2. TEORISKE PERSPEKTIVER
2.1 Kunnskap og kunnskapsutvikling
2.1.1 Kunnskap i lys av et praksisbasert perspektiv
Franz Cizek (1865-1946), nasceu na Boêmia e viveu em Viena a partir dos 19 anos. Foi
pintor, educador e tornou-se um marco pioneiro na história do ensino da arte para crianças e
jovens. Na virada do século XX, Cizek já havia se tornado muito conhecido por seu curso de “arte jovem”, iniciado em Viena como escola privada, em 1897, e integrado à Escola de Artes e Ofícios em 1904. Com suas máximas “Desescolarização da escola” e “Nada a ensinar, nada a aprender! Deixar crescer as próprias raízes!”, Cizek havia alcançado grande reconhecimento em 1908, em Londres, em 1912, no Congresso de Educação Artística de Dresden, e nos demais
encontros para discussão do tema (WICK, 1989, p.126).
Na Tendência Tradicional de ensino, baseada numa concepção neoclássica, a didática era
pautada na cópia de modelos e treino exaustivo das habilidades e destreza, sem se considerar
as particularidades de cada criança, com ênfase no produto final e não no processo
(IAVELBERG, 2013a).
Na contramão dessa tendência, que dava ênfase e importância aos aspectos exteriores,
Franz Cizek foi pioneiro por acreditar que no ensino de arte infantil a criatividade da criança e
sua livre expressão eram os pontos a serem buscados e trabalhados pelo educador, sem treinos
técnicos rígidos, apenas permitindo que seu potencial criador se desenvolvesse sem a imposição
de padrões adultos. Ele foi o primeiro artista que insistiu na criatividade da criança como base
O pensamento de Cizek alimentou e foi alimentado pelos princípios norteadores da
chamada Tendência Renovada ou Movimento Escola Nova. Esses princípios, por sua vez,
fundamentavam-se na liberdade expressiva da criança, com livre exploração de materiais e
técnicas, estímulo à imaginação e à criação, compreendida como expressão sem influências do
meio85. O ensino estava centrado no indivíduo, não mais no professor, e no processo e seu
desenvolvimento criativo, não mais no produto final.
A abordagem do ensino e aprendizagem da arte proposta por Cizek, com relação à
liberdade expressiva da criança, foi um reflexo do contexto europeu entre a segunda metade do
século XIX e início do século XX, onde a Arte Moderna crescia e florescia cada vez mais. Os
Movimentos Impressionista e Pós-Impressionista haviam se disseminado pela Europa,
propagando novos padrões e meios de criação em arte, mais livres do compromisso com a
verossimilhança de formas e cores em relação ao real.
Em Viena, a nova geração de artistas austríacos rompeu com a tradição da geração
anterior e, em 1896, fundou o grupo de Secessão. Esses artistas procuravam por novas formas
de expressão. Cizek estava em contato muito próximo com eles, particularmente com Otto
Wagner, Olbrich, Moser e Gustave Klimt.
Com base na história da arte e na trilha do Impressionismo, do Expressionismo e da
Art Noveau de Viena, nos quais a desconstrução dos padrões acadêmicos marca as
imagens, os trabalhos dos alunos de Cizek em gravuras, pinturas e papéis cortados eram excepcionalmente desenvolvidos e hoje podemos observar que dialogavam sobremaneira com as visualidades modernas da Viena da época, basicamente por intermédio de ações procedimentais (IAVELBERG, 2008).
Cizek estava convicto de que a criança não deveria estar sujeita a um rígido treinamento
técnico, assim como preconizava a Escola Tradicional, mas que deveria ter liberdade de
85 Para melhor compreender as concepções mais recentes de ensino de arte que dão importância à influência
exercida pelo meio como forma de alimentar a cultura da criança, o que transparecerá em sua produção artística, consultar: IAVELBERG, Rosa. O desenho cultivado da criança: prática e formação de educadores. 2 ed. Porto Alegre: Zouk, 2013.
desenvolver suas próprias técnicas, sem a imposição de métodos de expressão por parte dos
adultos, em concordância com os preceitos do Movimento Escola Nova. Para ele, a arte estava
além dos procedimentos técnicos, no campo da criação; os procedimentos eram apenas um meio de exprimir os anseios, percepções e desejos da criança. “Arte não é técnica, mas criação. Qualquer coisa produzida que é o resultado de uma experiência interna é mais digna que a mais
hábil cópia do trabalho de outros” (VIOLA, 1936, p. 6, tradução nossa).
Cizek compreendia que o desenvolvimento artístico e a livre expressão implicavam o
conhecimento interior, refletido na experiência do fazer artístico, mais do que no objeto em si.
Portanto, ele permitia que seus alunos desenhassem livremente, confeccionassem colagens de
papel e trabalhassem experimentalmente com toda sorte de materiais, sem intervir no processo
de trabalho (WICK, 1989, p. 126).
De acordo com Cizek, toda criança possui um grande potencial criador, que não deve ser
podado ou moldado pelos padrões adultos. Esse potencial deveria encontrar saída, caminho, na
arte. Às crianças deveria ser permitido desenhar suas impressões e percepções sobre elas
mesmas e sobre o mundo ao seu redor, não o que os adultos esperassem delas.
Além de toda sua contribuição para o ensino da arte, uma de suas maiores conquistas foi
considerar o julgamento ou análise da arte infantil como um campo à parte do julgamento da
arte adulta. Para ele, a criança não deveria ser considerada simplesmente como um futuro
adulto, negando-lhe sua lógica e personalidade próprias. Cizek também compreendia que a
criança tem suas próprias leis criativas e expressa suas verdades através de seus trabalhos
artísticos. Neles, ela representa as imagens de seus pensamentos, seus medos, esperanças e
desejos, trabalhando com seu próprio ponto de vista, que, de acordo com Cizek, é mais verdadeiro que o de um adulto. “Um desenho infantil é maravilhoso, é um documento precioso. Nós não temos o direito de medi-lo de acordo com nossos padrões, de olhar para ele com nossos
olhos obscuros, de criticá-lo do nosso ponto de vista ou, acima de tudo, de corrigi-lo” (VIOLA, 1936, p. 10-11, tradução nossa).
Sua abordagem consistia em deixar a criança desenhar, pintar, bordar e modelar o que
mais gosta, seus temas favoritos, ou sugerir-lhe temas como “Natal”, “Feriados”, “Carnaval”,
“Procissão”, permitindo que ela os desenvolvesse. Muitos materiais artísticos eram colocados à disposição das crianças e elas eram convidadas a escolher.
Cizek era bondoso com seus alunos, tratava-os com carinho e os ouvia. Criava uma
atmosfera criativa na qual as crianças sentiam-se felizes e encorajadas a expressarem-se
livremente. Era comum vê-lo discutindo arte com os pequenos, como colegas de trabalho
discutem suas tarefas rotineiras. Ele confiava nesses alunos e sabia de seu potencial. Às
crianças, no Curso de Arte Juvenil, como era nomeada a iniciativa de Cizek, era permitido ver
e interagir com os trabalhos dos outros alunos, o que nunca foi permitido pela Escola
Tradicional, alimentando, assim, seu próprio fazer artístico. “Eu sou amigo dos meus pupilos.
Eles são meus colegas de trabalho e eu aprendo com seus trabalhos” (Ibid., p. 35, tradução nossa).
Assim como a abordagem de Cizek, a proposta artístico-pedagógica de Friedl em Terezín
pautou-se na liberdade expressiva das crianças como ponto fundamental, deixando as questões
técnicas e procedimentais em segundo plano. Cuidar da imaginação das crianças de modo que
dela pudessem emergir temas e imagens individuais era o centro de sua filosofia.
Suas proposições artísticas convidavam as crianças a expressarem-se de forma criativa,
gerando oportunidades de materializar suas experiências pessoais a partir dos materiais escassos
disponíveis.
Corroborando as ideias de Cizek e os princípios norteadores do Movimento Escola Nova,
Insistir na correta forma de expressão não é o caminho a seguir porque é o desenho espontâneo que importa, e embora as crianças precisem ser guiadas, a coisa principal, mais importante, é criar oportunidades para suas próprias expressões e esperar o que virá a acontecer. Quando as crianças independentemente escolhem, buscam e trabalham com suas formas, elas ganham coragem e verdade e desenvolvem sua imaginação, o poder de julgamento, a habilidade de observar, a resistência, e depois (muito depois), gosto. Assim, acessam a esfera da beleza que lhes é assegurada (mesmo quando os resultados imediatos não parecem satisfatórios) (WIX, 2010, p. 129-130, tradução nossa)86.
Assim como Cizek, Friedl organizou exibições dos trabalhos das crianças, mostrando
apreciação pela riqueza de sua produção e por suas ideias. Na ocasião da exibição, em julho de 1943, ela apresentou sua filosofia de ensino por meio de uma palestra intitulada “Sobre arte infantil”, objetivando estimular o pensamento dos educadores do campo sobre a natureza do pensamento estético infantil e de suas experiências artísticas, pontuando o que poderia se
esperar das crianças com as aulas de arte. Ela falou sobre o significado da arte para os pequenos
alunos, discutiu suas aulas e afirmou que as crianças possuem características distintas em
relação à idade e ao desenvolvimento psicológico. Ela também expressou sua visão sobre como
os adultos deveriam tratar as crianças e sua arte, afirmando que a infância não é um estágio
preliminar da vida adulta e que os adultos deveriam entender a natureza das habilidades
criadoras da criança. Seu ensaio parece ter sido escrito em condições de normalidade, ou seja,
em tempos de paz, não mencionando a fome, o frio, as doenças, mortes ou transportes para o
Leste (WIX, 2010).
Friedl falou, entre outras coisas, sobre o desenvolvimento das habilidades atitudinais
através do trabalho em grupo e da importância dos exercícios rítmicos, desenvolvidos por
Johannes Itten e aplicados por ela em Terezín, que resultaram numa melhora significativa no
comportamento das crianças e em suas relações de amizade.
86 Trecho retirado da palestra ministrada por Friedl Dicker-Brandeis, em julho de 1943, no porão do prédio L417,
Sua palestra emergiu do conhecimento adquirido em seus anos de estudo em várias
instituições e com diferentes mestres, com especial ênfase e atenção para a Bauhaus,
conhecimento esse ressignificado e contextualizado para a situação muito particular das
crianças em Terezín. Neste momento, Friedl havia ajustado seus métodos de ensino para aquele contexto. Segundo a artista, “o mais difícil de se superar [...] era a falta de significado, por parte das crianças, para expressar a si mesmas; essa falta foi canalizada ensinando-as como ver e
representar, utilizando uma variedade de técnicas e materiais comuns para as artes visuais” (WIX, 2010, p. 22, tradução nossa).
Ela abriu a palestra enfatizando que, de acordo com Cizek, seu propósito não era formar artistas, mas antes despertar e preservar o espírito criativo das crianças “como uma fonte de energia para estimular a imaginação e fortalecer suas próprias habilidades de julgar e observar,
ajudando as próprias crianças a escolherem e elaborarem suas formas”. Suas palavras afirmam
a fé que ela depositava no potencial criador infantil (Ibid., p. 22, tradução nossa).
Reforçou também o fato de as crianças trabalharem sem a influência do professor, o que
deixaria florescer seu próprio gosto e tendências artísticas, e em grupo, desenvolvendo sua
capacidade de compartilhar ideias e de respeitar opiniões diversas. Assim como Cizek, ela
recomendou que instruções técnicas não fossem dadas às crianças, somente após os dez anos
de idade, e que as crianças deveriam receber o material e simplesmente serem convidadas ao trabalho: “se nós queremos fazer o melhor para uma criança, então damos-lhe o material e
convidamos-a a iniciar o trabalho” (Ibid., p.130, tradução nossa).