O filme começa com um pano negro onde ouvimos apenas, em vozoff, a voz de várias mulheres que segredam a sensação do primeiro beijo e o encontrar da “alma gémea”, o espelho da nossa alma. Passo a citar:
Acho que a melhor parte de um beijo é quando vemos aquela cabeça a aproximar-se de nós e percebemos que nos vão dar um beijo. Esse momento preliminar é delicioso. Eu nunca tinha sentido o toque de outra pessoa da minha idade. A sensação trespassou-me. Eu adoro. Adoro beijar. Estávamos viciados naquele entrelaçar um no outro, quer fosse positivo, como no início, quer negativo. Fico com um ar intenso que diz: “Sou tão misteriosa, sou muito mais do que o olhar revela. Vão descobrir esse tipo de coisas.” Eu acredito no destino. Acredito que eu e essa pessoa nos encontramos um ao outro. Significa encontrar um espelho. O mais límpido e mais fiel dos espelhos, de forma a que quando amar essa pessoa esse amor ser-me-á devolvido num reflexo. (The Portrait of a Lady, 1996)
Esta introdução é um prelúdio desta história, o que o espectador pode esperar dela. A narrativa será uma história de amor, uma história de uma mulher, tendo em conta que as vozes são
57 femininas e, sabendo a priori que The Portrait of a Lady é um livro que já existe desde 1886 e um dos mais conhecidos de Henry James. Bessière comenta que esta introdução é uma declaração de Campion sobre o filme, a forma como a história de Isabel será contada. Para Bessière este prólogo tem duas funções importantes, que são as seguintes: o filme foca-se tanto no romantismo como na intimidade, o que para Bessière torna a obra relevante para o espectador contemporâneo (quer seja de 1996, ano em que o filme começou a ser comercializado, bem como para o espectador de 2013, pois, sem factos científicos que comprovem, o filme passa frequentemente num canal de televisão por cabo em Portugal, Hollywood); para além disso, esta introdução é uma espécie de aviso quanto à reconstituição da história de Isabel no presente (Bessière, 2009:135). Assim, tal como McHugh argumenta, o The Portrait of a Lady de Jane Campion é um estudo das repercussões da violência, sexualidade e dos contornos perversos do amor romântico, neste caso, especialmente para as mulheres. (McHugh, 2007:95)
No discurso deste prelúdio há alguns elementos que vão ser importantes no desenvolvimento dos eventos no filme, tais como, o beijo, o seu lado positivo e negativo, e o ideal do amor romântico, em geral, e do beijo, em particular. Enquanto ouvimos estas vozes, que acabampor ser a moldura do genérico do filme, os nomes dos atores vão aparecendo num fundo negro, até que a imagem se abre para uma espécie de bosque em que as mulheres aparecem deitadas na relva, a formar um círculo, uma espécie de união. Neste momento, aparece a frase “a film by Jane Campion”, o que nos leva a pensar que este é um filme feminino, centrado no desejo da mulher. Murphy caracteriza este prelúdio como hipnótico, devido à sua transformação da escuridão para o bosque iluminado. Esta cena abre caminho para o retrato individual ou coletivo de algumas das mulheres, entre os quinze e vinte anos, numa floresta, que nos são apresentadas ora a dançar, a andar, a conversar, a rir, a mexer no cabelo, a ouvir musica, sérias, tristes, pensativas e a olhar diretamente para a câmara. Esta sequência de imagens termina com o nome do filme, The Portrait of a Lady, escrito numa mão de uma mulher, e que se estende ao longo do dedo do meio dessa mesma mão. McHugh (2007) estabelece a partir desta última imagem uma ligação comum com um outro filme de Jane Campion, The Piano, devido à importância que as mãos adquirem neste último filme, nomeadamente, por causa da cena em que Stewart corta o dedo a Ada. Mas McHugh também acredita que o dedo e a mão adquirem um significado próprio, de que Campion leu Henry James e adaptou-o às suas visões, revelando, algo que Bessière também defendeu no seu texto, a interpretação individual e feminista da realizadora contemporânea. Para além de que, McHugh argumenta que quando Isabel recusa Lorde Warburton, algo que será depois discutido no decorrer deste texto, ela não está apenas a recusar a segurança económica e a distinção social, mas também está a recusar a mão de Warburton e a salvaguardar a sua, e o seu dedo em particular. Assim,
58 McHugh argumenta que Ada e Isabel são o espelho uma da outra, apesar de serem distintas na forma como protegem o seu dedo e nos seus atos de recusa. Tal como MucHugh escreve “(…) if Ada gave up her literal finger rather than sacrifice her desire, Isabel would have given her figurative finger in order to feel.” (McHugh, 2007:95)
Esta mão com o nome do filme parece, na opinião de McHugh, apontar para o rosto de Isabel Archer, a imagem que aparece a seguir a esta introdução do filme. Há um enfoco na face da protagonista que gradualmente se aproxima do rosto dela, até só podermos ver os seus olhos azuis. Isabel move os seus olhos freneticamente, o que significa que algo não está bem, pois ela parece que a qualquer momento vai começar a chorar. De repente, há movimentação por detrás da protagonista, vemos um homem a aproximar-se e Isabel parece ficar ainda mais agitada. O diálogo que se segue será mais à frente comentado, tal como as cenas que se sucedem a seguir a este encontro. Mas o que é muito comentado, entre os críticos, é a relação de Isabel, a detentora do olhar, que está representada a cores com as mulheres inicias que estão a preto e branco. Tendo em conta que algumas destas mulheres, de preto e branco, olham pensativamente para a câmara, e no seu conjunto, elas parecem que estão reunidas para assistir a algo. Nick Davis (1999), na sua recensão ao filme, argumenta que o olhar é longo e revelador, e que estabelece um paralelo com as primeiras mulheres representadas no filme. Este olhar sozinho adquire um significado contemporâneo, o olhar das mulheres de preto e branco, porque não vemos mais nada, a não ser os olhos de Isabel que podem pertencer a qualquer época. Também Bessière argumenta que a Isabel não é apenas uma representação de si mesma ou das mulheres, no geral, mas a representação das mulheres do passado, presente e futuro. Na opinião de Davis, estas mulheres são o futuro de Isabel, por isso elas estão a avaliá-la e a observar os seus movimentos e escolhas. Desta forma, argumenta Davis, estas mulheres estão representadas a preto e branco, e Isabel a cores, pois Isabel é o passado, uma história já vivida, enquanto as outras mulheres são ainda bastante jovens, entre os quinze e vinte anos, e assim, estas últimas ainda estão a começar a viver, e à medida que vão vivendo e experienciando elas vão preencher a sua vida também com cores.