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La realitat de les aules

In document L’autoestima a l’escola (sider 17-20)

O meu trabalho dividiu-se em três partes interligadas: investigar, filmar, montar. A parte de investigação, teórica e prática, através do trabalho de campo, foi quase intuitiva; filmar seguiu-se, com algumas adaptações ao modo de estar com as pessoas; e cheguei à fase final. Rever o material todo que fui recolhendo foi uma experiência avassaladora. O que fazer com tudo isto? Melhor, como fazer com que tudo isto reflicta aquilo que foi o trabalho de campo? A confrontação com todas as horas de filmagem é uma experiência reveladora. Foi mesmo isto que aconteceu? Muitas vezes já tinha, na minha memória, misturado planos com pessoas, com situações, completamente separadas. Em conjunto com a revisão do material gravado, fui consultando o diário de campo e fui então relembrando todas as horas e e situações que passei de câmera em punho.

A questão seguinte em que debrucei foi a da escolha dos planos. Desde o início do cinema que a escolha de planos, de corte e de montagem funciona como estrutura gramatical, tal como cenas são frases e sequências parágrafos. Tinha, portanto, de criar uma estrutura narrativa com o material recolhido que falasse por si própria, e que demonstrasse visualmente o meu trabalho de campo na Mouraria.

Os critérios para a escolha de cenas passaram por três ordens de factores: primeiro, tinham de ter um mínimo de qualidade de imagem e som; segundo, tinham de ser relevantes; terceiro, tinham de se encaixar com outras cenas e planos numa estrutura narrativa. Muito do material que recolhi não passou no crivo da qualidade som/imagem e fiquei com as minhas escolhas bem mais reduzidas do que planeei.

O primeiro rough cut que fiz tinha uma estrutura completamente diferente do caminho que segui depois. Nesta primeira montagem dei primazia a cenas longas, essencialmente observacionais com pouca ou nenhuma intervenção da minha parte, à excepção da minha presença com a câmera. O resultado foi uma sequência de planos com três situações diferentes: uma “Visita Cantada”, com ênfase no momento do Fado, e foco nas pessoas que estão a assistir, tanto visitantes como moradores da

Mouraria; um excerto de uma conversa com a Inês Andrade onde falamos do problema da desconfiança da população relativamente a projectos novos no bairro e um plano longo seguindo uma distribuição do jornal Rosa Maria.

Foi esta primeira versão que mostrei na sessão “Work in Progress” no FACA - Festa da Antropologia, Cinema e Arte. Falo mais em detalhe desta mostra no capítulo seguinte, mas sublinho já a importância que essa experiência teve na mudança de rumo na montagem. A partir dessa mostra e com base nas reacções e ideias que as pessoas que assistiram à sessão, decidi desenvolver o meu trabalho num caminho menos observacional e com mais intervenção das pessoas no filme.

Impunha-se, portanto, uma revisão do material filmado. Trouxe para à frente da mesa de montagem as entrevistas, os momentos mais “interactivos” e as imagens mais estáveis e seguras. Acabei por compor uma montagem, com três linhas principais, seguindo três pontos chave no trabalho da Associação:

1) como é trabalhar na Mouraria, com os moradores e como lidar com a desconfiança

que vai surgindo com cada novo projecto;

2) o trabalho com o jornal Rosa Maria, e como a sua edição e distribuição fazem a

ligação entre a associação e o bairro e como este se reflete na construção do jornal;

3) o arraial dos santos populares, momento onde se cruzam as vertentes mais

“tradicionais” da Mouraria com as influências dos fluxos imigratórios actuais e a recente gentrificação do bairro.

Para esta montagem deparei-me com um problema de carácter técnico que muito influenciou a versão final de montagem. Uma parte significativa de material em bruto sofreu um erro de formatação e ficou irremediavelmente danificado. Perderam-se algumas horas de imagens e, sobretudo alguns momento interessantes para a construção do filme.

Prossegui, contudo, com a ideia já estabelecida da três linhas temáticas e, acrescentei ainda algumas imagens de uma “Visita Cantada”. Mantive a abordagem entrevista - situação, que me pareceu a mais indicada para o tipo de material que tinha. Não fui excepcionalmente exigente com a qualidade das imagens/som, porque considerei, nesta fase, que para o meu

objectivo o importante era construir um filme que reflectisse a minha experiência de trabalho de campo. Portanto, as imagens incluídas, com todas as falhas e omissões relatam isso mesmo, as minhas dificuldades e impossibilidade de filmar em todas as situações que queria. Considero que tanto expressa uma ideia o que está lá, como o que falta e é extremamente revelador o facto de eu não ter tido autorização/não ter conseguido por vários motivos, para filmar algumas coisas.

Portanto, no fim da montagem cheguei a uma ponto em que foi necessário parar de procurar o aperfeiçoamento e entender o meu trabalho final como aquilo que é, com falhas técnicas e humanas e com bons e maus momentos. O projecto, no seu todo, tentava perceber como é que o trabalho da Associação reflectia as mudanças em curso no bairro da Mouraria e usar a investigação etnográfica e o filme como ferramenta de trabalho. Nesta fase final, ao montar as imagens que recolhi numa sequência lógica, procurei demonstrar ao máximo as minhas impressões não só durante a filmagem mas também durante todo o trabalho de campo que fiz antes, durante todos os meses em que apenas observei e tirei apontamentos.

Ainda acerca do processo de montagem, quero acrescentar que tentei ter o cuidado de deixar transparecer os pontos críticos do trabalho da Associação, embora com a dificuldade óbvia da recusa dos moradores de serem filmados. Sem dúvida que o meu projecto seria muitíssimo mais rico em informação se pudesse ter filmado algumas das pessoas com quem falei ou ouvi falar. Mas, nessa impossibilidade, fica o silêncio no filme, e espero, ter oportunidades futuras para aprender a estabelecer melhores ligações neste tipo de situações onde existe um elevado grau de desconfiança para com o investigador e a sua câmera.

No fim, criei um pequeno filme com sequências lineares, onde alguns dos pontos fortes do trabalho da Associação são abordados. Não obstante, considero que, para uma investigação mais profunda e completa, outros métodos de abordagem têm de ser desenvolvidos para conseguir uma visão mais completa que inclua imagens também de moradores da Mouraria.

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