4. Presentasjon av funn
4.1. Elevenes erfaringer med prosjektet
Com base em conceitos já vistos nos subcapítulos anteriores – mor- mente os de mentalidade, imaginário e residual –, bem como noutros conceitos que serão apresentados ainda neste subcapítulo – como o de hibridismo cul-
tural e o de cristalização –, Roberto Pontes – poeta, crítico e ensaísta, pro-
fessor do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC) – elaborou a Teoria da Residualidade.
Com essa teoria, quis Roberto Pontes, primeiramente, mostrar (sobre- tudo na Literatura) que certos aspectos comportamentais e culturais “vivos” e tidos como pertencentes a um dado momento histórico são, na verdade, traços característicos duma era passada, que foram retomados, por uma pessoa ou por um determinado grupo, de forma consciente ou inconsciente.
Em seguida, articulando diversos conceitos, Roberto Pontes procurou explicar como certos modos de agir, de pensar e de sentir dum determinado conjunto de indivíduos foram parar noutro(s) grupo(s) social(is) tempos de- pois. Para tanto, ele não só tomou emprestado ideias e termos de pesquisa- dores das mais diversas áreas do conhecimento humano (como a História, a Antropologia, a Literatura e até mesmo a Química) como também (re)tra- balhou esses termos, de modo a criar os seus próprios, para aclimatá-los à realidade brasileira. Assim se referiu Roberto Pontes ao seu trabalho de orga- nizador de ideias ains (praticamente todas elas girando em torno da cultura) que se encontravam separadas – porque utilizadas por diferentes agremiações de intelectuais europeus –, bem como à necessidade de uma teoria brasileira que procurasse explicar, sob o viés da herança, da inluência cultural e da interpenetração de culturas, determinados fenômenos literários e culturais:
Observei apenas algumas palavras que foram ditas sobre determinadas realidades. Estas palavras foram aproveitadas e colocadas dentro de um campo de análise e prova. Isto vem a ser o que chamam siste- matização. A sistematização é que termina resultando na teorização (PONTES, 2006, p. 9-10).
Mas a sistematização da teoria da residualidade, com aplicação na cultura e na literatura, esta, sim, é original e vem a ser um marco de pensamento te- órico independente, gerado no seio da Unidade de Literatura Portuguesa do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, fruto de um esforço investigativo conjunto de professores-doutores, alunos de
graduação e pós-graduação, monitores, e alunos-bolsistas PIBIC-UFC- CNPq-FUNCAP (PONTES, s/d, p. 1).
Façamos agora um raciocínio analógico: o grande mérito de compre- ender, classiicar e analisar a cultura e a literatura como resíduo vem a ser o de delimitar um espaço próprio de investigação, procedimento metodológico contraposto visceralmente ao dos demais investigadores acadêmicos brasileiros, quase sempre rendidos a teorias e práticas co- lhidas na França, Alemanha, Inglaterra, Rússia, nos Estados Unidos da América do Norte e noutras paragens. Com esta nova postura teóri- co-crítica abre-se um fosso abissal entre o conhecimento apoiado em base exógena para compreender e analisar o que somos, como somos e o que podemos ser, e o assente em base endógena, cuja capacidade in- terpretativa é muito mais vantajosa e apropriada ao exame do mesmo objeto (PONTES, s/d, p. 2).
Entre os conceitos utilizados por Roberto Pontes na elaboração de sua teoria estão, como já foi dito no início deste subcapítulo, os de mentalidade e imaginário, formulados pela École des Annales ao longo de décadas, como mostrou o subcapítulo 1.2, e o de residual, proposto por Raymond Williams, crítico literário de orientação marxista. Além desses três, tidos por Pontes como aqueles que primeiro o despertaram para a elaboração da Teoria da
Residualidade, existem outros dois, não necessariamente menos importantes
que os já citados, uma vez que todos se complementam, ou seja, visto que um não existe sem o outro: o de hibridismo cultural, pensado por Peter Burke em livro homônimo, e o de cristalização, da forma como deste falou o químico James D. Dana no capítulo “Cristalograia” de seu Manual de Mineralogia.
O residual, de Williams, deu lugar, na teoria de Roberto Pontes, ao termo resíduo; o termo hibridismo cultural, de Burke, passou à hibridação cultural, na Teoria da Residualidade; já a cristalização saiu da Química para explicar deter- minados fenômenos culturais ou literários. Em suma, Pontes não se limitou a “costurar” conceitos de diversas áreas ou de diversas correntes de pensa- mento, mas procurou repensá-los antes de os colocar à disposição de seus alunos-pesquisadores e da comunidade acadêmica em geral. O que à primeira vista pode parecer uma simples mudança de nomenclatura de termos, por exemplo, na verdade traz em si uma demorada relexão quanto ao vocábulo que melhor explica determinado processo. Essa escolha da melhor palavra certamente advém do fato de ser também – antes de qualquer coisa e acima de tudo – poeta, o teórico em questão. Exemplo disso foi o fato de Roberto Pontes ter preferido o termo afrobrasiluso, por ele cunhado, à expressão luso-
-afro-brasileiro, que, na sua concepção, transmite a ideia (errônea) de culturas
separadas, ou seja, de culturas que não mantêm contato entre si, por conta da utilização de hífens na sua composição:
O sintagma literatura afrobrasilusa tem vantagens incontestáveis sobre as denominações antes questionadas e outras ainda de uso corrente, pois seu segundo termo se compõe por aglutinação, com a perda do limite “vocabular entre duas formas que se reúnem por composição ou por derivação e assim passam a constituir um único vocábulo fonético”, tal e qual nos ensina J. Mattoso Camara Jr. O mesmo autor nos diz que a justaposição reúne “duas formas lingüísticas num vocábulo mórico, quando, ao contrário da aglutinação, cada forma se conserva como um vocábulo fonético distinto em virtude da pauta acentual; ex.: pré-
-histórico, [...] guarda-chuva. [...] Também há nomes adjetivos, compostos
por justaposição [...] como a associação de dois nomes gentílicos (luso-
-brasileiro)”. A pragmática da justaposição é, pois, manter separados os
elementos do lexema; já a da aglutinação é, como vimos, nominar algo que se fundiu deinitivamente, a não ser que coloquemos em dúvida o saber de J. Mattoso Câmara Jr. [...] De modo que, em afrobrasilusa, deve vir em primeiro lugar o elemento morfológico que sugere a idéia de mais remoto historicamente; o segundo deve ser o que patrocina a idéia de liame, de ponte, e este só pode ser o referente ao Brasil, pois é neste país que a fusão das etnias se aperfeiçoa, visando a integração e o entendimento mútuo; a Portugal cabe o fecho fonológico-ortográico deste neologismo porque, em qualquer ritual, são lugares de honra sempre o primeiro e o último, os quais cabem aqui, respectivamente, aos africanos, que hoje reinventaram a Língua Portuguesa, e aos lusi- tanos, que a modelaram a partir do Lácio. A nós, brasileiros, cabe-nos a alegria de desempenhar a função de elo aglutinante nesta palavra sonora e bela que muito bem exprime a realidade nova de uma literatura
afrobrasilusa (PONTES, 1999, p. 165-167).
Assim, Roberto Pontes deve ter preferido o termo hibridação, ao invés de hibridismo, pelo fato de o suixo do primeiro vocábulo transmitir me- lhor a ideia de ação, de dinamismo, de algo em constante mudança, em andamento, em processo, como de fato acontece com as culturas a todo momento; ao passo que o segundo vocábulo transmite apenas uma ideia de doutrina, de uma teoria ou de um pensamento capaz de explicar como ocorre determinado fenômeno.
O conceito de cristalização, na Teoria da Residualidade, também foi re- trabalhado. Como suas origens remontam aos estudos dos cristais, ou seja, à Química, então ele já não tem o signiicado que Peter Burke atribuiu-lhe em seu livro Hibridismo Cultural,127 comumente utilizado nas Ciências Sociais, ou
seja, o de ser um período em que, após determinadas trocas culturais, tudo “vira rotina e se torna resistente128 a mudanças posteriores” (BURKE, 2006,
p. 114). O termo cristalização, da forma como foi pensado por Pontes, relacio- na-se ao reino de um elemento cultural, como acontece ao melaço de cana ao
se transformar em açúcar, ou então à simples transformação de um elemento cultural em outro.
Ainda no âmbito das mudanças operadas por Roberto Pontes sobre os termos por ele utilizados na construção de sua teoria, não há como esquecer o descarte que o teórico cearense realizou do caráter inconsciente do residual, de Raymond Williams, de modo a considerar como resíduo tudo aquilo que re- manesce do passado, independente de ter sido retomado de forma consciente ou inconsciente por parte de um indivíduo ou de um grupo ou camada social. Acontece que Pontes, como muitos antropólogos contemporâneos,129 sabe
das diiculdades de se provar a (in)consciência de um ato praticado por um indivíduo ou por um agrupamento social.
Apenas as ideias em torno de mentalidade/imaginário, da Escola dos Anais, parecem ter permanecido intactas na Teoria da Residualidade, conforme se pode depreender a partir das palavras de Roberto Pontes sobre esse con- ceito. Agora, as palavras deste quanto aos lindes disciplinares da Teoria da
Residualidade. Depois, os conceitos de resíduo e de mentalidade130 por ele for- mulados, para mostrar o quanto sua teoria está consoante com as ideias da Escola dos Annales e com os pensamentos de Raymond Williams.
Ora, ao Norte da teoria da residualidade se situa a História, mormente a “Nouvelle Histoire” surgida com a “École des Annales” e, mais especii- camente, a História das Mentalidades. A princípio é mister esclarecer que há quem reconheça a importância da História das Mentalidades e quem se oponha frontalmente a este constructo teórico. Da nossa parte, reco- nhecemos a validade deste ramo recente e particular da História, bem como compreendemos ser o conceito de mentalidade bem mais extenso do que podemos imaginar. Por isso, cumpre não só aos historiadores, mas a quem se dispuser a trabalhar com os resíduos mentais objetivamente expressos na cultura, ir mais longe, como sugeriu Jacques Le Goff, “ao encontro de outras ciências humanas” (PONTES, s/d, p. 3-4).
Ao Sul, a teoria da residualidade conina com a Sociologia e a Antropologia, sobretudo com o vigoroso pensamento de Raymond Williams, ex- -professor nas universidades de Oxford e Cambridge. Williams foi o único a dedicar, antes de nós, duas páginas a respeito da residualidade. Suas observações se acham num capítulo de Marxismo e Literatura. Além deste livro, importante se faz a leitura de outro, do mesmo autor, intitulado Cultura. Antes de Williams já estava nesta mesma área de lindagem o sociólogo brasileiro Guerreiro Ramos, em cuja obra fomos encontrar pela primeira vez o “insight” da residualidade. Seu livro Introdução à cultura nos revelou estar a visão de mundo de uma época muito bem posta em determinadas obras literárias, de modo que estas são expressões de mentalidade epocal; do mesmo modo nos
convenceu ser a obra considerada erudita não mais do que o reinamento, isto é, a cristalização do substrato inventivo popular (PONTES, s/d, p. 4). Ao Leste, temos a investigação da Geologia, em cruzamento com a da Estética e da Fenomenologia de Gaston Bachelard. Isto ocorreu porque ao elegermos o conceito de cristalização veriicamos que a Mineralogia já dispunha de um repertório teórico sólido respeitante aos cristais, de modo a nos oferecer o mínimo de informações necessárias à cons- trução do conceito de cristalização no reino da cultura. Daí indicarmos sempre aos nossos pesquisadores a leitura do capítulo “Cristalograia” do Manual de mineralogia de James D. Dana (PONTES, s/d, p. 5). A Oeste temos por coninantes eruditos do quilate de Fustel de Coulanges, autor de A cidade antiga, uma das obras mais notáveis de interpretação do mundo greco-romano. A leitura das páginas ora indi- cadas, daquele que foi considerado pela melhor crítica o maior histo- riador francês do século XIX, é capital para a compreensão da remanes-
cência de mentalidade no processo civilizatório. A seu lado temos Ernst
Robert Curtius, erudito alemão autor de um monumento ensaístico intitulado Literatura européia e Idade Média latina, livro que nos permite compreender a dinâmica da transmissão formal em arte, dos povos antigos aos contemporâneos. Três eruditos brasileiros somam-se aos dois antes citados. O primeiro é Segismundo Spina, professor emérito da USP, autor de quatro livros mais do que imprescindíveis à veriicação da residualidade poética em nossa literatura de Língua Portuguesa. O segundo é Ariano Suassuna, autor da melhor intro- dução à Estética já produzida entre nós e de outros trabalhos em que solidiica a concepção da arte armorial, hoje bem compreendida, a qual mantém pontos de convergência com a teoria da residualidade. O terceiro é Darcy Ribeiro, o antropólogo que nos deu, talvez, a melhor compre- ensão da nossa nação em seu livro O povo brasileiro. Neste mesmo lado, trabalhando a hibridação cultural, temos Nestor Garcia Canclini, com excelentes aportes que se achegam à teoria da residualidade nas páginas de Culturas híbridas. E ao contributo deste pesquisador vem somar-se o de Massimo Canevacci, na mesma matéria. Ambos têm perspectiva própria para tratar de fatos especíicos mas convergem em suas consi- derações gerais para o universo por nós estudado sob o mesmo con- ceito – hibridação cultural (PONTES, s/d, p. 6-7).
Sobre mentalidade/imaginário, disse Pontes:
Trabalhamos a mentalidade a partir de umas leituras vistas no nosso doutorado de Literatura Portuguesa da PUC-Rio, quando estudamos a
História Nova, ou a Nouvelle Histoire – eis como se chama o grupo de historiadores que, a partir da década de 50 e a partir, também, dos es- tudos da École des Annales, começaram a renovar o estudo da História, na França (PONTES, 2006, p. 10).
Está em Guerreiro Ramos; ele airma que ninguém melhor do que Shakespeare para representar a época em que ele escreveu; ninguém melhor do que Dante para representar, também, a época em que ele escreveu, isto é, a Idade Média já numa certa fase, não toda a Idade Média. Ninguém melhor do que Richard Wagner para representar a época romântica em que ele escreveu e que signiica bem o modo de ser do alemão naquele momento. Então, como é que vamos co- nhecer a mentalidade desses povos, como vamos conhecer a mentalidade desses homens, como vamos conhecer a mentalidade que permaneceu por muito tempo nas culturas? Através do que podemos considerar vestígios, remanescências, resíduos, encontráveis nas obras da cultura espiritual e material dos povos. Porque é através da cultura material que chegamos a compor um painel da cultura espiritual dos povos. Cultura espiritual aqui no sentido de conjunto de idéias, conjunto ide- ológico de um momento. É este o conceito que fazemos de mentalidade (PONTES, 2006, p. 11).
A mentalidade tem a ver não só com aquilo que a pessoa de um deter- minado momento pensa. Mas um indivíduo e mais outro indivíduo e mais outro indivíduo, a soma de várias individualidades, redunda numa
mentalidade coletiva. E essa mentalidade coletiva é transmitida através da
História. Por meio da mentalidade dos indivíduos, a mentalidade coletiva se constrói. E esta última é transmitida desde épocas remotas, e mesmo remotíssimas a épocas recentes (PONTES, 2006, p. 13).
Já sobre resíduo, foram estas as palavras do teórico cearense:
Que é resíduo? Está dito lá no livro Poesia insubmissa afrobrasilusa, está dito na minha tese O jogo de duplos na poesia de Mário de Sá-Carneiro, está dito nos vários escritos que temos elaborado e publicado em Anais e Atas de reuniões cientíicas nacionais e internacionais, em revistas, em livros, que resíduos são aquilo que remanesce de uma época para outra e tem a força de criar de novo toda uma cultura, toda uma obra. O resíduo é dotado de extremo vigor (PONTES, 2006, p. 8).
O resíduo é aquilo que resta de alguma cultura. Mas não resta como material morto. Resta como material que tem vida, porque continua a ser valorizado e vai infundir vida numa obra nova. Essa é a grande importância do resíduo e da residualidade. Não é reanimar um cadáver
da cultura grega, da cultura medieval, e venerá-lo num culto obtuso de exaltação do antigo, do morto, promovendo o retorno ao passado, valorizando a melancolia e a saudade, como izeram os portugueses durante a fase do Saudosismo literário; não é isso. A gente apanha aquele remanescente dotado de força viva e constrói uma nova obra com mais força ainda, na temática e na forma. É aí que se dá o processo da
cristalização. Não posso dizer onde começa nem onde termina a cristali- zação (PONTES, 2006, p. 9).
Resíduos. Remanescências. Permanências. Estas palavras se equivalem, mas é
preferível em nossa teoria e nas nossas investigações priorizar o emprego do vocábulo resíduo a im de ixarmos uma terminologia nossa. Podemos usar os outros termos para explicar. Quando falo de resíduo, falo de rema-
nescência; se digo resíduo, digo sobrevivência (PONTES, 2006, p. 7).
Sobre a indissociabilidade dos termos que compõem a Teoria da
Residualidade, sobretudo no que concerne à forte ligação entre mentalidade/ imaginário e resíduo, falou Roberto Pontes:
Essas coisas podem ser investigadas tanto separadamente quanto em conjunto, porque uma implica na outra e ajudam a esclarecer ao mesmo tempo o objeto investigado. São o que a teoria chama de conceitos operativos, ou operacionais, isto é, indispensáveis à operação do esclarecimento. São, pois, os conceitos operativos da nossa teoria (PONTES, 2006, p. 8).
Quando falo em vestígios, falo em resíduo. A mentalidade não pode se dissociar de resíduo. Quando falamos de um conceito e do outro se- paradamente é através de um artifício didático, mas não podemos in- dicar exatamente onde termina o resíduo e onde começa a mentalidade (PONTES, 2006, p. 10-11).
O termo hibridação cultural, pensado por Pontes, teve por norte o conceito de Peter Burke em torno de hibridismo cultural. Para o professor de Cambridge, o hibridismo cultural dá-se pelo encontro, pelo contato, pela inte- ração ou pela troca de elementos e/ou de fenômenos pertencentes a culturas diferentes. Termos técnicos para se referir a hibridismo cultural, de acordo com Burke, são aculturação, quando há a inluência apenas de uma cultura sobre outra, de forma unilateral, e transculturação, quando se quer enfatizar uma in- luência recíproca entre duas culturas:
A globalização cultural envolve hibridização. Por mais que reajamos a ela, não conseguimos nos livrar da tendência global para a mistura e a hibridização (BURKE, 2006, p. 14).
Os historiadores também, inclusive eu mesmo, estão dedicando cada vez mais atenção aos processos de encontro, contato, interação, troca e hibridização cultural (BURKE, 2006, p. 16).
O que o último exemplo sugere – assim como muitos outros exem- plos – é que devemos ver as formas híbridas como o resultado de encontros múltiplos e não como o resultado de um único encontro, quer encontros sucessivos adicionem novos elementos à mistura quer reforcem os antigos elementos (BURKE, 2006, p. 31).
Um termo mais técnico é “aculturação”, cunhado em torno de 1880 pelos antropólogos americanos que estavam trabalhando com as cul- turas dos índios. A idéia fundamental era a de uma cultura subordinada adotando características da cultura dominante. [...] O sociólogo cubano Fernando Ortiz se aproximou mais da idéia contemporânea de recipro- cidade quando sugeriu a substituição da noção de “aculturação” de mão única pela de “transculturação” de mão dupla (BURKE, 2006, p. 44). Neste caso, está particularmente claro que o hibridismo é muitas vezes, senão sempre, um processo e não um estado (BURKE, 2006, p. 50). Hoje, o termo “hibridismo” aparece com freqüência em estudos pós- -coloniais, na obra de Edward Said, por exemplo. “Todas as culturas estão envolvidas entre si”, escreve Said a respeito de nossa situação atual, “nenhuma delas é única e pura, todas são híbridas, heterogê- neas” (BURKE, 2006, p. 53).
Quanto ao hibridismo, é um termo escorregadio, ambíguo, ao mesmo tempo literal e metafórico, descritivo e explicativo.
Os conceitos de sincretismo, de mistura e de hibridismo têm também a desvantagem de parecerem excluir o agente individual. “Mistura” soa mecânico. “Hibridismo” evoca o observador externo que estuda a cultura como se ela fosse a natureza e os produtos de indivíduos e grupos como se fossem espécimens botânicos (BURKE, 2006, p. 55). Em nosso mundo, nenhuma cultura é uma ilha. Na verdade, já há muito que a maioria das culturas deixaram de ser ilhas. Com o passar dos séculos, tem icado cada vez mais difícil se manter o que poderia ser chamado de “insulação” de culturas com o objetivo de defender essa insularidade.
Em outras palavras, todas as tradições culturais hoje estão em contato mais ou menos direto com tradições alternativas. A segregação só é uma possibilidade no curto prazo, como já vimos, mas não é uma
opção viável em la longue durée. Por conseguinte, as tradições são como áreas de construção, sempre sendo construídas e reconstruídas, quer os indivíduos e os grupos que fazem parte destas tradições se dêem ou