8. Modell, modellberegninger og resultatdiskusjon
8.4 Betydningen faste kommunespesifikke effekter – fixed effects (FE)
Quinta-feira. Desço do ônibus umas 13:20 em direção à Praça José de Alencar. O barulho dos carros na rua se mistura ao som repetitivo de uma propaganda de veneno para ratos e baratas e a outro som de uma música gospel que repete a mensagem “O rei está voltando” em seu refrão. Sons com origens e propósitos diversos são orquestrados por um conjunto de atores sociais nos espaços do Centro da Cidade, enchendo-o de barulho. Uma diversidade de vendedores de roupas divide seus produtos em um mesmo espaço onde também vendedores de água (que custam um real), de DVDs e mulheres que oferecem seus serviços de leitura de mãos negociam espaço, produtos e serviços.
A calçada do Teatro José de Alencar é ocupada por atores sociais diversos. Moradores de rua, comerciantes que vendem desde água a previsões do futuro aos que passam por ali, transeuntes... O Centro da Cidade parece um aglomerado de pessoas e de lugares que disputam por espaço em um jogo onde se disputam pressa, transações comerciais e religiosas, performances estilísticas e sexuais... Esse caminho de um centro que venho observando e narrando reúne uma gama de atividades comerciais diversas que se intercalam oferecendo uma multiplicidade de opções expostas em vitrinas improvisadas a céu aberto. Lojas de eletrônicos, de empréstimos, de bijuterias, banca de livros usados e roupas nos fornecem uma
imagem dessa mancha46 comercial do centro de Fortaleza.
Primeira parada: Duda‟s Burguer. O espaço fica localizado na rua Major Facundo,
na calçada da Praça do Ferreira. O banheiro masculino do estabelecimento é divulgado em alguns endereços eletrônicos que fornecem dicas sobre a pegação masculina em Fortaleza como sendo um dos locais que, embora pequeno, é bastante movimentado.
Logo na porta de entrada do banheiro um aviso é disposto informando que o banheiro é de uso exclusivo dos clientes em atendimento e que o usuário deve apresentar o cupom fiscal para utilizá-lo. O aviso parece não intimidar os homens que entram e saem do banheiro sem aparentemente atentar para o conteúdo do que está escrito na porta corrediça do banheiro.
A porta encontra-se entreaberta. Entro e vejo em torno de seis homens no banheiro. Minha presença parece momentaneamente suspender alguma cena que estava acontecendo. Observo pelo espelho, enquanto lavo as mãos, uma cabine fechada disposta ao lado de 4 mictórios. Cada um deles está sendo usado por um homem. O pouco espaço do banheiro facilita com que eventualmente corpos, olhares e desejo se cruzem no espaço do banheiro. Olho para o espelho e reflete a imagem de olhares se cruzando no espaço do mictório. Uma tensão no banheiro é percebida desde minha entrada. A ausência de comunicação verbal se contrasta ao barulho advindo do lado de fora do banheiro, onde conseguimos ouvir uma profusão de sons devido à porta não estar completamente fechada.
Minha presença é lida como não suspeita depois de algum tempo de permanência no banheiro. Um homem gordo, outro mais idoso e outro que veste uma farda de alguma empresa, ambos brancos e adotando uma performance masculina discreta compõem a cena. O
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“São as manchas, áreas contíguas do espaço urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante. ” (MAGNANI, 2002, p. 21).
homem que está de farda entra na cabine que agora está desocupada e fica com a porta entreaberta exibindo o pau para mim que estou na frente da porta da cabine fingindo que estou me olhando no espelho. Finjo que não observo as insinuações que são feitas a partir dos movimentos que ele faz no seu órgão genital. Em alguns minutos que permaneço dentro do banheiro observo um entra e sai de vários homens, em sua maioria, aparentando entre trinta e sessenta anos e supostamente de classe baixa. Os preços dos produtos no estabelecimento informam a suposição da classe de alguns frequentadores, caracterizando como um espaço frequentado eminentemente por um público de classe baixa e que trabalha naquela região do centro.
Não permaneço por muito tempo no banheiro. Já no espaço externo ao banheiro, encontro um conhecido e caminho em direção à saída. Enquanto ando pela rua Major Facundo tento me desvencilhar das pessoas que caminham em direção contrária a minha, algumas com suas sacolas que se esbarram ao meu corpo sem nenhuma cortesia. A experiência de andar pelas ruas do centro tem sido vivenciada como sendo marcada pelo movimento e pela pressa, embora parado também configure como uma possibilidade para observar “coisas” que o estar em movimento não possibilita.
Essa experiência de andar pelo centro na cidade se cruza com teorizações já desenvolvidas por alguns estudos de Sociologia e Antropologia urbana, em que a cidade é
tomada como objeto de investigação socioantropológica. Autores como Simmel (2005) em As
Grandes Cidades e a Vida do Espírito nos fornecem algumas chaves analíticas importantes para compreendermos alguns dilemas da vida moderna, como a autonomia e a individualidade.
A principal questão formulada pelo sociólogo alemão é referente ao modo como a personalidade se acomoda nos ajustamentos às forças externas. Como resposta à sua indagação, o autor diz que a intensificação dos estímulos nervosos, advinda da peculiaridade no modo de vida na cidade em contraste com a vida no campo, possibilitou desenvolvermos uma sofisticada vida psíquica. Assim, o homem metropolitano imerso em um contexto de exatidão calculista, em que tudo é quantificado desenvolve um órgão- o intelecto- que funciona como uma espécie de reserva para preservar sua vida subjetiva frente às demandas que a vida na cidade exige.
Essa vida mental personificada, que ele chama de atitude blasê, explicita que as transformações gestadas no nível estrutural não só afetaram as relações interpessoais, tornando-nos indiferentes para com as pessoas com que cruzamos diariamente, como também afetaram no modo organização de nossas atividades diárias, agora pautadas na pontualidade,
calculabilidade e exatidão, expressa na difusão universal do relógio de bolso e na integração e organização de nossas atividades a partir de um calendário estável e impessoal.
O sociólogo e historiador norte-americano Richard Sennet (1999) quando discorre acerca de uma dimensão morta do espaço público nos ajuda também a pensar nesse processo, expresso no modo como a vida na cidade produziu um conjunto de transformações na nossa relação com o espaço, com as pessoas e com o tempo. Tomando esses estudos como apoio para reflexão acerca das implicações produzidas na vida na cidade, questionamo-nos: para que serve a rua nessa nova ambiência produzida pela cidade? Usamos a rua apenas para fins de deslocamento ou os espaços públicos também constituem espaços de experimentação e de fruição na nossa experiência moderna?
Um exemplo que o autor nos oferece são os parkets, espaços de convivência e
interação criados em calçadas que possibilitam outra vivência da cidade, já existentes em algumas cidades como forma de criar sociabilidades no espaço público e deslocar o sentido de meio que o espaço público vem assumindo. A experiência do caminhar observando modos de fabricação de uma cidade, a partir das observações, das anotações, da compreensão dos sentidos que orientam seus agentes, coloca sob suspeita uma ideia de cidade, de centro, evidenciando que os espaços sociais são produtos de muitas camadas sobrepostas.
Ainda na mesma rua, avistei um Sex Shop de nome Red Hot e mais à frente, do
meu lado esquerdo, o Cine Majestick. Os cartazes na fachada do cinema disponibilizam para os transeuntes os serviços oferecidos pelo lugar. Um homem que andava à minha frente entrou no cinema sem nenhuma cerimônia.
Segunda parada: Praça do Carmo. A praça encontra-se rodeada por vendedores
em suas bancas de revista, um carrinho de hot-dog e alguns moradores de rua que
eventualmente se confundem com usuários de drogas.
Uma cena de uma mulher sentada em um colchão ao lado de um adolescente, um bebê e de um homem sentado em um banco improvisado por uma caixa de papelão se alimentando na calçada da igreja chama minha atenção para um Centro da Cidade que se constitui também de disputas pelo direito ao espaço público e de políticas higienistas que são implementadas com o intuito de favorecer interesses e agentes sociais específicos, produzindo uma cidade um desenho de cidade que só cabe dentro do espaço de um cartão postal e que, portanto, nega a existência de atores e práticas sociais que explicitam com suas vidas, a partir da posição de vulnerabilidade que ocupam, a ficção desse modelo e projeto de cidade que difere da cidade nua, noção trabalhada por Agier (2011) que consiste nos espaços intersticiais de onde torna-se possível observar o fazer a cidade.
Caminho em direção ao Cine Arena. Paro um instante na calçada de uma loja de produtos naturais que fica em frente ao cinema enquanto termino de fumar um cigarro. Um homem branco, loiro, de aproximadamente cinquenta e poucos anos, atravessa a rua em direção à calçada da loja em que me encontro e diz em tom jocoso para alguém que está dentro da loja: “Ei, baixinho, um cara do Arena tá pedindo teu número”.
Entro no cinema. Retorno ao cinema em janeiro de 2017. O cinema encontra-se cada vez mais limpo. As paredes estão pintadas com tinta fresca na cor azul escuro. O cheiro de sêmen e de suor é pouco sentido por conta do forte cheiro de produtos de limpeza, que se encontram espalhados em alguns espaços. Televisores e ventiladores novos e mais modernos ambientam os compartimentos do cinema, reforçando uma nova estética adotada que torna essa arena cada vez mais limpa, segura e comercial.
Esses quatro dias de etnografia no centro da cidade possibilitaram-me uma aproximação e um conhecimento dos espaços, agentes e códigos que organizam a mancha da pegação masculina nessa região, que se faz por e entre ruas, esquinas, praças, cinemões, saunas, motéis, banheiros públicos... A partir do contato com algumas pessoas que transitam, moram ou trabalham naquela região do centro pude compreender o praticar o cinemão como um uso e uma apropriação do espaço urbano mediado pelo desejo, pelo dinheiro e por códigos de etiqueta específicos. Esses contatos e contágios com essas pessoas e lugares foram abrindo passagem para um processo de relativização do cinemão e de outros espaços que compõem o circuito da pegação masculina em Fortaleza.