2. TEORISKE PERSPEKTIVER
2.1 Kunnskap og kunnskapsutvikling
2.1.4 Kunnskapshjelpende kontekst
Na Bauhaus, Friedl havia participado de sessões livres de arte. Ela ofereceu sessões
semelhantes às crianças objetivando a construção de um tempo e espaço para as mesmas
Os primeiros anos da Bauhaus, quando Friedl lá estudou, ficaram conhecidos como os
anos expressionistas, fazendo menção à relação dos ensinamentos dos mestres da escola desse
período com o movimento artístico de vanguarda surgido na Alemanha, aproximadamente em
1905. O movimento contou com vários artistas importantes, entre eles os professores da
Bauhaus Paul Klee e Wassily Kandinsky, e tinha como mote o impulso do sentimento e o uso
emocional da cor e da linha.
Após ter estudado cerca de um ano com Cizek, Friedl foi estudar com Johannes Itten em
sua escola particular em Viena. Tanto Itten quanto Cizek compartilhavam ideias concordantes
com os princípios da educação baseados na reforma pedagógica, ou seja, com os princípios do
Movimento Escola Nova. Na bibliografia levantada por Wick (1989), diferentes autores
afirmam a proximidade entre as teorias e práticas de ambos os mestres que, hipoteticamente,
teriam tido contato em Viena. Mas, apesar de concordantes, a abordagem de Itten incorporava
uma forte tendência ao espiritualismo, baseada em seus estudos e práticas sobre o Mazdaznan87.
Em sua escola particular, iniciada em 1916, Itten testou, modificou e ampliou os
experimentos realizados por seus mestres:
Trabalharam-se exaustivamente formas geométricas e rítmicas, problemas da proporção e da composição plástica expressiva. Novos eram os trabalhos com textura e o aperfeiçoamento das formas subjetivas. [...] O automatismo criativo foi reconhecido como um dos fatores mais importantes da criação artística (WICK, 1989, p. 125).
Depois de dois anos de estudo em sua escola particular, no outono de 1919, Friedl e
outros 15 alunos seguiram Itten até a Bauhaus, na República de Weimar, quando ele conseguiu
uma posição como docente.
87 Doutrina pseudo-orientalista baseada na antiga religião Persa do Zoroastrismo, surgida depois da Primeira
Guerra Mundial e que tinha por objetivo retirar o indivíduo do desespero, prometendo-lhe paz interior através da dedicação às formas orientais de crenças. Promulgava a alimentação vegetariana, o jejum regular, exercícios respiratórios, obrigatórios nas classes de Itten, e um tipo de educação sexual repleta de ritos expurgatórios. Os alu osà ueàpe te ia àaàestaàseitaà espeitava àItte à o oàu aàesp ieàdeà su oàsa e dote .
Durante seu primeiro semestre como professor, Itten atentou ao fato de que muitos
estudantes ingressantes não possuíam os fundamentos da arte. Ele propôs a Walter Gropius a
criação de um curso preliminar objetivando ensinar estes princípios em preparação às oficinas
que posteriormente seriam escolhidas pelos alunos de acordo com seus interesses.
Sendo assim, no outono de 1920 o curso preliminar, ou Vorkurs como era chamado,
ministrado por Itten, passou a ser pré-requisito para todas as oficinas da Bauhaus. O Vorkurs se
propunha a ensinar os princípios formais da arte e a enfatizar seu lado espiritual. De acordo com Wix (2010), o “curso, sem dúvida, serviu mais tarde para moldar os métodos de ensino de arte de Friedl para as crianças em Terezín, pelo fato de que as imagens criadas pelos estudantes
espelham aquelas imagens geradas no curso Vorkurs” (p. 9, tradução nossa).
De acordo com Itten, seu curso preliminar deveria cumprir três funções: libertar as forças
criativas e desenvolver o talento artístico dos estudantes, auxiliar na escolha profissional e
ensiná-los as leis básicas da criação plástica. Em seus escritos, Itten citou a busca da
originalidade e autenticidade na criação artística por parte de seus alunos, ideias que estão muito
próximas do pensamento estético dos artistas modernos no início do século XX.
Segundo Wix (2010), a abordagem pedagógica de Itten, que estava na base do Vorkurs,
se desenvolveu a partir da abordagem liberal de educação infantil de Fröbel e Montessori88.
Para Wick (1989), as práticas pedagógicas de Itten na Bauhaus, e antes dela, fundamentaram-
se nos princípios da pedagogia reformista que ele conhecera em um seminário para formação
de professores em Berna.
88Friedrich Fröbel (1782-1852) foi um pedagogo alemão. De acordo com o pensamento de Fröbel, as crianças
trazem consigo uma metodologia natural que as leva a aprender de acordo com seus interesses pessoais e por meio de atividades práticas. Maria Montessori (1870-1952) foi uma pedagoga e médica italiana. A tradição montessoriana é baseada na ideia do desenvolvimento livre das habilidades através de atividades descontraídas e da autoaprendizagem. Fonte: Revista Escola. Disponível em
http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formador-criancas-pequenas-422947.shtml. Acesso em: 23 jul. 2014.
É evidente que a pedagogia de Itten [...] encontra-se inserida na tradição do movimento reformista pedagógico liberal com Rousseau, Pestalozzi, Fröbel e Montessori, entre outros. De um modo geral, os esforços pedagógicos deles caracterizam-se pelo fato de terem por objetivo desenvolver as habilidades ocultas, latentes nas crianças ou nos jovens, através de um processo de aproximação livre e lúdica da realidade, bem como por meio de uma aprendizagem autônoma [...] (p. 154).
Itten frequentou, em Genebra, o curso ministrado pelo professor Eugène Gilliard, onde,
segundo ele, teria aprendido algo muito importante: os elementos geométricos da forma e seus
contrastes. Isso influenciou sobremaneira sua pedagogia e trabalho artístico. Itten também foi
influenciado por seus estudos na academia com Adolf Hölzel (1853-1934), pintor de origem
checa, em Stuttgart.
Com Hölzel, Itten estudou, entre 1913 e 1916, teoria das cores (a partir de Goethe, Bezold,
Chevreul e das próprias teorias de Hölzel); problematizações sobre claro-escuro; análise dos
antigos mestres, considerado por Itten um exercício de percepção “que tinha por objetivo levar
os estudantes a conhecer a estrutura construtivo-regular das obras de arte mais antigas”; colagem e transposição do resultado para o desenho e/ou pintura; composição e exercícios de
ginástica, introduzidos na Bauhaus por Itten para relaxamento dos alunos (WICK, 1989, p. 124). Segundo Itten, “Hölzel explicou em suas palestras a construção pictórica dos Velhos Mestres e o uso pictórico do claro e escuro” (ITTEN, 1975, p. 7, tradução nossa).
Friedl estudou com Itten no Vorkurs. Os alunos do Vorkurs estudavam materiais, forma,
textura, contraste, grandes mestres da pintura etc. Itten procurou envolver corpo, mente e
espírito em direção ao autodescobrimento e à expressão individual, no sentido de um ensino
globalizante, longe da mera transmissão de habilidades básicas para o desenho, assim como era
realizado nas academias de arte, a partir da cópia de modelos de gesso (WICK, 1989, p. 136).
Segundo Wix, parte do áudio do arquivo da Bauhaus de Berlim apresenta o Vorkurs como:
[...] a pedra de esquina da escola Bauhaus: compreensão de materiais, arte do autodescobrimento, das próprias preferências e habilidades. Diferentes professores (...) influenciaram estudantes de forma diferente enquanto ensinavam técnicas básicas
(...) Itten, em particular, incluiu relaxamento, respiração e exercícios rítmicos. Ele acreditava nos exercícios rítmicos como o princípio básico de toda a criação artística. O objetivo era desenvolver toda a pessoa (WIX, 2010, p. 11, tradução nossa).
Na concepção de Itten, a intuição e a emoção eram pontos centrais do processo de
aprendizagem em arte. Dessa forma, ele desenvolveu e aplicou exercícios rítmicos para explorar
as relações formais. Sua abordagem de ensino e aprendizagem em arte demonstrou que as
relações formais e o estado interno emocional de seus criadores eram entidades dependentes.
Em resumo, Itten concluiu que seu ensino de arte promovia a libertação espiritual, emocional e
intelectual de seus estudantes rumo à criação, à aprendizagem de habilidades formais e o
desenvolvimento da observação, do sentimento e do pensamento.
Exercícios e atribuições de arte eram inspirados, rigorosos, e completamente imprevisíveis. Seus exercícios rítmicos incluíam o uso de todo o corpo, assim como o controle da respiração e do movimento rítmico. Ele emergiu os estudantes na essência de seus temas e no processo, encorajando-os a tornarem-se mais sintonizados com a suas experiências sensoriais e com suas vidas interiores (WIX, 2010, p. 1-2, tradução nossa).
Friedl também utilizou essa proposta em Terezín. Os exercícios rítmicos levavam as
crianças a uma maior concentração. As crianças desenhavam a partir do ritmo de sua voz ou do
tamborilar de um determinado ritmo na mesa, produzindo linhas espirais e outras formas não
figurativas. De acordo com Makarova (1999), esses exercícios tinham um efeito hipnótico.
Friedl registrou a seguinte observação num relatório feito por ocasião do primeiro aniversário
dos Abrigos de Terezín, em 1943:
Estes se mostram úteis para transformar um grupo bagunceiro em um grupo de trabalho (como efeito colateral, pois na verdade esses exercícios visavam estimular a mão do pintor, tornando-a maleável, assim como todo o corpo) [...]. Além disso, os exercícios rítmicos libertam a criança de hábitos visuais e de modos de pensamento (...), confrontando-a com uma tarefa que pode ser desempenhada com prazer e fantasia e, ainda, com grande precisão (BRENNER, 2014, p. 223).
Além dos exercícios rítmicos, ela ensinou forma, composição, cor, textura, luz, sombra e
materiais. De acordo com Itten, os elementos do desenho deveriam ser trabalhados em suas
manifestações opostas. Os estudos de forma eram realizados a partir da observação dos objetos
disponíveis, como jarros com flores, tamancos holandeses de madeira, copos, óculos e outros
itens, arranjados como naturezas-mortas e representados com lápis, aquarela ou colagem. Os
estudos de cor eram, comumente, realizados com aquarela.
Os estudos de materiais e texturas incluíam tecelagem, bordado no papel e colagens. Esses
estudos auxiliavam as crianças a expressarem-se através de técnicas diversificadas,
desenvolvendo suas habilidades manuais, intuitivas e expressivas.
Friedl aprendeu com Itten a trabalhar com os elementos do desenho separadamente: ritmo,
textura, materiais, valores tonais e cor. Cada um deles era praticado individualmente. Apenas
depois de exercitarem cada um diversas vezes era permitida a integração total.
Assim como Itten, Friedl propunha atividades focadas em cada elemento como, por
exemplo, os exercícios de textura: a aspereza da casca de uma árvore, a suavidade de suas faces
infantis, as serrilhas de uma faca ou cerdas de uma escova de cabelos. Para ampliar a percepção
de seus alunos, Itten sugeria que eles observassem, tocassem e depois desenhassem uma série de materiais. Dessa forma, segundo Itten, os alunos estariam “habilitados a desenhá-los com o coração”, a partir de suas percepções pessoais (ITTEN, 1975, p. 34, tradução nossa).
Os exercícios de contraste também eram muito importantes. De acordo com o Wick, para Itten “tudo o que é percebido só é perceptível por seu oposto; assim, o fundamento de todo o ensino que ele ministrava repousava sobre uma teoria geral de contrastes: o claro-escuro, os
estudos de materiais e texturas, o ensino das formas e das cores, ritmo e as formas expressivas”
(1989, p. 138-139).
Itten incentivava seus alunos a trabalharem com uma infinidade de contrastes: grande-
transparente-opaco, áspero-macio etc. Os exercícios propostos por Itten na Bauhaus não
possuíam um objetivo estético, mas antes assumiam seu papel no processo pedagógico.
Como cidadã checa, Friedl podia receber um pacote a cada três meses. Ela pedia a seus
amigos que enviassem livros com pequenas reproduções de obras de grandes mestres da pintura
para usar em suas aulas. Ela havia praticado a análise de obras de grandes mestres da pintura
no curso preliminar de Itten e diversos trabalhos realizados por seus alunos comprovam que as
crianças criaram colagens, desenhos e pinturas a partir de reproduções de obras de arte. De
acordo com Wick, Itten realizava a análise de criações de grandes mestres buscando a
compreensão intuitiva da obra, a descoberta da essência do quadro e posterior reprodução dessa
mesma essência (1989, p. 147-148). Para Itten, a análise de trabalhos relevantes dentro da
história da arte objetivava fazer os alunos perceberem as diferentes formas de resolução de um
problema estético (ITTEN, 1975, p. 13).
Outra influência, não tão forte quanto aquela exercida por Cizek, Itten e Klee, mas
também presente nas aulas de arte em Terezín, foram os estudos com Oskar Schlemmer na
Bauhaus. Assim como Schlemmer, Friedl criou oportunidades para seus alunos estudarem o
movimento dos corpos. Oskar Schlemmer costumava levar seus alunos da Bauhaus para o teatro
a fim de desenharem os atores em cena. Alguns trabalhos propostos por Friedl, por exemplo,
mostram estudos de movimento da figura humana, como observaremos no Capítulo 3.