presente: da ação sucessivamente perdida no tempo, do real sucessivamente perdido em imagens. Ambos espaços de reações múltiplas no espaço e no tempo.
O corpo expressivo de Egon Schiele (1890-1918)
encontra-se sempre em movimento, ainda que “parado”: o pintor representa com seus traços únicos o corpo como uma fonte viva de energia e pulsão imanente. É como se o austríaco visualizasse o sentimento ou a emoção de seus modelos, sempre vibrantes em seu traço instável e ao mesmo tempo tão forte.
Igualmente, nosso corpo é “veículo de expressão do sonho na realidade.” (Kamper41) Quer dizer, não apenas passeamos por tempos distintos como também por realidades. Pois, se nossa imaginação se alimenta de sonhos, desejos e passados remotos, alimentos criativos, ela é tão atuante em nossos movimentos quanto os estímulos externos, de maneira que diverge com a realidade convencionalizada. Somos capazes de observar um corpo na cidade que está totalmente alheio ao que se passa ao seu redor, seja a uma cena de assalto, uma chuva ou um carro. Pessoas que estão em outro tempo presente e em uma realidade diversa da aparente.
O corpo adaptou-se aos sistemas de circulação e mobilidade, inevitáveis à sua sobrevivência neste meio da turbulência do ambiente da cidade, de novas formas de disciplina e regulação corporais e de reconhecimento do espaço e do organismo. Lembramos a existência do flanêur, sua perspectiva inconstante e subjetiva de um indivíduo que passeia pelas realidades do cotidiano. Os textos de flanerie unem a realidade social à fantasia, especulações e questões contemporâneas. “Circulação” é o termo para o deslocamento do “próprio”, tanto no discurso do trânsito quanto no da
flanerie. (Charney e Schwartz, 1995) O espectador urbano negocia com um amplo
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“As máquinas são tão mortais como as pessoas”. Ver nota 9 página 14. QuickTime™ and a
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espectro imagético, e tem diante de si uma “festa visual” sempre simultânea, aleatória, coletiva e particular, em fluxo contínuo. É deste fluxo, que se alimenta da relação corpo- cidade, que nasce o ambiente. (Greiner, 2004)
Com a ajuda de nossos “processadores naturais”, “captores sensórios”, como explica o engenheiro e neurofisiologista Alain Berthoz (1997), nossos corpos vivos são capazes de processar os acontecimentos do mundo, ingeri-los por tempo indeterminado e explorá-lo também indefinidamente, através de gestos destinados a uma comunicação ou de gestos solitários, pessoais. O importante é não interromper o fluxo, mas juntar-se a ele, ao mundo, não permitindo que conhecimento, apreensão, dúvida ou desejo se estanquem – nesse caso teríamos o tempo suspenso, o abandono da ação espontânea, a incompreensão do mundo, cada vez mais distante em suas realidades múltiplas. Para fazer parte dele há que se contar com o “movimento de pensamento, com a ajuda dos corpos animados”. (Kamper42)
A ação corpórea organiza-se em rede. É concreta e se organiza em circunstâncias específicas que geram soluções adaptativas para aquele espaço e tempo. A cognição é social. (Clancey, 1997) O processo cognitivo43 começa por um processo perceptivo, de maneira que toda ação se dá como a relação entre um significado mental – a representação mental entendida como estado mental, onde relações se desencadeiam – relativo a um objeto referencial. O termo “situated cognition” (cognição situada), discutida por vários autores, como William Clancey, chama a atenção para a observação de detalhes aparentemente desimportantes, porque analisa o processo no momento e no ambiente onde ele se dá. As soluções do sistema corpóreo serão decididas a partir da ação com variáveis não controláveis: assim evidenciamos a contaminação com o ambiente.
Em nossos estudos sobre o corpo contemporâneo, é de suma importância lembrarmos que o aparato corpóreo também constrói o meio. Os acontecimentos se dão em rede e os fenômenos são mais complexos que uma simples reação a determinada circunstância. O ambiente atua como um recurso ativo e co-evolutivo. Há que se detectar os acontecimentos do corpo nessa rede de possibilidades de ações. O processo de cognição começa no contexto, que por sua vez é lugar e é rede de informação temporal (e não espacial): o experienciado e a organização do instante. O processo da percepção requer interpretação, seleção e reorganização do que vem de fora. Uma leitura interna então criará uma determinada representação. A informação selecionada é interpretada pelo meio físico, reorganizada, e vira uma ação interna, simulada. A percepção já é ativa, pois faz uso de captadores, e não meros receptores. Berthoz (1997) argumenta que percepção já é uma ação simulada. Com isso pode-se concluir que o pensamento já é movimento, ou seja, quando se pensa o movimento já acontece. Berthoz acrescenta que o sentido do movimento é a principal matriz da comunicação.
A imaginação pressupõe a criação de imagens, e a realidade interna é fruto dos processos do mundo internalizados naquele corpo criador. Tais acontecimentos se
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Ver nota 9 página 14. 43
As ciências cognitivas são um conjunto de disciplinas (economia, engenharia, filosofia, biologia, linguística, neurociência, etc) reunidas a partir da década de 40 tendo em vista o estudo dos processos de cognição.
processam no corpo e nas formas como este corpo reage e exterioriza seus “pensamentos”: Os gestos no mundo são pessoais, são registros ativos e fragmentários.44 Este corpo instável, atuante, reage de formas singulares e imprevisíveis. Possibilidades submersas em cada corpo ganham vida pela supremacia do movimento, por sua vez, dinâmico, determinante e determinado pelas ações internas e externas ao corpo. Os estados corporais, as condições do corpo, o transeunte de passagem, cada pequena parte da cidade em movimento reflete um mundo interior independente, que ao mesmo tempo age e aciona novos significados por onde anda.
Encontrar vestígios de corporeidade nos dias atuais exige mais do que um método, exige um rastrear, isto é, uma forma de pensar para trás, seguindo sinais tênues, marcas do ausente, de algo que não está mais lá. A palavra alemã para rastrear é spuren, que significa sentir, algo a ser feito corporalmente, com os sentidos; tem a mesma raiz que o substantivo spur, rastro, vestígio. O termo sugere um sentir antes de ver. Dietmar Kamper45 sugere que façamos do pensamento uma vivência corporal. Ele nos lembra que as vivências, em sua plenitude, são incomunicáveis e delas só se tem acesso a rastros – “e o rastro, este, só pde ser rastreado.” Sabe-se hoje, à luz de importantes cientistas cognitivos como Damasio, Lakoff e Johnson, que não há como romper com imagens imaginativas, e que isto é parte da vivência corporal. Mas sabe-se também que os pensamentos nada mais são do que fluxos de imagens e que o acesso a estes é apenas fragementado, como rastros quem sabe, como previa Kamper.
O movimento como realidade física no mundo exterior e a imagem como realidade psíquica na consciência não são opostos. A realidade se passa inserida ao longo de um devir abstrato, uniforme, situado no fundo do aparato do conhecimento. Assim procedem a percepção e a linguagem. (Deleuze, 1984)
Em função de fatores em constante comunicação, a realidade é percebida e recriada em cada corpo sob uma forma particular, a partir de sua construção de sentidos em sua relação com o mundo e capacidade perceptiva. A condição de vida é sempre “mortal e imprevisível, em sua criatividade” (Edelman, 1992: 171). A ação como resultante de soluções momentâneas faz com que o sujeito nunca seja uno. O eu não tem existência fixa, ele é constituído por estados emergentes que respondem a estados constantemente reconstruídos. Os estados do corpo, que nada mais são do que informações percebidas, imaginadas e apreendidas do meio, organizam o corpo como momento singular a cada atualização. Em tempo presente atuam a estrutura e a espontaneidade, derivando numa evolução do estado não só corporal como criativo. A proposta de Dietmar Kamper (2000) –
korperdenken (pensar do corpo, pensar com o corpo, pensar corporal) traduz a grande
dificuldade do homem que é estar no presente – a corporeidade do agora.
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O declínio do observador clássico pontual começou no início do século XIX, cada vez mais deslocado pelo sujeito instável. Mas a desordem dinâmica inerente ao estado de atenção expressa outro caminho de invenção, diverso daquele das linguagens audiovisuais, o da dissolução e síntese criativa, que supera a possibilidade de racionalização e controle. A experiência moderna envolveu um acionamento constante dos atos reflexos e impulsos nervosos que fluíam pelo corpo “como a energia de uma bateria”, tal como descreveu Benjamin. (Charney e Schwartz, 1995: 128)
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O pensamento simbólico formula a realidade, criando representações icônicas, possibilidades de mediação: a idéia entra em movimento, entra na rede, e passa a significar, a ter uma representação46 no mundo. Damasio (1996) acrescenta que o modo de organização do corpo é singular – é uma particularidade do organismo, que se organiza para sobreviver. Há sempre uma taxa de estabilidade, de permanência, mas estas são incompletas, no sentido de que operam simultaneamente a instabilidades e impermanências. O pensamento humano são suas imagens sensórias, a visão se complementa com outras percepções. Os processos de percepção são múltiplos e relacionais. O pensamento, portanto, se organiza a partir da ação corpórea. Vivemos em processo e em tempo real; nosso conhecimento tem sua taxa de permanência, existente em função da plasticidade do cérebro e do corpo.
O reconhecimento da coletividade de estados corporais que se passam no corpo por sua vez, legitima-o como corpo-processo. Não o corpo como uma entidade abstrata, fora do fluxo temporal, mas estados corporais, visto que o processamento de imagens e informações não pára. Torna-se pertinente focarmos na instabilidade, num suposto estado final. Damasio acrescenta que o gesto carrega resíduos da informação que estão no mundo, e que ele também é taxa indexical – o começo do processo para organizar as representações mentais. O gesto é o acontecimento resultante da maior taxa de permanência, da estabilidade num contexto instável. Por isso pode ser identificado, reconhecido.
A linguagem é evolutiva – não é nem apenas código genético, nem simplesmente social na sua relação com o ambiente. Assim, a linguagem também se organiza a partir das ações corporais e cerebrais, aliando o tempo inteiro natureza e cultura. Ao nos deslocarmos, aquilo que se desloca traz novas questões. O neurologista Gerald Edelman (1992) argumenta que algumas informações se estabilizam no corpo, como mapas que operam por reentradas. Algumas informações não ficam, mas deixam rastros de passagem. Estaríamos, mais uma vez, tratando de um processo seletivo na singularidade dos corpos. Como aquilo funciona naquele ambiente, com aquelas taxas de complexidade, o que significa mediações mais complexas, com um aumento de conexões diversas que um fenômeno agrega: pensarmos aquele corpo, aquele acontecimento com aquelas conexões.
“Estas passagens me foram impostas pelas personagens sem que para isso houvesse prévia meditação minha. Tive de segui-las, quase escravo, como se repentinamente, num jogo de trocas, delas fosse o meu argumento, e delas, emanando, independente, a projeção e os gestos que eu arquitetara no espaço livre do argumento.”
(Peixoto, 1947:81) 47
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Nem toda representação se organiza como categoria; relações múltiplas são travadas em representações mensageiras que se relacionam com o objeto representado. O conteúdo das representações mensageiras são associações; as representações naturais vivem no fluxo entre o processo mental do sujeito e o ambiente. As associações podem evoluir quando há uma nova informação – presente em sua taxa de instabilidade – para uma metáfora complexa. (Lakoff e Johnson, 1999)
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É assim que o mestre brasileiro Mário Peixoto nos conduz ao pensamento do corpo, fio condutor desta dissertação. O corpo no espaço como fonte de criação, objeto de desejo, sujeito passivo de observação e, simultaneamente, ativo no ambiente.
Os sentidos corporais, múltiplos, simultâneos, são operações que dominam hoje os processos comunicacionais. A linguagem encontra-se fragmentada por rastros comunicacionais e acima de tudo, a linguagem do corpo é multivocal.
A linguagem criativa do video como aparato estético e comunicacional encontra similaridades com a linguagem do corpo no contexto abordado nesta pesquisa. O fato de ambos se apresentarem hoje em dia como instrumentos midiáticos e condutores de sentidos vários potencializa as chances de se construir representações corpóreas através deste aparato audiovisual. Nesse sentido, apresentamos a proposta do experimento em video “Brevidade”, justamente fazendo uso de seus recursos técnicos para criar expressões visuais para possíveis imagens corpóreas e construções de discurso do corpo do personagem.
Anotações sobre o video “Brevidade”
O exercício de linguagem proposto para esta pesquisa chama-se “Brevidade”. Rodolfo, um sujeito qualquer, que vive só numa cidade grande, decide pegar um trem. Tudo tem início num amanhecer em sua casa. Ele passou a noite tentando finalizar um trabalho: está confuso em suas partituras. Lê, rabisca, rasura, relê, abandona, bebe, caminha, lê outra carta, mexe em outra partitura. Seu acompanhamento são sons ruidosos e trechos de sua composição inacabada. À meia luz, tateia por objetos e lembranças, em busca de idéias, revelando um incômodo perceptível nos ruídos, que não se encaixam à situação. O mal estar cresce, ele finalmente abre a janela para fazer entrar uma enorme luz que invade tudo num grande silêncio. Rodolfo decide sair.
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Nesse momento, tanto faz o sujeito, tanto faz o percurso, tanto faz a cidade e a situação. A vivência deste personagem serve para demonstrar a idéia do processo. Em trânsito, seus pensamentos encontram-se com outros de outros corpos no caminho, abordando um pequeno drama existêncial de qualquer homem só numa cidade grande.
À meia luz do ambiente semi-escuro, semi-claro, o resto de vela na pequena mesa, o copo com o resto de bebida, o roupão gasto, compõem o ambiente de sossego preenchido pelo corpo inquieto. Alguns planos lentos, abertos, compõem uma imagem quase esvaziada, sem movimento. A câmera é cúmplice: Rodolfo pensa e não conclui. Ensaia pequenos toques ao ao violão e ao piano, sem sucesso. O cenário tranquilo não o acalma, como presenciamos nos closes de seu rosto cansado, angustiado.
Na imagem à contra luz, vemos sua silhueta na claridade vinda da janela. Seu corpo no escuro caminha agora para uma nova alternativa: sair. Rodolfo finalmente deixa a sala escura. A quietude interna se contrapõe à explosão cromática e sonora. O personagem caminha sozinho compondo seus movimentos como construções pessoais. Caminha com destino ao metrô, mas este fim é insignificante. Ele vai sem rumo certo, chega à plataforma do trem, desiste na última hora, espera o próximo. Afinal ninguém o espera e não tem hora pra nada. Sua viagem é uma passagem, parte de um processo, com a parada também aleatória. Comprovamos isso quando ele, pronto para embarcar num trem, desiste na última hora para atravessar a plataforma e esperar por outro, na direção contrária. Ele observa para fora do trem as imagens em movimento, da janela. Às vezes elas são o concreto, às vezes telhados de casas e trilhos de outros trens, às vezes fragmentos de corpos dos outros entrando e saindo do vagão, vagando pelas plataformas, correndo com compras. Cenários urbanos contemplados por seu corpo, simultaneamente ativo e passivo neste momento. Sua própria paisagem “dialoga” com a paisagem do trem, se relaciona com suas paisagens internas, suas memórias emotivas, seus pensamentos aleatórios. Os cenários em movimento representam também seu processo visível de criação, como podemos ver em suas imagens internas novamente visíveis para nós.
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Presenciamos a “revolução interna” de Rodolfo sem sabermos sua causa. Seria apenas uma crise criativa? Afinal trata-se de um compositor que ao fim de uma noite não dormida tenta ainda avançar em sua composição, num passeio pela cidade. Sua agonia se faz presente no trecho da música que sempre se repete. Em seus gestos aleatórios, observa “tudo” ao seu redor. A rua faz o papel da composição incompleta, o espaço público como seu rascunho inacabado.
Rodolfo não conversa com ninguém. Uso o recurso do não diálogo, dos efeitos visuais – cores e focos, pontos de luz em sintonia com os pensamentos de Rodolfo, em movimento ininterrupto. Do mesmo modo, não há cena sem movimento: este está no corpo do personagem, nos corpos dos outros, do lugar em si ou da câmera. Exploramos sua instabilidade emocional no uso dos elementos videográficos, como a cor, às vezes intensa, às vezes opaca, do som, que oscila do melódico ao ruidoso, do foco, que também produz variações, dos recursos da edição, do movimento do corpo do personagem, explícito nos gestos ou implícito em suas ações internas, “visíveis” graças aos recursos da imagem do video, enquanto está pensando ou contemplando algo.
Nosso personagem lê cartas pessoais, enviadas por amigos e guardadas por ele, lidando com uma memória viva e perdida ao mesmo tempo, como pedaços de sentimentos passados que se mantêm vivos no corpo, sendo atualizados e atribuídos a novas leituras nesse novo contexto do processo criativo, em trânsito. A escrita das partituras, com todos os seus rabiscos, correções, constituindo-se em vários rascunhos, expressam também um incômodo, uma situação que não encontrou seu fim, um distúrbio do processo não finalizado. Manuscritos abertos em planos fechados expõem em closes os detalhes instigantes que lhe percorrem a mente: trechos de acontecimentos, histórias expostas, compostas, outras ainda por criar.
Contemplamos o corpo em fluxo de Rodolfo mesmo quando não o vemos, como acontece durante seu passeio pela cidade à noite. Não sabemos se esse passeio se passou antes de sua noite não dormida ou no meio dela, numa saída estratégica, ou no dia seguinte, após o passeio de trem e a visita à cidade. A sequência temporal dos acontecimentos é irrelevante, pois a atenção está centrada na condição do personagem. Seu passeio noturno revela claramente o instante da passagem, de um lugar a outro, de um pensamento a outro, de uma ação a outra. Olhares perdidos e dispersos tanto do personagem quanto dos transeuntes, apressados, desvairados, elétricos, contemplativos, perdidos, caminhando pelas ruas iluminadas repletas de vitrines. Uma contemplação do tempo no corpo e do tempo no mundo. Cada um à sua maneira, vê inúmeros sujeitos em suas impressões de passagem, vestígios de histórias pessoais, ofuscados por vezes pelo excesso de luzes também em movimento, também de passagem, e também sem destino
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certo: como a mente de Rodolfo em seu processo pessoal. Seus cenários mentais promovem uma fusão com aquele ambiente noturno de uma poesia cansada do excesso, mas nem por isso menos bela, menos complexa. Contemplamos o corpo em fluxo, o corpo anônimo, numa explosão sensorial. Estes distúrbios visuais e sonoros o acompanham por todo o trajeto, revelando-nos eixos temporais diversos em imagens de tempos presentes. Por fim, não concluímos: nosso personagem chegou a sair do lugar? Ele saiu realmente de casa para esse passeio noturno, ou tudo não passou de imagens metafóricas de seu processo de criação? Ele imaginou as cenas ou foi de fato até lá? A repetição constante do trecho de “sua música”, ainda em processo, também nos faz levantar esta dúvida. Mas ela não importa.
Os movimentos urbanos do video, os jogos de corpos, da câmera, os registros impressionistas, expressionistas, modernos ou resumidamente pessoais, compõem-se como brevidades, instantes captados e ressignificados. A impressão das passagens, o ponto de vista do personagem, o olhar disperso e o olhar que procura uma nova poesia, uma nova composição sonora ou visual, como numa continuação dos jogos de cartas, memórias e acontecimentos ainda por vir.
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“(...) havia pensado sem querer... um nada é o mesmo “instante” em que se inicia ou não um pensamento – visto que pode acarretar caminhos, angariar veredas, mágicas veredas, com imprevistos “dobras de equinas”.
“Ia cansado. E, passando a mão pelo rosto estremunhado, pensei no fim daquela noite, com os primeiros impulsos de sono. Atentei, uma vez ainda, nos detalhes daquele segundo encontro, o derradeiro (quem sabe?), que apesar da camaradagem, não despira-se do fracasso! Como se jamais houvessem partido, as emendas
“mancavam”... era mais como um aspecto, um jeito (nem sei...), mas presente – inútil de debate. E chegava à conclusão do trio, caminhando sem salvação naquele carro às quatro e tanto da manhã, sem saber ao certo por quê... “tanta pequenina coisa nas minhas