Ao traçar os objetivos de uma pesquisa é necessário que façamos um exercício de reflexão em busca dos instrumentos a serem utilizados na execução da pesquisa. Para que a finalidade de um trabalho científico seja atingida é imprescindível determinar com cuidado e rigor os referidos instrumentos de coleta, tendo em mente que eles variam conforme a metodologia adotada. Pensando nisso, para o desenvolvimento da presente pesquisa utilizamos como instrumentos de coleta de dados: a ficha do sujeito, o diário de itinerância da professora/pesquisadora e as atividades dos alunos produzidas durante as oficinas pedagógicas.
A ficha do sujeito foi o instrumento por nós utilizado para construir com maior exatidão o perfil dos alunos participantes da pesquisa. Conforme evidenciamos, na seção anterior, essa ficha foi composta por uma série de questionamentos a respeito dos alunos e de seus pais ou responsáveis. Acreditamos que as informações obtidas tiveram grande relevância para que pudéssemos compreender melhor a turma com a qual estávamos lidando.
O diário de itinerância da professora/pesquisadora ou, simplesmente, diário de campo é o instrumento, por meio do qual registramos diariamente como se deu a aplicação das oficinas, descrevendo as aulas e acrescentando, além disso, nossas impressões diante do trabalho de intervenção, da receptividade dos alunos e da pertinência das atividades.
Esta pesquisa desenvolveu-se em sala de aula com a aplicação de oficinas pedagógicas. A realização das oficinas, como procedimento escolhido para desenvolver nosso projeto de intervenção, ofereceu-nos como resultado um rico material composto pelas atividades feitas pelos alunos. Tais atividades são outro importante instrumento que traz dados indispensáveis para a avaliação do que foi desenvolvido durante a pesquisa. A realização das atividades foi importante, porque, por intermédio delas, foi possível avaliar a postura dos alunos diante da variação semântico-lexical e da apropriação de um olhar diferenciado, por parte deles, em relação à importância dessa temática dentro do ensino de Língua Portuguesa.
4 DESCRIÇÃO E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
Conforme já evidenciamos, a pesquisa-ação pressupõe um constante processo de análise da prática desenvolvida. Entretanto, além do contínuo exercício de avaliação de nossa ação, é necessário que nos voltemos para a análise dos resultados propriamente dita. Em outras palavras, além da prática de ação-reflexão-ação que se dá no decorrer da pesquisa-ação, é preciso, após realizado esse tipo de pesquisa, organizar os dados coletados e analisá-los como um todo. Isso quer dizer que essa etapa serve para analisar os resultados obtidos, a partir da ação implementada durante a realização da pesquisa bem como permite um olhar sobre a prática desenvolvida de modo global, não mais apenas de forma fragmentada como foi sendo feito durante a realização das atividades de intervenção.
Para o desenvolvimento deste capítulo, acreditamos ser necessário evidenciar o modo como planejamos a sua estruturação. Como apresentamos na seção 3.7 (correspondente aos instrumentos de coleta de dados), utilizamos como instrumentos a ficha do sujeito, o diário itinerante da professora-pesquisadora e as atividades desenvolvidas nas oficinas. O primeiro desses instrumentos serviu, como reiteradas vezes afirmamos, como suporte para construção do perfil da turma envolvida nesta pesquisa. Foi o mecanismo encontrado por nós para conhecer e compreender características desses alunos que pudessem explicar o modo como eles encarariam nosso trabalho e, principalmente, o modo como eles se comportariam diante das atividades propostas.
A ficha do sujeito foi um dos mecanismos que utilizamos, portanto, para desenvolver a fase exploratória, definida por Thiollent (1996, p.48) como uma etapa que “[...] consiste em descobrir o campo de pesquisa, os interessados e suas expectativas e estabelecer um primeiro levantamento (ou ‘diagnóstico’) da situação, dos problemas prioritários e de eventuais ações”. Reiteramos que a ficha do sujeito foi um dos instrumentos utilizados na fase exploratória de nossa pesquisa. É óbvio que o contato com a turma desde o início do ano letivo, a avaliação do material didático utilizado em sala de aula, as reflexões acerca dos diversos problemas que enfrentamos diariamente no ensino de Língua Portuguesa e algumas discussões estabelecidas em sala a respeito da variação linguística, tudo isso contribuiu para que déssemos os primeiros passos para a realização desta pesquisa. Além disso, nessa fase inicial de nosso trabalho, procuramos também estabelecer uma relação de cooperação entre nós, enquanto pesquisadores, e o grupo a ser pesquisado.
Diante dessas considerações e dos dados que apresentamos na seção 3.6 (intitulada “Os participantes”), acreditamos não ser necessário retomar as informações lá expostas, a não
ser que durante a análise das atividades seja encontrada alguma resposta que se explique, por meio das informações obtidas com este instrumento de coleta de dados.
Este capítulo está dividido, portanto, em duas seções que compreendem: (i) o relato das oficinas, construído com base no diário itinerante da professora/pesquisadora, em que procuramos descrever, com alguns detalhes, como transcorreram as oficinas pedagógicas e tentamos avaliar o porquê de certas atitudes e comportamentos durante as oficinas, assim como apresentamos nossas interpretações e percepções diante das aulas realizadas. Além disso, analisamos as oficinas à luz das teorias por nós estudadas, procurando, quando possível, interpretar os dados coletados embasadas no aparato teórico construído em nossa pesquisa. Nesta primeira seção, apresentamos, também, alguns relatos feitos pelos alunos que foram colhidos das avaliações realizadas ao final das oficinas40; (ii) a análise das atividades realizadas pelos alunos, tendo em vista os objetivos propostos para cada oficina bem como os objetivos traçados para esta pesquisa.
É necessário, ainda, fazermos uma última consideração a respeito do caráter de nossa pesquisa antes de passarmos à descrição e análise dos dados. Pelo fato de este estudo apresentar um caráter qualitativo, é importante destacar que a análise dos dados obtidos com a aplicação das oficinas não poderá ser feita mediante a mensuração dos resultados. Assim, diferentemente do que ocorre em pesquisas de cunho quantitativo, neste caso, a análise dos dados partirá da interpretação desses dados com base na teoria por nós abordada, nos objetivos traçados bem como nas nossas impressões e nas impressões de nossos alunos, no que se refere à realização da pesquisa. É, portanto, impossível que nossa análise se dê de uma maneira absolutamente objetiva, haja vista o fato de que a pesquisa qualitativa impede a neutralidade (seja do professor-pesquisador ou dos alunos-colaboradores).
Nesse sentido, Flick (2009, p. 25, grifos nossos) afirma que
[...] os métodos qualitativos consideram a comunicação do pesquisador em campo como parte explícita da produção de conhecimento. Em vez de simplesmente encará-la como uma variável a interferir no processo. A
subjetividade do pesquisador, bem como daqueles que estão sendo estudados, tornam-se parte do processo de pesquisa.
40 Apesar de não ter sido considerado um instrumento de coleta de dados, as avaliações feitas pelos alunos ao
final das oficinas constituem um material valioso para que possamos analisar as oficinas sob a perspectiva dos alunos.