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2. Faglig forankring

2.1 Mestring, motivasjon og relasjon

Para que se possa entender a importância da École des Annales para a História, enquanto ciência, faz-se necessário realizar uma breve história dessa área do conhecimento. Não começando, como fez Peter Burke em seu livro A Escola dos Annales,104 por Heródoto ou Tucídides, pois não há

necessidade de ir tão longe: a atmosfera cientíica do início do século XX (época em que mais ou menos surgiu a Escola dos Anais105), de acordo com

G. Bourdé,106 já é capaz de explicar, por si só, bastante coisa, pois se sabe

que foi nesse período em que, por motivação histórica (qual seja: a Segunda Revolução Industrial, que possibilitou o avanço da industrialização e, conse- quentemente, o desenvolvimento do capitalismo), imperaram o cientiicismo e, indissociável deste, o positivismo. Isso signiica dizer que, para que um estudo alçasse o valor de cientíico, ou seja, para que uma área do conhe- cimento fosse considerada ciência, todas as suas airmações deveriam ser passíveis de comprovação por meio de testes e/ou de mensurações. Para G. Bourdé, certamente foi esse cientiicismo positivista que “azedou” o modo de se escrever a História, uma vez que se passou à

Prioridade do documento escrito, prioridade dos grandes homens e do acontecimento político, militar: no início do século XX, a escola po- sitivista impõe seu estilo, método, objetos de estudo, seu rigor eletivo. Constitui-se em academicismo. Mas as críticas aloram, denunciando as “dosagens farmacológicas positivistas” (BOURDÉ, 1983 apud TÉTART, 2000, p. 105).

Essa História positivista (ou política), diferentemente do que se possa pensar, não vigorou apenas na França ou na Europa, mas em todo o mundo, no alvorecer do século XX. Quem dá prova disso é Peter Burke, quando fala, no seu livro supracitado, das críticas realizadas, tanto na Europa quanto na América, a esse modo de fazer História:

Por volta de 1900, as críticas à história política eram particular- mente agudas, e as sugestões para a sua substituição bastante fér- teis. Na Alemanha, nesses anos, ocorreu a chamada “controvérsia de Lamprecht”. Karl Lamprecht, professor em Leipzig, colocava em opo- sição à história política – nada mais do que uma história de indivíduos – a história cultural ou econômica, considerada como a história do povo (BURKE, 1997, p. 20).

Odalia também aponta o cientiicismo positivista como a primeira fonte de insatisfação dos ainda iniciantes historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre – que, mais tarde, seriam os criadores da École des Annales – para com o objeto e o método historiográicos de então:

A insatisfação que os jovens Marc Bloch e Lucien Febvre demons- travam, nas décadas de 10 e 20, em relação à história política, sem dúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas complexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes – homens ou países – ignorando que, aquém e além dele, se situavam campos de forças estruturais, coletivas e in- dividuais que lhe conferiam densidade e profundidade incompatíveis com o que parecia ser frivolidade dos eventos (ODALIA, 1997apud BURKE, 1997, p. 7).

Essa necessidade premente da “prioridade do documento escrito”, aliada a um “método” carregado de “rigor”, deve ter mesmo tirado o sono e a paciência de Bloch, de Febvre e de muitos outros historiadores da Europa e da América. Como pesar ou medir, por exemplo, coisas de natureza simbólica ou das quais se tinha apenas um pequeno vestígio material? Como conseguir documentos escritos capazes de comprovar tudo aquilo a que os historia- dores só tinham chegado por meio de hipóteses?107 Pior: como reproduzir,

passo a passo, da forma como exige o método cientíico, as condições de vida duma época bastante remota, para se chegar à conclusão verdadeira dos fatos? Como negar a presença do povo na realização dos fatos históricos? Os histo- riadores do inal do século XIX e do início do XX (entre esses, Charles Péguy, F. Simiand e Henri Berr) logo perceberam que o cientiicismo positivista antes atrapalhava (porque engessava, paralisava) a (re)construção dos fatos histó- ricos que o contrário. Por isso, não tardaram, nessa época, a aparecer fortes

críticas ao modo positivista de fazer História. Aliás, Burke chama a atenção para o fato de que as primeiras reações à História política já tinham sido esbo- çadas, literalmente, em obras de historiadores de meados do século XIX, como se pode ler no seguinte excerto:

Mesmo no século XIX, alguns historiadores foram vozes discor- dantes. Michelet e Burckhardt, que escreveram suas histórias sobre o Renascimento mais ou menos na mesma época, 1865 e 1860, respec- tivamente, tinham uma visão mais ampla da história do que os segui- dores de Ranke. Burckhardt interpretava a história como um campo em que interagiam três forças – o Estado, a Religião e a Cultura –, enquanto Michelet defendia o que hoje poderíamos descrever como uma “história da perspectiva das classes subalternas”, em suas pró- prias palavras “a história daqueles que sofreram, trabalharam, dei- nharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofri- mentos” […].

Não podemos esquecer que a obra-prima do velho historiador francês Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga (1864), dedicava-se antes à his- tória da religião, da família e da moralidade, do que aos eventos e à política (BURKE, 1997, p. 18-19).

Contudo, a primeira investida de sucesso contra a História positivista foi mesmo a dos historiadores econômicos, cujos maiores representantes, na França, foram Henri Hauser e Ernest Labrousse, que enfatizaram, nos seus estudos historiográicos, o fator econômico em detrimento do político. Sobre isso, falaram, respectivamente, Burke, com base em discursos de Hauser, Sée e Mantoux; Tétart e Duby:

Os historiadores econômicos foram, talvez, os opositores mais bem organizados da história política. Gustav Schmoller, professor em Estrasburgo, nesse tempo pertencente à Alemanha (1872), por exemplo, foi o cabeça de uma importante escola histórica [...]. Na Grã-Bretanha, alguns estudos clássicos de história econômica, como os de William Cunnigham, Growth of English Trade, e J. E. Thorold Roger, Six Centuries of Work and Wages, datam de 1882 e 1884, res- pectivamente […]. Henri Hauser, Henri Sée e Paul Mantoux, na França, começaram a escrever sobre história econômica no inal do século XIX (HAUSER, 1899; SÉE, 1901; MANTOUX, 1906, apud BURKE, 1997, p. 19).

Reação conjuntural, a prioridade do político, do militar, da nação, é su- plantada pela questão de atualidade da economia. Em torno dos traba- lhos de Henri Hauser (1866-1946) e de Ernest Labrousse (1895-1988),

a história econômica abre seu caminho. [...] Coroando esta evolução, a primeira cátedra de história econômica da Sorbonne é criada em 1927 (TÉTART, 2000, p. 108).

Na época a que me reiro, a maioria dos historiadores consagrados limitava-se ainda ao estudo do poder, político, militar ou religioso, em suas manifestações exteriores. Empenhavam-se em reconstruir uma cadeia de acontecimentos, pequenos e grandes, questionando-se sobre seus protagonistas e suas causas acidentais, ou então consideravam a evolução e o jogo formal das instituições. Desde o início dos anos trinta, entretanto, abrira-se uma frente pioneira sob o impacto do grande abalo que sacudiu na Europa as bases da produção e das trocas. Historiadores mais empreendedores, e que se multiplicavam, haviam voltado sua atenção para os fenômenos econômicos. [...] Colhiam bra- çadas de dados numéricos nos livros de contabilidade, nos recensea- mentos e inventários, desenvolvendo métodos estatísticos ainda sumá- rios para tratar este material (DUBY, 1993, p. 9-10).

Acontece que o aspecto econômico, apesar de quantiicável, ou seja, de seu caráter quantitativo, abria a possibilidade para o estudo da distribuição de riquezas numa dada sociedade e, consequentemente, para o estudo das classes subalternas, justamente aquelas que tinham icado de fora, nos estudos historiográicos da segunda metade do século XIX e no início do século XX, e sobre as quais muitos dos historiadores gostariam de falar, como se pode depreender a partir destas palavras de Georges Duby:

Antes de me tornar propriamente um historiador, orientara-me, com a ajuda deste mestre108, para uma outra concepção da história. Muito mais carnal, saborosa e útil que a concepção supericialmente centrada nos indivíduos excepcionais, príncipes, generais, prelados ou inan- cistas cujas decisões parecem dominar a efervescência dos fatos, era para mim a história do homem comum, do homem em sociedade, e eu sentia que era urgente encetar resolutamente esta história (DUBY, 1993, p. 12-13).

Porém, História de base econômica ainda não era aquilo que muitos dos historiadores da época desejavam, pois o aspecto social das pesquisas historiográicas icava em segundo plano. E foi assim durante muito tempo, mesmo depois do aparecimento da École des Annales, que se deu em 1929. Segundo Duby (1993), “Em 1942, entretanto, a economia ocupava o primeiro plano da cena, relegando a história ‘social’, como comparsa subordinada, a um papel secundário”. Por isso, boa parte desses historiadores insatisfeitos foi buscar em Marx e em Engels subsídios para a construção de uma História

social e totalizante. Não é de se estranhar, portanto, que tenham surgido, logo após a História econômica, as Histórias marxistas ou marxizantes, centradas no estudo das classes sociais; sobretudo no embate entre elas. O marxismo inluenciou bastante alguns dos participantes da Escola dos Anais no início de suas carreiras como historiadores, como se pode ler nos seguintes trechos das obras de Philippe Tétart, Peter Burke e Georges Duby:

Este enfoque inluencia contudo a geração dos “Annales” e seus her- deiros que são sensíveis ao contexto político (idade de ouro do comu- nismo), a essa maneira de abordar a história (social, econômica) através dos conceitos de inversão de relações sociais, de evolução lenta das estruturas materiais, econômicas, sociais, de observação das “massas”, enim reconvocadas pela história. [...] Homens como G. Duby, J. Le Goff, D. Richet, F. Furet, P. Vilar, J.-P. Vernant e outros sofreram, cada qual a seu modo, a inluência marxista (TÉTART, 2000, p. 117). Inclusive a relação entre os Annales e o marxismo diferiu de lugar para lugar. Na França, a simpatia pelo marxismo se acompanhava, geral- mente, de uma certa distância em relação aos Annales, apesar da leal- dade dúplice de Labrousse, Vilar, Agulhon e Vovelle. Na Inglaterra, ao contrário, os marxistas, especialmente Eric Hobsbawm e Rodney Hilton, estavam entre os primeiros a saudar os Annales (Hobsbawm, 1978). Pode-se entender essa acolhida em termos de estratégia intelec- tual: os Annales eram um aliado na luta contra o domínio da história política tradicional. É possível também que os marxistas estivessem impressionados com a ainidade entre a sua história e a dos franceses – não somente devido à ênfase nas estruturas e na longa duração, mas também por sua preocupação com a totalidade, um ideal que foi de Marx antes de ser de Braudel. A ainidade tornou-os mais receptivos à mensagem dos Annales (BURKE, 1997, p. 112-113).

Durante esta segunda etapa de meu itinerário cientíico, cuidei principal- mente de história econômica, e foi então que a inluência do pensamento marxista agiu mais fortemente sobre minha maneira de reletir sobre o passado. Na realidade, eu estava disposto a acolhê-la (DUBY, 1993, p. 77). Muitas vezes ouvi jovens que me escutavam, em Teerã, Caracas ou na China, perguntarem uns aos outros, aos cochichos: ele é marxista? Minha dívida para com o marxismo é imensa, e gosto de reconhecê-la (DUBY, 1993, p. 80).

Sem negar as valiosas contribuições da História econômica, a começar pelo fato de que foi esta a que suplantou a História política, bem como a

contribuição dada pelo marxismo à construção de uma História social, dois jovens historiadores, Lucien Febvre e Marc Bloch, no inal da década de vinte, resolveram, a partir da criação de uma revista (Annales d’histoire économique et

sociale), ampliar os horizontes da análise histórica recorrendo a diversas áreas

do conhecimento – como à Antropologia, à Geograia, à Sociologia (princi- palmente a estas duas últimas) e à Literatura – para (re)construir a história das sociedades, o que certamente serviu para causar um vertiginoso aumento das fontes históricas para esses historiadores e para os que com eles trabalhavam, ou para aqueles que, mais cedo ou mais tarde, a eles se aliaram. Desse modo, nasceu a École des Annales.109 E ainda que a questão econômica constituísse o

“carro-chefe” das primeiras publicações da Escola dos Anais, devido mesmo à natureza da maior parte das fontes utilizadas pelos pesquisadores dessa es- cola,110 o fator social ganhava importância a cada dia e passava a ser explicado a partir de elementos e de fenômenos culturais. Essa explicação dos fatos so- ciais de uma dada civilização a partir do estudo de elementos e de fenômenos da cultura do seu povo, aliada ao caráter subjetivo das fontes ou das interpre- tações das fontes e ao respeito à individualidade do Homem, certamente foi responsável pelo afastamento de muitos dos participantes da École des Annales do marxismo ou das Histórias marxistas ou marxizantes, pois se sabe que estas

inspiram-se no modelo histórico de materialismo dialético proposto por Marx e Engels. Tentando integrar a “totalidade” da história num sistema ideológico, o marxismo reduz Clio a uma “luta de classes” (motor da história), opondo de modo “perpétuo opressores e opri- midos”. Situada no âmago da história, a luta de classes, tornada con- ceito, instrumento e visada, engendra um poderoso determinismo: sozinha, conjugada ao movimento histórico, ela faz história. O acon- tecimento é abandonado (visto como conseqüência, acidente) e o homem não mais existe enquanto indivíduo e sim enquanto elo de sua classe social (TÉTART, 2000, p. 115).

Sobre essa necessidade de procurar explicações para os fenômenos sociais também em fontes eivadas de subjetividade, porque embasadas no pensamento que um indivíduo tinha de si e/ou do grupo ao qual pertencia, Georges Duby disse as seguintes palavras:

Sentíamos a urgência de ir mais além, para junto das forças que não se situam nas coisas, mas na idéia que delas se tem, e que co- mandam na realidade de forma imperativa a organização e o destino dos grupos humanos. E aliás os próprios marxistas mostravam-nos o caminho, pois reconheciam que uma classe só existe eicazmente no momento em que os que a constituem tomam consciência disso (DUBY, 1993, p. 89).

Já sobre o caráter interdisciplinar da pesquisa histórica realizada pela Escola dos Anais desde a sua origem, que resultou, conforme já foi dito, no au- mento de fontes para os investigadores; sobre o caráter subjetivo dessas fontes e das interpretações que os historiadores da Escola faziam dessas fontes; e sobre a importância de se conhecer elementos e fenômenos culturais de um povo para se chegar a uma explicação quanto à estrutura social e a determinados fatos sociais de uma dada civilização, falaram Burke, Duby, Tétart e Odalia:

Em 1928, foi Bloch quem tomou a iniciativa de ressuscitar os planos de uma revista [...]. Novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; contudo, em virtude de sua recusa, Febvre e Bloch tornaram-se os editores. Originalmente chamada Annales d’histoire économique et sociale, [...] Trazia uma mensagem dos editores, na qual explicavam que a revista havia sido planejada muito tempo antes, e lamentavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade de intercâmbio cultural. O comitê editorial incluía não somente historiadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo (Albert Demangeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um econo- mista (Charles Rist), um cientista político (André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache). Os historiadores econômicos predo- minaram nos primeiros números (BURKE, 1997, p. 32-33).

O compromisso de Bloch com a geograia era menor do que o de Febvre, embora seu compromisso com a sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavam pensando de uma maneira interdisciplinar (BURKE, 1997, p. 27).

Não menos decisivo foi meu íntimo convívio com os Annales d’his-

toire économique et sociale. [...] Daquela leitura assídua, extraí dois ensi-

namentos. Que o historiador não deve fechar-se em sua toca, mas acompanhar atentamente o que acontece nas disciplinas vizinhas. Que realizar uma investigação com todo o rigor necessário não impõe a obrigação, no momento de divulgar os resultados do levan- tamento, de escrever com frieza, que o cientista cumpre tanto me- lhor sua função na medida em que agrada ao leitor, prendendo-o e conquistando-o pelos encantos de seu estilo (DUBY, 1993, p. 13-14). Em 1960, Fernand Braudel decidiu criar uma nova revista, Études ru-

rales. [...] E convidou-me a dirigi-la, com Daniel Faucher. [...] preten-

díamos, nas páginas da revista, unir os geógrafos aos historiadores, mas também aos antropólogos, economistas, sociólogos, agrônomos, convencidos de que precisávamos aplicar – no estudo deste imenso campo, o dos campos e campesinatos do mundo – a parte do pro-

grama dos Annales, de longe a mais fecunda, que exortava todas as ciências humanas à cooperação (DUBY, 1993, p. 75).

Febvre, Bloch e depois Braudel e seus discípulos militam para que o historiador dialogue não só com “todos” os assuntos, mas também com o conjunto das fontes disponíveis (escritas, materiais, orais) sus- ceptíveis de fazer falar o homem do passado (TÉTART, 2000, p. 111). Daí a atenção dos “Annales” para com todas as fontes que trazem ensinamentos sobre a história do cotidiano, da civilização material, das crenças, em suma, de tudo o que faz a sedimentação de uma cultura, de uma economia, de uma sociedade num dado tempo, num dado período (TÉTART, 2000, p. 111).

Mas se não pretendo, como historiador da sociedade feudal, limitar minha curiosidade a estes detalhes, se tento compreender o que era uma batalha, a paz, a guerra, a honra, para os combatentes que dela participaram, não me será suiciente expor os “fatos”. Devo esfor- çar-me por encarar as coisas com os olhos desses guerreiros, tenho de me identiicar com eles, que já não passam de sobras, e este esforço de incorporação imaginária, esta revitalização exigem que eu dê “minha contribuição”, como se diz. Algo de subjetivo. A história de hoje re- nuncia à busca ilusória da objetividade total (DUBY, 1993, p. 59).

La Societé féodale marcou-me até em minha maneira de escrever. Lendo

hoje algumas de suas páginas, espantam-me sua juventude, sua ines- gotável fecundidade, suas audácias. Nelas encontro muita coisa que ainda hoje estimula nossas pesquisas, impulsionando-nos para frente. Por exemplo, o convite, na época insólito, a recorrer, na busca de uma melhor compreensão do comportamento dos guerreiros do século XII, ao testemunho da literatura de divertimento que os encantava, das canções de gesta e dos romances de cavalaria que lhes propunham modelos de comportamento (DUBY, 1993, p. 14-15).

Com efeito, ao contrário de Braudel, cuja maneira de escrever a his- tória deriva de uma conjunção entre as abordagens do geógrafo e do economista, e que confessava sem reticências hesitar arriscar-se pelo terreno da cultura, principalmente do religioso, Lucien Febvre, de sua parte, extraindo sua informação mais das obras literárias que das cartas e muito mais do que das estatísticas, sentia-se mais à vontade neste terreno que em qualquer outro (DUBY, 1993, p. 87).

Abre-se, em conseqüência, o leque de possibilidades do fazer historio- gráico, da mesma maneira que se impõe a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a outras ciências do homem os conceitos e os instru- mentos que permitiriam ao historiador ampliar sua visão do homem. Como em Michelet, não se desprezava o subjetivo, a individualidade, como em Marx ou em outros historiadores que assentavam suas aná- lises no econômico e no social (ODÁLIA, 1997 apud BURKE, 1997, p. 7).

Esse caráter interdisciplinar da École des Annales deve ser visto antes como um meio do que como um im. Para conseguir alcançar seus objetivos (bastante inovadores para a época, vale salientar), que eram, principalmente, resolver determinadas questões históricas, ou tratar de determinados assuntos especíicos no que se refere à história dos povos, da forma mais abrangente possível (e não simplesmente narrar a história das diversas civilizações), e escrever a história de todas as atividades humanas, os historiadores da Escola dos Anais tinham mesmo de se valer das mais variadas áreas do conheci- mento. Só que, conforme se viu, nem todos os participantes trabalhavam com a mesma metodologia ou com as mesmas áreas do conhecimento: al- guns se sentiam à vontade trabalhando com a Geograia e com a Economia, como era o caso de Braudel, ao passo que outros gostavam mesmo de se aventurar pela Antropologia e pela Literatura, como fazia Febvre. Essas di- ferenças entre os participantes certamente foi o que levou Peter Burke, no seu livro inteiramente dedicado à Escola dos Annales,111 a empregar o termo