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5. Diskusjon/ drøfting

5.2. Dokumentenes dikotomier

5.2.1. Individ vs. kollektiv

Como o significado, a função e a forma de enxergar o brinquedo foram se modificando ao longo do tempo? Procuraremos responder estes questionamentos a

partir das leituras realizadas no livro Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a

Educação escrito por Walter Benjamin (2002); este autor nasceu em 1892 na cidade de Berlim, na Alemanha e faleceu tragicamente no ano de 1940, por suicídio. Filósofo marxista, crítico da cultura de sua época, defendia uma educação proletária, o que segundo Benjamin (2002, p. 8) “desde cedo gerou a recusa radical de vender a alma à burguesia”. Benjamin foi um grande colecionador de livros, objetos antigos e brinquedos, foi um dos estudiosos que têm contribuído de maneira significativa para compreendermos as infâncias, também se dedicou a escrever sobre jogos e livros infantis, temas muito presentes na contemporaneidade.

No capítulo História Cultural do brinquedo, do livro Reflexões sobre a criança,

o brinquedo e a Educação, Benjamin (2002) apresenta-nos que a origem dos brinquedos vem da indústria doméstica e que antes do século XIX os brinquedos não eram construídos pelas fábricas e lojas especializadas, tal como acontece nos dias atuais. De acordo com esse autor, os brinquedos “surgiram originalmente das oficinas de entalhadores de madeira, artesãos, de fundidores de estanho, etc.” (BENJAMIM, 2002, p. 90).

O autor aponta que:

O estilo e a beleza das peças mais antigas explicam-se pela circunstância única de que o brinquedo representava antigamente um produto secundário das diversas oficinas manufatureiras, as quais, restringidas pelos estatutos corporativos, só podiam fabricar aquilo que competia ao seu ramo. Quando no decorrer do século XVIII, aflorara os impulsos iniciais de uma fabricação especializada, as oficinas chocaram-se por toda parte contra as restrições coorporativas. Estas proibiam o marceneiro de pintar ele mesmo as suas bonequinhas, para a produção de brinquedos de diferentes matérias obrigavam várias manufaturas a dividir entre si os trabalhos mais simples, o que encarecia sobremaneira a mercadoria (BENJAMIN, 2002, p. 90).

De acordo com Benjamin (2002, p. 91), na cidade de Nuremberg, localizada na Alemanha, iniciaram-se as primeiras exportações de brinquedos advindos de manufatura e ambientes domésticos para o comércio daquela região:

Os avanços da Reforma obrigaram muitos artistas que até então haviam produzido para a igreja a reorientar a sua produção pelas demandas de objetos artesanais e a fabricarem objetos de arte menores para a decoração doméstica em vez de obras de grande formato. Deu-

se assim a excepcional difusão daquele mundo de coisas minúsculas, que faziam então a alegria das crianças nas estantes de brinquedos e dos adultos nas salas de arte e maravilha, e com a fama dessas quinquilharias de Noruemberg deu-se ainda o predomínio dos brinquedos alemães no mercado mundial, o qual até hoje permanece inabalável.

No entanto, inicia-se no final do século XVIII um processo de desvalorização destes objetos em miniatura e os brinquedos maiores, coloridos e com formatos que despertam a atenção das crianças passam a ganhar lugar nas brincadeiras e nas casas das famílias, assim “uma emancipação do brinquedo põe-se a caminho, quanto mais a industrialização avança, tanto mais decididamente o brinquedo se subtrai ao controle da família, tornando-se cada vez mais estranho não só às crianças mas aos pais” (BENJAMIN, 2002, p. 92). É importante destacar que mesmo os brinquedos sendo considerados por alguns como algo fútil e sem valor, sempre foi visto pela grande maioria dos adultos e das crianças como um objeto que proporcionava um prazer e uma alegria de crianças.

Em relação ao brincar e a brincadeira, o texto História Cultural do brinquedo apresenta que talvez já se tenha superado a premissa de que pensava-se ser a brincadeira da criança construída e iniciada através do brinquedo, sendo que na realidade ocorre o contrário, ou seja, são as crianças que criam e transformam diferentes objetos para brincar: “a criança quer puxar alguma coisa e torna-se cavalo, quer brincar com areia e torna-se padeiro, quer esconder-se e torna-se bandido ou guarda” (BENJAMIN, 2002, p. 93). Nas mãos das crianças tudo pode tornar algo mágico, capaz de se transformar e de ser o que ainda não é.

O autor critica práticas imitativas no brinquedo nos seguintes termos: “quanto mais ilimitadamente a imitação se manifesta neles, tanto mais se desviam da brincadeira viva” (BENJAMIN, 2002, p. 93) e ressalta que a essência da brincadeira é a repetição. A repetição é entendida pelo autor como início de outra coisa, algo novo, um recomeçar, já que no universo infantil as crianças criam, transformam e constantemente dão sentidos diferentes durante as brincadeiras. Assim, para o autor, as crianças, a cada momento, podem usar os mesmos brinquedos e as mesmas brincadeiras e elaborar ações diferentes, com sentidos diferentes, “a essência do brincar não é um fazer como se, mas um fazer sempre de novo” (BENJAMIN, 2002, p. 102).

os brinquedos mais se tornam distantes de serem vistos como objetos de brincar, o autor apresenta também que ao tentar explicar o brinquedo apenas a partir do ponto de vista da criança não seria possível definir um conceito sobre este, pois “as crianças não constituem nenhuma comunidade isolada. [...] Os brinquedos não dão testemunho de uma vida autônoma e segregada, mas são um mudo diálogo de sinais entre a criança e o povo”.

No livro Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação compreendemos que este autor não apresenta de forma especifica uma teoria acerca da educação ou do brincar, e sim dedica-se a nos ajudar a refletir sobre o tema da infância, discorrendo sobre a importância de observar as crianças e aprender a ouvi-las e compreendê-las. No que se refere ao brincar, Benjamin (2002, p. 85) apresenta que nos momentos de brincadeira as crianças fantasiam, criam mundos imaginários, representam aspectos do cotidiano, e considera que tal fato deve ser visto com acuidade pelo adulto; para este autor “não há dúvida que brincar significa sempre libertação. Rodeados por um mundo de gigantes, as crianças criam para si, brincando, o pequeno mundo próprio”.

Em relação aos brinquedos, Benjamin (2002, p. 96) apresenta que o universo infantil é em grande medida influenciado pelas gerações antigas e que constantemente as crianças defrontam-se com essas influencias recebidas de povos de outras gerações ou dos adultos que estão ao seu redor. Nessa direção, aponta que mesmo quando os brinquedos não imitam os objetos de adultos “cria-se um confronto, e, na verdade não tanto da criança com os adultos, mas destes com as crianças”, uma vez que é o adulto que disponibiliza os brinquedos para as crianças. Assim, mesmo as crianças sendo livres para escolher com o que brincar, sabemos que muitos objetos como, por exemplo, a bola e a pipa eram de uso obrigatório na realização de cultos e festas religiosas e só posteriormente passaram a ser vistos como brinquedos, devido à forma como as crianças passaram a vê-los, reelaborando-os e transformando-os.

O autor aponta ainda que:

O brinquedo é condicionado pela cultura econômica, e muito em especial pela cultura técnica das coletividades. Mas se até hoje o brinquedo tem sido demasiadamente considerado como criação da criança, assim também o brincar tem sido visto em demasia a partir da perspectiva do adulto (BENJAMIN, 2002, p. 100).

entender as brincadeiras a partir de uma visão adultocêntrica, desconsiderando os gostos e as opiniões das crianças; este autor entendia a criança como um sujeito que participa e contribui significamente no contexto sócio-histórico-cultural em que vive, como um ser criativo, inteligente, imaginativo, que cria e reelabora diferentes ações e objetos, não se limitando a imitar os adultos, considerava também que quando a criança constrói, inventa e organiza o seu brinquedo adquire experiências mais enriquecedoras do que quando recebe o brinquedo pronto.

No texto Rua de mão única, Benjamin (2002, p. 107), ao escrever sobre a criança desordenada, explica a capacidade de transposição das crianças para com os objetos e as brincadeiras, a forma como estas ressignificam e dão novos sentidos aos diferentes objetos:

Na criança as coisas passam-se como nos sonhos, não conhecem nada que seja constante; as coisas sucedem-lhe, assim julga, vão ao seu encontro, esbarram com ela. Os seus anos de nômada são horas na floresta do sonho. É de lá que arrasta a sua presa até a casa para limpar, fixar e desmontar. As suas gavetas de se transformar, em jardim zoológico e museu criminal em arsenal e cripta. “Arrumar” seria destruir uma construção repleta de castanhas eriçadas de espinhos que são clavas, papéis de estanho que são um tesouro de pratas, paralelepípedos de madeira que são ataúdes, cactos que são totens e tostões de cobre que são escudos.

De acordo com a citação acima, é possível compreender que as crianças se interessam por coisas simples e variadas, são capazes de construir ou ressignificar constantemente as mais variadas situações e também objetos, as crianças “sentem-se irresistivelmente atraídas pelos detritos que se originam da construção, do trabalho no jardim ou em casa, da atividade do alfaiate ou do marceneiro” (BENJAMIN, 2002, p. 104). Nessa direção, tecidos, pedras e madeiras são objetos valiosos nas brincadeiras, uma vez que partimos do pressuposto de que é a criança que transforma o objeto em determinado brinquedo e reproduz brincadeiras dando sentidos e formas de acordo com sua imaginação.

Dessa forma, por meio da leitura da obra do filósofo Walter Benjamin, podemos constatar que o significado e a forma que enxergamos os brinquedos e as infâncias foram se modificando ao longo do tempo e de acordo com a organização técnica das sociedades; no entanto, de acordo com este autor “demorou muito tempo até que se

desse conta que as crianças não são homens em dimensões reduzidas. É sabido que mesmo as roupas infantis só muito tardiamente se emanciparam das adultas” (BENJAMIN, 2002, p. 86).