3. Metode
3.4. De analytiske stegene
Além das brincadeiras conhecidas, as crianças também criavam outras. O papel que a música desempenhava nessas atividades era semelhante ao das tradicionais: ou a brincadeira não existia sem a música, ou a música funcionava como trilha sonora.
Nessas brincadeiras criadas pelas crianças, também há regras que são construídas por elas enquanto brincam. Brougère (2004, p. 101) coloca que “é o caso das brincadeiras simbólicas, que supõem um acordo sobre os papéis e os atos. As regras não preexistem à brincadeira, mas são produzidas à medida que se o desenvolve a brincadeira”.
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No original: “At every school I visited, children reported learning games from members of their immediate or extended families, including sisters, brothers, cousins, mother, fathers, aunts, and grandmothers. These familial sources provided a rage of knowledge that formed the basis of musical play exhibited at school”.
As brincadeiras se deram no recreio de duas formas: numa delas, as crianças assumiam “personagens” (brincadeiras encenadas) e na outra, as atividades eram criadas pelas crianças – muitas vezes, havia a presença de um líder entre elas. Esse foi o caso quando Igor conduziu os colegas a segui-lo, em que ele dizia o momento de bater mesa, enquanto batia com as mãos abertas sobre ela e em ritmo constante (Caderno de campo, 25 de outubro de 2011, p. 16). Outra vez, brincavam os colegas que faziam diversos tipos de gestos enquanto andavam pelo recreio (Caderno de campo, 23 de novembro de 2011). Outros mantinham o mesmo ritmo e exploravam novos timbres ao bater na mesa com as palmas das mãos.
Pela oportunidade de vivenciar brincadeiras imaginativas e criadas por elas mesmas, as crianças podem acionar seus pensamentos para a resolução de problemas que lhe são importantes e significativos. Propiciando a brincadeira, portanto, cria-se um espaço no qual as crianças podem experimentar o mundo e internalizar uma compreensão particular sobre as pessoas, os sentimentos e os diversos conhecimentos (BRASIL, 1998, p. 28).
Outro exemplo de brincadeiras criadas pelas crianças aconteceu no dia em que Carla, juntamente com duas amigas, criou uma espécie de batizado para algumas colegas.
Para isso, havia um rito no qual ela manda que as duas pulem de lado cantando de ladinho (3x). Logo depois, Carla joga uma gotinha de água na cabeça de cada uma das três que estão sendo batizadas. Terminado isso, ela comemora com um heeeeeeee, pulando (outras amigas assistem a cena, mas não interferem no processo) (Caderno de campo, 24 de outubro de 2011, p. 13).
Carla conduziu e criou a brincadeira, coordenando as amigas para agirem como gostaria. Enquanto cantavam, ensinava a frase musical criada por ela e os gestos (saltos) a serem executados.
Quando se trata de brincadeiras musicais criadas em grupo, é possível exemplificar o caso de Isabela e Larissa, duas meninas que brincavam juntas durante os recreios. Um dia elas “cantavam, se levantavam e sentavam juntas ao ritmo da música. Logo depois elas desceram a escadinha do palco, escorregando as nádegas nos degraus e experimentando um jeito diferente de marcar o ritmo” (Caderno de campo, 13 de dezembro de 2011, p. 55). São formas diferentes de experienciar o corpo para marcar o tempo da música. À medida que associavam
movimento corporal e gestos, elas percebiam que, dependendo do gesto utilizado, diferente era o andamento possível de se cantar a música.
Algumas brincadeiras criadas pelas crianças se basearam em algumas já existentes, como no momento em que
algumas meninas estavam brincando de Evolução, mas de maneira diferente. Executavam-na de forma parecida com o Passa Anel em que todas, menos uma, fica sentada com as mãos no colo em forma de concha e uma fica em pé passando a sua mão, da mesma maneira, entre as mãos das colegas, enquanto cantavam Evolução. Elas brincaram durante certo tempo, mas parece que a acharam chata e mudaram para a forma tradicional (Caderno de campo, 24 de outubro de 2011, p. 14-15).
Quando as crianças usam elementos de Evolução e Passa Anel para criar uma nova brincadeira, elas utilizam conhecimentos já conhecidos, brincando “com o que tem na mão e tem na cabeça” (BROUGÈRE, 2004, p. 105). Além disso, experimentam novas formas de brincar e buscam mesclar informações para gerar novas brincadeiras.
Marsh (2008), ao discorrer sobre as brincadeiras musiais de mão, coloca que esses jogos não se preservam intactos. Segundo ela, “enquanto aspectos identificáveis dos jogos, tais como seleções de textos ou movimentos padrões permanecem em uso, outros mudam” (MARSH, 2008, p. 18)62. Assim, as crianças
conservam algumas características da brincadeira original e mudam outras.
Com a criação de uma nova forma de brincar, também houve mudanças na maneira de cantar a música. Isso porque, para a menina que se deslocava de colega em colega, a música ficava mais lenta e difícil de manter o ritmo constante. Acredito que, por isso, elas não gostaram dessa nova forma de brincar e retornaram à antiga.
Souza F. (2009) percebeu que
partir desse processo criativo, as crianças, não importando seu nível de experiência, geraram novos arranjos para os jogos a partir da combinação de gestos, frases, textos, melodias e fórmulas rítmicas. Demonstrando sofisticação, esses processos incluíram reorganização de elementos musicais; elaboração ou adição de novos materiais; expansão de materiais já conhecidos; condensação, omissão ou contração de fórmulas, entre outros (SOUZA F., 2009, p. 164).
62No original: “While identifiable aspects of the games, such as sections of text or movement patterns,
Tais combinações de frases, gestos, textos, estruturas rítmicas, dentre outros elementos musicais vivenciados pelas crianças puderam ser notadas não só nas brincadeiras musicais de mão, mas também em outras atividades criadas por elas.
Há também momentos em que as crianças brincam sozinhas e improvisam melodias e estruturas rítmicas: “Um menino do 2º ano, ao esperar a entrada na sala, começou a fazer uma dança. Agachado, ele abria e fechava os braços e as pernas rapidamente com bastante agilidade, enquanto cantava uma canção improvisada” (Caderno de campo, 1 de novembro de 2011, p. 25).
Um momento do recreio bastante usado pelas crianças para brincar e criar músicas é a permanência nas filas. Um exemplo interessante foi quando
dois meninos na fila da merenda veem que o lanhe é macarronada e criam músicas com a rima. O primeiro canta: Macarronada [...] tem
pegada, e o segundo: Macarronada [...] namorada. Eles estavam
cantando fortemente, mas no momento de falar as palavras do meio, proferiam-nas com pouca intensidade. Creio que não era para as pessoas escutarem, só os dois que entendiam o contexto (Caderno de campo, 22 de novembro de 2011, p. 33).
Ao criar uma brincadeira, as crianças utilizam-se da música, explorando diversas possibilidades sonoras. Dessa forma, a música faz parte do conjunto de conhecimentos que elas disponibilizam no momento de criarem suas próprias brincadeiras.