A renúncia ao conhecimento preciso é perigosa. A razão é simples: ela acaba, em um único movimento, com a possibilidade do homem ter convicções para apoiar-se em suas andanças pelo mundo. Como bem observou Ortega y Gasset, não existe um homem “sem convicções”. Até mesmo um cético tem a sua convicção de que a dúvida é a base de sua visão-de-mundo. Mas quando se legitima a dúvida como um princípio sistemático e se renuncia conseqüentemente a um saber empírico na crença de que isso é a atitude correta do verdadeiro conhecimento – é aqui que se dá a crise do humanismo. Existem, com isso, duas opções de vida: aceitar a própria renúncia, e assim viver a sua vida em algo próximo da paralisia, ou então tomar a renúncia como impulso para uma ambição desmedida. Aparentemente são diferentes, mas, no fim, convergem para o mesmo ponto – o desencantamento do mundo, se usarmos a expressão de Max Weber, ou, se voltarmos à patrística cristã, a
acedia. Ortega y Gasset explica com muita fineza os movimentos espirituais dessas atitudes:
“Viver é sempre, queira-se ou não, estar com alguma convicção, crer em algo sobre o mundo e de si mesmo. Essas convicções, essas crenças podem ser negativas. Um dos homens mais convencidos que pisaram sob a terra foi Sócrates e ele estava convencido somente de que não sabia nada. Pois bem, a vida, como crise, é ter um homem com convicções negativas. Esta situação é terrível. A convicção negativa, de não se sentir certo sobre nada importante, impede o homem de decidir sobre que vai fazer com precisão, energia, confiança e entusiasmo sincero: não pode encaixar a sua vida em nada, ligá-la a um destino certo. Tudo o que faça, sinta, pensa e diga será decidido e executado sem convicção positiva, sem efetividade; será um espectro de fazer, sentir, pensar e dizer; será a
vita minima, uma vida vazia de si mesma, inconsistente, instável. Como no fundo não está convencido de nada positivo e, portanto, não está verdadeiramente decidido a nada, com suma felicidade o homem passará e passarão também a massa de homens do branco ao negro. Nas épocas de crise não se sabe o que é cada homem porque, com efeito, ele não é nada decisivamente; hoje é uma coisa e amanhã é outra. Imaginem um indivíduo que se perde por completo no campo, sem nenhuma orientação; dará uns passos em uma direção, depois outros em outra direção, talvez na oposta. A orientação, os pontos cardeais que dirigem nossos atos são o mundo, as nossas convicções sobre o mundo. E este homem da crise encontra-se sem mundo, entregue de novo à pura circunstância – em uma desorientação lamentável. A estrutura de tal vida abre uma margem
ampla para várias tonalidades sentimentais como forma de vida; são variadas, mas pertencem a uma mesma fauna negativa; o homem sentirá uma frieza cética ou uma angústia ao sentir-se perdido ou talvez um desespero que o fará muitas coisas de aspecto heróico, mas, no fundo, desesperadas; ou sentirá fúria, frenesi, apetite por vingança pelo vazio de sua vida que o incita a gozar brutalmente, cinicamente de tudo o que encontra pelo seu caminho – carne, luxo, poder. A vida tem um sabor amargo – e logo nos encontraremos com a acedia de Petrarca, o primeiro renascentista.
Mas a existência humana tem horror ao vazio. Ao redor desse estado efetivo de negação, de ausência de convicções, fermentam germes obscuros de tendências positivas. É mais do que isso: para que o homem deixe de crer em algumas coisas, é preciso que germine nele a fé confusa em outras. Essa nova fé, ainda imprecisa como a luz da madrugada, irrompe de quando em quando na superfície negativa que é a vida do homem em crise e o proporciona alegrias súbitas e entusiasmos instáveis que, por contraste com seu tom habitual, tomam o aspecto de ataques orgiásticos. Esses novos entusiasmos começam logo a estabilizar-se em alguma dimensão da vida enquanto as outras continuam na sombra da amargura e da resignação.”201.
E é verdade que será na arte – entendida aqui como a poesia, a retórica e a historiografia exercidas pelos humanistas – que veremos como a crise religiosa reflete-se na própria vida de seus maiores exemplos, caracterizada não só por uma instabilidade de convicções, mas também por uma instabilidade de locomoção. De certa forma, a proliferação de humanistas, caracterizados como “nômades”, “ciganos” e até mesmo “exilados”, nas universidades da Itália e, depois, no Norte, não é, de forma nenhuma, um requisito de estratégia intelectual e sim um modo de vida surgido por uma simples necessidade. É nessa instabilidade que o homem renascentista se descobre em sua interioridade e se vê como indivíduo que independe de pátria ou descendência. A sua nobreza (nobilitá) está em si mesmo, em seus feitos, em sua capacidade de descrever e analisar o mundo como ninguém fez antes, especialmente porque escolheu ser um “banido”. É sobretudo, esse
“banimento que possui a qualidade de desgastar o homem ou de desenvolvê-lo ao máximo. ‘Em todas as nossas cidades mais populosas’, afirma Giovano Pontano, ‘encontramos uma porção de gente que abandonou voluntariamente sua terra natal; as virtudes, porém, o homem as carrega consigo por toda a parte’. Na realidade, não se tratava
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absolutamente de verdadeiros exilados, mas daqueles milhares que haviam deixado espontaneamente a terra natal porque a situação política ou econômica em si tornava-se insuportável (...). [Um dos exemplos dessa situação] é Dante [que] encontra uma nova pátria na língua e na cultura italianas, mas ultrapassa-as também com estas palavras: ‘Minha pátria é o mundo todo’. E, quando, sob condições indignas, lhe é oferecido o retorno à Florença, responde: ‘Não sou eu capaz de ver a luz do sol e dos astros em toda a parte? De meditar onde quer que seja sobre as mais nobres verdades, sem que para isso tenha de apresentar-me perante o povo e a cidade de forma inglória e mesmo ignominiosa? Nem sequer o pão há de me faltar!’. Também os artistas, com superior insolência, acentuam sua liberdade diante da obrigatoriedade da residência fixa: ‘Somente aquele que tudo aprendeu’, diz Ghiberti, ‘não é em parte alguma, um estranho; ainda que roubado de sua fortuna e sem amigos, é ele cidadão de todas as terras, podendo desprezar sem medo as oscilações do destino’. Algo semelhante declara um humanista refugiado [chamado Codri Urcei]: ‘Onde quer que um homem instruído estabeleça a sua moradia, ali terá o seu lar’”202.