4. Presentasjon av funn
4.2. Lærernes erfaringer med prosjektet
no início do capítulo anterior, procurará (re)criar as imagens133 (ou o imagi-
nário134) que foram elaboradas pelos gregos e pelos romanos antigos em torno
dos seus heróis. Tais imagens, como não poderia deixar de ser, deram-se a co- nhecer à posteridade por meio das mais diversas fontes históricas; entre estas, as obras de arte (poemas, vasos de cerâmica, estátuas), que foram bastante valorizadas pela École des Annales, como mostrou o capítulo passado.
Por se tratar de livro resultante de um trabalho produzido para o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), bem como para se manter em conformidade com as ideias da Escola dos Anais, este, neste e no próximo capítulo – perceberá o leitor –, utilizou obras literárias também como fontes históricas; assim, as imagens dos heróis greco-romanos que interessaram a esta pesquisa foram sobretudo aquelas que se encontram pelas epopeias dos antigos – Ilíada e Odisseia, de Homero, e
Eneida, de Virgílio – e por algumas das narrativas135 que compõem a obra Metamorfoses, de Ovídio.
Outro motivo também pode ser apontado para a escolha de obras lite- rárias como fontes históricas por parte da pesquisa que resultou neste livro: o fato de serem, os artistas de um modo geral e os poetas de modo particular, as “antenas da raça”, conforme disse Ezra Pound no seu livro ABC da Literatura,136
ou seja, homens capazes de captar, melhor do que quaisquer outros, tudo aquilo que pensam ou sentem (bem como a forma como reagem a esses pensamentos e a esses sentimentos) os que fazem parte do seu grupo social.
Ciente do caráter iccional das fontes históricas que foram utilizadas neste capítulo e no próximo, bem como da subjetividade que é mesmo ine- rente à interpretação desse tipo de fonte (textos literários), o autor deste livro reforçou suas considerações sobre o imaginário que se criou em torno do herói da Antiguidade Clássica com base no que já disseram sobre ele pesquisa- dores consagrados na área dos Estudos Clássicos, como Jean-Pierre Vernant, Yvon Garlan, Giuseppe Cambiano, Luciano Canfora, James Redield, Oswyn Murray, Mario Vegetti, Werner Jaeger, Pierre Vidal-Naquet, Maria Helena da Rocha Pereira, Junito de Souza Brandão, Mário Curtis Giordani, Adriane da Silva Duarte e André Malta Campos. Certamente muitos desses pesquisa- dores – senão todos eles – também utilizaram os poemas épicos dos antigos gregos e romanos, bem como narrativas de Metamorfoses, como fontes his- tóricas, ou seja, para a compreensão de todo o universo greco-romano da Antiguidade, ainda que eles tenham se debruçado sobre esses textos apenas para compreender melhor o comportamento do herói greco-latino.
Compreender o herói das antigas Grécia e Roma, o homem que se movimentou pelas narrativas épicas da Antiguidade com a espada na mão sempre em busca de glória, é ter uma imagem (exagerada, em alguns aspectos, é verdade) do guerreiro antigo, do combatente, do grego ou do romano que ia às batalhas defender o seu povo, a sua pátria, a sua cidade, conforme se pode depreender das seguintes palavras de Junito de Souza Brandão, retiradas do terceiro volume de Mitologia Grega:137
O termo herói, comenta Brelich, permaneceu nas línguas modernas so- bretudo com o sentido de guerreiro, de combatente intrépido. E talvez tenha sido este o signiicado mais antigo da palavra e é principalmente esta a conceituação que Homero empresta aos bravos da Guerra de Tróia. [...]
Hesíodo restringiu igualmente o conceito de herói àqueles que comba- teram em Tróia e em Tebas. Efetivamente, excetuando-se a morte, nada realça tanto um número tão grande de heróis como o qualiicativo de combatente. Tal predicado se expressa mais freqüentemente na mi- tologia, mas, logo se verá, ele se encontra presente também no culto. Note-se, de passagem, que o “caráter de combatente” distingue, de certa forma, os heróis dos deuses. É verdade que estes também combatem, ou melhor, combateram, até consolidar sua posição divina, como acon- teceu na Titanomaquia e na Gigantomaquia [...].
Dissemos que o espírito bélico do herói está igualmente presente no culto. Pois bem, um dos motivos principais do culto do herói é a proteção que o mesmo dispensa à sua pólis em guerra. [...]
Não é, porém, apenas sob forma de visões ou mito que se manifestava na Grécia a convicção de que os heróis protegiam efetivamente as tropas de sua pólis, mas essa mesma persuasão alimentava um culto real e verdadeiro (BRANDÃO, 2007b, p. 41-43).
Compreender o herói das antigas Grécia e Roma é debruçar-se, ainda, sobre a imagem que os homens comuns e que os poetas pintaram desse guer- reiro, bem como sobre a imagem que este tinha de si mesmo. Em suma, é conhecer o imaginário que foi criado, na Antiguidade, em torno dessa igura tão importante para o universo greco-latino e que se fez presente, um bom bocado, no cavaleiro medieval, como mostrará o próximo capítulo deste livro.
Como a pesquisa que resultou neste livro teve por objetivo principal mostrar, por meio das novelas de cavalaria da Baixa Idade Média, que o cavaleiro mediévico, apesar de viver numa época em que predominou o Cristianismo, agia, pensava e sentia, em muitos momentos, como o herói da Antiguidade Clássica (época em que predominou o paganismo) e que procurava, cons- cientemente, em certas ocasiões, comportar-se como este, por tê-lo como um exemplo a ser seguido, então ela se enquadra naquilo que a Escola dos Annales chamou de “história-problema”, já que a sua proposta não é a de simplesmente contar a história de uma determinada época, mas a de chamar a atenção para um determinado aspecto histórico, para um determinado “problema”, com o intuito de deixá-lo em evidência, de procurar compreendê-lo melhor.
Por ter trabalhado com a “história comparativa”, por meio da Literatura Comparada, o presente estudo está de acordo com mais uma das propostas da École des Annales para a construção de uma Nova História. E por mos- trado que a Idade Média representa, em boa medida, uma continuação da Antiguidade Clássica, em muitos aspectos, o conceito de “longa-duração”, da Escola dos Anais, fez-se, de certa forma, também presente nesta pesquisa: ele apenas foi substituído pelo termo resíduo, pensado por Raymond Williams e utilizado por Roberto Pontes em sua Teoria da Residualidade. Acontece que o termo resíduo apresenta-se mais livre que o conceito de “longa-duração”, já que este, diferentemente do que acontece àquele, é geralmente pré-ixado em determinado número de anos. E antes que se comece a falar do herói da Antiguidade Clássica, que é o principal objetivo deste capítulo, deve-se dizer que foi somente por uma questão didática que este livro resolveu tratar das imagens criadas em torno do herói greco-romano antes de falar do imaginário medieval em torno do cavaleiro, pois foram as inúmeras intertextualidades que as novelas de cavalaria portuguesas da Baixa Idade Média realizaram com obras literárias das antigas Grécia e Roma, bem como as semelhanças exis- tentes entre os modos de agir, de pensar e de sentir dos cavaleiros medievais com os modos de se comportar e de raciocinar dos heróis da Antiguidade Clássica, que motivaram a presente investigação. Sendo assim, o estudo que resultou neste livro mostra-se adepto do “método regressivo” proposto pela
Escola dos Annales, por procurar, no passado, explicações para determinados aspectos históricos de um dado período.
Feitas essas considerações, deve-se dizer que, no âmbito dos Estudos Clássicos, o termo herói pode signiicar duas coisas. Em primeiro lugar, o indi- víduo resultante da união de um deus (ou de uma deusa) com uma mortal (ou com um mortal), ou seja, o mesmo que semideus, como se pode ver no seguinte excerto do terceiro volume da obra Mitologia Grega.138 O leitor, entretanto,
logo perceberá que esta é uma deinição bastante reducionista:
Via de regra, os heróis têm um nascimento complicado, como Perseu, Teseu, Héracles e muitíssimos outros. Descendem de um deus com uma simples mortal: Minos, Sarpédon e Radamanto, ilhos de Zeus e Europa; Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena, do mesmo Zeus e Leda; Asclépio, de Apolo e Corônis; ou de uma deusa com um mortal: Enéias e Aquiles, frutos respectivamente dos amores de Afrodite e Anquises e de Tétis e Peleu ou, por vezes, lhe é atribuída uma “dupla paternidade”: Teseu é ilho de Posídon e “Egeu”; Héracles, de Zeus e “Anitrião” (BRANDÃO, 2007b, p. 22).
Em segundo lugar, já numa acepção mais ampla da palavra, “um ser humano capaz de superar os limites que separam o homem dos seres co- muns. Sua existência é devotada à busca do Espírito, seja este o Graal ou um elixir da imortalidade”139 (JULIEN, 2005, p. 109). Dito isso, veriica-se que
a segunda acepção parece ser a mais interessante das duas, já que abarca, em si, de certa forma, a primeira; ainal de contas, Hércules140 (ilho de
Júpiter141 e de Alcmena), Perseu (ilho de Júpiter e de Dânae) e Aquiles
(ilho de Tétis e de Peleu), por exemplo, foram considerados heróis não simplesmente pelo fato de terem nascido da união de deuses com mortais, mas, principalmente, pela maneira superior como se comportaram, pelo tipo de vida ímpar que levaram, pelas qualidades morais e pela bravura so- bre-humanas que possuíram, pelos grandes propósitos que os moveram e pelos ideais de triunfo que os guiaram. Aliás, Brandão, no seu livro supraci- tado, chamou a atenção para a etimologia da palavra herói, que não signiica “aquele que nasceu da união de um deus com uma mortal”, mas sim “o guardião, o defensor, o que nasceu para servir”. Isto serve para reforçar o que foi dito acerca do herói; ou seja, que ele é dado a conhecer não pela sua origem divina, mas antes pelos seus atos:
Etimologicamente, h3rwv (héros) talvez se pudesse aproximar do in- do-europeu servā, da raiz ser-, de que provém o avéstico haurvaiti, “ele
guarda” e o latim seruāre, “conservar, defender, guardar, velar sobre,
ser útil”, donde herói seria o “guardião, o defensor, o que nasceu para servir” (BRANDÃO, 2007b, p. 15).
Ainda sobre a origem dos heróis, Junito de Souza Brandão, apoiado nas palavras de Farnell, airmou que nem todos eles nasceram de deuses, de modo que nem todos podem ser chamados de semideuses:
[…] os heróis seriam tanto seres humanos quanto divindades particu- lares, ou seja, uma verdadeira mistura ou fusão de tipos, uma vez que, para Farnell, os heróis não possuem a mesma origem, apresentando-se escalonados em sete categorias. Desse modo, teríamos desde heróis de origem divina até os simplesmente criados por eruditos e poetas... A teoria conciliatória de Farnell fez e ainda faz sucesso, pois até mesmo o seguríssimo Nilsson a abraçou, ao airmar que os heróis constituíam um grupo muito heterogêneo (“the heroes were a very mixed company”). Neste grupo promíscuo o erudito sueco incluiu as divindades locais decadentes, os ancestrais das grandes famílias, personagens históricas e algumas outras categorias (BRANDÃO, 2007b, p. 17).
Porém, ainda que não necessariamente tenham sido ilhos de um deus ou de uma deusa, Pierre Vidal-Naquet, em seu livro O Mundo de Homero, ao se referir aos ilhos de Afrodite, Tétis e Zeus que lutaram na guerra de Troia (Eneias, Aquiles e Sarpédon, respectivamente), adverte que “A maioria dos heróis [...] descende, de forma mais ou menos direta, do próprio Zeus”. O mesmo ele diz acerca da origem dos reis, com base em Homero:
Duas deusas têm ilhos entre os heróis envolvidos. Afrodite é mãe de Enéias; seduziu Anquises, primo de Príamo; além disso, deve a Páris- Alexandre ter recebido o pomo que a fez suplantar em beleza tanto Hera como Atena. Tétis é uma das Nereidas, divindades marinhas que o poeta se permite enumerar no início do canto XVIII da Ilíada. Mas ela goza de um estatuto muito diferente do de Afrodite. Seu ilho Aquiles é legítimo. Tétis desposou um mortal, Peleu, porque lhe foi profetizado que teria um ilho mais poderoso do que seu pai. Zeus, rei dos deuses, é o pai de Sarpédon, rei dos lícios, engajado no campo troiano. Seu escanção, Ganimedes, é um príncipe troiano. A maioria dos heróis, dos “reis”, descende, de forma mais ou menos direta, do próprio Zeus (VIDAL-NAQUET, 2002, p. 63-64).
No que concerne à classe dominante, no alto da escala, sem dúvida al- guma, estão aqueles a que Homero chama de “reis nascidos de Zeus”. Todos têm uma genealogia e, com muita freqüência, ela remonta a um deus e, portanto, mais ou menos diretamente, a Zeus, que, ele mesmo, é pai de numerosos deuses e deusas. Até mesmo o ciclope Polifemo é ilho de Posídon, “o agitador do solo” (VIDAL-NAQUET, 2002, p. 96).
Já Mircea Eliade, do alto de sua sabedoria, ao falar da origem do herói, preferiu não tratar da sua origem divina, mas enfatizar o seu caráter sobre- -humano. Noutras palavras, enquanto a maioria dos pesquisadores procurou a origem do herói lá por cima, ou seja, pelo Olimpo, Eliade olhou para baixo, de modo a compará-lo com os humanos. Para Mircea Eliade, o herói deve ser visto a partir do seu caráter sobre-humano, e não do divino. O historiador romeno naturalizado ianque situa ainda o aparecimento do herói na Era de Zeus, logo depois do surgimento dos homens, como se pode ver a partir deste trecho retirado do livro de Brandão:
Mircea Eliade remata o magníico retrato do herói, traçado por Brelich, com as seguintes palavras: “Utilizando uma fórmula sumária, poderí- amos dizer que os heróis gregos compartilham uma modalidade exis- tencial sui generis (sobre-humana, mas não divina) e atuam numa época primordial, precisamente aquela que acompanha a cosmogonia e o triunfo de Zeus. A sua atividade se desenrola depois do aparecimento dos homens, mas num período dos ‘começos’, quando as estruturas não estavam deinitivamente ixadas e as normas ainda não tinham sido suicientemente estabelecidas. O seu próprio modo de ser revela o caráter inacabado e contraditório do tempo das ‘origens’...” (ELIADE, 1978apud BRANDÃO, 2007b, p. 19).
Ainda que não possuíssem origem divina, ou seja, fossem ilhos de deuses (semideuses) ou descendentes “mais ou menos” diretos de Zeus, os heróis sempre procediam da mais alta nobreza grega, pois geralmente eram ilhos de reis, como atesta o seguinte trecho do já citado livro de Junito de Souza Brandão:
Consoante Rank, o herói descende de ancestrais famosos ou de pais da mais alta nobreza: habitualmente é ilho de um rei. Seu nascimento é precedido por muitas diiculdades, tais como a continência ou a es- terilidade prolongada, o coito secreto dos pais, devido à proibição ou ameaça de um Oráculo, ou ainda por outros obstáculos, como o cas- tigo que pesa sobre a família. Durante a gravidez ou mesmo anterior à mesma, surge uma profecia, sob forma de sonho ou de oráculo, que adverte acerca do perigo do nascimento da criança, uma vez que esta põe em perigo a vida do pai ou de seu representante. Via de regra, o menino é exposto num monte ou num “recipiente”, cesto, pote, urna, barco, é abandonado nas águas, as mais das vezes, do mar. É recolhido e salvo por pessoas humildes: pastor, pescador, ou por animais e é amamentado por uma fêmea de algum animal, ursa, loba, cabra... ou ainda por uma mulher de condição modesta. Transcorrida a infância, durante a qual o adolescente, não raro, dá mostras de sua condição e natureza superiores, o “futuro herói” acaba descobrindo, e aqui as
circunstâncias variam muito, sua origem nobre. Retorna à sua tribo ou a seu reino, após façanhas memoráveis, vinga-se do pai, do tio ou do avô, casa-se com uma princesa e consegue o reconhecimento de seus méritos, alcançando, inalmente, o posto e as honras a que tem direito. Mas, após tantas lutas, o im do herói é comumente trágico. A grande glória lhe será reservada post mortem (BRANDÃO, 2007b, p. 20-21). Como se viu, Brandão, consoante Rank, tratou da origem nobre do herói; dos problemas que geralmente antecedem o seu nascimento; da pos- sibilidade de eles serem abandonados após a sua nascença, em decorrência desses problemas; do despertar de suas virtudes heróicas durante a ado- lescência; do seu triunfo na idade adulta e da sua morte gloriosa. A seguir, trechos dos capítulos “Perseu e Medusa”, “Jasão: o Mito dos Argonautas”, “O Mito de Teseu”, “Os Labdácidas: o Mito de Édipo” e “Tróia histórica, Tróia mítica e as Invasões dos dórios”, retirados dos volumes I e III da obra
Mitologia Grega, de Junito de Souza Brandão, que comprovam o que foi dito
por esse estudioso acerca das origens dos heróis:
[…] o rei de Argos teve uma ilha, Dânae, mas, desejando um ilho, consultou o Oráculo. Este limitou-se a responder-lhe que Dânae teria um ilho que o mataria. [...]
Temendo que o oráculo se cumprisse, Acrísio mandou construir uma câ- mara de bronze subterrânea e lá encerrou a ilha, em companhia da ama. Zeus, todavia, o fecundador por excelência, penetrou na inviolável câ- mara de Dânae por uma fenda nela existente e, sob a forma de chuva de
ouro, engravidou a princesa, que se tornou mãe de Perseu. [...]
[Acrísio] encerrou mãe e ilho num cofre de madeira e ordenou que fossem lançados ao mar. [...] Um irmão do rei [de Sérifo, Polidectes], de nome Díctis, [...] pessoa muito humilde, os “pescou” e conduziu para sua casa modesta na ilha, encarregando-se de sustentá-los (BRANDÃO, 2007b, p. 76).
Filho de Esão e de Polímede ou Alcímede, muito menino ainda, sofreu as amarguras do exílio. É que seu pai, legítimo herdeiro do reino de Iolco, fora destronado e condenado à morte por seu meio-irmão usur- pador Pélias, ilho de Tiro e Posídon. Narra uma outra versão que Esão, já idoso, havia coniado o reino a Pélias, até que Jasão atingisse a maio- ridade. Educado pelo centauro Quirão, foi instruído, entre outras artes, na iátrica. Completada a iniciação, no aprazível monte Pélion, o herdeiro do trono de Iolco, já com vinte anos, deixou o mestre, desceu o monte e retornou à cidade natal. Sua indumentária era estranha: coberto com uma pele de pantera, levava uma lança em cada mão e tinha apenas o pé direito calçado com uma sandália. O rei, que no momento se preparava
para oferecer um sacrifício, o viu e embora não o tivesse reconhecido, icou muito assustado, porque se lembrou de um oráculo segundo o qual “deveria desconiar do homem que tivesse apenas uma sandália”, isto é, de um monosa/ndalov (monosándalos), como diz Apolodoro. Jasão permaneceu cinco dias com o pai e no sexto apresentou-se ao tio e reclamou o trono, que, de direito, lhe pertencia. Pélias concordou, desde que Jasão lhe trouxesse da Cólquida o Velocino de Ouro, que es- tava em poder de Eetes. Consoante uma variante, foi o próprio herói que se obrigou a tão grande empresa. [...]
Seja qual for o móvel da expedição, o ilho de Esão ordenou que um arauto convocasse príncipes e heróis para o magno cometimento (BRANDÃO, 2007 b, p. 175-176).
Herói essencialmente de Atenas, Teseu é o Héracles da Ática. [...] Como todo herói, “o ilho de Posídon” teve uma origem deveras com- plicada. Segundo o mito, Egeu, rei de Atenas, não conseguindo ter um ilho com várias esposas sucessivas, dirigiu-se a Delfos para consultar Apolo. A Pítia respondeu-lhe com um oráculo tipicamente “Lóxias”, proibindo-lhe “desatar a boca do odre antes de chegar a Atenas”. Não tendo conseguido decifrar o enigma, Egeu decidiu passar por Trezena, cidade de Argólida, onde reinava o sábio Piteu. [...]
De Corinto o rei de Atenas navegou diretamente para Trezena. Piteu, após ouvir recomendações da Pítia, compreendeu-lhe, de imediato, a mensagem. Embriagou o hóspede e, mandando levá-lo para o leito, pôs junto dele sua ilha Etra. Acontece, todavia, que na mesma noite em que passara ao lado do rei de Atenas, a princesa tivera um sonho: aparecera- -lhe Atená, ordenando-lhe que fosse a uma ilha bem próxima do palácio real, a im de oferecer-lhe um sacrifício. Ali lhe surgiu pela frente o deus Posídon, que fez dela sua mulher. Foi desse encontro, nas horas caladas