4. Funnkapittel
4.7. Diskursene
4.7.7. Den nyliberalistiske diskursen
As crianças brincam no recreio de brincadeiras e jogos bastante conhecidos: brincadeiras musicais de mão, pula corda, amarelinha, pênalti, pega-pega, entre outras.
Mesmo com muitas regras já estabelecidas, para que a brincadeiras possam fluir, há a necessidade de algumas combinações entre as crianças. Existem também momentos em que alunos vindos de vários contextos sociais conhecem a mesma brincadeira, mas com regras, ou maneiras de executar um pouco diferentes. Dessa forma, nos recreios escolares os alunos ensinam uns aos outros, adequando-se às novas formas de brincar ou, até mesmo, ensinando novas brincadeiras aos colegas que não sabem.
Marsh (2008) utiliza, para definir as formas de ensino/aprendizagem das crianças no playground, o termo “práticas de transmissão”. Este é utilizado pela etnomusicologia e é particularmente relativo aos “modos de transmissão oral e características da oralidade transmitida por materiais textuais, musicais, e/ou
sinestésicos que tanto conservam quanto modificam a performance da música na sala de aula” (MARSH, 2008, p. 5)58.
Para compreender como acontecem os processos de ensino/aprendizagem entre as crianças no recreio, faço o uso de alguns exemplos. Ao final do recreio aconteciam diversas brincadeiras musicais de mão, paralelamente, e
em uma delas um menino não conhecia a brincadeira; Guilherme, do 5º ano, tentou lhe explicar, com palavras, o “como fazer”. Então uma menina interveio, o “pegou” e começou a ensiná-lo a brincar devagar; logo, o aluno entendeu como fazia, e estava realizando a brincadeira devagar, com dificuldade, mas entendeu como ela era (Caderno de campo, 21 de novembro de 2011, p. 32).
Nesse trecho, aparecem duas formas diferentes de ensinar/aprender a brincadeira entre os colegas. A primeira, quando Guilherme explica para o colega como se executa a brincadeira, e a segunda forma, em que a aluna a realiza juntamente com o colega. Guilherme (Entrevista, 13 de dezembro de 2011), do 5º ano, coloca que ele ensina “como a professora [...]. Ensino com palavras, falando como é o objetivo da brincadeira”.
Outro exemplo foi quando
duas crianças do 1º ano começaram a brincar de Evolução, um menino e uma menina. Pude perceber que quem mais a conduzia era a menina, parecendo que ela conhecia melhor a forma de realizar a brincadeira. Eles batiam as mãos de maneira muito mais simplificada do que os alunos mais velhos, apresentando bastante dificuldade na realização. Batiam as mãos devagar e sempre da mesma forma, sendo que os estudantes maiores já dominavam a técnica e faziam bastante rápido, de diversas maneiras. Quando falavam no final souber o nome de..., usavam uma palma para cada sílaba, ao passo que os mais velhos cantavam várias palavras por batida. Após terminar a música, diziam as palavras – que no caso eram nomes de professoras – batendo uma palma por sílaba (Caderno de campo, 23 de novembro de 2011, p. 35).
A menina conhecia mais a brincadeira, mas não dominava suficientemente a técnica para realizá-la. Ela compartilhava com o colega a sua dificuldade, e ao mesmo tempo em que ensinava, também aprendia e melhorava sua execução. Elas ainda aprendiam a coordenar as mãos, o canto, o pulso e o andamento.
58
No original: “Modes of oral transmission and characteristics of orally transmitted genres whereby textual, musical, and/or kinesthetic materials are both conserved and learning of music in the classroom”.
Contudo, não era necessário conseguir “executar bem” ou “dominar” a técnica para que tentassem ensinar a brincadeira para os colegas.
Na fila para na sala, uma menina do 3º ano queria ensinar nova brincadeira musical de mão para as colegas, que uma delas queria aprender. Ela ensinou-lhe como fazia os gestos, mas não a melodia que os acompanhava. A colega aprendeu rapidamente e, então, começaram a brincar; só que a menina que ensinava e cantava não conseguia bater as mãos corretamente, enquanto a outra conseguia realizar e precisava treinar mais. Ela cantava numa intensidade bastante baixa, sendo que nem mesmo a colega podia ouvir (Caderno de campo, 23 de novembro de 2011, p. 38).
Bater as mãos não significa que a criança domina a brincadeira, pois para isso, é necessário que ela consiga coordenar mãos, canto e gestos. Nessa cena as meninas estão em processo de aprendizagem simultâneo. Em outra situação em que houve essa relação,
uma das últimas meninas da fila caminhava ensinando uma brincadeira para as outras colegas. Enquanto as outras observavam, ela fazia os passos e cantava: Nós andamos iguais [2x] pra um lado, pro outro, pra frente e pra trás. Nós andamos iguais...59 Um exemplo
disso pode ser encontrado no seguinte site: <http://www.youtube.com/watch?v=dX8t0mOmS-8&feature=related>. (Caderno de campo, 11 de abril de 2012, p. 89).
Ela ensinava a brincadeira desconhecida para as amigas que, por sua vez, tentavam acompanhá-la e executá-la, mas sentiam dificuldade. Confundiam-se quanto aos passos, observavam a amiga que sabia e depois cantavam para aprender. A menina que conhecia a brincadeira enfatizava a letra da música, cantando em andamento mais lento a parte: “de um lado, pro outro, pra frente e pra trás”, porque então os passos deveriam ser realizados de acordo com o que é dito na letra. No entanto, como o recreio havia acabado, elas logo entraram para a sala e pararam de brincar.
As crianças nem sempre se mostravam pacientes em ensinar aos colegas. Algumas vezes, executavam uma brincadeira para se exibirem às outras. Diante disso,
três meninas do 3º ano brincavam de mão [duas de cada vez], em que tinha de estalar os dedos, mas parecia que uma delas não conseguia fazer isso. Então, as outras duas mostravam como era
feito; não ensinavam o que sabiam, apenas demonstravam suas habilidades (Caderno de campo, 7 de dezembro de 2011, p. 54). Acredito que essa seja uma situação de aprendizagem em que a criança se vê desafiada a conseguir executar o que as colegas conseguem. Mesmo que elas não a incentivassem ou não tentassem ensiná-la, ela via como a brincadeira era realizada.
Outras vezes, quando as crianças que já conheciam a brincadeira e não conseguiam realizá-la num dado momento, os colegas procuravam ajudá-las.
Isso aconteceu com duas meninas que brincavam de mão e não estavam conseguindo executar a brincadeira. Primeiramente, uma demonstrou como se fazia, batendo na parede e cantando a música, e a outra, em seguida, mostrou o seu jeito de bater as mãos para a mesma melodia. Concordaram em fazer do modo da segunda, em que a atividade era menos complexa. Mesmo assim, a segunda menina não conseguiu executar as batidas das palmas; logo, outras meninas pararam para olhar as duas realizando e demonstrando a brincadeira uma para a outra (Caderno de campo, 8 de março de 2012, p. 67).
Cada uma das meninas, nesse caso, conhecia uma forma diferente de bater as mãos. Elas compartilharam, entre si, a forma que conheciam a brincadeira e decidiram, entre elas, a mais apropriada para executá-la. Nessa troca de informações, elas aprenderam uma nova maneira de realizar a brincadeira, sendo que as colegas as observavam (era uma versão diferente da que estavam habituadas a fazer). Não é muito comum que, enquanto as crianças brincam de mão, outras observem, a não ser que algo lhes chame a atenção.
Os gestos também são componentes importantes nessas brincadeiras, e são um grande desafio para a coordenação motora das crianças. Souza F. (2009, p. 18) constatou que no “fazer musical espontâneo das crianças, percebemos que elas são muito hábeis para criar desafios para si mesmas, principalmente em ambientes onde não há instrução por parte dos adultos”.
Outro caso parecido com o anterior acontece quando a própria criança, ciente que não consegue realizar a brincadeira, ensaia separadamente para treinar a parte que não consegue executar. Isso aconteceu com algumas meninas do 5º ano que, “enquanto brincavam de mão com a música Parara, parati..., uma delas fazia muito rapidamente e a colega não conseguia acompanhar. Para treinar ela executou a
brincadeira “com a parede” e, em seguida, voltou para realizá-la com a colega” (Caderno de campo, 16 de abril de 2012, p. 92).
As crianças mencionaram que ensinar e aprender as brincadeiras musicais de mão acontece em um processo contínuo. Elas aprendem e se aperfeiçoam no decorrer dos anos, de acordo com a realização dessas brincadeiras. Luciana, do 5º ano, fala sobre onde e como as aprendeu:
Luciana: Faz tempo. Desde a outra escola. Maíra: Nessa escola você tinha quantos anos? Luciana: Três e meio, quatro.
Maíra: Desde lá você brinca assim... de mão?
Luciana: É. Só que eram mais fáceis as brincadeiras. Maíra: Existe alguma que você aprendeu faz pouco tempo?
Luciana: Não. Eu aprendi todas no ano passado. Ano passado, deu uma bomba de brincadeira de mão.
Maíra: E quem trouxe essas brincadeiras?
Luciana: As minhas colegas começaram a brincar e me ensinaram. Aí eu ensino outras que eu aprendi no conservatório.
Maíra: E como que funciona esse ensino, assim? Como vocês ensinam?
Luciana: Quando descobre uma brincadeira nova, aí a gente pede pra ensinar e aí ensina.
Maíra: Como é que você vai ensinando?
Luciana: É. Ensinando devagar primeiro. Aí depois elas aprendem, aí quer ir rápido... (Entrevista, 13 de dezembro de 2011, p. 217-218). Marsh (2008, p. 155) coloca que “as estratégias empregadas no ensino e na aprendizagem dos jogos apareceram de forma idêntica àquelas usadas por membros de todos os grupos, isto é, criação de modelos, observação e prática”60.
Uma dessas estratégias está relacionada com o andamento. Executar de forma devagar é um procedimento importante para as crianças aprenderem uma brincadeira, enquanto a realização em andamento rápido mostra que elas já conseguem realizá-la.
Muitas vezes, as crianças aprendem com os colegas na escola ou nos diferentes lugares frequentados por elas. As trocas possibilitam momentos de ensino/aprendizagem, como no caso de crianças do 3º ano.
Maíra: Quando foi que vocês aprenderam essas brincadeiras musicais de mão? Vocês lembram?
Felipe: A minha mãe fazia assim...
Maíra: Sua mãe te ensinou quando você era pequeno?
60 No original: “The strategies employed in the teaching and learning of the games appeared to be
Felipe: Sim.
Maíra: E vocês meninas?
Rebeca: Eu aprendi na creche, com uma amiga.
Maria Alice: Eu aprendi aqui no 1º ano, com minha colega (Entrevista, 13 de agosto de 2012, p. 326).
Pode-se perceber que as trocas ocorrem nos lugares e entre pessoas diferentes. As crianças aprendem a música em locais variados como em casa, na creche, na escola, em igrejas, festas etc., e esse aprendizado pode se dar entre crianças, pais, professores, avós, entre outras pessoas que fazem parte do convívio social das crianças.
Marsh (2008, p. 127), coloca que, nas escolas visitadas por ela, “as crianças relataram que aprenderam jogos com membros da família, incluindo irmãs, irmãos, primos, mães, pais, tias e avós”. Diz ainda que a família “fornece uma gama de conhecimentos que formam a base dos jogos musicais exibidos na escola”61.
Portanto, no que tange às brincadeiras já conhecidas pelas crianças, pôde-se notar que a música está presente de forma intensa, fazendo parte das relações que estabelecem não só enquanto brincam, mas também das experiências vividas por elas nos vários espaços sociais frequentados. Ao brincar, as crianças compartilham vivências e conhecimentos, como também as práticas musicais.