Como foi mencionado acima, os estudos organizacionais participaram do movimento de guinada histórica na medida em que este campo incorporou em seu quadro teórico de referência novas epistemologias historicamente orientadas (CLARK e ROWLINSON, 2004; BURRELL e MORGAN, 1979). Todavia, algumas considerações sobre os limites deste movimento pela perspectiva histórica nos estudos organizacionais devem ser feitas. Primeiramente, devemos salientar que o interesse pela história na pesquisa organizacional se constitui a partir de múltiplas perspectivas epistemológicas, fato este que leva a certa fragmentação e heterogeneidade na adoção de análise histórica no campo (ÜSDIKEN e KIESER, 2004; CLARK e ROWLINSON, 2004).
Assim, dentro do grupo de pesquisas organizacionais historicamente informadas tem-se o desenvolvimento de perspectivas muitos diferentes, umas de forte traço objetivista – como, por exemplo, os estudos sobre história corporativa ou de negócios que despontaram em meados do século vinte, mas também outras que se caracterizam por serem abordagens de cunho subjetivista, como por exemplo os estudos sobre discurso e poder inspirados em Foucault (CARTER, MCKINLAY e ROWLINSON, 2002), que tem na história um importante pressuposto teórico- analítico. No sentido de contribuir para o entendimento desta diversidade, ÜSDIKEN e KIESER (2004) propõem três categorias comuns de posicionamento assumido pelo pesquisador organizacional engajado na perspectiva histórica, o suplementarista, o integracionista e o reorientacionista.
O posicionamento suplementarista é aquele onde o pesquisador organizacional recorre à perspectiva histórica no intuito de melhor fundamentar seu argumento teórico previamente construído. Nesta perspectiva, a história é apenas mais uma variável de análise empírica a ser considerada no corpus de pesquisa. A maioria dos atuais estudos se enquadra nesta categoria, especialmente pela forte influência do modelo cientificista de pesquisa sobre o campo (herdado do
funcionalismo sociológico). Um exemplo de estudos que adotam a perspectiva histórica pela via suplementarista são as pesquisas sobre estratégia empresarial, que recorrem aos dados históricos (sejam da empresa investigada, sejam do setor econômico em que a empresa está inserida) no intuito de comprovação da teoria- base, em conformidade com a lógica dedutiva de análise científica.
A perspectiva integracionista corresponde ao enriquecimento da teorização organizacional buscado através de links com as humanidades, especialmente com a história, a filosofia e a literatura, sem necessariamente abandonar a orientação pelo cânone científico. Neste aspecto, ZALD (1993) considera que a herança positivista no campo das ciências sociais fez com que o pesquisador desenvolvesse esquemas analíticos que dificultam um adequado tratamento da dimensão subjetiva da realidade social. As disciplinas humanísticas, por outro lado, desenvolveram uma competência mais refinada para se analisar a dimensão subjetiva da realidade. Dois exemplos desta perspectiva apresentados pelo autor são a capacidade da análise semiótica em escrutinar as dimensões ‘não ditas’ dos textos sociais, e o potencial da análise retórica da lingüística em prover um guia substantivo para um melhor desnudamento do caráter ideológico da atividade social. A perspectiva integracionista considera a história uma disciplina importante para o avanço dos estudos organizacionais. Autores desta vertente defendem que tanto a metodologia historiográfica quanto o conhecimento gerado pelo historiador são fundamentais para que o pesquisador das organizações possa ser bem sucedido em seu intento, ou seja, a teorização sobre a realidade organizacional.
A terceira perspectiva, a reorientacionista, considera de forma mais radical o papel da história no campo da pesquisa organizacional. Corresponde a uma redefinição epistemológica do campo a partir das premissas levantadas pelos historiadores e filósofos. Corresponde à proposição de uma nova agenda de pesquisa para os estudos organizacionais, dada pela constatação do caráter a- histórico predominante no campo, que condiciona as concepções do pesquisador sobre a realidade organizacional e influencia seus interesses de pesquisa. A partir desta vertente é que emergem estudos organizacionais alternativos ao mainstream, tais como os estudos de gênero e outros estudos críticos.
Um aspecto fundamental nas pesquisas organizacionais historicamente orientadas é a aproximação destas com a abordagem cultural. Este esforço se explica especialmente pelo fato de que “diferenças entre organizações em diferentes culturas somente podem ser completamente explicadas se a dimensão histórica for incluída na comparação” (KIESER, 1994, p. 609). Realmente, a relação imbricada entre a pesquisa histórica e o estudo da cultura se estabelece no momento que a antropologia se constitui como campo acadêmico, elevando a antiga etnologia para o entendimento de culturas de sociedades arcaicas. Neste momento, a antropologia se estabelece como ciência da cultura no sentido de que procura o entendimento da formação histórica de seu objeto, especialmente sob a influência do estruturalismo, a representação analítica que foi decisiva para o surgimento da noção de ‘tempo longo’ (LÊ GOFF, 1998). Por outro lado, devemos considerar que o entendimento recente sobre a cultura tem sido uma das mais importantes contribuições para a chamada história social, o que, por outro lado, tem levado a dificuldade de delimitação dos campos de atividade do historiador e o antropólogo (LÊ GOFF, 1998; TUCHMAN, 1994).
Assim, neste ponto específico, a pesquisa histórica se apresenta como uma opção para o campo de estudos organizacionais na medida em que a cultura organizacional é observada a partir da forte influência do contexto nacional onde as organizações estão instaladas. Mesmo em estudos de caráter funcionalista tem se verificado este relativismo (p.e. HOFSTEDE, 2001), o que aponta para a necessidade do entendimento da construção histórica destas referências culturais nacionais. Por exemplo, para delinear uma modelagem de categorização do estilo brasileiro de administrar, BARROS e PRATES (1996) recorrem aos textos clássicos sobre cultura nacional brasileira para recuperar os traços que condicionam a atividade gerencial no país.
Todavia, apesar de ser evidente a correlação entre cultura e história, nem sempre as pesquisas organizacionais provêem as condições necessárias para uma proveitosa complementaridade entre estes dois aspectos. ROWLINSON e PROCTER (1999) apontam que os dois subcampos de estudos organizacionais mais profícuos nas temáticas da cultura e da história – os estudos de cultura organizacional e a história empresarial – apresentam certas convenções conceituais
e metodológicas que dificultam ambas as áreas de compartilhar as contribuições que uma oferece a outra. Assim, A história empresarial negligência o entendimento mais sofisticado da cultura enquanto rede de significados, incorrendo em um reducionismo perigoso onde a cultura é uma variável residual, sujeita aos ditames dos modelos da economia ortodoxa8. Por outro lado, mesmo os estudos de cultura mais esclarecidos quanto à dimensão subjetivista da realidade social (por exemplo, aqueles empreendidos nas vertentes do simbolismo organizacional e do pós- modernismo) dificultam a investigação histórica mais profunda ao suspeitar do discurso histórico.
ROWLINSON e PROCTER (1999) também consideram que na abordagem dominante da cultura organizacional a perspectiva histórica é limitada, tendo em conta a redução do contexto histórico à trajetória pessoal do fundador da empresa, pressupondo ser este aspecto o único relevante para a análise organizacional. O grande problema deste reducionismo é a distorção da amplitude histórica que condiciona a complexa rede de significações que representam a cultura. Neste ponto, os críticos do culturalismo organizacional chamam a atenção para a ingenuidade de se crer que “aquilo que executivos e gestores dizem em palavras ou no papel é tido como prova” (THOMPSON e MCHUGH apud ROWLINSON e PROCTER, 1999, p. 372).
Apesar das dificuldades de integração entre os estudos da cultura e a história empresarial, é necessário lembrar que ambos os aspectos são incontestavelmente imbrincados, e, a despeito dos vieses destes campos, somente se pode compreender a cultura pela ampla contextualização histórica. Da mesma forma, a história corporativa e gerencial não se verifica sem a consideração da natureza multifacetada da cultura, que se estabelece enquanto rede se significações a partir de diferentes esferas de análise social (indivíduos, grupos, organizações e nações) e
8 Devemos ressaltar aqui que ROWLINSON e PROCTER (1999) se referem especificamente à
abordagem clássica de história empresarial, ou seja, aquela que se constitui na tradição acadêmica anterior à Chandler, um historiador de negócios que inaugurou uma nova vertente neste campo historiográfico, cuja abordagem será melhor observada no capítulo seguinte.
de todo o conjunto de fatores de manifestação social (simbólicos, econômicos, políticos, tecnológicos, etc.). É nesse sentido que
a cultura (...) não pode ser focalizada como um ‘poder’, ou qualquer coisa que nós possamos atribuir aos comportamentos, mas um contexto (...) onde os acontecimentos sociais, as ações, as instituições ou os processos podem ser descritos de forma inteligível e com densidade. (DAVEL e VASCONCELOS, 1999, p. 95).
Ainda em consideração as possibilidades em relação à pesquisa histórica no campo, devemos destacar que a teoria institucional – uma importante vertente que vem criando força na área de estudos organizacionais – apresenta-se com um enorme potencial em relação à pesquisa histórica nesta categoria de estudos. Tendo sido originada na Economia e na Sociologia, a teoria institucional nos estudos organizacionais vem aumentando seu número de adeptos no campo devido ao fato de que, em suas versões mais recentes9, esta abordagem apresenta uma estreita sinergia com as vertentes epistemológicas que vêm sendo recorridas em um esforço de renovação do viés funcionalista ortodoxo no campo, esforço este necessário para explicar a complexidade dos fenômenos organizacionais. Neste sentido, algumas vertentes da teoria institucional em estudos organizacionais apresentam em seu quadro teórico de referência teorias sociais historicamente orientadas de grande consistência, tais como a teoria da estruturação de GIDDENS (1989). Assim, a contribuição destes estudos institucionalistas reside na maior consistência em revelar a historicidade dos fenômenos organizacionais, com o potencial de fazê-lo com maior vigor analítico do que as abordagens históricas mais simplificadoras10.
Entretanto, é preciso considerar que nos poucos esforços de pesquisa organizacional historicamente orientada existem problemas no que diz respeito ao rigor no uso do método historiográfico de investigação. Neste sentido, JACQUES
9 É importante ressaltar que nem todos os estudos institucionalistas se enquadram neste
movimento de renovação epistemológica no campo de estudos organizacionais, como bem asseveraram MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e CRUBELLATE (2005).
10 Como iremos tratar no capítulo seguinte, uma abordagem historiográfica que deve ser
considerada como institucionalista é a teoria histórica da grande empresa de CHANDLER (1962; 1977; 1990; 1998). Apesar de Chandler não ser diretamente associado aos principais autores do novo institucionalismo dentro dos estudos organizacionais (MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e CRUBELLATE, 2005), seguimos a interpretação de MCCRAW (1998) que os estudos deste historiador foram fundamentais para a inauguração desta vertente.
(2006) chama a atenção para os principais equívocos no campo de estudos organizacionais na aplicação da análise histórica, dentre eles, o diletantismo em relação à prática historiográfica, a fragilidade no uso metafórico da história de guerra em análise organizacional (muito comum em estudos de estratégia empresarial), o anacronismo presente em certas referências à história da humanidade, configurando assim um aforismo anti-histórico, já que “reduz a história a um fenômeno atemporal putativamente ilustrativo” (JACQUES, 2006, p. 41), e a confusão entre estudos longitudinais e estudos históricos. Para este autor, o uso da história nos estudos organizacionais se justifica na medida que este tipo de investigação contribui significativamente para reformulação teórica do fenômeno organizacional. De acordo com JACQUES (2006), a investigação histórica do fenômeno organizacional e da atividade gerencial deve contribuir significativamente para se reformular o entendimento atual sobre estes objetos de estudo, devem “conectar-se com questões atuais no sentido que podem levar a uma perspectiva diferente sobre tais questões” (JACQUES, 2006, p. 43).
Finalmente, a falta de rigor historiográfico nos estudos organizacionais também se verifica indiretamente nos casos de estudos inspirados em teorias sociais fundamentadas na análise histórica, configurando uma postura a-crítica em relação às fontes historiográficas utilizadas (JACQUES, 2006). Por exemplo, ROWLINSON e CARTER (2002) chamam a atenção para a ausência nos estudos organizacionais inspirados em Foucault de uma análise mais acurada sobre os problemas do referencial historiográfico utilizado por este autor, problemas estes que vem sendo apontados por muitos historiadores. Este exemplo é emblemático, pois salienta uma dificuldade latente ao uso da pesquisa histórica pelo pesquisador organizacional, aquilo que JACQUES (2006, p. 39) denomina de problema metodológico, onde “será necessário maior escrutínio rigoroso em nossa produção, com um olho em direção ao método e a metodologia”. Assim, a consolidação da pesquisa histórica no campo de estudos organizacionais prescinde necessariamente de uma preocupação com o rigor metodológico na aplicação da técnica historiográfica, bem como em relação à coerência epistemológica. Por exemplo, um problema relativamente simples – porém grave – que nem sempre é observado pelo pesquisador organizacional no
empreendimento historiográfico é a escolha das fontes de dados, que muitas vezes são poucas e “aceitas a-criticamente como válidas” (JACQUES, 2006).