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L’estudi de la autoestima i l’autoconcepte

In document L’autoestima a l’escola (sider 9-14)

Expus em detalhe o meu percurso de trabalho de campo na parte II.3 -

Escolher os momentos, escolher as pessoas e, como ficou claro nessa secção, nem

todos os momentos que planeei filmar foram de facto filmados e/ou aparecem na montagem final. Para além dos motivos técnico que me levaram a rejeitar algumas das filmagens e outras decisões que irei expor na secção seguinte, quero ainda escrever algo sobre os meus problemas concretos ao filmar.

O grande momento de viragem no trabalho de campo deu-se quando comecei a ligar a câmera. Por mais à vontade que as pessoas já tivessem comigo, ter uma câmera ligada solta o “elefante na sala”. De repente, e de forma subconsciente, eu creio, as pessoas alteram a postura, o tom de voz e procuram as palavras certas na entoação adequada.

Durante trabalho de campo sem a câmera que fiz inicialmente, escolhi quais iam ser os momentos e as pessoas que ia tentar captar, mantendo, claro a abertura necessária para ajustar as filmagens ao inesperado. No entanto, não posso dizer que liguei a câmera e deixei filmar, como se tudo se passasse de forma independente e inconsciente do facto facto de estar ali um dispositivo a captar sons e imagens.

Uma preocupação que tive logo de início, ao começar a filmar aquilo que as pessoas faziam e diziam (sobretudo o que me diziam) foi a de ter espaço para a voz subjectiva. Não tinha como objectivo (muito pelo contrário) captar discursos institucionais, que se ligassem uns aos outros como peças de um puzzle associativo, perfeitamente ensaiado. Queria também ter espaço para a minha própria voz subjectiva dentro do filme; queria, que se transparecesse as minhas próprias dificuldades e visões acerca da investigação etnográfica. Acima de tudo, porque acho que, o que não se vê nas imagens é tão ou mais revelador do que se vê, se a filmagem deixar transparecer os impedimentos encontrados.

Acerca do voz subjectiva no filme etnográfico, relembra David MacDougall 35

que desde sempre que os antropólogos se encontram entres dois pólos de conhecimento, analítico e experiêncial. Esta dicotomia traduz-se entre o estar de fora do trabalho, como intérprete, e estar dentro do trabalho como leitor. A este propósito, relembra as visões de Malinowski e de Lévi-Strauss. O primeiro, teve como pedra angular a ideia de que o trabalho do antropólogo é ver pelo ponto de vista dos nativos, a sua visão do seu mundo; o segundo, postulou que a antropologia é a ciência da cultura vista de fora. MacDougall, assume estas as abordagens, não como opostas, mas sim, interdependentes e complementares.

Como abordar, então, a experiência pessoal com a perspectiva analítica no meu caso concreto? E dentro da experiência pessoal, como abordar a minha experiência pessoal e as visões de cada uma das pessoas filmadas?

Percebi desde cedo que haveriam essencialmente três visões acerca do trabalho da Associação:

1) vindas de dentro da associação ; a maior parte das pessoas com quem interagi e

filmei. Muitas vezes adoptam uma postura defensiva e um discurso automático claramente num reflexo de alguns ataques que já houve ao trabalho da Renovar a Mouraria.

2) visões de fora, contra a associação; curiosamente, a maioria dos moradores que

assumiram uma posição crítica ao trabalho feito não quiseram ser filmadas e muitas nem o nome me disseram.

3) visões de fora, a favor da associação ; pessoas como a Fátima, por exemplo, que não

fazendo parte do grupo, têm alguns projectos em comum e vêm o trabalho feito como vantajoso para o bairro.

As experiências subjectivas, como diz MacDougall, dão-nos leitura de fenómenos sociais fazendo parte de um todo social complexo e multidimensional. Como tal, considero

MACDOUGALL; 1995

que é no conjunto destas visões que se encontra uma leitura mais completa do trabalho da associação e de como reflete a Mouraria, tanto as mudanças mais recentes e os seus traços mais antigos.

Para ter uma visão o mais abrangente possível do trabalho da associação enquanto reflexo das necessidades actuais da Mouraria era necessário ter filmado algum trabalho feito com imigrantes, fosse as aulas de português ou o apoio ao cidadão. No primeiro caso, como já expus, foi-me negado o uso da câmara, podendo apenas observar, tirar apontamentos e falar com as pessoas; no segundo caso, fui eu própria que senti que os casos de apoio ao cidadão (especialmente a imigrantes) eram momentos demasiados privados e era impossível falar com as mesmas pessoas mais do que uma vez, devido à natureza pontual das situações, e criar uma relação de confiança que permitisse o uso da câmara.

No entanto, transparece nas actividades promovidas pela Associação uma forte tendência para criar ligações com as comunidades imigrantes na Mouraria. Isto é notório através de duas linhas de acção: a diversidade de apoios ao imigrante, seja através de aconselhamento burocrático ou de aulas de português e as variedade “festas temáticas” organizadas no bar da Associação. Por “festas temáticas” quero dizer não só festas no sentido mais comum, como também pequenos eventos como dias de refeições de várias nacionalidades cujo fluxo de imigração é forte no bairro, bebidas típicas dessas nacionalidades à venda no bar, música tradicional, etc.

Filmar também foi por vezes problemático nas ruas da Mouraria. As mesmas pessoas que estão ansiosas por partilhar as suas opiniões e histórias com quem pergunte muitas vezes são as primeiras a recusarem ser filmadas. Uma das razões para esta recusa, segundo me fui apercebendo, é o desconhecimento do que se irá fazer com as imagens. Não criei, logicamente, uma relação de proximidade com todas as pessoas com quem falei na rua, fora das actividades da associação. A maior parte das vezes, ia frequentando um café, um largo, um sítio de paragem, ouvia e acabava por meter-me nas conversas, explicar o que andava a fazer ali e ia conversando. No entanto, quando tentava introduzir a câmera, ou andava com ela já ligada o afastamento era imediato. Mesmo com tentando combinar entrevistas com moradores e comerciantes provou ser uma tarefa quase impossível devido ao factor “filmar”.

Apesar de não ter muita experiência a filmar, nos poucos projectos em que o fiz nunca tive este problema. O possível acanhamento inicial devido à presença de uma câmera era rapidamente ultrapassado desde que tivesse havido um período sem câmera para criar uma relação de proximidade e confiança e as pessoas filmadas estivessem inteiramente esclarecidas acerca do projecto em curso e o que ia ser feito com a sua imagem. Tendencialmente prefiro deixar as entrevistas para o fim, e fazer planos gerais de início para que as pessoas de habituem a conviver com a câmera e até ter começado a trabalhar neste projecto posso dizer que não tinha encontrado grandes dificuldades em filmar e conseguir a colaboração necessária.

A explicação que encontro para este entrave está enraizada naquilo que toda a gente com quem falei, sem excepção, me ter dito ser o traço mais vincado dos moradores da Mouraria: a desconfiança, que a acrescer ao facto de eu ser uma estranha, de vir de fora, trazia ainda uma câmera.

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