A dissertação se organiza em três capítulos. No primeiro capítulo POR UMA ETNOGRAFIA SINESTÉSICA: A ARENA DOS SENTIDOS E SENSAÇÕES desenvolvo teórica e analiticamente o que chamo de uma dimensão sinestésica da pesquisa. Partindo do diálogo com diferentes autores e perspectivas analíticas desenvolvidas que tomam o corpo do pesquisador como importante vetor pelo qual as experiências de campo são realizadas, problematizo minhas negociações com o meu objeto a partir da busca por procedimentos metodológicos que orientam meu processo de inserção, compreensão e análise em um espaço erótico-pornográfico. O capítulo se subdivide em dois momentos: um primeiro intitulado Sensações em disputa, onde problematizo os tipos de sensações provocadas em minhas imersões no cinema e seu posterior processo de relativização; e um segundo chamado de Etnografia Sinestésica: propósitos metodológicos e analíticos, em que situo uma etnografia sinestésica como produto do desenvolvimento de relações subcorticais presentes no trabalho de campo, sinalizando para uma dimensão cartográfica da pesquisa.
O segundo capítulo ETNOGRAFIA NA CIDADE: O ANTES DO CINEMÃO tomo a cidade como objeto de investigação sócio antropológica, tentando situar esses espaços
considerados desviantes a partir de seus engendramentos e ressonâncias para além dos espaços em que eles se circunscrevem, valendo-me das noções de circuito e rede de pegação. Percursos, lugares, Insights, Pessoas, Narrativas e Encontros dão densidade a esse capítulo que procura pensar a cidade partindo de uma abordagem situacional, processual e relacional, atenta ao modo como os agentes da pegação fazem a cidade. Nas quatro primeiras subdivisões do capítulo apresento o produto de um trabalho etnográfico advindo de dias de observação de espaços, sujeitos e práticas localizados no entorno do cine Arena que nos ajudam a compreender o modo de funcionamento de uma mancha da pegação no centro da cidade de Fortaleza e os sentidos múltiplos que a engendram. As duas últimas subdivisões empreendo uma discussão situando o cine Arena dentro das outras práticas de pegação que possibilitam pensarmos nesses espaços, sujeitos e práticas a partir da noção de circuito. A partir de uma
breve análise do conteúdo de postagens presentes em um blog25 que possui um espaço para
divulgação de dicas e lugares onde acontecem a prática do banheirão em Fortaleza, percebo que a pegação se espraia para diversos lugares que não apenas o cinema pornô, adentrando em lógicas de interação possibilitadas também por códigos e valores produzidos no contexto da era digital.
O terceiro capítulo ENTRANDO E SAINDO DO CINEMÃO descrevo os espaços do cinema a partir das interações que eles possibilitam entre os frequentadores. Parto da premissa de que elas são mobilizadas, nos diferentes espaços do cinemão, pela preeminência de alguns sentidos em detrimento de outros no modo como se organizam as experiências sociais no lugar. Considerando a agência da arquitetura dos espaços e o modo como os sentidos e sensações produzidos neles nos afetam e são afetados pelo organização espacial dos lugares, elenquei quatro espaços do Arena cine a partir dos processos interativos que eles
possibilitam: A Sala de Exibição, O Corredor, O Lounge e o Dark-room. Ainda nesse capítulo
narrei os encontros que tive com três frequentadores do cinema (Edglê, Eduardo e Júlio) e dois funcionários do mesmo (Carlos e Nilmar), inferindo a partir de seus discursos e
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A dimensão digital presente nessa pesquisa foi realizada a partir de um estudo exploratório em alguns blogs e sites que divulgavam conteúdos referentes ao modo de organização dos espaços e códigos referentes à prática da pegação masculina em Fortaleza. A estratégia aproximativa com relação a um desses espaços se deu a partir de uma postagem na página do blog “De olho na mala” em que eu me identificava como pesquisador das interações entre homens nesses espaços e disponibilizava meu contato para que os interessados em contribuir com a pesquisa compartilhassem comigo suas experiências em espaços de pegação. A estratégia não foi muito exitosa, pois embora tenha sido procurado por algumas pessoas via whatsapp, não consegui realizar nenhum contato presencial, tampouco nenhuma entrevista em profundidade com os sujeitos, apenas conversas rápidas e descontínuas marcadas por sucessivos investimentos de minha parte e que acabaram fornecendo poucos insights para pensar os espaços, sujeitos e práticas de pegação masculina em Fortaleza.
experiências como se dá a produção de um “arquivo” e de um “repertório”26 do cine Arena, que tensiona sistemas de classificações e distinções que organizam aquele mundo pelo campo das representações com um conjunto de disposições incorporadas, aprendidos pela experiência de viver um espaço de pegação e que, portanto, carrega na vivência de uma
experiência uma impossibilidade27 de dizer.
A investigação foi realizada durante dois anos, período de realização do mestrado. A pesquisa de campo foi empreendida no decorrer de um ano, tendo eu realizado um retorno ao campo no último ano de pesquisa para avaliar possíveis continuidades e descontinuidades referentes ao espaço do cinema e as suas formas de gestão e organização. Foi realizada também uma breve pesquisa histórica acerca do contexto de emergência dos cine-vídeos em Fortaleza e no último ano achados importantes reorientaram e ampliaram minhas questões analíticas referentes ao uso do recurso digital, por meio de um acompanhamento sistemático de dois blogs: O arena cine e o de Olho na Mala. As descobertas conduziram ao mapeamento de outros espaços de pegação na cidade para além dos cines erótico-pornográficos e a minha consequente participação no conteúdo dos blogs, informando acerca da pesquisa e obtendo com o intuito de estabelecer uma mediação entre mim e meus possíveis colaboradores.
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Partindo de um investimento centrado nos estudos da performance, procurando compreender esse campo como conhecimento que envolve um sistema de aprendizagem, armazenamento e transmissão, Taylor (2013) movimenta os conceitos de arquivo e repertório a partir da reativação de cenas do nosso inconsciente colonial, ajudando-nos a pensar como a performatividade desses diferentes roteiros atualiza de forma distinta estruturas sociais específicas, abrindo espaço para inversões, paródias, deslocamentos e resistências. A autora tenta resgatar um modo de pensar a performance como prática incorporada (habitus) que passa pelo corpo a partir da movimentação de um sistema que envolve aprendizagem, armazenamento e transmissão. Para ela o conceito de arquivo encontra-se vinculado à montagem de um conjunto de registros escritos que vê nessa forma de armazenamento uma expressão de uma sociedade e cultura considerada civilizada. A autora expõe que todo arquivo é fruto de uma montagem, estando sujeito a reavaliações, logo não é neutro e expressa relações de poder existentes em uma cultura. A noção de repertório está associada à memória incorporada, ao registro que escapa ao texto e que, portanto, requer presença. Se a história do arquivo sempre fora uma história de dominação e silenciamento, a performance reatualiza e ressignifica esse processo, fazendo com que, por exemplo, as vozes silenciadas de um arquivo sobrevivam pela performance.
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Por haver uma dimensão na experiência que aponta para o que chamo de impossibilidade de dizer, referente a um trânsito entre o dizível e indizível. Trago essa noção partindo da crítica que Foucault (1989)faz à representação em as Palavras e as Coisas, onde ao analisar o quadro As Meninas de Velásquez como sendo um quadro-síntese de diversos quadros dentro de um mesmo quadro, expressa a fratura moderna entre o que se diz e o que se vê (cisão entre as palavras e as coisas).
2 POR UMA ETNOGRAFIA SINESTÉSICA: A ARENA DOS SENTIDOS E