Com a inauguração da Creche em outubro de 1981, a AEBAS inicia uma nova etapa na sua trajetória de prestação de serviços à comunidade. A inserção na área da infância constitui um desafio, considerando ser este um novo nicho de atuação, diferente do que a entidade vinha realizando nos primeiros vinte e seis anos de atividades. Esta situação levou a diretoria do conselho, a atuar de uma forma mais cotidiana e presente. Esta passou a ser demandada com mais freqüência, considerando que nesta nova situação a carga de trabalho era maior o que exigia diariamente a gestão e a tomada de decisão.
A direção diária da creche estava sob a responsabilidade de uma diretoria executiva formada inicialmente por um administrador e uma assistente social, no segundo ano de funcionamento este grupo é acrescido com uma pedagoga. Os mesmos atuavam sob a supervisão direta da diretoria do conselho, mais precisamente do seu presidente, que por sua vez estava subordinado ao conselho, formado por dezoito conselheiros, entre efetivos e suplentes. Estes eram eleitos pelos associados em Assembléia Geral para mandatos de dois anos. As atividades emanavam de um programa previamente estabelecido, mais precisamente de projetos de intervenção tanto na área da assistência social quanto na área pedagógica, todos elaborados pelos profissionais e submetidos à aprovação prévia do Conselho que se reunia ordinariamente a cada dois meses
Além do atendimento diário de 130 crianças de três meses a seis anos, as famílias atendidas, bem como a comunidade, apresentavam muitas demandas, e segundo registros se percebe uma preocupação muito grande por parte da entidade em atender a todas. São freqüentes os casos de famílias buscando auxílio para resolver problemas de moradia, saúde, trabalho, renda e educação. A entidade responde dentro dos limites. Busca desenvolver projetos que atendam essas demandas, como curso de alfabetização de adultos desenvolvido em parceria com o MOBRAL, (Ata nº 46) , ou o Projeto de Concessão de Auxilio Emergencial, que em parceria com a LBA por meio de um trabalho desenvolvido pelo Serviço Social concedeu ao longo de dois anos, auxilio à comunidade
para aquisição de medicamentos, alimentos, próteses, órteses, pequenos reparos e melhorias nas casas, entre outros, (Ata nº 66).
Essa relação ampliou o relacionamento da AEBAS com a comunidade em seu entorno, tornando-a mais conhecida. O Ambulatório 2 instalado no andar térreo, anexo à Creche a partir do momento que as instalações anteriores foram alugadas à Polícia Militar, servia de apoio ao trabalho desenvolvido com a criançada, na área da saúde e da odontologia, atendendo também às famílias e à comunidade em geral. Sua manutenção acontecia por meio de convênios mantidos com a Secretaria de Saúde do Estado, e com a Prefeitura de Florianópolis (Ata nº49). O Ambulatório 2 funcionou até março de 1991, quando foi encerrado o convênio mantido com a Prefeitura de Florianópolis, e a AEBAS não teve mais como mantê-lo em funcionamento. (Ata nº 97 )
O cotidiano na creche envolvia crianças desde o berçário até à classe de alfabetização, atividades de recreação, acompanhamento psico-pedagógico, cuidados de saúde e alimentação, trabalho desenvolvido por recreadoras sob a orientação de uma coordenadora pedagógica.
As famílias e a comunidade eram atendidas pelo Serviço Social, responsável por todo trabalho de triagem e seleção das crianças a serem atendidas na creche bem como por todo trabalho de acompanhamento de suas famílias. Por meio do plantão do Serviço Social, a comunidade era ouvida em suas várias necessidades, e na medida do possível buscava-se solucionar de forma conjunta os problemas apresentados, ou eram feitos encaminhamentos a outros recursos na comunidade.
No momento em que a AEBAS iniciou o trabalho voltado ao atendimento de crianças, é perceptível um afastamento do foco do projeto inicial, ou seja a construção do Hospital Evangélico. O sonho pelo qual a entidade fora criada parecia distante e inalcançável. O cotidiano dos projetos agora desenvolvidos, o desafio por mantê-los e ampliá-los absorviam todo tempo e potencial de seus gestores. Permanecia o empenho por buscar novos associados e apoiadores. São mencionadas campanhas para divulgação da entidade realizadas com o objetivo de agregar recursos. Aos poucos a entidade passa a ser conhecida pela qualidade do trabalho então realizado, e surgem novos desafios.
Em 1984, atendendo reivindicação das famílias beneficiárias da creche, a direção da AEBAS, num trabalho conjunto com o Serviço Social, iniciou os estudos para a ampliação do trabalho, estendendo-o à crianças e adolescentes de sete a quatorze anos. O projeto consistia no acompanhamento escolar em horários opostos ao período das aulas, além da proposta de desenvolver outras atividades, tais como trabalhos manuais, palestras e debates de temas de interesse da criançada.
Esta modalidade de trabalho estava sendo amplamente divulgada e absorvida por outras organizações, tendo o apoio e o incentivo de órgãos públicos, tais como a FUCABEM. De acordo Maciel (1985, p.24) “neste tempo a FUCABEM promoveu um encontro para coordenadores e monitores de CEBEMS, onde foi exposto o novo plano de ação deste órgão. Tal encontro muito colaborou à medida que proporcionou a oportunidade de conhecer outras experiências na área, facilitando a organização do núcleo de atendimento ao pré-adolescente na AEBAS”. A ampliação do trabalho teve também o apoio da AMENCAR que imediatamente aumentou sua cota de participação na sustentação dos trabalhos da AEBAS.
O projeto iniciou em 1985 com trinta crianças e adolescentes. No segundo ano o número passou para sessenta, e em 1988, após a construção de quatro salas anexas às instalações da creche, foi alcançada a meta desejada de 120 crianças e adolescentes, sendo estas atendidas em dois turnos de trabalho (Ata nº 69). Com este formato de atendimento a entidade estendia um pouco mais seu apoio às famílias e às comunidades com as quais vinha trabalhando, e oportunizava à criança e ao adolescente uma atenção especial, no sentido de melhorar seu desempenho no processo de aprendizagem, além de resguardá-los do contexto de violência e de marginalidade comuns às comunidades periféricas, dos quais eram e ainda são vítimas em potencial, dadas suas condições de pessoas em formação, portanto vulneráveis.
Os anos noventa iniciaram com grande movimentação entre as organizações do terceiro setor cujo atendimento estava voltado à infância e adolescência, pois com a publicação do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, iniciou-se a mobilização para sua divulgação como também para a adequação das organizações às políticas e programas agora adaptados ao novo enfoque das questões que envolviam a criança e o adolescente no país.
A AEBAS, por meio do Serviço Social atuante em sua Creche participou ativamente com outras organizações das reuniões e seminários, nos quais foram discutidos e formados os Conselhos de Direito da Criança e do Adolescente no nível Municipal e Estadual, (Ata nº 110). Este período proporcionou muito crescimento para o trabalho, à medida que fortaleceu as organizações que atuavam na área, ao mesmo tempo em que abriu espaço para o protagonismo infanto-juvenil no interior dessas iniciativas.
No inicio dos anos noventa, mais precisamente em 1993 a AEBAS, após um longo processo é reconhecida de utilidade pública federal, e de posse desta certificação conseguiu o Atestado de Entidade de Fins Filantrópicos.
Atentos a constante demanda por parte dos cidadãos beneficiários em seus projetos, a direção da AEBAS lançou em 1996 o Projeto Parceiro Solidário, por meio do qual desafiava outras organizações e igrejas a utilizarem espaços ociosos, transformando- os em locais que abrigassem trabalhos de acompanhamento escolar, voltados para crianças e adolescentes na faixa etária de sete a quatorze anos, nos moldes com vinha desenvolvendo em sua sede. Como resposta, duas organizações aderiram ao projeto e desta forma nos dois anos consecutivos a AEBAS, por meio de um convênio de parceria, repassava recursos, prestava assessoria administrativa, de serviço social e pedagogia para estas organizações, ampliando assim seu atendimento. O projeto acabou por ser interrompido por falta de recursos por parte da AEBAS, que precisou optar por ampliar sua estrutura interna com novas frentes de trabalho. Porém a semente lançada naquela época veio gerar seus frutos nos projetos de descentralização do atendimento iniciados em 2003 o que será detalhado no próximo tópico.
Ao longo deste tempo de trabalho a manutenção dos projetos da AEBAS decorria por conta da contribuição de seus associados, dos convênios mantidos com secretarias municipais e estaduais, dos recursos levantados em campanhas e eventos, do convênio mantido com a AMENCAR, e do que era alavancado por meio de projetos. A direção mantinha-se constantemente desafiada a ampliar o quadro de seus associados, buscar novas parcerias e gerar novas fontes de sustentação. Eram freqüentes os problemas financeiros, gerados pelo atraso ou não recebimento de recursos no tempo e na quantidade necessários e desejados. Por esta razão, eram também freqüentes as campanhas para arrecadação de doações em bens e espécie, entre o meio empresarial e comunidade em geral.
A comunicação e contato mais efetivo com a sociedade, relegados a segundo plano por um bom período de tempo, começou a preocupar seus atuais gestores, e desta forma em julho de 1996, foi reeditado o boletim informativo, agora identificado como Informativo AEBAS, em cujo editorial pode ser lido: “Estamos começando aqui um velho sonho. Ter um informativo da AEBAS. Através dele podemos chegar até você e falar das ações que são necessárias(...). O Informativo AEBAS nasce para, a cada dois meses colocar você a par dos resultados desse movimento.(AEBAS, Informativo,1996).
Além do informativo a entidade passou a realizar vários eventos, com os quais buscava, além da captação de recursos imediatos, gerar novos associados e divulgar seu trabalho a um número maior de pessoas. Desta forma anualmente aconteciam o Café Colonial Beneficente e as Olimpíadas da AEBAS, além de outros eventos de menor porte que ocorriam dentro da programação dos projetos creche e acompanhamento escolar.
Outro fator importante na vida da entidade, no final dos anos noventa, foi a realização do Planejamento Estratégico da AEBAS 1997 – 2000. A consecução dessa forma de planejamento ocorreu por conta do Acordo de Cooperação mantido entre a AEBAS e AMENCAR/KNH, no qual uma das cláusulas preconizava a realização de um planejamento que permitisse a entidade programar sua atuação com uma perspectiva de cinco anos. Cooperou também para este evento o fato de o presidente em exercício ter larga experiência na área de planejamento, o que facilitou sua execução na entidade.
O planejamento trouxe uma nova experiência a toda equipe de trabalho. Coordenados pela Assistente Social, e utilizando-se de uma metodologia participativa, foram formados grupos de estudo que discutiram e pensaram o projeto da entidade para os cinco anos seqüentes. De todo este debate, foi elaborado o documento que recebeu o Titulo “Planejando para ampliar e melhorar as ações até o ano 2000”, que depois de aprovado pelo Conselho passou a orientar as ações da AEBAS em seu cotidiano.
Neste documento são mencionados desafios que consistiriam as bases do que viria a ser a entidade não só nos próximos cinco anos, mas numa perspectiva de tempo ainda maior. Foram identificados como desafios:
Manter a qualidade e atualização do Currículo - Creche e Acescri; Manter a qualidade dos recursos físicos (bens móveis e imóveis); Implantar um
Projeto Profissionalizante; Implantar um Projeto sistemático de divulgação;Buscar a identificação mais efetiva com as Comunidades Evangélicas; Treinar a geração de mantenedores que no futuro assumirá a liderança da AEBAS; Implantar um Projeto para atuação na área da saúde (Hospital); Implantar a Escola Cristã da AEBAS, com uma nova concepção de educação, e como fonte de sustentação das suas ações beneficentes; Elaborar Projeto na área de Assistência Social voltado às famílias; Elaborar e implantar estratégias de interação com a comunidade; Participar efetivamente nos Conselhos de Direitos; Expandir e qualificar o Projeto Parceiros Solidários. ( AEBAS, Planejamento Estratégico, 1997)
Desta forma, em suas linhas foram semeadas idéias e ideais que sedimentaram a organização nos anos subseqüentes, o que será abordado no próximo tópico.