamente com os professores envolvidos (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 57).
Em setembro, teve início (e estendeu-se por cerca de quarenta dias) uma greve de professores vinculados à rede pública estadual de ensino do Pará. Ao consultarmos as diretoras dos estabelecimentos onde almejávamos que os nossos estagiários colocassem em prática os seus projetos de investigação docente, obtivemos declarações distintas: enquanto a diretora do colégio em que havíamos trabalhado no decorrer do primeiro semestre nos desestimulou no tocante a práticas letivas sob a incumbência dos estagiários – argumentando que não haveria quorum discente por conta da greve –, a gestora da segunda escola colocou-se à nossa disposição com vistas a esse intento.
Diante da nova conjuntura que se nos apresentava, reunimo-nos (os professores Tadeu, Maria José e nós) com os graduandos para restabelecermos diretrizes. As atividades de estágio antes previstas para a antiga escola migrariam em definitivo (independentemente da manutenção e do encerramento da greve) para o colégio cuja diretora mantinha laços de amizade com o nosso orientador, professor Tadeu Oliver Gonçalves. No transcurso da própria reunião, o professor Tadeu telefonou à diretora dessa escola, e tudo ficou acertado.
Os próprios graduandos presentes ao encontro concordaram com a migração. Tentamos manter seus horários de estágio os mais próximos possíveis daqueles que eles iriam praticar na antiga escola. Além disso, todos eles permaneceriam em salas cujos anos / níveis eram os mesmos em que exerceriam as suas atividades de estágio no outro colégio.
Tivemos que alocar os dez estagiários nas cinco turmas de primeiro e de segundo anos disponíveis. Cada turma passou a contar com dois graduandos. Em três dessas cinco classes (duas delas matutinas e uma vespertina), os estagiários lotados iriam desenvolver um só projeto de pesquisa (tratava-se de projetos elaborados em coautoria), ou seja, de nossos dez alunos, seis trabalhariam em duplas que não dividiriam apenas o espaço das salas e o tempo das aulas, mas que levariam a efeito, conjuntamente, suas pesquisas docentes. Os outros quatro graduandos, congregados em dois pares, teriam que alternar suas incursões didático-investigativas na medida em que haveria, nos casos deles, dois projetos por turma.
No que tange aos professores das cinco classes, apenas um (que era responsável pelas duas turmas da manhã) aderiu à greve. Os outros dois (responsáveis, o primeiro, por
uma e, o segundo, por duas classes do período vespertino) continuaram ministrando aulas em diversas turmas da escola e deram-nos liberdade para que trabalhássemos (os estagiários e nós) em suas classes de primeiro e de segundo anos do Ensino Médio, tendo ficado acordado que eles opinariam / criticariam à vontade, em se tratando de nossas ideias e de nossos procedimentos. Assinalamos que, embora dotados de autonomia para participar das atividades, tais professores, efetivamente, na maior parte do tempo, deixaram as turmas em questão sob a nossa incumbência (em conjunto com os estagiários). Independentemente disso, socializávamos com eles, sempre que possível, os trabalhos que os estagiários e nós estávamos desenvolvendo nas classes.
Por sua vez, as duas turmas vinculadas ao professor que resolvera aderir à paralisação ficaram sob a nossa responsabilidade letiva (em conjunto com os estagiários) mediante autorização da própria diretora da escola desde o início da greve. O referido professor, quando de seu retorno às aulas, após a greve, não se opôs à decisão que havia sido tomada.
Em virtude do fato de as aulas, nas cinco classes, não terem sido concomitantes, foi-nos possível participar de todas elas, na condição de professor orientador dos estagiários e na condição de observador / pesquisador de suas práticas docentes investigativas.
Frisamos que, por conta da greve, o quantitativo de alunos participantes dos encontros que os estagiários e nós protagonizamos reduziu-se drasticamente. As turmas contaram com uma frequência diária de 10 (dez) a 20 (vinte) alunos, dos quais, entre 5 (cinco) e 14 (quatorze), conforme a classe, assistiram a 50% (cinquenta por cento) ou mais das aulas. Inclusive, a assiduidade (50% ou mais) foi o critério adotado pelos estagiários e por nós com o fito de que determinado aluno integrasse o rol dos sujeitos de investigação dos graduandos.
Ao considerarmos que um dos elementos centrais de nossa proposta era a figura do “professor / estagiário pesquisador da própria prática”; ao levarmos em conta também que, em situações ditas “normais” (sem greve), seria pouco provável que a administração e os docentes da escola concebessem a possibilidade da existência de turmas com trinta ou quarenta alunos, durante períodos relativamente longos, sob a incumbência letiva de estagiários (por mais que houvesse um professor da disciplina Estágio Supervisionado a acompanhá-los e a orientá-los), ousamos asseverar que a greve dos docentes da rede
pública de ensino do Pará constituiu-se em um acontecimento inesperado que, de certa forma, beneficiou a nós e a nossos estagiários.
Cumpre destacar que, ademais, quando do encerramento da greve, faltavam cerca de três semanas para que as investigações dos estagiários e o semestre letivo da UFPA chegassem ao seu termo. Recebemos, todavia, autorização da administração da escola e dos três professores de Matemática para continuar a trabalhar com os alunos que haviam participado de 50% (cinquenta por cento) ou mais de nossos encontros à época da greve. Pelas três semanas que se seguiram, os estagiários, orientados por nós, tiveram a oportunidade de levar adiante e de concluir a parte prática de suas investigações. Os alunos em foco não foram prejudicados, em termos de contato com a matéria programada, porquanto os projetos de pesquisa dos graduandos estavam atrelados (ou eram adaptáveis) ao magistério de assuntos pré-estabelecidos pela escola. Nos mesmos horários das aulas “normais” de Matemática, durante cerca de três semanas, contando com a presença de tais alunos em salas separadas, pudemos dar prosseguimento ao nosso intento investigativo. Com efeito, esses jovens encontravam-se, em geral, adiantados – uma vez comparados aos que haviam se ausentado durante o período de greve – por conta do trabalho que os estagiários e nós tínhamos realizado com eles.
No capítulo a seguir, tratamos dos referenciais teóricos que nos subsidiaram em nossa trilha perquiridora. Após tal abordagem, direcionamos o foco do texto para os sujeitos-graduandos que nos oportunizaram responder à questão da pesquisa e alcançar o objetivo da investigação.