3. Metode
3.3 Kvalitetskriterier i kvalitativ forskning
Corpus 1. Para o Caderno do Professor – Orientação para a Produção de Textos, intitulado “Se bem me lembro...” a referência é:
CLARA, R. A.; ALTENFELDER, A. H. Se bem me lembro... São Paulo: Cenpec: Fundação Itaú Social; Brasília, DF: MEC, 2008. (ANEXO 1 e 2, p. 205-212; ANEXO 3, p. 213-223).
Esse primeiro corpus de pesquisa é o Caderno do Professor – Orientação para a Produção de Textos, inserido na dimensão de prática social, na realização de performance da OLPEF. Temos um fato discursivo comprovadamente datado no ano de 2008. A Olimpíada é entendida como evento histórico do Governo Federal, do Ministério da Educação (MEC), da Fundação Itaú Social (FIS) e do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); portanto, é um evento institucional.
O Caderno do Professor, representante da voz institucional, estabelece como objetivo do evento em sua amplitude: “proporcionar ensino de qualidade para todos (...) contribuindo para que os alunos escrevam textos cada vez melhores e ampliem o domínio da leitura e da escrita” (ANEXO 1, p. 205, desta tese9).
Analisamos esse evento como cena fundadora, pois possui desdobramentos para as cenas discursivas contempladas nas produções realizadas pelos alunos. O enunciador, explicitado no texto de apresentação do Caderno, é constituído pelas vozes de três instituições, três sujeitos adjuvantes sincretizados em um enunciador, nesta ordem:
Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); Fundação Itaú Social (FIS);
Ministério da Educação (MEC).
Essas três instituições possuem funções sociais distintas, estatutos e papéis temáticos diferentes. A relação estabelecida entre essas instituições se dá, em princípio, por intermédio da proposta da Olimpíada. Nela, as organizações privadas e não governamentais, FIS e
9 Doravante, os números de páginas referidos juntamente às expressões Anexo 1, Anexo 2, Anexo 3 e Anexo 4 correspondem e fazem menção às páginas dos anexos desta tese.
Cenpec, propõem e determinam, por meio do material veiculado na Olimpíada, uma concepção de ensino de leitura e de escrita para as instituições públicas e governamentais (MEC, secretarias estaduais e municipais de educação e escolas públicas). Análises depreendidas dessa relação estão sistematizadas na Seção II.
Há uma lógica na linha isotópica da cena fundadora que é escolar, mas acentuadamente não prescritiva. Não temos uma enunciação instalada na ordem do dever (deôntica), e sim na ordem do querer fazer (volitiva), ou seja, é no querer fazer que se constrói o simulacro da enunciação (enunciador e enunciatário). O enunciatário do Caderno está tematizado e figurativizado como professor, legitimando a expectativa de uma performance docente. Esse enunciatário é o mediador entre as instâncias institucionais e o aluno.
O corpus 1, Caderno do Professor, é um gênero escolar composto de enunciados típicos dos manuais didáticos e está dividido da seguinte maneira:
capa e contracapa; apresentação;
ficha catalográfica e os créditos da publicação; apresentação ao professor;
sumário; introdução; oficinas;
critérios de avaliação para a comissão julgadora; textos recomendados;
para saber mais ainda; referências bibliográficas.
Algumas dessas partes serão descritas brevemente na sequência:
Capa e contracapa: apresentam a logomarca da OLPEF, o título “Se bem me lembro...” e a especificação “Caderno do Professor – Orientação para produção de textos” (ANEXO 1A e B, p. 205-206). O design gráfico do material é da ordem do não explícito, quer dizer, é altamente sugestivo, colorido, não carregado, remetendo a uma preocupação com a qualidade do visual. Os créditos pelo projeto gráfico são de Criss de Paulo e Walter Mazzuchelli.
Apresentação: é uma abertura geral (ANEXO 1C, p. 207), onde há a explicitação do enunciador sincretizado, por meio das vozes de três instituições colocadas, como arquidestinador.
Ficha catalográfica e os créditos da publicação: expõem a autoria do Caderno: Regina Andrade Clara e Anna Helena Altenfelder. Observa-se que o enunciador, como arquidestinador, legitima e homologa o fazer enunciativo dessas autoras que, no decorrer do Caderno, assumem a voz do enunciador coletivo de equipe, de grupo de coordenação técnica.
Apresentação ao professor, cuja assinatura é “Equipe da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro”. Em seguida, aparecem o sumário ilustrado e a introdução. A introdução está dividida dois subtítulos. O primeiro subtítulo é “Toda memória tem uma história”, e nele são explicados a proposta do Caderno e o motivo de se chamar Se bem me lembro...; o segundo subtítulo é “Memória Literárias”, que expõe um breve esboço sobre o gênero solicitado.
Na sequência, são especificadas as oficinas. Embora cada oficina seja detalhada e sistematizada, ela há a apresentação das orientações para que cada professor faça a adaptação das suas ações conforme a realidade da escola e da região, o que pressupõe abertura e adequação ao planejamento da execução das oficinas. O tempo de realização da oficina varia de acordo com o envolvimento e o rendimento da turma, por isso tal tempo não é estipulado, podendo levar uma ou mais aulas para a execução. Na abertura de cada uma das treze oficinas, mostra-se um título temático que sintetiza cada um dos objetivos juntamente explicitados. No Anexo 2 (p. 208-212), trazemos como exemplar a Oficina n. 10 – A entrevista, onde temos sistematizadas as orientações de como o professor e os alunos devem proceder para convidar e receber uma pessoa da comunidade para dar seu depoimento sobre lembranças do lugar onde vive. A organização do Caderno em oficinas sequenciais e progressivas pressupõe uma fundamentação teórica e metodológica decorrente do interacionismo sociodiscursivo proposto por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004), o que pressupõe a organização da sequência didática10. Essa sequência é considerada em uma
progressão curricular do conteúdo, fundamentada na necessidade de serem contemplados os objetivos de aprendizagem, para que o professor possa determinar o limite desejável de êxito
10 “Sequência didática é um conjunto de atividades escolares organizadas, de maneira sistemática, em torno de um gênero textual oral ou escrito” (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 97). A sequência didática possui uma estrutura de base representada, resumidamente, por: apresentação da situação inicial; produção inicial, em que os alunos tentam elaborar uma primeira produção; módulos para serem trabalhadas, por meio de estratégias de leitura e de produção, escritas diversas, as capacidades necessárias para o domínio de um gênero; produção final; avaliação somativa.
dos alunos, conforme Dolz, Gagnon e Decândio (2010), e ainda, possa trabalhar com a reconstrução textual e com a tabela ou quadro dos Critérios de Avaliação.
Critérios de Avaliação para a comissão julgadora: esses critérios estão transcritos no Anexo 2 (p. 212), analisados e discutidos na Seção III, mediante cotejamento com a produção dos alunos.
Textos Recomendados (corpus 1): é uma seção que apresenta nove textos para serem consultados, lidos e estudados no decorrer das oficinas. Ao final desses textos, são apresentadas suas referências bibliográficas (caso o texto seja originado de uma obra de referência). Os Textos Recomendados foram elencados anteriormente (Cf. p. 16).
Observa-se, por meio dos títulos e das autorias apresentadas, que uma parte dos textos é vinculada ao discurso literário. Esses textos analisados (Seção II) são, na verdade, segmentos e adaptações das “obras referenciadas”. Cabe destacar que alguns desses Textos Recomendados sofreram adaptações feitas com a finalidade de explicar a conjuntura em que a história é narrada, seja para ocultar trechos considerados extensos, polêmicos, sendo, desse modo, contextualizados e tornados apropriados ao evento. O frequente uso de reticências entre parênteses (...) é um indicativo dessa estratégia. A segmentação e a adaptação constituem uma maneira de excluir segmentos do conteúdo de base.
Por fim, o Caderno do Professor apresenta um segmento chamado Para saber mais ainda, uma seção que traz um resumo das concepções e dos conceitos teóricos que fundamentam o trabalho desenvolvido no Caderno. O primeiro item expõe os conceitos de língua, de discurso, de gênero e discute o papel da escola ao trabalhar com essas noções. O segundo aborda a sequência didática do Caderno que se organiza e desenvolve em nove passos. E, finalmente, oferece as Referências bibliográficas de obras teóricas sugeridas para professor ler e estudar.
A temática exibida no Caderno do Professor, pressuposta a partir da composição estrutural do Caderno acima exposta, é relativa à orientação teórico-metodológica do discurso pedagógico. Esse discurso possui uma preocupação específica com “a escrita e seu ensino” (CLARA; ALTENFELDER, 2008). Por isso, em sua constituição, proporciona uma organização fundamentada em um conjunto de princípios orientadores da ação docente, princípios esses que afirmam estar em consonância com o que sugerem os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa. Dentre alguns materiais publicados temos explicações acerca dessa problemática: “Como não poderia deixar de ser, todo esse processo pressupõe um permanente diálogo com as orientações oficiais da área” (RANGEL, 2011, p.
7). Isso inclui o desenvolvimento de sequências didáticas para o ensino e a aprendizagem de gêneros discursivos variados.
Dentre os conceitos difundidos pela parametrização oficial do ensino de língua portuguesa no país, a sequência didática é uma noção metodológica atribuída ao trabalho do professor. Considera-se a sequência didática uma ação planejada, gradativa, flexível e integrada para aprendizagem da escrita e, por consequência, da língua. O interesse institucional pela adesão do professor à Olimpíada justifica-se pela necessidade de o próprio professor produzir suas sequências didáticas. O Caderno do Professor mostra ao docente um modelo de aplicação e de desenvolvimento de uma sequência didática, pois se espera que esse sujeito seja capaz de produzir novas sequências didáticas de outros gêneros. Dessa forma, temos a realização de um discurso que, em sua heterogeneidade discursiva, vai se desdobrando ao legitimar e ser legitimado pela adesão das instituições que a ele se filiam.
Quando Maingueneau (2008, p. 18) afirma que todo texto escrito, mesmo que o negue, tem uma “vocalidade” manifestada numa multiplicidade de “tons” associados a um corpo construído pelo destinatário a partir de índices liberados na enunciação, o analista do discurso nos apresenta a noção de éthos. Embora não trabalhemos com essa noção nesta pesquisa, consideramos o éthos discursivo um equivalente da noção de estilo, conforme Discini (2008). A fim de mostrar, brevemente, um exemplo do modo de presença da voz institucional, trazemos a seção “Recado final”, que sintetiza e explora o tom recorrente na totalidade do Caderno:
Recado final
Um dedo de prosa sobre a conversa que não acaba aqui
Pois é, professor... encerramos as atividades sobre memórias literárias.
Mas o trabalho com a leitura e escrita continua, um texto vai puxando outro, como uma conversa sem fim. Neste Caderno falamos diretamente com você, que está na sala de aula “com a mão na massa”. Para preparar estas oficinas, também conversamos com outras pessoas que discutem ou discutiram a escrita e o seu ensino. Você talvez queria conhecer algumas de suas ideias. No “Para saber mais ainda” há um resumo de algumas delas. Em “Referências bibliográficas” encontra- se uma relação de textos e livros que foram consultados para elaboração deste Caderno (CLARA; ALTENFELDER, 2008, p. 82).
Do estilo do Caderno do Professor emana um tom de voz “professoral”, em que o prescritivo está abrandado, aproximando enunciador institucional e enunciatário (professor) como em uma conversa face a face. O Caderno procura desenvolver em sua prática os princípios linguísticos e pedagógicos que fundamentam as matrizes de referência para o ensino. Por consequência, a linguagem científica comum das teorias linguísticas é evitada,
sendo transpostas ao Caderno de maneira didatizada e desacelerada. O tom de voz empregado busca imprimir em sua compleição a confiança na organização e na fundamentação propostas.