5.3. Elevar frå heimar med sosioøkonomiske vanskar
5.4.1. Korleis lærar skildrar relasjonane til sine elevar
Reconhecendo a saudação Batista como uma saudação com fundo sacerdotal534, está se expondo que a vida e morte de Jesus podem ser entendidas como uma entrega, e de fato, o Quarto Evangelho organiza seu projeto rumo à cruz535. Deste modo, já está vislumbrada a possibilidade da morte violenta com a qual Jesus haveria de morrer. Entretanto, não parece ser esta ao longo do texto, a consciência de Jesus536. Jesus e João Batista conheciam o fim de alguns dos profetas; por conseguinte, já poderiam suspeitar de seu próprio fim. Levantar a hipótese de uma morte violenta por parte das autoridades não seria algo impossível, nem a João Batista e tão pouco a Jesus.
A respeito da interpretação da vida e execução do Batista, alguns dos seus discípulos deram uma interpretação gloriosa, pelo que continuaram a batizar seguindo sua
532 Cf. NEVES, Joaquim Carreira das. Escritos de São João, p. 84. 533 Cf. MOLONEY, Francis J. The Gospel of John. V. IV, p. 52. 534
Cf. LÉON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João. V. I, p. 126.
535 COLAVECCHIO, Ronaldo L. Jesus de Nazareu: a experiência de Deus no Evangelho de São João. São Paulo: Loyola, 2007, p. 11: “desde cedo, no Evangelho de João, o leitor sabe que Jesus de Nazaré é um homem condenado à morte.”
536 THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos: uma teoria do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 198: “é improvável que, historicamente, Jesus tivesse conscientemente querido sua morte como morte sacrificial.”
prática537, mas esta tradição não se expandiu largamente, seja no tempo ou no espaço. Por sua vez, a morte de Jesus encontrou entre seus discípulos uma interpretação que se sustentou e levou-os a reinterpretarem a Escritura e a Lei à luz de Jesus538. Os escritos compilados no Novo Testamento são uma prova cabal destas interpretações.
Inicialmente, a morte de Jesus foi um desastre, “os discípulos experimentaram sua execução como uma catástrofe”539; mas eles tinham, na vida pública de Jesus, alguns
elementos que ajudaram a uma reinterpretação, pois “na vida do Jesus histórico já existia um suporte para a posterior interpretação sacrificial de sua morte”540. Não foi
difícil aos discípulos chegarem a interpretar a morte de Jesus do ponto de vista da teologia sacrificial.
A teologia sacrificial de reconciliação em Israel traz no seu seio a teologia da substituição, isto é, por meio de um sacrifício o devedor paga a sua dívida; aquele que cometeu um pecado contra um preceito, ou um ato de impureza, expõe uma vítima sacrificial em seu lugar. O sangue desta vítima recoloca o devedor conciliado com o credor, no caso da fé de Israel: Deus e o pecador. Dentro deste raciocínio sacro de Israel, os discípulos passaram a compreender a morte de Jesus, tendo-a como um ato de reconciliação, que perdoava as dívidas do mundo (cf. Jo 1,29).
A teologia da dívida parece bastante simples, porém, requer uma substituição radical para os judeu-cristãos, pois até então, os judeu-cristãos conheciam os sacrifícios do Templo, que eram realizados com animais, e por outro lado, tanto os judeu-cristãos como os samaritanos, convertidos a Jesus, conheciam a rejeição do Deus da Aliança ao sacrifício humano (cf. Gn 22,1-18). Os seguidores de Jesus levaram a termo o que havia sido predito em Is 53: um servo será sacrificado pelo povo, de modo que agora os cristãos passavam a cultuar um sacrifício humano541. Neste sacrifício humano, a
537 LÉON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João. V. I, p. 125: “sua atividade [do Batista] se estende do outono de 27 à primavera de 29, durante o segundo período de Qumran, em que dominava um essenismo de característica zelote. Profundamente original, este período teve repercussão notável, como aponta o mesmo Josefo. Um movimento batista brilhava em Éfeso, segundo uma menção dos Atos dos Apóstolos [19,1-4], bem depois da morte de João; sua sobrevivência pode ser encontrada na Síria até o ano 300.”
538 Cf. THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos, p. 268. 539 Idem ibidem, p. 198.
540 Idem ibidem, p. 198.
541 Idem ibidem, p. 16: “os primeiros cristãos desenvolveram, na verdade, um sistema de sinais sem templo, sem sacrifício, sem sacerdote, e conservaram, então, de forma dissimulada em suas interpretações, esses elementos tradicionais de sistemas religiosos, muitas vezes até mesmo numa forma arcaica já então ultrapassada: eles cessaram, com efeito, de sacrificar animais, mas, em suas interpretações, reativaram uma forma de sacrifício de há muito superada: o sacrifício de pessoas – como o sacrifício expiatório de Jesus.”
comunidade experimentou a salvação542 e soube que “a entrega de Cristo, Filho de Deus, na cruz tem um significado infinitamente superior ao culto sacrificial sangrento do Templo de Jerusalém”543, pois traz a paga da dívida, isto é, Deus não precisa mais de
sacrifícios, agora, o amor se expressa como a maior exigência da fé, pois, a morte de Jesus, apesar de sangrenta, foi uma entrega por amor544, e é exatamente o amor que redime.
No Quarto Evangelho, apesar dos pontos que indicam a morte de Jesus como sacrifício, predomina a visão gloriosa da morte de Jesus. A partir do capítulo doze (Jo 12) deste Evangelho se faz mais acentuada uma teologia da morte de Jesus, vendo-a como glória, de onde decorre a salvação do homem. Esta morte está paralela à Páscoa dos judeus, para a qual eles se preparavam (cf. Jo 12,1). De fato, Jesus sobe a Jerusalém para ir a mais uma páscoa545. Aqui intensifica o conflito com as autoridades judaicas que o querem desacreditar e até mesmo prender546, mas o que visualizam é o crescimento do seguimento a Jesus (cf. Jo 12,20), inclusive com a procura de gregos por ele, e não somente estes, mas também um número de judeus. Sobre os gregos, Schnakenburg considera que sejam prosélitos, pessoas pagãs próximas ao judaísmo547. Esta busca por Jesus revela o alcance universal de sua salvação, pois, a sua morte não se configura, primeiramente, em sacrifício particular, mas em uma exaltação, que dará frutos abundantes à missão do próprio Jesus e à sua comunidade.
542 GODOY, Edvilson de. O sacrifício de Cristo: abordagem a partir de René Girard e Raymund Schwager. São Paulo: Palabra &p prece, 2012, p. 144: “Os cristãos viveram a experiência da salvação realizada por Cristo.”
543 Idem ibidem, p. 144.
544 ERNANDES FERNANDES, Cézar L. O sentido da cruz, p. 21: “compreender o significado da morte de Jesus é entender a revelação que move o Evangelho: o triunfo do amor sobre a morte”
545 GODOY, Edvilson de. O sacrifício de Cristo, p. 58: “Jesus vai a Jerusalém para celebrar a páscoa, como qualquer hebreu daquela época.”
546 SCHNACKENBURG, Rudolf. Il Vangelo di Giovanni: parte segunda. Brescia: Paideia, 1977, P. 600: “le autorità giudaiche procedono inesorabili contro Gesù (11,57) e cercano di soffocare con ogni mezzo la fede in lui (cfr. 12,10s.). Ma già si delinea la vitoria della fede in Cristo: un grande numero di Giudei non si lascia dissuadire dal seguire Gesù (12,12.19) e vengono dei Greci per vedere Gesù (12,20s.): un quadro molto promettente della chiesa costituita di giudei e pagani. Il trionfo di Gesù è fondato sulla sua morte: con essa suona l´ora della glorificazione del Figlio di Dio (12,23).” [tradução nossa: as autoridades judaicas agem inexoráveis contra Jesus (11,57) e procuram sufocar, por quaisquer meios a fé que é depositada nele (cfr. 12,10s.). Porém, já se delineia a vitória da fé em Cristo: um grande número de Judeus não se deixa dissuadir do seguimento a Jesus (12,12.19) e alguns gregos vêm para ver Jesus (12,20s.): um quadro muito promissor da igreja constituída de judeus e pagãos. O triunfo de Jesus é fundado sobre a morte: com a mesma, soa a hora da glorificação do Filho de Deus (12,23).]
547Idem ibidem, p. 634: “I „greci‟ non sono giudei di língua grega, ma greci di nascita(cfr. A 7,35), che come proseliti hanno aderito al giudaismo. Il loro proposito di „adorare‟ in occasione della festa, vale dire di venerare Dio, fa pensare che si tratti di cosiddetti‟timorati di Dio‟,che non potevano mangiare l´agnello pascuale.”[tradução nossa: os „gregos‟ não são judeus de língua grega, mas gregos de nascimento (cfr. A 7,35), que como prosélitos aderiram ao judaísmo. O propósito deles de „adorar‟ por ocasião da festa e, vale dizer, de venerar a Deus, faz pensar que se trate dos assim chamados „tementes a Deus‟ que não podiam comer o cordeiro pascal.]
A morte de Jesus é salvação universal; é para todo o mundo. Tal como havia se expressado João Batista em sua saudação (cf. Jo 1,29). Esta salvação consiste em ter a vida de volta, a vida eterna a partir da cruz, visto que, “a salvação do homem é realizada de forma decisiva, não só pela sua encarnação ou na continuidade de sua vida mortal, mas na sua morte”548.
Nas comunidades primitivas logo se considerou que o Pai exaltou Jesus após a ressurreição (cf. Fl 2,9; At 2,33). Por sua vez, o Quarto Evangelho passa a considerar tal exaltação na cruz; o que se havia anunciado no encontro com Nicodemos (cf. Jo 3,14) passa em Jo 12 a ficar mais claro a qual exaltação Jesus se referia. Deste modo, o Quarto Evangelho antecipa a exaltação, com o que anuncia sua obra: atrair todos a si (cf. Jo 12,32). Com isto, o Evangelho joanino se coloca dentro da tradição primitiva da exaltação, convergindo para o que transmitem outros escritos neotestamentários549. Todavia, guardando primeiro o conceito de exaltação-glorificação para a morte de Jesus, ao invés de propriamente condicioná-los à ressurreição. De fato, a hora da morte no Evangelho segundo João, é a hora da glória e da exaltação550, tanto que a narração da Paixão é moldada por uma pompa de realeza551. Da morte de Jesus emerge a reunião dos filhos de Deus552, agora compostos não mais somente por judeus, mas também por pagãos e inclusive por samaritanos, que formam a família de Deus553.
548 ERNANDES FERNANDES, Cézar L. O sentido da cruz, p. 34.
549 SCHNACKENBURG, Rudolf. Il Vangelo di Giovanni, parte segunda, p. 659: “la morte di Gesù sulla Croce per Giovanni ha acquisitato un determinato aspetto, un valore teologico suo proprio. Sulla Croce egli conferisce un significato traslato teologico che concorda con quello elaborato molto presto nella chiesa primitiva, secondo cui Gesù con la sua risurrezione o dopo di essa è stato „esaltato‟ presso Dio.” [tradução nossa: a morte de Jesus na Cruz, adquiriu, para João, um determinado aspecto, um valor teológico próprio. Na Cruz, ele confere um significado teológico metafórico que concorda com aquele elaborado bem cedo na igreja primitiva, segundo o qual, Jesus com a sua ressureição ou depois desta, foi „exaltado‟ junto de Deus.]
550 Idem ibidem, p. 600: “Il seme di frumento che morre da molto frutto (12,24), la Croce diventa esaltazione, per la quale il Figlio dell´uomo trae tutti a sé (12,32s). In tal modo l´ora più oscura di Gesù se muta in rivelazione della sua gloria (12,27), la potenza del principe di questo mondo è infranta (12,31). Questo Cristo rimane in eterno, per paradossale che ciò posa sembrare di fronte alla sua morte (cfr. 12,34).” [tradução nossa: o grão de trigo que morre dá muito fruto (12,24), a Cruz se torna exaltação pela qual o Filho do homem atrai todos a si (12,32s). Desta forma, a hora mais obscura de Jesus se transforma em revelação de sua glória (12,27), o poder do príncipe deste mundo é quebrado (12,31). Este Cristo permanece para sempre, por mais que isto possa parecer um paradoxo diante de sua morte (cfr.12,34).] 551 Cf. NEVES, Joaquim Carreira das. Escritos de São João, p. 263.
552 Idem ibidem, p. 274: “a finalidade da acção do Êxodo é „não deixar que o exterminador entre nas casas [dos judeus] para as ferir‟ (12,23c) e a da Cruz, segundo João, é levar à „consumação‟ a obra do Pai no seu Filho para que „os seus‟ (ta idia) sejam um só na nova família nascida na Cruz.”
553
SCHNACKENBURG, Rudolf. Il Vangelo di Giovanni, parte segunda, p. 652: “ l´aspetto positivo più importante dell´ora di Gesù consiste nella salvezza dei credenti, e precisamente in una dimensione universale: di tutti gli uomini che vengono a lui e da lui si lasciano guidare.” [tradução nossa: o aspecto positivo mais importante da hora de Jesus consiste na salvação dos crentes, e precisamente numa dimensão universal: de todos os homens que vêm a ele e se deixam guiar por ele.]
O conceito de morte sacrificial não ficou fora do Quarto Evangelho, ainda que predominando uma visão gloriosa da hora de Jesus. O Evangelho segundo João possuía a consciência de que o pecado gerava uma separação entre Deus e o homem. Separação que no mundo de Israel era quebrada pelos ritos de sacrifício, pelos quais o povo se reconciliava com Deus, de sorte que, a vida do animal, doada em sacrifício, reconstituía a relação quebrada. A relação também estava rompida entre os homens, mas a morte de Jesus cumpria o desejo de reunificação do povo, sonho que se alimentava em alguns grupos judaicos desde o tempo de Josias. Agora, a comunidade joanina, diante da pluralidade de seu grupo, via os frutos da glorificação de Jesus e compreendia o que queria dizer atrairei todos a mim (cf. Jo 12,32). Outra esperança messiânica que se cumpria é o perdão dos pecados554, foi isto que o Batista pronunciou, e uma vez o Mestre exaltado, cumpria-se este anúncio; agora, os pecados não são perdoados pelos sacrifícios do Templo, mas pela cruz de Jesus. Diante disto, o Quarto Evangelho assimila a morte de Jesus também como sacrifício, como sacrifício de reconciliação.
A separação entre Deus e o homem vigorava555 na consciência dos judeus, haja vista a numerosa sucessão de sacrifícios no Templo e a celebração de Kippur556. Por sua vez, a comunidade cristã não dispensou tal compreensão, pois intuía, desde os ensinamentos de Jesus, que o Pai mesmo iria buscar se reconciliar com o povo, o próprio Deus tomaria a iniciativa. O Quarto Evangelho, com forte acento sacerdotal, ao expor Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29), não faz outra coisa senão dizer: Deus tomou a iniciativa. Assim, a entrega de Jesus está no programa do Evangelho desde o início. Esta entrega se faz necessária557, segundo a teologia do Quarto Evangelho, tanto que “ninguém tira minha vida eu a dou” ( cf. Jo 10,18); é o que afirma o Jesus joanino, fazendo de sua morte uma entrega de amor, amor que reconcilia558.
554 DODD, Charles. A interpretação do Quarto Evangelho, p. 314: “dar cabo do pecado é uma função do Messias judeu, sem ligação alguma com o pensamento de uma morte redentora. Por exemplo: Testamento de Levi, 18,9.”
555
THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos, p. 202: “nas interpretações da morte de Jesus como sacramentum não existe nenhuma analogia entre o agir de Deus, de Cristo e do ser humano; ao contrário, acentua-se exatamente a distância entre Deus e o ser humano. A ordem da „justiça‟, que liga Deus e homem, é profundamente perturbada pela injustiça humana: sua restauração exigia a „expiação‟. O relacionamento pessoal entre Deus e homem tornou-se „inimizade‟, de modo que Deus e homem precisam ser reconciliados.”
556 Cf. AVRIL, Anne-Catherine. As festas judaicas, p. 123. 557
SCHNACKENBURG, Rudolf. Il Vangelo di Giovanni, parte segunda, p. 636: “la morte de Gesù è necessária per portare abbondanti frutti missionari.” [tradução nossa: a morte de Jesus é necessária para levar abundantes frutos missionários.]
O sacrifício do cordeiro trazia benefícios para quem o ofertava, por sua vez, o sacrifício do Cordeiro de Deus traz benefícios para a humanidade. Deus oferta e nós somos beneficiados, somos aí reconciliados com Deus, ou seja, Jesus se entrega para romper o muro que se tinha imposto entre o homem e Deus, e o rompe com a sua entrega por amor, a ponto de poder nos reconciliar com o Pai559.
O ato de entrega de Jesus é também um ato de obediência; para o Evangelho segundo João, a morte de Jesus identificada com a entrega do Servo do Senhor, é um ato de entrega consciente, por isso é possível supor que Jesus mediante a proximidade da perseguição e o rumo que ia tomando sua vida, pode ter se identificado pessoalmente com o Servo do Senhor560. No que diz respeito à comunidade joanina, ela facilmente interpretou a saudação do Batista como um sinal de obediência, pois o Servo, em analogia ao cordeiro, torna-se sinal de obediência; tal sinal é encarnado na pessoa de Jesus. Ora, se há necessidade de reconciliação é porque uma das partes desobedeceu ao estabelecido, por isso, pode-se considerar que a obediência era elemento chave na Aliança com Deus561.
A Nova Aliança, agora destinada a toda a humanidade, é celebrada por Deus mesmo, [a] fidelidade consiste no fato de Ele agir não apenas como Deus diante dos homens, mas também como homem diante de Deus, fundando assim a Aliança de modo irrevogavelmente estável. Por isso a figura do Servo de Deus, que carrega o pecado de muitos (Is 53,12), deve ser ligada com a promessa da Nova Aliança fundada de maneira indestrutível.562
A figura do Servo, ou sua analogia ao cordeiro, aparece como elemento de obediência563, até mesmo frente à morte. Ao que parece, foi isto que a comunidade joanina viu plenamente em Jesus, uma obediência capaz de corrigir a desobediência humana. Diz Ratzinger que, na última ceia, Cristo quis atrair a “humanidade na sua obediência vicária”564, que leva à cruz, que é glória, mas também é sacrifício de
reconciliação565.
559
THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos, p. 204: “ morrer pelos pecados ou por nós, pode também aparecer como doação de amor. O amor visa à reconciliação entre parceiros inimizados.”
560 GODOY, Edvilson de. O sacrifício de Cristo
, p. 58: “Jesus interpretou sua missão, paixão e morte à luz da figura do servo do Senhor.”
561 Cf. RATZINGER, Joseph- BENTO XVI. Jesus de Nazaré, p. 126. 562 Idem ibidem, p. 126.
563 FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. V. II, p. 294: “o cordeiro é a imagem de uma obediência e de um amor que vão até a cruz; e o cordeiro é a imagem do servo de Deus que toma sobre si (leva) o pecado do povo.”
564
RATZINGER, Joseph- BENTO XVI. Jesus de Nazaré, p. 126. 565 Cf. THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos, p. 204.
A comunidade do Discípulo Amado566, dada sua rica presença de diversas tradições, viveu uma síntese sobre o evento da crucificação. Para ela, a cruz é o ponto mais alto da revelação de Jesus, o que faz da ressurreição um desdobramento da realeza e da revelação estabelecida na cruz567. É lá onde sua exaltação acontece; onde sua glória é manifestada568. Assim, cumpre-se o que o Quarto Evangelho havia anunciado em Jo 1,29: Jesus é obediente até a morte, como o Servo, semelhante ao cordeiro vivendo a entrega.
A morte do Servo de Deus, que é levado ao matadouro como cordeiro (cf. Is 53), traz o perdão dos pecados. Segundo o Quarto Evangelho, a cruz de Jesus atrai todos a si, e manifesta a glória do Pai no Filho. Jesus reconcilia o mundo com Deus, apaga a dívida dos homens. Ora, o Servo carrega o pecado (cf. Is 53), Jesus tira o pecado (cf. Jo 1,29); o ministério do Cordeiro de Deus é exatamente este: tirar o pecado, reconciliar.
Os escritos neotestamentários são herdeiros de uma antiga consciência de rompimento com Deus, que gerava a necessidade de reconciliação, pelo que surgiram ritos para tal fim. Deste modo, também o Evangelho segundo João, apesar de predominar a visão de gloria e exaltação, o evento da morte de Jesus não foge a atender à lógica de rompimento com Deus e necessidade de reconciliação569.
A respeito da necessidade de reconciliação, o Antigo Testamento utiliza ritos e termos referentes. Um deles é Kapar, que diretamente quer dizer: cobrir, ocultar. Este termo foi utilizado no culto “em sentido técnico, para indicar um ato de expiação, realizado através da aspersão do sangue da vítima”570. Com este rito, o ofertante do
sacrifício retira o que impedia a reconciliação. O que acontece é a oferta de um inocente em lugar de um culpado. Na teologia do substituto, o animal torna-se o substituto do
566 Cf. VIDAL, Senén. Los escritos originales de la comunidad del Discípulo “amigo” de Jesus, p. 40. 567 Cf. NEVES, Joaquim Carreira das. Escritos de São João, p. 278.
568 SCHNACKENBURG, Rudolf. Il Vangelo di Giovanni, parte segunda, p. 632: “tutta la sezione 12,20- 36 opera dell´evangelista, che inoltre utilizza a modo suo soltanto alcuni „logiasinottici‟ (vv. 25s) e la scena sul Monte degli Olivi (v. 27). Com grande abilità costrittiva egli ha trovato una conclusione adatta all´atività pubblica di Gesù: uno sguardo alla morte de Gesù sulla Croce (vv. 24.33), che però egli considera come l´ora della „esaltazione‟ del Figlio dell´uomo (vv. 23.32), cioè della glorificazione e della vittoria di Gesù (vv. 31s)” [tradução nossa: toda a sessão 12,20-36, obra do evangelista, que além disso, utiliza, a seu modo, apenas alguns „logiasinottici‟ (vv.25s) e a cena do Monte das Oliveiras (v.27). Com grande habilidade coercitiva ele encontrou uma conclusão adaptada à atividade pública de Jesus: um olhar direcionado à morte de Jesus na cruz (vv.24.33), que, porém, ele considera como obra da „exaltação‟ do Filho do homem (vv.23.32), isto é, da glorificação e da vitória de Jesus (vv.31s).]
569 Cf. THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos, p. 202. 570
pecador, para que aconteça a reconciliação. A palavra Kapar, em sua derivação koper,