O espaço do lounge do cine Arena foi elegido por se acreditar que nele se gestam tipos diferentes de interação. As interações no lounge se aproximam daquilo que Simmel
entende por sociabilidade63. No lounge as pessoas se reúnem por motivos diversos, mas o que congrega esses interesses é a vontade de estar junto ou de interagir de um modo diferente dos outros espaços do cinema. A televisão exibindo programas da rede aberta, o sofá, a poltrona, as cadeiras, o recepcionista que vez por outra conversa com algum funcionário ou cliente criam uma ambiência onde a fala é autorizada na estrutura das interações.
No lounge tais interações se dão por meio da visão, operando como mecanismo de classificação, distinção e seleção dos possíveis parceiros e também da fala, por meio de conversas triviais entre alguns frequentadores que desenvolveram laços de coleguismo no
local, entre esses com os funcionários e desses últimos entre si. O lounge é um lugar
barulhento. As conversas giram em torno de temas diversos, desde o conteúdo exibido na televisão a temáticas que colocam em pauta questões amorosas, familiares, pessoais, ou assuntos que emergem como pautas de conversa no cinemão. De instante em instante, pessoas chegam e lavam as mãos com álcool em gel que se encontra próximo à recepção como se abastecem de preservativos que são distribuídos gratuitamente pelo cinema. O cheiro de álcool invade momentaneamente o espaço da sala.
Estava sentado em uma das cadeiras de madeira que fazem parte da ambientação do espaço. Apoiei minha mão esquerda em uma mesa onde utilizava um bloco de folhas para fazer algumas anotações. Aquele espaço me permitia observar tanto o que acontecia no espaço do lounge em si como o movimento dos homens em outro espaço do cinema.
Chamou-me atenção um homem que estava sentado em uma das poltronas do espaço. Ele era branco, baixo, usava de cavanhaque, usava de bermuda, uma blusa regata, chinelo e um relógio de cor prata. Ele me observava insistentemente, dividindo o seu olhar entre mim e um programa que estava sendo exibido na televisão. Sua mão esquerda estava apoiada sobre o seu queixo. Nesse momento, sentou-se, quase que ao meu lado, mas em outra mesa, um homem negro, de aproximadamente uns quarenta e poucos anos, portando um celular na mão no qual ele não parava de mexer. Ele estava de boné, calça quadriculada, chinelo e uma camisa de cor branca. Ele observava o entorno, olhava também em direção a
63 Entende-se sociabilidade segundo uma perspectiva simmeliana em que os atores sociais se unem sem nenhum
objetivo específico senão o de simplesmente estar juntos. A sociabilidade então se configura em uma forma lúdica da sociação, associada ao entretenimento e ao lazer. Segundo o autor, “a sociabilidade não possui em si mesma, nenhuma finalidade objetiva, além do interesse em estar sociado. Ou seja, ela depende exclusivamente das personalidades entre os quais ela ocorre, em que não se deve buscar nada além da satisfação daquele instante. Onde o que interessa é apenas o sucesso do momento sociável. Como consequência, as condições e os resultados do processo de sociabilidade são exclusivamente das pessoas que se encontram em sociação, numa situação em que a sociabilidade permanece limitada aos seus participantes” (SIMMEL, 2006, p. 66).
mim e para o outro homem de cavanhaque, porém não permanecendo por muito tempo sentado, levantou-se e saiu do espaço.
Em outro momento, quando passou na minha frente me olhou com os olhos bem
abertos64 Enquanto estava sentando ainda na mesma posição, vi um homem gordo, de olhos
claros e bem abertos, que havia visto no banheiro do Duda‟s Burguer mais cedo praticando a
pegação no mictório do banheiro, andando inquietamente para lá e para cá. Ele parecia meio perdido, apressado, com tesão (sensações que não consegui fazer uma leitura precisa por meio de sua expressão). Ele não parava de olhar para todos os lados como se estivesse procurando por algo, como se tivesse pressa. Tocou em um homem que estava passando ao seu lado sem a menor cerimônia e foi obstado.
O homem de cavanhaque, que já não mais estava no espaço, tornou a sentar na poltrona onde outrora estava e começou uma nova sessão de insinuações para mim. Eu permanecia observando sua criatividade em suas investidas e enquanto observava suas estratégias erótico-interativas continuava escrevendo. Ele dirigia seu olhar para mim fazendo movimentos com as mãos no seu pênis. Primeiro, ele colocou a mão sobre o seu pênis e começou a apertá-lo enquanto colocava o dedo indicador de sua outra mão dentro da boca, fazendo gestos com ela. Suas investidas se concentravam em duas partes do corpo: no pênis e na boca, pondo a mão no pênis, e o dedo na boca, ora fazendo as duas ações ao mesmo tempo. Investidas sonoras também consistiam em uma de suas estratégias de insinuação e de sedução. Ele emitia sons como que demonstrando que estava com tesão, ao mesmo tempo em que tocava no pênis. Eu interagia olhando para ele com uma expressão que não dava para ele saber qual era a minha, enquanto aproveitava para tentar escrever alguma coisa daquela experiência.
Nesse tempo em que permaneci sentado, pude observar também pessoas transitando de um lado para o outro enquanto pareciam “estudar” o ambiente. A posição que eu me encontrava me possibilitava ver pessoas encostadas nas paredes de um corredor próximo, um barulho de pés que subiam e desciam constantemente às escadas, interações temporárias que se formavam no espaço do lounge e que durava o tempo de uma notícia, de
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Olhar com os olhos bem abertos se constitui também em um código utilizado na pegação masculina que pode significar que aquela pessoa está interessada em você ou que está querendo chamar a sua atenção para sua vontade de praticar a pegação. Pode funcionar como uma espécie de reconhecimento e identificação entre os praticantes da pegação. Estava em um dia na rua e outro dia em um shopping e percebi pessoas olhando firmemente para mim. Pude comprovar que ambas estavam afim de praticarem a pegação, pois logo depois elas sinalizaram passando a mão sobre o pênis como se tivesse ajeitando, possibilitando uma leitura pelo outro de seus interesses e expectativas.
uma cena de novela ou mesmo o tempo que se falava com um funcionário, ou se higiniezava as mãos com álcool em gel ou se abastecia de preservativos.
Um homem estava encostado na parede de um corredor (próximo ao lounge) e permaneceu por algum tempo se insinuando. De vez em quando eu observava seus movimentos. Ele olhava para frente, para o lado e para o outro. Ele estava em uma posição que me permitia observá-lo. Ele começou a pegar no pênis se insinuando a partir de movimentos com as mãos sobre ele. Suas tentativas de insinuação fizeram com que ele mudasse a orientação da sua mão, agora dividindo-a entre o cabelo e o pênis. Ele parecia bastante inquieto. Organizava-se corporalmente, mas permanecia encostado na parede modificando pouco a posição. Em um instante em que estava observando suas estratégias de insinuação, ele acenou com a cabeça para mim, convidando-me para ir em direção a ele. Respondo à sua tentativa de aproximação com um sorriso, sinalizando que eu não iria.
Nesse meio tempo, outro homem chegou no lounge, lavou as mãos com álcool e começou a conversar com o recepcionista. Ele parecia ter em torno de cinquenta e poucos anos. Sua performance era masculina, embora sua voz, ouvida na conversa que estava tendo fosse fina, explicitando certa fragilidade na composição de uma fachada de discrição que só fora evidenciada no espaço do lounge por dessa meio da interação realizada com o recepcionista.
Na conversa ele dizia não gostar da Maria Rita, fazendo referência ao conteúdo de um programa exibido na rede Globo que falava do aniversário de morte da cantora Elis Regina, sua mãe. Enquanto ele falava isso ao recepcionista o programa apresentava uma interpretação da música “Como nossos pais” na voz de Elis Regina. O recepcionista aumentou o som, enquanto o homem que falou mal da Maria Rita começou a cantar a letra da música baixinho, aparentemente sem se preocupar com sua performance. Embora ele não tenha se soltado muito, pude perceber que havia uma dessemelhança entre a performance encenada por sua aparência daquela que ele estava ali a encenar.
O homem de cavanhaque que havia saído novamente da sala retorna para o lounge
e senta na mesma poltrona que estava para assistir a intepretação da cantora. O homem que estava conversando com o recepcionista sai do lounge assim que a cantora termina de cantar e como que incorporando a performance anterior é notória uma mudança no jeito e na forma de andar. Nesse momento, ele passa na minha frente e emite um olhar fixo em minha direção.
No espaço do lounge, o público que em geral tem a possibilidade de encenar posturas diferentes das que às vezes precisam manter nos outros espaços do cinema. Não quero dizer que no espaço do lounge o que estávamos chamando de fachada desapareça por
completo, mas as dinâmicas operadas nesse espaço produzem certo tipo de relaxamento nos corpos, dando passagem a outros comportamentos interditados em outros espaços por serem lidos sob a ótica do que poderíamos dizer como estando fora de uma certa medida exigida na construção do jeito, do comportamento. A televisão exibindo programas, novelas, a disponibilidade do recepcionista para a interação com os clientes, o clima aparentemente descontraído percebido entre os próprios funcionários, as mesas onde eventualmente encontramos alguém bebendo uma cerveja, o sofá onde há quem diga “ser o seu lugar” no cinema criam uma ambiência diferente. O lounge é um dos poucos espaços do cinemão onde é possível observar interações mediadas pela conversa, pelo riso, pelo deboche, pelo coleguismo.
Nesse espaço de sociabilidade que vai sendo tecido nesse espaço, notamos a presença como componente das interações que ali se criam: brincadeiras, piadas, comentários explicitamente declarados acerca de outros frequentadores do espaço que passam e que chamam a atenção, proporcionando ao espaço um tipo de fluidez nas relações. A tentativa de fixação de significados a determinados locais no cinema é constantemente tensionada por movimentos disruptivos e de torções de usos possivelmente tomados como estáveis ou hegemônicos. As pessoas estão continuamente “jogando” com esses sentidos e significados em termos de quais locais são mais ou menos apropriados para as práticas que se deseja estabelecer, as performances que se deve manter ou inventar que tornam um espaço de pegação também um espaço que possibilita vínculos menos fortuitos e menos impessoais.
O espaço do lounge, nesse sentido, pode ser classificado, de maneira didática, como um lugar social e não como um lugar de prática, embora essas demarcações possam se interpenetrar no contexto de algumas interações. No que tange a essa aparente fluidez das performances masculinas possibilitadas pela própria ambiência do lugar, onde falar também pode vir constituir as interações encenadas pelos agentes, ela encontra ressonância nas possibilidades de um maior relaxamento da performance masculina, explicitando a relação estreita existente entre performance de gênero e condições estruturais do espaço. Segundo Oliveira (2016), tais performances são construídas de maneira relacional, tanto em virtude dos parceiros desejados quanto das condições estruturais do espaço. A praia, no contexto de sua pesquisa emerge como sendo esse espaço que possui uma “atmosfera aparentemente mais aberta às possibilidades”, onde é possível agenciar uma “expressão mais moderada” expressa
em conversas, piadas, atitudes mais descontraídas e certa “desmunhecagem”.