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Jane Campion, no “Making of The Piano”, revela que Flora é uma miniatura de Ada, daí a proximidade entre mãe e filha. Segundo o ensaio de Sigmund Freud, “Femininity”, no inicio do filme, Ada e Flora estariam na fase do pré-Édipo, em que Flora venera a mãe e vê-la como o seu objeto de desejo. A ligação entre mãe e filha é tão grande e profunda que Stewart as inveja. Quando Ada e Flora chegam à nova colónia, Flora promete à mãe não tratar Stewart por pai e diz odiá-lo. Gillet afirma que Flora é uma imitação de Ada e a sua mãe é a cópia original, pois ela imita as expressões faciais de Ada, o discurso, a aparência, o abanar da sua cabeça, os seus gestos gestuais e até os seus beijos, assim, Gillet conclui que a ligação entre mãe e filha é visualmente coreografada (Gillet, 2009:241/2; Attwood, 1998: 91). Em conjunto elas habitam um mundo privado, um espaço definido como feminino e maternal. Flora é também a intérprete da linguagem gestual da mãe, o que significa que ela é frequentemente a ligação de Ada com os outros. (Gillet, 2009:241-2) De igual forma, a voz de Nessie é frequentemente um eco da voz da tia Morag e as suas empregadas Maori cantam o hino nacional em uníssono (Attwood, 1998: 91-2). Contudo, quando Baines se intromete na relação delas as duas, ao captar a atenção de Ada para si, Flora entrará, também numa outra fase descrita por Freud, como sendo, a fase de Édipo. Com o abandono da mãe, uma vez que Ada dá agora mais atenção a Baines do que Flora, pois os encontros entre os dois começaram a ter um teor mais sexual, Flora sente-se traída, e por isso, a sua atenção vai-se virar para Stewart.

Canby comentou que Flora é a primeira a condicionar a sua mãe ao colocá-la numa posição de superioridade. Gillet também comenta sobre o grande poder que é atribuído no The Piano às crianças, sobre as sociedades adultas (Gillet, 2009:237). Depois de chegarem à ilha, Flora vai contar a história de Ada às empregadas Maori e à tia Morag. Antes de ficar muda, a sua mãe e pai eram cantores de ópera, conhecidos e admirados. Um dia, caminhavam numa floresta, quando foram apanhados por uma tempestade, e o seu pai foi eletrocutado por um raio. De acordo com Flora, desde esse momento, Ada nunca mais disse uma palavra. (Canby 1993)

Gillet argumenta que a união harmoniosa entre Flora e Ada é possível de ser mantida, caso Ada se afaste dos dois homens que lhe oferecem uma “relação” baseada em diferentes versões da economia patriarcal: o seu pai deu-a a Stewart para se casar, e ele vê-a nos mesmos termos que ele vê um animal (Gillet, 2009:242); Baines por outro lado, permite que ela lhe compre o piano em

50 troca de favores sexuais. Devido à natureza das lições de piano, Flora começa a ser excluída destes encontros, o que levanta a primeira barreira de separação entre mãe e filha. Também, com o florescer do seu desejo e a descoberta da sua sexualidade, Ada tende a afastar-se cada vez mais a sua filha. Quando antes era Flora que estava por debaixo das saias de Ada (momentos iniciais do filme), agora é Baines. Gillet afirma que a aproximação entre Ada e Baines, obriga Flora a ocupar a mesma posição de voyeur que Stewart, no entanto, a imagem que ambos verão terá implicações diferentes nestas personagens. Flora não compreende o que presencia, tal como Gillet questiona: “What does it mean to have a child, a daughter, in this most unusual position, a peeping Tom, a Norman Bates?” (Gillet, 2009:244) O novo relacionamento de Baines e Ada, significa para Flora a perda da sua mãe (passagem entre a fase do pré-Édipo, que Freud analisa esta questão numa situação de matrimónio convencional, para a fase de Édipo). Este afastamento faz com que Flora, que outrora, tinha orgulho de ter sido o elo de ligação da sua mãe com o mundo, ela agora começa a imitar Stewart, repetindo os seus desejos e ordens, referindo-se a ele como “papa”, apesar da sua resistência inicial. A relação de Ada com Flora, e a sua exclusividade, trabalham agora a favor das ordens patriarcais. (Gillet, 2009:242) Para Gillet, esta situação marca a entrada de Flora na fase de Édipo, em que ela desafia o controlo da sua mãe, e vê Stewart como o substituto do amor de Ada. Assim, a sua teimosia inicial, em reconhecê-lo como pai, passa agora pela necessidade da sua atenção. (Gillet, 242)

Depois de ter sido enclausurada, devido à sua indiscrição com Baines, Ada é forçada a pedir a Flora que leve uma mensagem ao seu amante. Ainda que contrariada, Flora obedece à vontade da sua mãe, contudo, Flora chega a uma encruzilhada em forma de “V”, sendo que o caminho da esquerda é o caminho de Baines e o da direita é o caminho para Stewart. Flora começa por escolher o caminho da esquerda, mas, ela volta atrás na sua decisão e escolhe, no fim, o caminho da direita, tomando assim a decisão quanto ao futuro da sua mãe, e escolhendo ser o “braço direito” de Stewart e do sistema patriarcal, ao escolhe-lo como correspondente da sua mensagem. Nesta situação, Flora ganha uma importância e um poder tremendos na narrativa e no futuro das personagens. Apesar de esta ser uma escolha feita de forma consciente e livre (Isabel Archer), Flora vai ter de viver com as consequências do seu ato. Como Gillet descreve, na cena em que Stewart castiga Ada, Flora está vestida de anjo, desta forma, ela é o “anjo mau” que leva a carta a Stewart e o “anjo bom” que leva o dedo a Baines (Gillet, 2009:243). Ada havia enviado uma tecla, que no final transformou-se no seu dedo (Gillet, 2009:246). Flora coloca novamente a sua mãe numa posição de sofrimento, que vai ficar marcado no seu corpo para o resto da sua vida. Curiosamente, como Gillet refere, a luta de Flora, pelo seu desejo de reaver o amor da sua mãe, fica marcado no corpo de Ada, como uma espécie de castigo, não pela traição a Stewart, mas pela traição de Ada a Flora (Gillet, 2009:247).

51 Gillet argumenta, também, que Flora não vê Stewart como substituto da sua mãe. Pelo contrário, esta criança, que sente, de alguma forma, necessidade de controlar a vida dos adultos, talvez devido ao grande problema de comunicação da sua mãe, e ao seu papel como intérprete, ela vai tentar usar Stewart para o seu próprio proveito, tentando afastar a sua mãe de Baines, através das responsabilidades matrimoniais. Apesar de o resultado final, ser algo que Flora obviamente não deseja, ela leva a peça do piano a Stewart com o intuito de rever e ter de volta a sua mãe só para si (Gillet, 2009:244/5). Assim, tal como Gillet refere no seu texto, Flora quer ter a exclusividade de uma relação com mãe. Na minha opinião, Flora revela-se mais condicionadora do que o poder patriarcal, pois ao desejar a sua mãe só para si, ela condenou-a e castigou-a fisicamente, fazendo com que Stewart lhe cortasse um dedo. E é nesta relação que talvez resida o verdadeiro problema da mulher, a tensão entre homem e mulher existe, como podemos ver pelas tentativas de violação de Stewart, ou a compra da mulher como objeto, no caso de Stewart, mas também no caso de Baines. Julgo que o principal problema resida, então, entre as mulheres, pois tal como Isabel Archer, Ada McGrath é traída pela inveja e possessividade de Flora, que não permite a mãe ir mais além.