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2. Kunnskapsgrunnlag

2.1 Barnehagen sine samfunnsmandat

Essa “vontade de Deus” era justamente o ponto de interrogação entre os filósofos e os homens de letras em meados de 1494. Quando More conhece Thomas Linacre, William Grocyn e John Colet, o humanismo italiano entra no mundo intelectual do Norte da Europa – a Inglaterra, a França e os chamados Países Baixos, como a Holanda – como uma força especulativa de grande atração. Afinal, era nada mais nada menos que a rinnovazione, a renovação, o renascimento. Mas essa aparente exaltação de uma nova era do pensamento escondia, na verdade, um profundo sentimento de crise. E esta crise se manifestava nas freqüentes viagens que tanto os italianos como os ingleses faziam a vários países da Europa, transmitindo e aperfeiçoando a nova educação humanística. Na Inglaterra, a cultura da Renascença difundiu-se

“graças a uma série de estudiosos italianos que foram ensinar em Oxford e Cambridge nos últimos anos do século XV. Um dos primeiros a chegar foi o milanês Stefano Surigone (1430-1480), que lecionou gramática e retórica em Oxford, de 1454 a 1471. Logo seguiu-se a ele Cornélio Vitelli (1450-1500), que recebeu um convite de Thomas Chaundler para ser praelector de grego no New College, isso na década de 1470, assim tornando-se o primeiro professor público de grego numa universidade inglesa. Em pouco tempo, vários propagandistas animados pelo mesmo espírito também se mostravam ativos em Cambridge. Lorenzo da Savona lecionou nessa universidade na década de 1470, bem como publicou um

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manual de retórica, em 1478, que antes do fim do século teve duas edições impressas. E Caio Auberino (1450-1500) combinou suas incumbências de dictator oficial da universidade com a apresentação de uma série análoga de palestras sobre a literatura latina, no decorrer dos anos 1480”178.

Sem dúvida, um dos trunfos do humanismo renascentista foi a difusão de seu pensamento através de escritos que, pela primeira vez, eram impressos e publicados em tiragens razoáveis. Como bem definiu Quentin Skinner: “Nenhum grupo percebeu tão depressa quanto os humanistas as potencialidades do novo meio de comunicação”179. Essas potencialidades acumulavam-se em obras que eram publicadas por um impulso de renovar algo que parecia não existir mais e que os humanistas sentiam-se na obrigação de recuperar de qualquer forma. Este impulso era atacar o pensamento escolástico e, dessa forma, os humanistas “souberam servir- se da prensa, a fim de promover seus interesses contra os de seus adversários escolásticos”180. Uma simples lista de nomes e de títulos impressos na França mostra como era a estratégia:

“O primeiro prelo a funcionar na França foi instalado no subsolo da Sorbonne, em 1470. O inspirador do empreendimento, Guillaume Fichet, em sua Carta a Robert Gaguin destacou a importância ‘dessa nova invenção que acaba de nos chegar da Alemanha’. Sua firme convicção é que a imprensa ‘contribuirá enormemente para que se recupere o estudo das humanidades’. Em sua juventude, observa ele, ‘não havia oradores nem poetas’ lecionando em Paris; por isso ‘o estudo do latim havia decaído a uma ignorância quase de rústicos’. Agora, porém, ‘as musas voltam a ser cultivadas’, e graças aos livros impressos será possível encorajar ainda mais as ‘boas letras’ e os ‘eruditos’. Conformando suas ações a suas palavras, Fichet tratou de usar sua prensa de modo a promover a mais vasta distribuição possível de textos e manuais humanistas. Em três anos, havia editado De officis, de Cícero, um Salústio integral, considerável número de obras modernas, incluindo seu próprio manual acerca das artes retóricas, as Elegâncias da língua latina,

178 SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno, Companhia das Letras, 2006, pág.

215.

179 Idem. 180 Ibid.

de Lorenzo Valla, e o Dictamen de Gasparino de Barzizza, o primeiro livro a ser impresso na França”181.

Mas qual era o problema com o pensamento escolástico? A escolástica não era uma disciplina específica e sim uma metodologia em que a preocupação principal era o arranjo de partes distintas que podiam ser divididas e subdivididas em elementos sutis e inter-relacionados. Há uma paixão pela lucidez e pela clareza tanto nas propostas, nos princípios e, claro, nas argumentações – que deveriam ser comprovadas mediante a presença da autoridade objetiva. Esta autoridade era a da própria realidade – que não deveria ser “adicionada” pelo filósofo ou pelo artista; ela deveria ser “revelada” lentamente, através de árduos expedientes intelectuais. O método era basicamente amparado em perguntas que, muitas vezes, podiam chegar ao paroxismo. Os exemplos são vários: Por quanto tempo e como Cristo ficou no útero da Virgem Maria? Poderia Cristo tomar a forma de uma mulher ou de uma mula? Se fosse a segunda opção, uma mula podia ser crucificada? Existirá comida e bebida depois da Ressurreição de todos os homens? E poderia chegar-se a diferenças no próprio sentido de uma frase – procedimento usado, nesse caso, para reforçar ou enfraquecer uma argumentação: Qual é a diferença entre ‘Vinum bibi

bis’, “Vinho bebi duas vezes”, e ‘bis uinum bibi’, “Duas vezes bebi vinho?”. Ou entre ‘Papam uerberaui’ e ‘uerberaui papam’ – “Papa, eu me flagelei” e “Eu flagelei o Papa”? O descolamento dessas questões, mesmo amparadas em um todo supostamente articulado e harmônico, do mundo real e da linguagem que tentava expressá-lo corretamente, mostram que a metodologia escolástica chegava a uma loucura do intelecto que criava um sentido próprio. Todavia, o próprio More usaria esses mesmos expedientes em suas polêmicas contra os protestantes, pois ele sabia que a dialética ali ensinada era algo único e que podia ser usada a favor de argumentos que respeitavam a realidade que deveria ser “revelada”. Um estudo sadio da escolástica ajudaria muito no uso correto da retórica persuasiva, uma vez que o que importava era a autoridade do real.

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