A construção do diário feito por mim visou registrar as minhas reflexões sobre a participação dos alunos e sobre a minha prática nas vivências. Nas práticas de leitura do PAG,
antes de iniciar, eu os orientei sempre sobre a atividade que desenvolveríamos: ler o texto, depois falar sobre o texto e expor suas ideias livremente.
Da primeira vivência
Quadro 15: Diário 1 – Professora
Na primeira vivência, eu estava ansiosa, pois não sabia bem como agir, fora a preocupação com o gravador, se funcionaria ou não. Entreguei o texto, expliquei o que seria a atividade do pensar alto em grupo e esclareci como procederíamos. Após isso, foi dado o tempo para a leitura. Depois de algum tempo, perguntei se nós poderíamos começar a pensar alto sobre o texto.
De início, preocupada em ouvir as leituras, fiz perguntas e parece que não houve receio por parte de dois participantes em falar sobre o texto lido. Inicialmente somente dois alunos se posicionaram, acredito que isso ocorreu porque eles já tinham lido o texto. Percebi que precisava buscar outras vozes, fiz outras perguntas. Entre essas perguntas, uma que questionou se eles acreditavam que o ambiente influenciava ou não o comportamento da pessoa. A partir disso, desencadeou-se a voz de outros participantes.
Procurei deixá-los à vontade para apresentarem suas leituras, mas percebi que poderia ter dado mais espaço para os alunos expressarem seus pensamentos, sua posição sobre o lido, se tivesse falando menos e também percebi que em alguns momentos sem perceber direcionava a leitura deles. Uma prática tradicional que sem intenção se fez presente na prática de leitura de quem está buscando mudança na sua prática para que favoreça a formação do leitor crítico.
Fonte: Elaboração da autora.
Da sexta vivência
Quadro 16: Diário 6 – Professora
Mais uma vez antes de iniciarmos, retomo as orientações sobre como procederíamos. Nessa vivência, percebi os alunos mais agitados e mais à vontade, vendo isso, aproveitei e pedi que eles falassem sobre algum momento de leitura na família, na escola ou em outro ponto local; se lembravam de algum livro que já tivessem lido. Disse a eles que seria mais uma conversa inicial. Alguns falaram brevemente, relembrando um ou outro momento. Depois disso, comecei a ouvir as vozes dos alunos referentes à leitura.
pergunta que fiz, se eles se identificavam com alguma das imagens, porque quis aproveitar a experiência de alguns em relação ao campo profissional, já que o texto fazia menção nesse sentido. Essa pergunta desencadeou alguns olhares sobre o lido, mas percebi, apesar de ser a sexta vivência, a minha dificuldade de me desprender da minha ação mais diretiva como professora.
Todas as vezes que participei do pensar alto em grupo sempre fui com a intenção de acertar, mas em algum momento incorria numa prática limitadora da construção de sentidos, mas também posso afirmar que em outros momentos na interação, propiciei espaço para suas vozes e eles muitas vezes se revelaram leitores com posicionamento, com leituras críticas, assumindo uma postura de leitor crítico.
Enfim, vi que todo esse processo interativo vivenciado por nós serviu de aprendizado, tanto para mim, a professora, como para os alunos como leitores.
Fonte: Elaboração da autora.
Essas considerações sinalizaram o reconhecimento de quem na prática de leitura ora limitou, ora oportunizou a construção de sentidos dos alunos. Foi dado o espaço para exprimirem suas vozes e ouvir outras e reconstruir, muitas vezes, as suas leituras. Estava ciente do que buscava, a intenção era abrir espaço para que os alunos pudessem se manifestar, sem se sentirem censurados, e percebessem que é possível expor sua voz e ouvir outras, possibilitando a reconstrução de suas leituras.
Nesse processo de interação, eles apresentaram seu posicionamento, ora concordando, ora discordando, ora acrescentando outros sentidos e, em vários momentos, associaram a leitura do texto a outros referenciais que provavelmente fazem parte de suas vidas, pois a compreensão do texto está relacionada ao conhecimento prévio do leitor, ao texto e ao seu contexto, pois esse tipo de interação propicia que ele se transforme e transforme o outro, conforme Vygotsky (1984/1994), o homem se constrói nas relações com o outro, pois a ação do sujeito sobre o objeto é mediado pelo outro por meio da linguagem.
Ressalto que quem escreve o texto estará colocando sua perspectiva sobre o lido, isso faz com que o leitor concorde ou não com o que está no texto, pois o sentido construído está embasado no conhecimento do autor, do leitor, e é influenciado pelo contexto sócio-histórico, criando um diálogo que propicia uma leitura com criticidade.
O sentido não é determinado, nem é independente da subjetividade do leitor, pois ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para outras vozes na interação,
produzirem conhecimento, tendo autonomia e autoridade sobre o dito, ratificando o seu papel como sujeito social.
Das leituras das vozes dos alunos e de minha voz, tenho a sensação que, apesar de meu esforço, poderia ter conseguido um retorno mais significativo dos alunos e da professora. Em relação a meu texto no diário, notei que não escreveria da mesma forma, pois, com a análise, a minha percepção foi se alargando e, possivelmente, seriam textos mais críticos e mais problematizadores. Um exemplo, procuraria apontar as reflexões dos alunos nas vivências e discuti-las no meu diário, depois levaria para a discussão no grupo e verificar qual a posição deles referente o que eles escreveram e a minha percepção sobre o escrito deles. Todavia, enxergo que houve um aprendizado significativo para a minha prática docente, também tenho ciência que foi um passo entre tantos ainda que terei de dar, mas aprender é um ato contínuo, isso é uma razão se pretendo uma prática de leitura diferente do modelo tradicional, agir reflexivamente, essa parece ser uma das primeiras ações do professor.
Se se pretende ser um professor que “não centraliza tarefas, coordena-as” (TINOCO, 2010, p. 207), está-se postulando um professor como agente de letramento (KLEIMAN, 2006b) e, segundo Baltar (2010, p. 213), esse professor é “um mediador de práticas sociais situadas no mundo letrado, pelas quais os estudantes passam ao longo de seu processo de letramento”. Portanto, a postura e os encaminhamentos dados na prática de leitura do Pensar Alto em Grupo influenciam sobremaneira a postura dos alunos como leitores. Por isso, devemos estar cientes que tipo de cidadão queremos formar e que tipo de sociedade queremos.
Tendo focado perspectivas diversas dos dados nos diários, a seguir, discuto os dados gerados a partir das perguntas 3 e 4 contidas no roteiro da entrevista.
5.5 Análise da voz dos alunos na vivência do Pensar Alto em Grupo: enfoque na