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A consideração aos esforços de expansão feitos pela França em direção à América Latina é imprescindível para que se possa bem compreender e analisar a penetração das idéias e obras francesas no Brasil, pois a implantação dessa política cultural empreendida pelo estado francês no Brasil obedece aos mesmos moldes da implementada em outros países latinos.

Para que um país consiga exportar sua cultura, é preciso que exista o desejo de acolhê-la de parte de quem recebe o legado cultural, ou seja, o interesse na difusão desse saber. No Brasil, essa primeira condição da expansão cultural é de pronto satisfeita, porque a elite, na ocasião, está voltada para a França à procura de modelos culturais e científicos. Segundo análise de Osório de Almeida: “O francês foi durante longo tempo quase a única língua de trabalho científico que os brasileiros poderiam dispor”.61

59POIDEVIN, Raymond. L´Allemagne et le monde au XX siècle. Paris: Masson, 1983. p.101 60id., ib., p. 113.

61 ALMEIDA, Miguel Osório de. La colaboration scientifique entre la France et le Brésil. Cahiers de politique étrangère, Paris: Institut des Études Americaines, p. 2, 1973.

No Brasil, a colônia francesa é pequena e inexpressiva, razão pela qual a Franca, para atingir seus objetivos de expansão, conta com a elite brasileira, desejosa dos ensinamentos e da cultura oferecidos pelos moldes franceses. De acordo com Lessa: “do século XIX até o entre-guerras, francesas foram as modas, os grandes editores, os bons livreiros, os melhores estabelecimentos comerciais e a melhor educação”.62 E o ensino religioso católico é de grande auxílio nessa empreitada, visto que os jovens, pertencentes às classes mais abastadas, exigem uma formação mais acurada, que, na ocasião, está justamente sob o controle dos padres e freiras católicas.

Assim, a igreja católica é uma das vias de mediação da influência cultural escolhidas pelo governo francês para atuar sobre o Brasil, não apenas por intermédio da educação nas escolas católicas, mas também pelo prisma religioso. Como explica Veuillot: “É preciso que o catolicismo brasileiro tenha os olhos fixos sobre o catolicismo francês”.63

O Brasil, como os outros países latino-americanos, é cooptado pela idéia de latinidade. Segundo Rodrigues: “podemos tranqüilamente chegar à conclusão que o destino do Brasil estava sempre ligado a este “mundo latino” e, mais particularmente a seu representante por excelência, a França”.64

Curiosamente, as idéias francesas que influenciam as universidades brasileiras à época, contrapõem-se a uma construção teórica francesa bem conhecida no meio brasileiro, o positivismo. O positivismo, corrente filosófica francesa, examinada no capítulo anterior, também é utilizado como legado cultural da França, com ampla penetração nas esferas culturais da América Latina, em especial, no Brasil, que adota esta filosofia na Escola de Medicina, na Escola de Engenharia e na Escola Militar do Rio de Janeiro.65

Mas, no momento da expansão universitária e do envio de professores franceses para o Brasil, o positivismo é visto como uma tendência que freia a experimentação e retarda a criação das universidades no Brasil. O amadurecimento das ciências no Brasil se dá, contrapondo-se à doutrina de Comte. Os brasileiros que participam ativamente das

62 LESSA, Antonio Carlos Moraes. A parceria bloqueada: as relações entre França e Brasil (1945-2000). (Tese de Doutorado). Brasília: UnB, 2000. p.102.

63VEUILLOT, François. La Pensée Française au Brésil. Les Amitiés Catholiques Françaises, n. 2. p. 16, 1932.

64RODRIGUES, op. cit. nota 5, p. 44.

65DANTES, Maria Amélia. Os positivistas brasileiros e as ciências no final do século XIX. In: DANTES, Maris Amélia (org). Ciências, impérios, relações científicas franco-brasileiras. São Paulo: Edusp, Fapesp, 1996.

trocas culturais estão, na ocasião, em geral, ligados ao Direito, à Engenharia e à Medicina, como é o caso de Miguel Osório de Almeida, do advogado Vergueiro Steidel e do médico Bittencourt Rodrigues.

Nas relações culturais ou intelectuais, existe a vontade, o desejo de promoção dos aliados pela ação de uma cultura, quando em contato com a outra. A expansão cultural torna-se um incentivo ao desenvolvimento da política nacional francesa, do comércio internacional e da formação de aliados ou adeptos da França. No Brasil, essa expansão se materializa através de três tipos de escolas: as secundárias, as congregacionistas e as laicas.

Nessa perspectiva, um dos grandes difusores da cultura francesa no Brasil é Georges Dumas (1866-1946), professor da Sorbonne que chega ao Brasil em 1908, com formação em Medicina e em Filosofia. Como salienta Martinière:

a filosofia, mais particularmente a concepção positivista, comtista, da filosofia, George Dumas, um dos melhores especialistas, exerceu uma verdadeira fascinação sobre a classe dirigente brasileira.66

George Dumas é um dos maiores representantes da política de expansão cultural da França no Brasil. Ele cria verdadeiros comitês com vistas às trocas de professores e estudantes nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1911, o Brasil ganha uma disciplina na Sorbonne Chaire d´Études Brésiliennes, especializada em temas brasileiros, que registra a união entre paulistas e franceses. No ano seguinte, Dumas funda a Associação Franco-Brasileira em Belo Horizonte e inaugura cursos de estudos franceses em São Paulo.

Mas, essas iniciativas voltadas à criação de vínculos e à implementação de instituições propagadoras da cultura francesa não são resultados apenas das iniciativas do

groupementou de Dumas. Em 1915, nasce no Brasil, o Comitê Católico de Propaganda no

Estrangeiro e é fundada a Sociedade Franco-Brasileira de Instrução Moderna. Em 15 de abril de 1916, começa a funcionar o Liceu Francês, com objetivo de fazer frente às ofensivas internacionais de expansão cultural dos Estados Unidos e da Alemanha.

Em 1919, surge nova iniciativa francesa: Irma Villards vem para o Brasil e funda, no Rio de Janeiro, o Clube de Arte Francesa, com vistas à difusão da cultura e das obras

francesas. É uma iniciativa de cunho particular, mas que obtém o apoio governamental, pois a senhorita Villards é altamente recomendada pela diplomacia francesa.

O Clube de Arte Francesa, por ela dirigido, destina-se ao público intelectual brasileiro. Composto por obras de arte, literatura e música francesas, tem ainda como expectativa abrigar um conservatório e uma biblioteca francesa.

As primeiras conferências ministradas no Clube obedecem a um programa de divulgação literária, abordando como temas: “O heroísmo francês nas trincheiras; Os poetas franceses antigos, modernos e contemporâneos; O teatro no exército; As influências sociais da guerra sob o ponto de vista francês, entre outros”.67

Do lado brasileiro, os primeiros conferencistas são Goulard de Andrade, poeta membro da Academia Brasileira de Letras; Rafael Pinheiro, deputado, jornalista e professor na Escola Normal; Affonso Lopes de Almeida, jornalista e titular da Academia Brasileira de Letras, entre outros.

Em 1921, são inauguradas duas livrarias francesas no Rio de Janeiro, a Garnier e a Briguiet, que, em 1936, se fundem em Garnier-Briguiet. Em 1922, é fundado, no Rio de Janeiro, o Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura; em 1925, é criado um espaço para o Brasil na Cidade Universitária de Paris e o Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura em São Paulo. O Instituto Franco-Brasileiro traz para o Brasil mais de quarenta professores de francês e envia para a França mais de trinta professores brasileiros.68

Muitos professores e universitários, aproveitando-se das rivalidades entre França e Alemanha, desenvolvem trocas científicas por preços reduzidos. Assim, os anos 20 e 30 são marcados pelo forte desenvolvimento de missões universitárias entre França e Brasil. De acordo com Martinière:

A grande obra de colaboração universitária franco-brasileira, realizada por George Dumas e Jean Marx, foi sobretudo o envio de missões universitárias de ensino à São Paulo e Rio de Janeiro nos anos 1935-1939. Num momento em que a influência material da França na América Latina conhece um sensível declínio.69

67 Correspondência do Comissariado Geral de Informação e Propaganda para o ministro das Relações Exteriores da França, Rio de Janeiro, 18.04.1919. Paris: Arquivo MRE, pasta 24, série B, p. 172-6.

68SUPPO, op. cit. nota 17.

Mesmo quando esse processo entra em declínio, os agentes propagadores da cultura francesa fazem forte resistência aos fatos e mantêm-se em franca atividade no Brasil. A política do front populaire aumenta os créditos direcionados ao Brasil por meio do SOFE, que passam de 36.258.500 francos em 1936, para 57.599.100 francos em 1937, atingindo o topo de 63.518.650 francos em 1938.70

É importante perceber que, no final da década de 30, há o esfriamento das relações entre França e Brasil. É justamente, nesse período, que a diplomacia francesa mais incentiva a cooperação cultural e os intercâmbios entre os professores universitários que fazem parte do groupement. A prova mais substancial desse fato é a participação efetiva de muitos professores franceses na fundação de algumas universidades brasileiras.