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The Portrait of a Lady não é só um retrato de Isabel, mas também um retrato de outras mulheres, como por exemplo, Madame Merle, Pansy, a Condessa de Gimini (a irmã de Osmond), a Senhora Touchett e Henrietta Stackpole. A história destas mulheres não se sobrepõe à história de Isabel, contudo, a história de Madame Merle, devido à sua dimensão trágica, misteriosa, e por ser bastante parecida com a de Isabel, é relevante para a narrativa do filme. Isabel, desde o primeiro momento, que vai admirar Merle. McHugh argumenta que Isabel vê Merle como uma figura materna e de afeição. Contudo, como quase tudo na vida da protagonista, o espectador sabe que Merle é cúmplice e amante de Osmond na sua vilania, e na realidade é a própria Merle que assina a “sentença de morte” de Isabel, pois é ela quem vai falar com Osmond sobre a jovem americana. Na opinião de Davis, o que torna Merle capaz de “jogar” com a felicidade dos outros, com a felicidade de Isabel, é o facto de ela ser uma mulher bonita, sozinha e sem consciência moral. Tal como a própria personagem afirma, "I don't pretend to know what people are meant for. I only know what I can do with them.''

70 Para Bessière, Merle é o exemplo perfeito da cultura europeia e do que pode acontecer a uma mulher livre, independente, talentosa, inteligente e ambiciosa, sobretudo quando o seu caminho se cruza com um homem como Gilbert Osmond. No seu texto, Davis também alertou para a diferença que é estabelecida no romance, e por consequência, no filme, entre os dois continentes, a América e a Europa. Bessière e Davis argumentaram que os americanos são retratados como pessoas que gostam de viajar por um mundo, que eles desconhecem, o Europeu, que os atrai e seduz, mas que também é o lugar da sua desgraça. Merle é talvez um dos grandes exemplos desta situação, uma mulher americana, expatriada, que se deixa seduzir pelo gosto, conhecimentos e afetos da cultura europeia. Pelo que, tendo em consideração que a Europa passa a ser o continente mau, Isabel parte para este mundo, argumenta Davis, sem as defesas morais ou emocionais necessárias. Desta forma, Bessière argumenta que Merle é a representação negativa de Isabel, aquilo em que ela se transformará se seguir as mesmas pisadas. Na minha opinião, o exemplo perfeito da mulher independente e inteligente é Henrietta, mas este será um tema desenvolvido mais à frente neste texto. Na opinião de Bessière, Merle é mais ambígua que Osmond, e ela não detesta Isabel, até lhe tem um qualquer tipo de respeito. Ao contrário de Isabel, que parece confusa quanto ao que lhe aconteceu, Merle sabe exatamente quem é e no que se tornou, e parece ser das poucas que compreende qual é o lugar das mulheres no mundo. Como ela diz, durante um passeio, pelos jardins dos Touchett, a Isabel “But as a woman, it seems to me, has no natural place anywhere. Wherever she finds herself she has to remain on the surface and more or less crawl” (The Portrait of a Lady, 1996)

Não há como escapar de uma comparação entre Madame Merle e Isabel, ambas, em tempos diferentes, passam pelo mesmo, isto é, a sua relação destrutiva com Osmond. Contudo, elas não podiam ser mais diferentes em personalidade. Merle é uma personagem misteriosa e trágica, e tem uma visão mais abrangente e consciente do que Isabel, porque de acordo com Murphy, Merle escolhe o pecado, enquanto Isabel o “aceita”, de forma inconsciente, uma vez que ela não conhece os verdadeiros motivos de Osmond e Merle. Porém, o espectador só conhece Merle já numa idade madura, em que a sua experiência, de certa forma, já passou, caso contrário não havia espaço para Isabel. Merle escolheu, de forma consciente, o sofrimento de Isabel, mas será que escolheu o seu da mesma forma? Na minha opinião, Merle foi atraída para este mundo de sofrimento e até sadismo, tal como Isabel, porque num dos primeiros encontros entre estas duas mulheres, Merle confidencia, que também ela já foi uma mulher cheia de sonhos, ilusões e vontades. Merle, tal como Isabel foi forçada a aceitar o seu destino, no entanto, a protagonista contínua a lutar pela sua fuga, enquanto Merle, devido à sua ligação com Pansy, não se consegue afastar de Osmond. McHugh revela que as parecenças físicas entre Isabel e Merle também parecem ser evidentes, já quase no final do filme,

71 havendo, por isso, um traço de semelhança no cabelo, nas roupas e na postura. Desta forma, argumenta McHugh, Isabel substituiu Merle, na sua posição como esposa, de forma a que, esta última, continue a ser a amante e a mãe.

Tal como em The Piano, algumas personagens são o espelho das outras, também aqui no The Portrait of a Lady, existem personagens que são o reflexo uma da outra. Merle diz, quase no final do filme, ser o espelho de Isabel, “I know you are unhappy, but I more so.” Mas, na minha opinião, Isabel não é só o reflexo de Merle, mas ela é também o reflexo da fantasia de Osmond. A protagonista torna-se, ainda que mantenha uma certa resistência, o reflexo das fantasias do poder patriarcal, algo que Ada consegue resistir com sucesso.

A importância da viagem no filme será depois um assunto mais à frente discutido, contudo, na segunda parte da viagem de Isabel, aquela que nos é apresentada a preto e branco, Merle está mesmo atrás de Isabel, a olhar para ela, enquanto as fantasias da protagonista por Osmond aparecem (a mão na cintura, os lábios e voz de Osmond a confessar o seu amor). McHugh sugere que, nesta cena, o filme revela a manipulação de Merle sobre Isabel, sendo que, a sua presença precipita as fantasias da heroína.