• No results found

Ao dedicarmos, em nossa pesquisa, à elaboração de propostas para trabalhar a variação linguística em sala de aula – de modo específico a variação semântico-lexical de caráter diatópico – devemos nos voltar inicialmente para uma análise de questões referentes ao ensino de Língua Portuguesa no Brasil.

Ainda nos dias atuais, mesmo após inúmeros estudos na área da Linguística e várias discussões a respeito do ensino de Língua Portuguesa, a prática de ensino voltada para a gramática normativa é bastante comum.

A variação é fenômeno presente em qualquer língua natural, pois, ao ser exteriorizada, ela (a língua) sofre influências desse meio externo. Assim sendo, o ensino de língua, no nosso caso, do Português, deve ter sempre evidente a questão da variação linguística, procurando

demonstrar para os alunos a diversidade linguística e a importância de respeitarmos o modo de expressar de cada usuário da língua.

Tradicionalmente, no Brasil, o ensino de Língua Portuguesa, conforme já assinalamos, teve como destaque o trabalho com a metalinguagem e o ensino das normas preconizadas pela gramática normativa, menosprezando outras variedades linguísticas. Desse modo, a postura adotada durante muito tempo nas escolas foi a de julgar as formas de manifestação linguística, por meio do paradigma certo e errado. A língua utilizada pelos grupos sociais privilegiados foi eleita como modelo a ser seguido e as demais variedades linguísticas, por conseguinte, foram consideradas erradas. Isso tudo gerou o que os linguistas chamam de preconceito linguístico.

Nesse contexto, o desenvolvimento da Linguística, de modo especial de disciplinas como a Psicolinguística e a Sociolinguística, possibilitou um novo olhar sobre a língua. A inegável coexistência de variedades línguísticas dentro das línguas permitiu que se repensassem as práticas pedagógicas no que se refere ao seu ensino, surgindo, destarte, novas posturas diante dele.

No Brasil, os PCN (1998) constituem um marco, em relação à tentativa de estabelecer diretrizes para o ensino de Língua Portuguesa, pautadas pelos conceitos apresentados pelos estudos linguísticos que se voltam para a questão da variação linguística. Nesse documento, a língua é concebida como fenômeno histórico-social, instrumento de interação, por meio do qual o homem significa a realidade em que vive e interpreta o mundo em que está inserido e interpreta a si mesmo. A partir dessa perspectiva, os PCN (1998) determinam como objeto de ensino da disciplina Língua Portuguesa “[...] o conhecimento linguístico e discursivo com o qual o sujeito opera ao participar das práticas sociais mediadas pela linguagem” (BRASIL, 1998, p. 22).

O posicionamento adotado pelos PCN (1998) prevê o desenvolvimento de competências discursivas, por parte aluno, por meio de uma “[...] prática constante de escuta de textos orais e leitura de textos escritos e de produção de textos orais e escritos” (BRASIL, 1998, p. 27), com base na análise e reflexão dos múltiplos aspectos envolvidos nessa prática.

Ao adotar uma visão, a respeito da língua, diferente da que marcou o processo de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa durante muito tempo, os PCN (1998) trazem uma proposta de ensino voltada para a reflexão sobre a língua e sobre seu uso. Assim, o conceito de variação linguística permeia todo o texto desse documento de forma a destacar o fato de que a língua não é homogênea, única, mas que se constitui de diferentes formas de manifestação quando efetivamente usada.

Nesse sentido, os PCN (1998) determinam que

[...] o uso de uma ou outra forma de expressão depende, sobretudo, de fatores geográficos, socioeconômicos, de faixa etária, de gênero (sexo), da relação estabelecida entre os falantes e do contexto de fala. A imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre o que se deve e o que não se deve falar e escrever, não se sustenta na análise empírica dos usos da língua (BRASIL, 1998, p. 29).

A prática escolar – em relação ao ensino de normas que desconsidera a complexidade e a variabilidade da língua – tem sofrido críticas. Entretanto, observamos que não se sugere o abandono ao estudo da norma de prestígio – ou língua padrão, como é feita a referência nos PCN (1998) – pelo contrário, é papel da escola ensinar essa variedade linguística, mas tudo depende do enfoque que se dá a esse ensino.

Nesse sentido, os PCN (1998) preceituam que

[...] para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a escola precisa livrar-se de vários mitos: o de que existe uma forma correta de falar, o de que a fala de uma região é melhor do que a de outras, o de que a fala correta é a que se aproxima da língua escrita, o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma língua difícil, o de que é preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado (BRASIL, 1998, p. 31).

Outra questão relevante abordada pelos PCN (1998) diz respeito à adequação linguística. Se a prática de ensino de Língua Portuguesa atualmente vem assumindo novos contornos, por considerar os preceitos da teoria da variação linguística, acreditamos que não basta apresentar essa perspectiva aos alunos, mas propiciar um trabalho que conduza à tomada de consciência quanto a esse assunto. É necessário que os alunos identifiquem a norma de prestígio como uma variedade que serve a diversas situações, mas que a variedade linguística por eles utilizada, bem como outras variedades que constituem nossa língua, também são legítimas e têm seu lugar em contextos distintos. Parafraseando os PCN (1998), destacamos que o ensino-aprendizagem de diferentes níveis de fala e escrita deve ter como principal objetivo mostrar aos alunos que a língua nos oferece possibilidades de uso, isto é, diante da diversidade linguística é possível escolher a variedade que se adequa a nossa intenção comunicativa. Nesse contexto, o papel fundamental da escola, em relação ao ensino da Língua Portuguesa, não é impor aos alunos um modelo linguístico considerado como certo, “[...] não é levar os alunos a falar certo [...]”, mas possibilitar-lhes uma visão de língua de forma

reflexiva para que eles sejam capazes de utilizá-la de acordo com as características e condições da situação de produção. “A questão não é de erro, mas de adequação às circunstâncias de uso, de utilização adequada da linguagem” (BRASIL, 1998, p. 31).

Com esse posicionamento no que se refere à concepção de língua, os PCN (1998) estabelecem como objetivos gerais do ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental, dentre outros:

[…] - conhecer e valorizar as diferentes variedades do Português, procurando combater o preconceito linguístico;

- reconhecer e valorizar a linguagem de seu grupo social como instrumento adequado e eficiente na comunicação cotidiana, na elaboração artística e mesmo nas interações com pessoas de outros grupos sociais que se expressem por meio de outras variedades; […] (BRASIL, 1998, p. 33).

Os PCN (1998) determinam ainda, como objetivos específicos de ensino:

No processo de produção de textos orais, espera-se que o aluno: […]

- considere os papéis assumidos pelos participantes, ajustando o texto à variedade linguística adequada;

- saiba utilizar e valorizar o repertório linguístico de sua comunidade na produção de textos;

[…]

No processo de análise linguística, espera-se que o aluno: […]

- seja capaz de verificar as regularidades das diferentes variedades do Português, reconhecendo os valores sociais nelas implicados e, consequentemente, o preconceito contra as formas populares em oposição às formas dos grupos socialmente favorecidos (BRASIL, 1998, p. 51-52).

Em outros momentos, a variação linguística é ainda mencionada no texto dos PCN (1998), o que reitera a necessidade de se abordar a língua sob um novo enfoque, diferente daquele no qual se baseou o ensino de Português por tanto tempo.

Além desse aspecto linguístico, os PCN (1998) tratam também do ensino do léxico. O referido documento apresenta os conteúdos de Língua Portuguesa articulados em dois eixos: o uso da língua oral e escrita e a reflexão sobre a língua e a linguagem. Dentre os conteúdos deste segundo eixo, destacam-se: “a variação linguística: modalidade, variedades, registros”, “léxico e redes semânticas” e “processos de construção de significação” (BRASIL, 1998, p. 36).

No que diz respeito ao estudo do léxico, verificamos que se critica a prática pedagógica que considera os itens lexicais – ou as palavras, como se faz referência no texto dos PCN (1998) – isoladamente, ou seja, que acontece de forma descontextualizada. Sendo

assim, os PCN (1998) apresentam uma proposta de trabalho com o léxico em um determinado contexto, não o reduzindo à apresentação de sinônimos de um conjunto de itens lexicais desconhecidos pelo aluno. Além disso, os PCN (1998) destacam a necessidade de se trabalhar com o vocabulário. São estes, portanto, os dois principais aspectos trazidos pelas orientações curriculares quanto ao ensino do léxico: atividades contextualizadas, voltadas para o significado dos itens lexicais e ampliação do vocabulário dos alunos.

A prática de análise linguística apontada pelos PCN (1998), no que se refere ao léxico, volta-se, então, para a ampliação do repertório lexical dos alunos, com o intuito de torná-los competentes para usarem a língua em diversas situações, adequando-a aos contextos de uso.

Nesse sentido, a prática de ensino focada no léxico, segundo os PCN (1998), deve se dedicar à

[...] ampliação do repertório lexical pelo ensino-aprendizagem de novas palavras, de modo a permitir:

- escolha, entre diferentes palavras, daquelas que sejam mais apropriadas ao que se quer dizer ou em relação de sinonímia no contexto em que se inserem ou mais genéricas/mais específicas (hiperônimos e hipônimos);

- escolha mais adequada em relação à modalidade falada ou escrita ou no nível de formalidade e finalidade social do texto; organização das palavras em conjuntos estruturados em relação a um determinado tema, acontecimento, processo, fenômeno ou mesmo objeto, como possíveis elementos de um texto;

- capacidade de projetar, a partir do elemento lexical (sobretudo verbos), a estrutura complexa associada a seu sentido, bem como os traços de sentido que atribuem aos elementos (sujeito, complementos) que preencham essa estrutura;

- emprego adequado de palavras limitadas a certas condições histórico- sociais (regionalismos, estrangeirismos, arcaísmos, neologismos, jargões, gíria);

- elaboração de glossários, identificação de palavras-chave, consulta ao dicionário (BRASIL, 1998, p. 62-63).

Em última análise, cabe-nos destacar que, além da abordagem feita acerca dos aspectos relacionados ao ensino da Língua Portuguesa, ora apresentados, os PCN (1998) apontam sugestões de atividades voltadas para alguns dos conteúdos discutidos, encontrando- se, dentre eles, a variação linguística e o léxico.

Podemos citar, dentre as propostas sugeridas, atividades que, segundo o referido documento, possibilitam explorar de forma mais intensa questões de variação linguística:

[...]

- transcrição de textos orais, gravados em vídeo ou cassete, para permitir identificação dos recursos linguísticos próprios da fala;

- análise da força expressiva da linguagem popular na comunicação cotidiana, na mídia e nas artes, analisando depoimentos, filmes, peças de teatro, novelas televisivas, música popular, romances e poemas;

- levantamento das marcas de variação linguística ligadas a gênero, gerações, grupos profissionais, classe social e área de conhecimento, por meio da comparação de textos que tratem de um mesmo assunto para públicos com características diferentes;

[…]

- comparação entre textos sobre o mesmo tema, produzidos em épocas diferentes;

[…]

- análise de fatos de variação presentes nos textos dos alunos;

- análise e discussão de textos de publicidade ou de imprensa que veiculem qualquer tipo de preconceito linguístico;

- análise comparativa entre registro da fala ou de escrita e os preceitos normativos estabelecidos pela gramática tradicional (BRASIL, 1998, p. 82- 83).

Quanto ao trabalho com o léxico, os PCN (1998) trazem as seguintes sugestões de atividades:

[...]

explorar ativamente um corpus que apresente palavras que tenham o mesmo afixo ou desinência, para determinar o significado de unidades inferiores à palavra;

- aplicar os mecanismos de derivação e construir famílias de palavras; - apresentar textos lacunados para, por meio das propriedades semânticas e das restrições selecionais, explicitar a natureza do termo ausente;

- apresentar um conjunto de hipônimos e pedir ao aluno para apresentar o hiperônimo correspondente;

- apresentar um conjunto de palavras em que uma não é hipônimo e pedir que o aluno a exclua, explicitando suas razões;

- inventariar as palavras de determinado campo semântico, presentes em determinado texto, e analisar os efeitos de sentido obtidos com o emprego; - inventariar as palavras de determinada variedade ou registro, presentes em um texto, e analisar os efeitos obtidos com o emprego;

-identificar, em textos, palavras ou expressões que instalam pressuposições e subentendidos e analisar as implicações discursivas;

- identificar e analisar a funcionalidade de empregos figurados de palavras ou expressões;

- identificar os termos-chave de um texto, vinculando-os a redes semânticas que permitam a produção de esquemas e de resumo (BRASIL, 1998, p. 84- 85).

As propostas apresentadas corroboram com a perspectiva referente à definição de língua adotada pelos PCN (1998), bem como com a postura didática relacionada ao ensino de Língua Portuguesa assumida por esse documento.