Em fevereiro de 1955 um grupo de voluntários, ligados à Igreja Presbiteriana e Presbiteriana Independente de Florianópolis, reuniu-se com a intenção de “cuidarem da organização de uma sociedade destinada a fundação e manutenção de um Hospital Evangélico em Florianópolis, e de outras obras de assistência social onde e quando for possível” (Ata nº 1,p1). Nesta primeira reunião foram eleitos, o conselho consultivo composto por onze membros e a diretoria provisória, formada por presidente, secretário e tesoureiro, os quais tiveram como primeira missão elaborar o estatuto da entidade e iniciar sua divulgação na sociedade.
Conforme registram os documentos pesquisados, dos meses de fevereiro a agosto, houve intensa divulgação do projeto, principalmente entre as igrejas evangélicas. Devido a este fato, na segunda reunião informal, estão listados como presentes à reunião vários pastores de outras denominações, que então se agregaram ao empreendimento.
Após a definição e publicação do estatuto, no mês de setembro, iniciou-se uma campanha para captação de associados. Foram nomeados representantes da AEBAS em várias igrejas, não só em Florianópolis mas em outros municípios do Estado de Santa Catarina, pessoas voluntárias que tinham como missão divulgar e entidade e captar associados.
Em janeiro de 1956, de acordo com as disposições do Estatuto, tomou posse o Conselho da AEBAS, eleito na primeira Assembléia Geral Ordinária, tendo nove membros efetivos e nove titulares, os quais, em reunião seqüente, elegeram a diretoria,
composta por presidente, secretário e tesoureiro. Neste período a entidade já contava com duzentos associados.
Para ampliar essequadro foram realizadas várias ações: Campanha do Mais Um, na qual foram emitidas seiscentas cartas encaminhadas a pessoas conhecidas com um convite para se associarem ao projeto, recolhimento de assinaturas em Livro de Ouro, a instituição do Dia do Hospital, no qual as Igrejas estariam levantando uma oferta pró-construção do Hospital Evangélico, e a Campanha para captação de sócios beneméritos. Essas campanhas resultaram no acréscimo de vários associados, de maneira que em junho de 1956 a entidade contava com um quadro de um mil quatrocentos e vinte associados. Segundo registros, havia o cuidado de encaminhar aos associados e autoridades, cartões de aniversário, e congratulações em datas comemorativas.
Nesse período se percebe a primeira manifestação do poder público em prol da entidade, quando o Governador do Estado e um Deputado assinam o Livro de Ouro, fazem doações e prometem apoio à construção do Hospital Evangélico.
A entidade inicia também sua participação efetiva na sociedade. Segundo registro do livro de atas, em abril deste ano, por meio da Radio Guarujá, estavam “ sendo irradiadas três vezes por dia, textos de conselhos médicos, relativos aos surtos de tifo (no Estreito) e paralisia infantil (na Argentina). Esses conselhos são precedidos das seguintes expressões: O Serviço de Educação Sanitária do Hospital Evangélico recomenda:”(Ata nº10,p24).
Ainda no ano de 1956, os associados adquirem sob o sistema de condomínio uma área no sub-distrito do Estreito, onde pretendiam instalar o Hospital Evangélico. Segundo declarações de alguns dos fundadores, a opção pela região do Estreito se deu, porque à época, esta era uma região da cidade desprovida de assistência na área da saúde. No mesmo ano é instalado no Centro de Florianópolis o primeiro escritório da AEBAS, onde passaram a ocorrer as reuniões do seu conselho e diretoria. A entidade contava então com um mil oitocentos e sessenta e dois associados.
Em 1957 a AEBAS alcança o reconhecimento de Utilidade Pública Estadual, e inicia a busca de recursos junto aos órgãos públicos. Registram-se em várias Atas
solicitações para a inclusão do projeto do Hospital Evangélico no Orçamento do Estado. O Prefeito da Capital, faz naquele ano a “doação de quinhentas cabeças de pedras para a construção do alicerce do Hospital Evangélico”. (Ata nº18,p.43).
Tendo em vista a limitação financeira para iniciar a construção do Hospital Evangélico, e desejosos de prestar serviços à comunidade, em outubro de 1958 foi inaugurado no Centro de Florianópolis o Ambulatório Evangélico, no qual passaram a ser atendidos os associados da AEBAS, e “pessoas indigentes”, as quais eram encaminhadas pelas Igrejas associadas ao empreendimento, (Ata nº27). Todo trabalho realizado no ambulatório, consultas em clínica médica e ginecologia, era realizado por voluntários. Para dar suporte aos trabalhos do ambulatório, foi feito convênio com laboratórios de análise clínica, os quais prestavam serviços por um preço menor. Também nesse período, a AEBAS, em parceria com o Departamento de Saúde Pública, promoveu um curso de enfermagem de emergência. O Ambulatório 1 , como passou a ser conhecido funcionou até o ano de 1967.
No ano de 1958 a AEBAS foi reconhecida de Utilidade Pública Municipal. Neste mesmo ano foi publicado o primeiro número de seu Boletim Informativo, o “Bom Samaritano”, em cujo editorial podia ser lido:
Este periódico dará testemunho de que o Ideal de Fraternidade, contido na Parábola do Bom Samaritano se mantém vivo. Permanece frutificando. Continua unindo criaturas em favor do próximo necessitado, sem dele inquirir qual crença religiosa ou convicção política. Sem por embargos a auxílio por motivo cor ou nacionalidade. Será este boletim o porta voz da Assistência Social de Santa Catarina. Cuidará com carinho da incipiente obra do Hospital Evangélico de Florianópolis – a primeira obra projetada pela A.E.B.A.S. Dirá do andamento das campanhas que se encetarem e informará sobre a execução dos serviços. Referir-se-á aos planejamentos que se fizerem de outras obras:(creche, asilo, sanatório, escolas, etc) que, em futuro próximo surgirão em outros municípios do Estado. Nessa linha de pensamento arejado, de conduta firme e clara, esperamos vencer, para o bem do próximo. (AEBA,1958)
Neste informativo podem ser percebidos alguns aspectos que foram determinantes nos primeiros cinco anos do trabalho: a visão de um projeto que não deveria ser limitado a um único objetivo, o desejo de expandir as ações para além das fronteiras do município de Florianópolis, a preocupação em atender a todas as pessoas que dele necessitassem, bem como perpassar a idéia de um trabalho planejado e pensado.
Ainda nesse ano, para dar apoio às obras de instalação do ambulatório e ao mesmo tempo divulgar a AEBAS e seus projetos, um grupo de senhoras organizou-se para produzirem trabalhos manuais, os quais foram vendidos posteriormente na Feira de Trabalhos Manuais. O evento contou com o apoio dos jornais e rádios locais, bem como com o prestígio das autoridades que se fizeram presentes em sua abertura. Segundo registros, à feira estiveram presentes mil trezentos e noventa e três pessoas e o resultado foi de cinqüenta mil cruzeiros (Ata nº27). Essa iniciativa permanece até os dias atuais e já foram realizadas mais de quarenta e oito feiras de trabalhos manuais pró-AEBAS.
Em 1959 a entidade estava em pleno desenvolvimento, aconteciam várias ações no sentido de divulgá-la e de tornar claro à sociedade quais seus objetivos e para o que viera. No Informativo n. V podia ser lido: “ nenhuma criatura humana, normal, poderá viver só para si, ignorando os problemas alheios. As organizações sociais, visam ampliar as possibilidades das criaturas de corações bem formados, no sentido de bem atenderem a problemas que isolados , não seriam possíveis de solucionar-se” (AEBAS,1959).
Muito importante também era a forma como seus gestores concebiam a captação de recursos e a conseqüente sustentação do trabalho. No mesmo informativo, é transcrita parte de uma entrevista que o presidente da entidade havia dado ao Jornal O Estado, na qual se lê:
Desejamos frisar que aqueles que nos ajudam dando ofertas não recebem de nós, materialmente nenhuma retribuição, prêmio algum. Evitamos arrecadar recursos por meio de rifas, bingos ou qualquer sorte de jogo de azar, para não despertar, nas mentes juvenis ou adolescentes ambições de lucro que os conduza ao vício. Também não queremos levar adultos a fazer ofertas tendo em vista algo semelhante a uma contra-prestação de serviços. Os que fazem oferta a nossa Associação realizam-na com um intuito único: auxiliar o próximo necessitado. (AEBAS, 1959).
Mais adiante no mesmo Informativo são identificados os tipos de apoio que entidade precisava e buscava junto à sociedade: apoio espiritual por meio de orações, apoio moral na divulgação da obra que realizava, e apoio material por meio de ofertas e contribuições permanentes (AEBAS, 1959).
Os anos sessenta iniciaram com a AEBAS recebendo seu registro no Conselho Nacional de Serviço Social. Esses anos foram marcados por alguns desafios: a manutenção do foco no projeto do Hospital Evangélico, um verdadeiro desafio, dada a
complexidade do empreendimento e as limitações financeiras da instituição; o desafio de manter o trabalho em funcionamento e ao mesmo tempo ampliá-lo, com a construção do Ambulatório 2 no Estreito para atender a população da região e o desafio de manter a ampliar o número de associados e de pessoas que apoiassem o trabalho.
Em dezembro de 1961 a entidade recebeu em doação uma área de 30 hectares, no bairro do Itacorubi. Os doadores, sócios fundadores da AEBAS e apaixonados pela obra, o fazem sob a condição que ali fosse “instalado, quando possível, além de ambulatório e escola um asilo para velhice” (AEBAS, Relatório das Atividades de 1961, p. 103).
Percebe-se pelos registros pesquisados que tudo era muito difícil, desde conseguir quem elaborasse o projeto do Hospital, o convencimento do poder público para levar até o local onde seria construído o Ambulatório 2 no Estreito a infra-estrutura básica, como água, luz, esgoto e transporte. A morosidade na liberação de documentos, as verbas oficiais que eram pleiteadas, prometidas e que nunca eram atendidas no tempo e na quantidade necessárias e desejadas. Mesmo diante de todos esses entraves, na pesquisa documental, pode-se perceber que vários outros projetos são sonhados e perseguidos, como a implantação de uma escola primária, a criação de cursos profissionalizantes para a comunidade, entre outros, (Ata nº 61,).
A despeito de todos os problemas, da situação do país marcada por vários eventos políticos, econômicos, sociais, em 1967 depois de seis anos de muito trabalho a AEBAS inaugurou o Ambulatório 2 no bairro do Estreito, passando a atender prioritariamente crianças por meio de consultas médicas e de acompanhamento nutricional, nicho da população, que na visão dos técnicos de saúde prestadores de serviço na AEBAS, configurava o contingente mais necessitado de atendimento (Ata nº 88). Para o público adulto eram oferecidos serviços de pequenos curativos e aplicação de injeções.
Com a entrada dos anos setenta, a entidade perde um pouco do entusiasmo percebido nos primeiros anos, decai o número de associados, e as gestões para a divulgação e captação de apoio para seus projetos acontecem de forma isolada e esporádica. Percebe-se neste período a preocupação voltada para a manutenção do que fora até o período conquistado, sem visão de futuro e de ampliação. Iniciativas mais
arrojadas são desconsideradas, o que leva inclusive um grupo de diretores a renunciarem,(Ata nº142).
Ao longo dessa década a AEBAS manteve seu trabalho no Ambulatório 2 do Estreito, e aos poucos pôde ampliá-lo, para o atendimento de mulheres em clínica ginecológica, como também no atendimento odontológico. As atividades foram bruscamente interrompidas em julho de 1977 quando ocorreu um incêndio que danificou boa parte das instalações. As atividades só retornaram após dois anos, neste período a entidade trabalhou para reconstruir o que fora danificado e para reorganizar sua estrutura de trabalho.
A situação começa a mudar a partir do segundo semestre de 1979. Amplia-se o atendimento além do materno-infantil e é instalado um laboratório de análise, elementos que trazem novo ânimo ao trabalho.
Nesse segundo semestre a AEBAS é procurada pela Diakonia, e KNH – KINDERNOTHILFE, Ong’s alemãs que estavam chegando ao Brasil para desenvolverem, em parceria com entidades locais, projetos voltados para a infância e adolescência. A parceria consistia na ajuda para iniciar um trabalho que atendesse inicialmente crianças de três meses a seis anos. Era oferecido apoio financeiro para a construção de uma creche, e posteriormente apoio para a manutenção de parte de trabalho. No Brasil, a KNH estava representada pela AMENCAR – Amparo ao Menor Carente, ong instalada em São Leopoldo no Rio Grande do Sul.
Partindo da visão do trabalho que vinha sendo realizado no Ambulatório 2 no Estreito, no qual crianças vinham para o atendimento e num círculo vicioso retornavam após algumas semanas com os mesmos problemas ou tendo estes agravados, a direção da entidade deliberou por acatar o desafio proposto e iniciou as tratativas para a implantação da Creche da AEBAS.
As primeiras ações constituíram na elaboração do projeto arquitetônico, e o estabelecimento de contato com a LBA com vistas à obtenção de orientação profissional para a montagem do projeto de atendimento na creche que seria construída no imóvel da AEBAS vizinho ao sítio onde já funcionava o Ambulatório (PIEPER e BARTSCH, 1982;
MACIEL, 1985). Esta creche viria atender as comunidades empobrecidas que à época começavam a se formar no entorno do Estreito.
Com a chegada deste novo desafio percebe-se uma reação por parte dos dirigentes da entidade, registram-se iniciativas como campanhas a serem realizadas na sociedade, divulgação em igrejas, ampliação do quadro de associados, e até a contratação de uma empresa de marketing para a elaboração de um plano de divulgação da entidade. (Ata nº 183).
Iniciada a construção, tendo a AEBAS firmado convênio com a LBA, tendo também definido o projeto de trabalho da Creche, iniciou-se o atendimento em março de 1981 em instalações provisórias, anexas ao Ambulatório 2, inicialmente para cinqüenta crianças, número que foi ampliado para cento e trinta após a inauguração das instalações da creche em outubro deste mesmo ano.
O projeto de intervenção, definido a partir das diretrizes do Acordo de Cooperação firmado com a KNH/AMENCAR previa: Atendimento para cento e vinte crianças de seis meses a seis anos, englobando cuidados de saúde, alimentação, acompanhamento psico- social. Orientação às famílias por meio de palestras de assuntos de interesse comum. Para a execução do trabalho foi formada uma equipe composta de um administrador, uma secretária, uma assistente social, recreadores, pessoal de serviços gerais e cozinheiras.
As instalações que abrigavam o Ambulatório 2 e a Creche em seu primeiro estágio, foram alugadas à Policia Militar de Santa Catarina, e os recursos do aluguel vieram compor o orçamento para a sustentação do projeto de atendimento na creche, além dos recursos recebidos por conta do convênio com a KNH/AMENCAR, LBA, e da contribuição dos associados da AEBAS.
Nestes primeiros vinte e seis anos de atividades, se percebe que todo trabalho sempre dependeu muito da vontade e do ânimo de pessoas voluntárias, que destinaram tempo e talento a um projeto voltado para a construção do bem comum em áreas onde havia necessidade de uma intervenção. O trabalho aconteceu de forma participativa, pois verifica-se com bastante freqüência a formação de comissões de trabalho. A entidade era administrada por um conselho e uma diretoria, eleitos pelos associados em assembléia,
para mandatos bianuais. Somente no final dos anos setenta é que a organização passa a contratar profissionais para a execução dos trabalhos. De 1955 a 1979, segundo registros, o número de pessoas contratadas é pequeno, sendo perceptível o trabalho voluntário no cotidiano da organização.
O relacionamento da entidade com outras organizações era bem intenso; já no início de suas atividades, registra-se a AEBAS cedendo parte de seu escritório para uma entidade que prestava serviço de apoio a pessoas encarceradas (Ata nº 17). As Feiras de Trabalhos Manuais, que aconteciam anualmente recebiam apoio de empresários e de órgãos públicos, como também da imprensa. Em 1963 a AEBAS foi convidada para ser a organização local responsável por distribuir em Florianópolis alimentos vindos dos Estados Unidos e destinados à população empobrecida. Este trabalho era feito em parceria com a Confederação Evangélica do Brasil, (Ata nº 62). Foram encontrados registros da entidade sediando cursos e seminários voltados para a comunidade em geral, sempre em parceria com outras organizações (Ata nº 27). Um outro exemplo desta relação com outras organizações está no fato de que, em outubro de 1981, a AEBAS, em comum acordo com os doadores, cede parte do terreno no Itacorubi para que a AMAS – Associação Metodista de Ação Social instalasse ali o Centro Vivencial para Idosos.
A relação com o poder público ou com o meio político local, acontecia de maneira distante e cordial, não havia confrontos ou posicionamentos ideológicos. Os recursos eram buscados com vistas à manutenção do trabalho junto aos ministérios, secretarias, no orçamento público e nas subvenções junto a deputados e vereadores. Dos documentos analisados se depreende que os fundadores, e a direção da entidade entendiam o trabalho que realizavam como uma forma de servir ao próximo, sem levantar questionamentos acerca do posicionamento do poder público em suas ações ou omissões.