4. Presentasjon av prosess og funn med foreløpig analyse
4.1 Diagnosefasen
4.1.1 Fokusgruppeintervju 6. mars
Para o trabalho de análise que sucede, somos orientados, portanto, pela lógica de que a totalidade, em que se busca o caráter do enunciador, é diferencial, pois é construída na relação com o outro, conforme Discini (2003). A capa e a contracapa do Caderno do Professor Se bem me lembro..., da OLPEF, foram elaboradas por Paulo e Mazzuchelli (2008) e estão reproduzidas nos Anexos 1A e 1B (p. 205-206). Na dimensão da capa e da contracapa, os elementos visuais e verbais apresentam fatores que sintetizam a abordagem do Caderno e nos permitem depreender traços fundamentais da identidade do enunciador e do enunciatário. Por meio da análise do plano de expressão e do plano de conteúdo da logomarca da Olimpíada, do título do Caderno e da ilustração da capa, focalizamos a sobreposição dos aspectos inconclusos, inacabados e reticentes que, de modo ambivalente, projetam a liberdade, a abertura, o devir. É a voz institucional nos seus simulacros.
Inicialmente, o caráter ambivalente, que pode ser depreendido a partir da noção bakhtiniana de carnavalização, tende à não absolutização do institucional; à sucessividade renovadora e criativa de polos fundidos: o mais alto, no baixo ou o mais baixo, no alto; à mostra, no momento de transição, o não concluso; ao mergulho na relatividade do ser em formação (BAKHTIN, 2008).
Examinamos as particularidades da ambivalência presente na capa e contracapa do Caderno do Professor, uma vez que, segundo Barros (2003, p. 7, grifos da autora), “os recursos semi-simbólicos do plano de expressão, ou seja, as correlações novas e motivadas entre expressão e conteúdo são, entre outros, procedimentos de criação da ambivalência „carnavalesca‟ e operam uma releitura do mundo”. Em outras palavras, o objeto discursivo é responsável pela reformulação das representações ditas convencionais de imagens, de ideias ou de conceitos correspondentes ao mundo ou às coisas de mundo, decompondo a “realidade” sob novas propriedades e, portanto, sob novos valores.
A marca oficial da OLPEF, posta no alto da capa, mescla o colorido multiforme das letras que formam a palavra “Olimpíada” com a monotonia de um quadro azul (especificando “de Língua Portuguesa”) e com as letras em formato manuscrito a expressão “Escrevendo o
Futuro”. Essa marca, objeto de contornos imprecisos, é impregnada de uma linguagem viva e inacabada da vida cotidiana.
Figura 1 – Logomarca da OLPEF
A articulação do plano de expressão, em seus aspectos tipográficos, e do plano de conteúdo potencializa os valores veiculados, que se contemplam à ventura do ato de escrever. A pluri-isotopia figurativa e a expressão semissimbólica deixam entrever “[...] o seu direito e o seu avesso”, como sugere Bakhtin (2008). Esquematicamente, o quadro a seguir procura caracterizar tais relações na logomarca da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro:
Logomarca Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro
Plano de Expressão
(tipografia, formantes eidéticos, cromáticos,
topológicos)
Ora multiforme, fora dos limites e colorido.
Ora uniforme, contorno definido, cromatismo marcante.
Simula a escrita à mão, mistura manuscrita com letra de forma, feita por um lápis emblemático, trazendo à luz o uso verbal do gerúndio.
Plano do Conteúdo Remete à diversidade, à mistura, à pluralidade.
Remete à regularidade, ao padrão, ao sistema.
Cria o efeito de sentido de inacabamento e de duratividade.
Quadro 5 – Planos de Expressão e de Conteúdo da logomarca Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o
Futuro
A função semiótica que une expressão e conteúdo é solidária, e cada uma das instâncias pressupõe necessariamente a outra (HJELMSLEV, 2003). Na composição da logomarca da Olimpíada, “o formato” da expressão é alegórico, ou seja, é estabelecido para representar pensamentos, ideias, qualidades, de maneira conotativa, a fim de transformar e agregar valores a esse modo de expressão.
Na palavra Olimpíada, o colorido, as variadas formas e o contorno vazado das letras remetem às noções de diversidade, de mistura e de pluralidade que constituem o Brasil, reportando, nesse caso, aos alunos de todo o país, participantes da Olimpíada e, ao mesmo tempo, pode remeter às cores dos círculos (anéis entrelaçados) símbolo das Olimpíadas. A totalidade representativa do povo é elevada ao estatuto institucional. Essa ideia está em
consonância com os efeitos trabalhados no slogan do Governo Federal “Brasil, um país de todos”, que se encontra na contracapa do Caderno. Segundo o Manual de uso da Marca do Governo Federal, o slogan oficial do Governo Federal (2003-2010), que se junta ao visual para constituir o que se denominou marca, busca:
[...] resgatar toda essa multiplicidade de influências, realidades, estéticas, costumes e valores, de raças e etnias que se convencionou chamar também de Brasil. Coerente com o Governo que a adotou, ela tenta também inverter uma estética da relação do Governo com a sociedade. [...] A nova marca rompe uma tradição, ao incorporar elementos visuais nunca antes associados a um símbolo governamental (BRASIL, 2005, p. 2-3)12.
Essa marca, conceitualmente, apoia-se nas noções de aproximação, de inclusão e de comunhão entre o povo e a pátria. Essa comunhão e essa harmonização, de acordo com o manual, são verdadeiramente reforçadas pela frase “Brasil, um país de todos”, refletindo a intenção de aproximar o governo dos cidadãos brasileiros e simulando inverter a relação de poder. O caráter institucional, dado o alcance nacional e o apoio governamental ao programa, respalda a isotopia cromática representante da institucionalização enunciativa. De um lado, tem-se o sincretismo verbo-visual, aliado à diversidade, à variedade. De outro, significativa extensividade de um nós inclusivo (FIORIN, 1996a).
As expressões “de Língua Portuguesa” e “Escrevendo o Futuro” fazem referência a outras instituições, como a escola e a própria modalidade escrita da língua. O quadro azul destaca a especificidade da área de saber “de Língua Portuguesa”, aludindo à Fundação Itaú Social e, de certo modo, à unidade da língua, subjacente às variações; o lápis laranja e azul identifica o programa de onde veio a Olimpíada, o Programa Escrevendo o Futuro. A tensão entre esses elementos recria, no plano da expressão, o efeito de sentido de inacabamento: seja no lápis, que está traçando as letras manuscritas, seja na duratividade do gerúndio; temos aí o prolongamento da extensividade durativa: Escrevendo. Essa é a ação que os alunos participantes têm de desempenhar continuamente, destacando o ininterrupto processo de formação. A evocação dos modos de apresentação da logomarca da Olimpíada rompe com o que seria, supostamente, transparente nesse gênero.
O título do Caderno tem sua origem especificada na introdução, que diz:
Se bem me lembro...
O título deste Caderno, Se bem me lembro..., foi emprestado da obra de mesmo nome da escritora e educadora Alaíde Lisboa de Oliveira. Nascida em Lambari (MG), no dia 22 de abril de 1904, publicou cerca de trinta livros, entre literários, didáticos e ensaios na área de educação. No livro Se bem me lembro... Alaíde narra suas lembranças em prosa e verso (CLARA; ALTENFELDER, 2008, p. 8, grifos das autoras).
A interdiscursividade implícita ao título foca o diálogo com as várias escrituras memorialistas que estarão cruzadas ao longo do Caderno e, inevitavelmente, nos textos produzidos pelos participantes, quando, da interdiscursividade, movemos para alusões intertextuais, frequentemente realizadas pelas vozes dos alunos. As reticências dessa voz que diz à menina “Se bem me lembro...” constituem elementos marcantes das estratégias discursivas do enunciador, dadas pelo modo do inacabamento, da abertura, da incompletude. Mediante o efeito de sentido memorialista, o Caderno apresenta ao enunciatário as condições contratuais em que o trabalho educativo será desenvolvido: a necessidade de compreender o contexto cultural que, dialogicamente, constituiu o passado e condiciona o presente de uma sociedade.
O título “Se bem me lembro...” (ANEXO 1A, p. 205), da forma como está inserido na capa do Caderno, confirma então o sincretismo verbo-visual da ilustração: em primeiro plano, o rosto estilizado de uma menina debruçada sobre uma grade (soleira), como se estivesse vendo e ouvindo alguma coisa interessante. O corpo e a grade estão incompletos, dissipados. A boca, levemente sorridente e aberta, produz um efeito de sentido de encantamento. A estaticidade dos olhos os torna atentos. Circundam o rosto os cabelos longos, de onde saem, na extensão, arabescos coloridos que figurativizam visualmente o movimento da memória. A partir de seus óculos colocados na ponta do nariz, veem-se refletidas figuras de pessoas que vão dançando, brincando de roda, passeando sobre um dos arabescos, simulando a incorporação das figuras pela menina. O cromatismo dessas figuras é equivalente ao cromatismo da palavra Olimpíada.
O fundo da capa figurativiza uma folha seca de árvore, num tom verde acinzentado quase apagado, toda manchada e respingada. A composição dessa capa supõe uma temporalidade do agora, na posição estática da menina que ouve, em contraposição ao tempo passado, que se dilui na folha apagada e neblinada do fundo. Portanto, a feição estupefata da mão, queixo, boca, olhos e sobrancelha coloca, de modo peculiar, a menina em conjunção com um outro, o seu interlocutor. Esse outro não está projetado fisicamente na imagem, mas está pressuposto pela ação de ver e ouvir da menina e pelas figuras de memórias que passam por sua cabeça, mas que apresentam contornos indefinidos, imprecisos, associados ao título do livro “Se bem me lembro...”, colocado imediatamente acima, no mesmo tom da cor de fundo da capa.
Retomando a análise do sintagma “Escrevendo o Futuro”, na sua relação com o todo constitutivo, observa-se que as cores e as formas sensibilizam sentidos e que o conteúdo instaura outra tensão de ordem temporal. Dado que “[...] o tempo do discurso é sempre uma
criação de linguagem” (FIORIN, 2003, p. 166), a expressão “Escrevendo o Futuro”, somada à semântica do tempo passado (nas figuras do memorialismo), tornar-se-ia, a princípio, incompatível: passado e futuro juntos. Mas isso se resolve por meio da intencionalidade da voz do enunciador institucional, que explicita o desejo de ver os jovens escolarizados aprendendo efetivamente a ler e a escrever com qualidade para hoje, amanhã e sempre. Esse aprender a escrever, no presente contínuo de “escrevendo”, visa a um futuro melhor para o país. Esse efeito de sentido associa-se à ideia de “buscar o passado, para conhecer o presente e construir o futuro”. Temos, então, o semissimbolismo entre o plano da expressão e do conteúdo legitimando o valor da escrita.
A capa sugere uma inclinação polissêmica articulada, projetando, em uma mesma imagem, múltiplos sentidos: a cultura escolar, os episódios da vida comum de pessoas envolvidas nesse universo. Assim temos a representação do alto, do elevado dos pensamentos, no desenho da cabeça da menina; o novo (a menina), que vivifica e ressignifica o velho (pessoas que passeiam nos arabescos); a contemplação do que seria esquecido; a vida retratada no limiar, no espaço aberto e ilimitado dos pensamentos.
De modo geral, o equilíbrio cromático (o colorido da capa), a individualidade coletiva (a menina e os atores que a constituem) e a própria temática da memória são exemplos que sugerem a busca pela unidade na diferença. Afastam-se as relações de caráter unilateral e tradicional de um discurso oficial do passado e celebra-se um discurso oficial transformado, renovado.
A questão autoral do Caderno também é um aspecto a se destacar. A ausência dos nomes das autoras na capa recobre um índice de institucionalização. O Caderno Se bem me lembro... (2008) possui autoria, cujos nomes registrados na ficha catalográfica são de Regina Andrade Clara e Anna Helena Altenfelder. No corpo do Caderno, porém, a responsabilidade autoral parece diluir-se, ao ser assumida a voz coletiva da equipe da OLPEF, também representante da voz oficial. O MEC, por sua vez, representa antes uma “voz fiadora” (que garante), do que propriamente a voz locutora desse dizer (MAINGUENEAU, 2008). O Caderno não nega a autoria, mas projeta instâncias maiores, arquidestinadoras, que legitimam e autorizam o enunciado. Por isso, essa instância do arquidestinador remete a fiadores desse dizer. O arquidestinador é o Governo Federal.
A autoria no Caderno Se bem me lembro..., assim como a de outros textos da Olimpíada, não se centra em torno das assinaturas individuais, que legitimam a suposta autenticidade autoral, mas em torno da construção de um programa coletivo (pensado por uma equipe) e destinado à coletividade (professores e alunos de escolas públicas de todo país),
temos um autor com menor densidade de presença. Esse programa educativo segue uma metodologia própria, para abordar e sistematizar o estudo, a produção e a circulação de diferentes gêneros discursivos.