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6. Sammenstillende bidrag

6.1 Landskap og landskapsdemokrati

“Jesus, todavia, tem sido considerado digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a estabeleceu. Pois toda casa é estabelecida por alguém, mas aquele que estabeleceu todas as coisas é Deus.

E Moisés era fiel, em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas;” ( Hebreus 3.3-5)

Se considerado o peso da tradição na religião judaica, o escritor de Hebreus já teve uma tarefa muito difícil em seu prólogo, ao apresentar Jesus como sendo superior aos anjos, que dirá nesta parte pouco posterior, onde lhe caberá a tarefa de constituir Jes us numa posição maior que a de Moisés.

Analisando esta questão, Rose D’Angelo diz que o autor de Hebreus, em sua distintiva mão criativa, apresentou Moisés com técnicas exegéticas onde nenhuma citação direta é feita com o próprio Moisés, sendo que, cada degrau interpretativo vai representar um ponto de vista particular do autor124.

Talvez essa argumentação não traga nada de novo, contudo, observando-a mais de perto, é possível considerar que, de fato, o escritor de Hebreus estava documentando a liturgia de um povo bastante arraigado em sua tradição, da qual Moisés era um dos pilares centrais, mas esta carta foi direcionada para os judeus da comunidade cristã, espalhadas nas diversas igrejas da região125, e portanto, o

124 D’ANGELO, Mary Rose. Moses in the Letter to the Hebrews. SLB, Dissertations Series 42. Yale, Scholars

Press, 1978, 36, 37, passim.

125 JOSEFO, Flávio. Op. Cit. p. 315. BAMBERGER,B.J. The Story of Judaism. New York, Schocken Books,

escritor não teria de se esforçar tanto para que o Cristo fosse aceito pelo leitor, uma vez que já havia ocorrido a conversão.

Dessa maneira, todos os esforços do autor de Hebreus, não é no sentido de criar argumentos a fim de obter conversões126, mas sim, com a finalidade minuciosa de delinear uma nova leitura – e aceitável –, objetivando colocar o Cristianismo superior ao Judaísmo.

Considerado este ponto de vista, a avaliação da comparação feita pelo autor entre Moisés e Jesus toma outro rumo. Pois, dizer que o escritor estaria diminuindo a figura de um herói nacional, quando rebaixando Moisés ao patamar de segundo, seria inadmissível para judeus ortodoxos, nascidos e crescidos na Nação de Israel.

Todavia, nesta dialética aparece o fato provável de que a maioria do público alvo do livro de Hebreus, já vivia sob uma influência do mundo exterior à religião.

Dussault127 explica que tradicionalmente, prende-se Hebreus ao mundo do

judaísmo alexandrino, que foi a tentativa de reconciliação entre as culturas judaica e grega. Ressalta -se facilmente em Hebreus, a noção da fé judaica pelo seu caráter de compromisso pessoal, mas especialmente grega, pelo relevo de seu conteúdo intelectual; em sua visão histórica, o dinamismo entre o mundo presente e a realização futura é especificamente bíblico, ao passo que a relação entre as realidades terrenas e as realidades celestes, de cópia a modelo, evoca o idealismo platônico.

126 SCHNEIDER, Joahannes. Op. Cit. p. 25. O autor mostra que em Hebreus 2.1 (Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos) é possível ter uma boa noção de que a carta não a outros senão a judeus convertidos ao cristianismo.

Esta idéia vai ser reforçada com Thompson, quando aponta traços helênicos na obra de Hebreus. Para ele, a concentração de textos baseados na

Paidéia é muito ampla, argumentando que tal exame permite uma avaliação sobre

fatos exteriores na comunidade helênica dos Hebreus, a qual teria um débito com a Paidéia Grega ou com o Cristianismo Platônico128.

Com a finalidade de comparar Cristo com Moisés, o autor de Hebreus se ocupa de uma interpretação de método alegórico, bem aceita para a época. Owen explica que tal método foi usado na mesma época e com bastante sucesso por outros cristãos platonistas129, tal método comparava as narrativas sobre os cultos do Antigo Testamento, apontando para uma outra forma de adoração.

Além disso, as direções da sociedade da época conduziam rumo a um processo civilizatório130, no qual a religião também expressaria este processo por

intermédio de criar seu código sagrado, as Escrituras. Mas, neste caso, Moisés já representava a religião codificada, e não Jesus.

Com isso cria-se mais um impasse, pois Moisés era uma manifestação bastante antecipada desse processo civilizatório na religião judaica, uma vez que ele representava a Lei131, ou seja, o código escrito, a parte intelectual da religião. Com isso, o trabalho do autor de Hebreus, não seria dos mais fáceis: descartar a maior figura da religiosidade judaica, ou no máximo, diminuí-lo a segundo.

Thompson explica que o escritor de Hebreus se ocupa de uma tendência bastante corrente na religiosidade da época, usada não apenas na questão

128 THOMPSON, James W. Op. Cit. 17-40.

129 OWEN, H.P. apud THOMPSON, J. Op. Cit. p. 39. 130 Cf. Capítulo 1, p 24.

Jesus/Moisés, mas em todas as comparações feitas por ele. Trata -se de uma tendência “espiritualizante” de reinterpretação. Valentin Nikiprowetzky também argumentou que os hebreus eram muito influenciados pelas idéias helenistas que criticavam o culto sacrificial132.

Mas é um ponto de vista defendido por Crisóstomo que joga uma clareza maior à Espístola, dizendo que o objetivo principal não é levar o leitor a abandonar o judaísmo, mas sim para abandonar o mundo material133. E essa espiritualização na Espístola de Hebreus não acontecerá apenas nesta comparação entre Cristo e Moisés, mas também nas interpretações acerca do Templo, do Sacrifício de animais, do Sumo Sacerdote e do rei entre outras.

A partir de então pode parecer existir uma incoerência no fluxo das idéias, pois, se a sociedade caminha para este dito “processo civilizatório”, e isto, na religião implicava em abraçar certas práticas em detrimento à outras, passando dos cultos simbólicos e sacrificiais, para o código escrito e documental, o autor de Hebreus parece apresentar o contrário, ou seja, sair de Moisés (que era a representação “viva” da Lei Judaica) para Jesus (que não tinha apresentado um novo Escrito Sagrado substitutivo).

Um princípio básico a ser considerado na religião pode sintetizar e responder a este impasse: O de que a religião, como propõe Mircea Eliade134, primordialmente, é a tentativa de um diálogo com o sagrado (portanto espiritual). Sobre isto Della Torre expõe que a formação espiritual de uma liturgia

132 NIKIPROWETZKY, Valentin apud THOMPSON, J. op. cit, p. 104.

133 CAMBRIER, J. Eschatologie ou Hellénisme dans l’Épître aux Hébreux, Louvain, Nawerlaerts, 1949, 15. 134 ELIADE, Mircea. Aproximações, Estrutura e Morfologia do sagrado. In: Tratado de História das

compreende uma participação “consciente, ativa e frutífera”, dado que a formação litúrgica (por mais desenvolvida que seja a religião) se apóia também [e não apenas] na formação humana e racional. Ele ainda descreve que numa celebração litúrgica deveria haver o moderador, e ainda um outro sacerdote que cuidasse da homilia, a qual segundo Della Torre, definiria a instrução135.

Sendo assim, mesmo que a sociedade greco-romana estivesse influenciando a nova religião, a cristã, forçando-a a se tornar uma religião descritiva, e por mais que uma sociedade tenha influência dentro de qualquer religião, e ainda que isso ocorra nos parâmetros da economia e no sentido hermenêutico, neste segundo, a religião é independente, podendo apelar para a interpretação empírico-espiritualista quando e onde bem quiser, livre de contestação, exceto por outras interpretações (também religiosas)136.

Em discussão acerca da espiritualização de modelos véterotesta mentários, tais como o Santuário e a Oblação feita pelo Sumo Sacerdote, Manson cita R.H.Charles137, que defende a idéia de que teria um culto sacrificial apontando

para um culto celestial, o qual já era bastante familiar havia longo tempo no judaísmo, acrescentando que este tipo de paralelismo entre o celestial e o terrestre, pode ter sido influenciado pelo contato com o platonismo e estoicismo do mundo helênico, mas, como o autor define, há um simbolismo onde mostra que “a liturgia proposta pelo Messias e seu ministério de sacrifício é transcendente (...) e que na Epístola em questão, as palavras ‘melhor e eterno’, sempre aparecem próximas para denotar as realidades cristãs”.

135 DELLA TORRE, Luigi. Curso de Liturgia, Op. Cit, 14-21.

136 BRUNNER, Emil. Dogmática.vol 1, São Paulo, Novo Século, 2004. 75-86. 137 CHARLES, R.H. apud MANSON, W. Op. Cit., p. 124.

Além de tudo, se verificado, o livro de Hebreus jamais descarta a figura de Moisés de sua importância, o que o autor faz é intensificar a importância do Cristo:

“o qual é fiel àquele que o constituiu, como também o era Moisés em toda a casa de Deus.

Jesus, todavia, tem sido considerado digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a estabeleceu.

Pois toda casa é estabelecida por alguém, mas aquele que estabeleceu todas as coisas é Deus. E Moisés era fiel, em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas;”

( Hebreus 3, 2-5)

Tendo tais argumentos em vista, torna -se mais clara a síntese da dialética apresentada até aqui, dialética esta que é constante numa religião em processo de mudança: entre o espiritual e o material, o transcendente e o imanente, o novo e o velho (representados no Livro de Hebreus por Cristo e Moisés); todos pontos relevantes ao longo do texto. Segundo o ponto de vista do autor de Hebreus, parece que é possível tais contrários (Moisés/Lei – Jesus/Adoração) conviverem conjuntamente, e que sempre um, necessariamente, vai ser a continuidade e ao mesmo tempo a ruptura do outro.

Esta dialética existente entre o novo e o velho, entre a tradição e a

religião. A novidade sempre se estabelece e acaba se tornando antiga, para então dar lugar ao novo, que não é outra coisa senão o velho revestido138.

No caso, na Carta de Hebreus, este Novo teria de ser algo que correspondesse ao momento histórico da sociedade, que a saber, influenciada pela moda proveniente da sociedade helênica (intelectualismo)139, deveria apontar algum tipo de documento escrito.

2.1.3. As Questões Políticas na Superioridade de Cristo sobre o Sumo