A difusão do francês pelo meio militar brasileiro faz parte da bem pensada propaganda cultural francesa no exterior, idealizada, primeiramente, pelo Ministério das Relações Exteriores e, posteriormente, pelo Ministério da Guerra daquele país. Dentro das próprias delegações das missões militares francesas no exterior, há membros preparados para executarem os planos de governo de difusão cultural. Como afirma Mesnard: “O Ministério do Exército (...) colabora na ação cultural no estrangeiro, colocando à disposição dos ministérios responsáveis uma parte de soldados que são encarregados da tarefa de cooperação cultural ou técnica”.117
A MMF junto ao Exército Nacional contribui para a propagação das idéias e, principalmente, das doutrinas militares francesas no seio da oficialidade brasileira. Concomitantemente, no meio universitário, há as missões de ensino das quais já se falou, que se desenvolvem em consonância com a elite acadêmica nacional. Conforme Martinière:
A missão militar francesa permanente no Brasil contribuiu para o alastramento latino da França como a cooperação universitária promoveu de seu lado 116ROLLAND, op. cit. nota 35, p. 257.
multiplicando as missões pontuais da Universidade francesa de alto nível na América Latina e acolhendo estudantes latino-americanos em Paris.118
Da maneira similar ao ocorrido com o público universitário quanto à irradiação das idéias francesas, os oficiais brasileiros são cooptados pela mesma política de difusão no que concerne à área da saúde. Soma-se a isso o fato de George Dumas ser um médico que, além de desempenhar sua função de agente cultural nas universidades brasileiras, em especial, na USP, também tem envolvimento com os cursos de saúde, promovidos pelas escolas militares. Como elucida Martinière:
Um tal dispositivo de exportação de idéias apareceu complementado pelo desenvolvimento da cooperação estreita dentro do domínio militar, em prolongamento direto dos eventos da Primeira Guerra Mundial onde Georges Dumas teve papel notável na cooperação dos serviços militares de saúde.119
Os franceses, dentro do sistema militar, são completamente avessos à abertura de suas escolas para militares estrangeiros. Por isso, as missões saiam da França para dar instruções no exterior, mas poucos são convidados a freqüentar as escolas militares francesas. Como afirma Rolland:
A formação francesa é realizada principalmente dentro da própria América Latina, no âmbito de missões militares, uma vez que as escolas militares são pouco abertas aos latino-americanos. Com efeito mais que suas correspondentes alemãs ou norte-americanos, as escolas militares francesas tem dificuldades em abrir-se aos militares estrangeiros, julgando-os demasiados “exóticos”: desde 1906, grupos de oficiais brasileiros foram ao contrário enviados à Alemanha, no próprio ano em que uma missão francesa se instalou em São Paulo para formar a polícia local.120
As missões militares francesas são um meio de propagar a língua e a cultura francesa. Segundo análise de Suppo: “a missão Gamelin (...) constituiu um excelente meio de propaganda francesa no exterior”.121Em nenhum momento da atuação da MMF, pode-se dissociá-la da ação político-cultural e econômica, simultaneamente empreendida através dos discursos, conferências, livros, manuais e ofertas de armamentos e outros objetos de estudo. “A presença militar estrangeira no Brasil estava ditada muito mais pelos interesses econômicos, diplomáticos e de propaganda”.122
118MARTINIÈRE, op. cit. nota 32, p. 82. 119MARTINIÈRE, op. cit. nota 32, p. 82.
120ROLLAND, op. cit. nota 35, p. 171. (grifos do autor). 121SUPPO, op. cit. nota 17, p. 310.
As instruções ministradas nos cursos das escolas militares utilizam referências bibliográficas francesas, e, embora alguns instrutores falem razoavelmente o português, os alunos são obrigados a entender o francês para efetivar suas pesquisas. Segundo Lacorne e Rupnik: “lembramos também que o Exército Francês é sem nenhuma dúvida o único exército no mundo que se utiliza de muitos recrutas para propagar o uso do francês no estrangeiro a título de ‘cooperação militar”.123
Os manuais e regulamentos brasileiros passam por modificações inspiradas nas documentações francesas. Essa difusão das obras e das idéias militares francesas entre os oficiais brasileiros leva Blay a fazer a seguinte afirmação:
A França tornou-se uma referência cultural para as elites militares brasileira, o que entra em linha de conta no momento da escolha crucial do engajamento do Brasil na defesa do mundo livre.124
Não resta dúvida de que a elite militar e também os graduados sofrem a influência das idéias e obras militares francesas, no que concerne à guerra, à estratégia, à tática e aos manuais militares. Mas, em contrapartida, essa influência, no final dos anos 30, vai-se dissipando e dando lugar à crescente esfera de domínio norte-americano, tanto em termos técnicos, quanto no aspecto doutrinário. Portanto, a decisão brasileira de se posicionar a favor do mundo livre, como destaca Blay, não está diretamente relacionada ao fato de os militares brasileiros terem recebido instruções francesas ou terem sido alvos da propaganda e da expansão cultural da França.
A partir de 1936, acontece no Brasil uma Missão Militar Americana de Artilharia Costeira, que será vista posteriormente. A partir dessa data, as relações entre Brasil e Estados Unidos se estreitam-se e a influência das idéias e da doutrina de guerra e militar americana começa a se fazer presente. O Brasil participa da Segunda Guerra Mundial com aviões, armamentos e instruções americanas.
No entanto, é certo que, nos anos 20 e no início dos anos 30, ocorre, no meio militar brasileiro, a assimilação da cultura e da mentalidade militar francesa, tanto por intermédio da língua, quanto pela própria instrução técnica. Na visão de Suppo: “a missão foi
123LACORNE, op. cit. nota 9. p. 35.
124 BLAY, Jean Pierre. La mission militaire française son influence intelectuelle et tecnologique dans la : formation des elites militaires bresilienne (1919-1940). In: Guerres mondiales et conflits contemporains: propagande et conditionnement des Esprits au XX siècle. Revue Trimestrielle d´Histoire, Paris, n. 177, p. 104, 1995.
considerada essencial na criação do espírito militar nacional, afastando os militares da política e consagrando o papel social do oficial”.125Na breve reflexão elaborada por Suppo em sua tese doutoral, aparece como principal objetivo da MMF, a venda de material de guerra, acoplada à propaganda cultural.
Mas não se pode deixar de considerar que assim como a elite brasileira deseja receber os ensinamentos e a educação francesa, alguns oficias brasileiros também possuem o mesmo ideal; não são apenas livros e conteúdos militares que circulam nas academias e escolas militares. Como evidencia Salkin:
Nossa língua é geralmente obrigatória nos colégios e nas escolas militares. A elite latino-americana que sonha descobrir Paris, entende como ponto de honra raciocinar com as expressões de Descartes, a recitar os poemas de Victor Hugo e a aplaudir as tropas em torno da comédia Francesa.126
Os oficiais franceses que vêm para o Brasil ou para outros países, em missões militares, são considerados de grande valor para o governo na empreitada de elevar internacionalmente o prestígio moral da França; são chamados de artisans de la
propagande française.127 Em maio de 1928, a Direção de Cavalaria Francesa oferece,
gratuitamente, à Escola de Veterinária do Exército Brasileiro um certo número de livros, que tratam basicamente de patologias, semiologia, higiene dos cavalos de guerra e inspeção das carnes. Entre esses volumes há:
Vade Mecum de Mollereau e Percher; Dicionário veterinário de Fontaine e Hugnier – 8 volumes; Livro de Anatomia Comparada de Lesbre – 2 volumes; Revista Veterinária Militar de 1922 a 1928; Revista Veterinária de Lyon e Toulouse – 1921, 1922, 1923, 1924, 1925, 1926, 1927.128
Como incentivo à propaganda, o Serviço de Obras Francesas no Exterior, com autorização do ministro das Relações Exteriores, passa a fornecer regularmente à MMF no Brasil alguns jornais e periódicos, de caráter militar, a título de propaganda. As revistas,
125SUPPO, op. cit. nota 17, p. 313.
126SALKIN, Ives. Présence et influence militaires françaises en Amérique Latine de 1919 a 1940 (thèse de doctorat). Paris: Sorbonne I, 1983. p. 24.
127Correspondência do gen Mangin, membro do Conselho Superior de Guerra, para o ministro da Guerra da França, 08.12.1921. Paris: Arquivo SHAT, dossiê 7N 3378.
128 Correspondência do chefe da Seção Veterinária da França para o Estado Maior do Exército da França, 23.05.1928. Paris: Arquivo SHAT, dossiê: 3398.
cuja manutenção é considerada importante no Brasil, são l’Illustration, Revue des Deux
Mondes, France Militaire e Revue de Paris.129
Além desses periódicos citados, há muitas outras revistas recebidas pelos membros da missão, tais como: Asas, A Aeronáutica, revista do Ministério do Ar, Boletim de
Navegação Aérea, Aviação Francesa, revista dos Clubes Aeronáuticos, Revista do Exército
do Ar, entre outras.130Percebe-se que o enfoque na divulgação das revistas sobre aviação é grande, o que se deve ao fato da significativa importação feita pelo Brasil de aviões e material de aviação.
O chefe da MMF, gen. Noel, demanda ao governo francês o envio gratuito de obras, por ele consideradas de extrema importância para a educação dos oficiais brasileiros. Argumenta, na ocasião, que a intensificação de certas propagandas estrangeiras deve aumentar consideravelmente, por meio dos abonamentos concedidos pelo governo francês no envio da produção militar. Entre as obras solicitadas por Noel, estão:
Regulamento sobre a Manobra e Emprego da Engenharia; Regulamento sobre gás de Combate; Dos princípios da Guerra, de Foch; As Transformações da Guerra, de Colin; A Guerra Napoleônica: Sistemas de Operações, de Camon; O Sistema de Guerra de Napoleão, de Camon; Campanha de 1806: Estudos Táticos sobre a Campanha de 1806, de Bremard; A Manobre de Iéna, de Bonnal;131
A propaganda também se faz pela exposição e, principalmente, pela venda de material bélico. O gen. Spire, por exemplo, solicita ao governo francês o envio de três aviões anfíbios para utilização dos oficiais aviadores que fazem parte da missão. Esse pedido se justifica pela concorrência industrial; assim o favor “constituirá um excelente meio de propaganda”.132
Sempre preocupados com a expansão alemã, os franceses não se descuidam das iniciativas germânicas feitas no Brasil, e, por intermédio de correspondências ou relatórios, notificam o que acontece às principais autoridades francesas. Em julho de 1937, o gen. Noel informa ao ministro da Guerra da França que o terramare Office Berlin havia enviado
129Correspondência do gen. Spire, chefe da Missão Militar Francesa, para o ministro da Guerra da França, Rio de Janeiro, 23.03.1929. Paris: Arquivo SHAT, dossiê 3398.
130Correspondência do gen. Noel, chefe da Missão Militar Francesa, para o ministro da Guerra da França, Rio de Janeiro, 02.07.1937. Paris: Arquivo SHAT, dossiê: 3398.
131Correspondência do gen. Noel, chefe da Missão Militar Francesa, para o ministro da Guerra da França, Rio de Janeiro, 08.05.1935. Paris: Arquivo SHAT, dossiê: 3398.
132 Correspondência do ministro de Comércio e Indústria da França, para o ministro da Guerra da França, Paris, 24.07.1928. Paris: Arquivo SHAT, dossiê: 3398.
as seguintes publicações para militares paulistas: Volk und Wehr, Wissen und Wehr, Parole
Bush, Deutsche Wehr, Rufhauer, Die Kriegsemarine, Militar Wochenblatt.133
A França, em sua política de expansão cultural, tenta conter os avanços dos alemães que habitam o Sul do Brasil. A região Sul é então considerada como uma área estratégica, que deve ser bem guarnecida, o que justifica o envio contínuo de destacamentos e a criação da bem equipada Escola Militar de Porto Alegre. A Alemanha é considerada pelos franceses como um sério perigo aos brasileiros, pois os colonos falam alemão e representam os interesses de seu país de origem, sem desenvolverem laços ou vínculos com o Brasil ou mesmo com os brasileiros. Uma das idéias aventadas nesse processo é a de que os alemães, possivelmente, desejem constituir um exército colonial. Como afirma Darcanchy:
A idéia de um exército colonial prussiano no sul do Brasil não é nova, nem é nossa. Já em 1903, um dos mais autorizados órgãos do pan germanismo o “ Grenzboten” de Leipzig escrevia entre outras coisas o seguinte: Concedamos ao país (referia-se ao Brasil) tanto governo autônomo quanto possível (...) organizemos um exército colonial em que todo indivíduo faça o seu tempo de serviço militar sem voltar à Alemanha.134
A questão referente ao serviço militar dos alemães que moram no Brasil é bastante delicada, pois o governo brasileiro deseja contar com essa massa de homens nas fileiras nacionais, principalmente quando passa a pugnar pela elevação do efetivo de tropa. Mas os germânicos não aceitam e mantêm a cidadania alemã, o que cria um impasse diplomático entre Brasil e Alemanha, a ser examinado no capítulo seguinte.
A política militar da França, aliada à política exterior, impulsiona a difusão da cultura francesa no meio militar brasileiro. Como afirma Baudouin, quando a missão francesa é reduzida, e não há condições de ter pessoal francês à frente dos cursos a serem ministrados, esses são aproveitados em cargos de coordenação, como conselheiros técnicos, supervisionando o trabalho dos brasileiros:
A missão militar francesa, sob as ordens do General Gamelin, em 1919, e hoje sob o comando do General Huntziger, composta por trinta oficiais no início, e quinze agora, dirige uma Escola de Estado Maior, uma Escola de Aperfeiçoamento e um centro de Transmissões; seus membros são conselheiros
133Correspondência do gen. Noel, op. cit. nota 130.
134 DARCANCHY, Raoul. O pan-germanismo no sul do Brasil. Rio de Janeiro: Affaires Culturels et Scientifiques, 1915. p. 29. Paris: Arquivo MRE, dossiê 57 a 101, pasta 104.
técnicos na escola Militar, na escola de Saúde, na escola de Intendência e na Escola veterinária.135