Kapittel 4: Diskusjon
4.3 Koordinering av priser og effekten av cheap talk
A despeito do discurso e dos interesses políticos velados no processo de construção do Ensino Superior em Uberlândia é possível afirmar que a criação da Faculdade de Odontologia possibilitou um desenvolvimento na saúde bucal da população de Uberlândia e região, pois algumas práticas foram iniciadas principalmente para desenvolvimento do atendimento clínico exercido pelos alunos que tiveram na população seus primeiros pacientes.
Importantes práticas assistenciais odontológicas iniciaram-se com a criação da Faculdade de Odontologia de Uberlândia, entre as quais destaca-se a discussão e necessidade de fluoretação do abastecimento de água como medida preventiva das cáries, posteriormente, outras ações que beneficiaram a comunidade surgiram, por exemplo: a construção do Hospital Odontológico, equipes de alunos orientados pelos professores para realizar atendimentos nos bairros, parceria com a prefeitura para atendimento nas Unidades de Atendimentos Integrado (UAI’S), nas Unidades Didáticas Avançadas (UDA’S), todos esses elementos serviram como atrativos e ferramentas colaboradoras para o crescimento e desenvolvimento de Uberlândia.
Parafraseando Gomes (2003, p.152), o Hospital Odontológico trouxe o desenvolvimento do ensino prático da Odontologia em Uberlândia, o ensino clínico foi ministrado aos alunos do Curso de Graduação e de Pós-Graduação, auxiliado por professores especializados, estrutura físico-arquitetônica adequada e equipamentos dentro das normas de seguranças necessárias, possibilitou um bom atendimento a população.
Em entrevista a Srª Nazaré Aparecida Massariolli67 relatou que recebeu atendimento na Policlínica da Faculdade de Odontologia de Uberlândia rememorando que:
No ano de 1974. Naquela época eu era estudante, estava terminando o 1º grau. Através da minha mãe. Nós duas procuramos a clínica e começamos o atendimento. Minha mãe também foi atendida lá e alguns parentes também. Eu fiz obturações e canal. Acho que foi só. Mas todos os tipos de tratamento eram oferecidos pela clínica. Inclusive eu fiz peças protéticas e restaurações metálicas com ouro. O ouro era eu mesma quem levava, e eles colocavam. Fui atendida o tempo todo por alunos. Eles atendiam individualmente. Não me lembro o nome de quem me atendeu, mas me lembro de um aluno que agora é dentista e era aluno naquela época, o Dr. Washington, inclusive o consultório dele é aqui perto no Roosevelt. Fiquei satisfeita com o atendimento. Fui muito bem atendida. Correspondeu as minhas expectativas. A existência da Faculdade ajudou bastante, principalmente no tratamento. P:Algum dos seus familiares e conhecidos também receberam tratamento na policlínica da Odontologia?R: Sim. Fizeram obturações, canal, prótese. Dentaduras também. Minha mãe mesmo fez tratamento lá. Todos acharam bom. Aqui tinha muitos dentistas que não eram formados e atuavam. Então, a população passou a frequentar a policlínica ao invés de procurar os dentistas não formados. Já os alunos eram bem aceitos pela sociedade. Ajudou muito o pessoal da classe média e baixa, principalmente naquela época. O tratamento era acessível. Gostei muito do tratamento que fiz. Inclusive o tenho até hoje. (MASSARIOLLI, 2006) (Entrevista 15, em anexo).
A depoente apresentou a relevância do atendimento clínico possibilitado pela Policlínica da Faculdade de Odontologia de Uberlândia, pois permitiu para ela, assim como para outros parentes integrantes da população de classe baixa e média, o tratamento que era inacessível para maioria das pessoas. Terminada a entrevista o pesquisador desta tese questionou como ela conseguiu comprar o ouro para realizar as restaurações se durante a sua qualificação, ela mesma se classificara como pertencente à classe baixa. A Srª Nazaré respondeu que, naquele tempo, era estudante e trabalhava com auxiliar de dentista em um consultório particular, sendo assim, seu patrão ajudou-a a adquirir o ouro, visto que, sozinha, não seria possível pagar pelo material do tratamento.
Outro elemento que deve ser ressaltado no relato citado é a questão referente aos dentistas práticos, que passaram a ser preteridos em face da possibilidade da população ser atendida pelos alunos da Faculdade de Odontologia de Uberlândia.
De acordo com Pereira,
67 Nível escolar atual: 2º grau incompleto, Data de nascimento: 03/04/1957, Nome da Mãe: Olga de Oliveira
Massariolli, Nome do Pai: Valdemar Massariolli, Local de nascimento: Uberlândia MG, Classe social a que pertencia em 1970: classe baixa, Profissão atual: Serviços Gerais, Ex paciente da Policlínica da Faculdade de Odontologia de Uberlândia no ano de 1974.
Nesse ponto, Uberlândia não foi diferente das demais cidades do interior, conforme os dados estatísticos [...] em 1969, ou seja, pouco antes da fundação da FOU, os dentistas práticos contabilizavam aproximadamente 37% do quadro dos dentistas da cidade. Antes da Faculdade de Odontologia de Uberlândia começar a oferecer seus dentistas recém formados para atender à população, os profissionais habilitados existentes aqui eram, em sua maioria, provenientes das Universidades de Ribeirão Preto/SP e Uberaba/MG. Desde esse momento, já existiam algumas discussões envolvendo a questão dos “dentistas práticos”, uma vez que determinados cirurgiões dentistas habilitados repugnavam o atendimento desses profissionais não formados. Outros odontólogos, no entanto, achavam que esses trabalhadores sem Graduação serviam, a seu modo, uma determinada parcela da comunidade uberlandense que não podia pagar o cirurgião dentista formado (PEREIRA, 2006, p. 131).
É possível verificar, neste ponto, um questionamento a respeito da atuação dos dentistas práticos, fato que outrora foi justificado pela ausência de profissionais qualificados, contudo com a Faculdade de Odontologia de Uberlândia passou a reforçar o discurso de não mais admitir a prática sem a devida formação.
Para alguns o “dentista prático” deveria extinto, deixando a atuação para profissionais qualificados e preparados para fornecer um atendimento seguro e eficaz. Dessa maneira, em virtude da intensificação desse movimento de exigência da Graduação do dentista, conforme demonstra o depoimento a seguir alguns práticos renomados de Uberlândia procuraram se formar.
O mais velho da minha turma tinha a idade do meu pai na época. Ele já era dentista prático e era tido na época com um dos bons dentistas da cidade, com uma clientela classe A. Vinha de uma família de dentistas, o pai foi dentista prático, os irmãos foram dentistas formados. Ele chegou à presidência do Lions Clube, o mais tradicional da cidade (COSTA NETO, 2006). (Entrevista 10, em anexo).
Ao lembrar-se do colega de turma Odorico Coelho da Costa Neto evidencia o fato de que a Faculdade de Odontologia possibilitou a regularização de profissionais que já se encontravam bem estabelecidos e reconhecidos pela comunidade uberlandense, mesmo já fazendo parte dos seletos grupos sociais da época, buscaram na Graduação conhecimento e técnicas para aprimorar o exercício da profissão e consolidar o prestígio social.
Além de ser a possibilidade de acesso ao tratamento odontológico para algumas pessoas da cidade, tornar-se dentista representava, para alguns estudantes da Faculdade de Odontologia de Uberlândia, uma via de acesso ao crescimento e ao desenvolvimento social, possibilidade de ascensão social, corroborando o pensamento de que os membros da classe média viam no Ensino Superior um caminho para obtenção de status. Nesse sentido, ao relatar
o que representava ter uma Faculdade de Odontologia em Uberlândia Gildésio Rezende Alvarenga68 expõe:
Como realização pessoal e social, ela representou muito porque ela me colocou no meio social. Hoje me considero uma pessoa grata. Isso me abriu as portas pro Lions, pra ADESG, pra Maçonaria... Socialmente foi muito bom e profissionalmente eu nunca deixei de participar do acompanhamento da evolução da Odontologia. Eu sou uma pessoa que investe na própria profissão. O meu conceito vai um pouco em choque com a maioria dos profissionais os quais eu conheço, que não gastam com Curso, que acham que é bobagem. Fiz cursos a vida toda. Dava inicio ao meu trabalho às seis e meia da manha, principalmente os 10 primeiros anos, eu trabalhava até oito e meia da noite e aos sábados. Hoje já sou um pouco moderado, mas mesmo assim, as dez pra sete da manha já estou no consultório e saio as onze e quinze, retornando a uma hora e ficando no máximo até as seis e meia da noite. Eu acho que profissionalmente me considero muito feliz, apesar de todas as limitações que o profissional tem. Não me arrependo em nenhum minuto de ter escolhido tudo isso (ALVARENGA, 2006). (Entrevista 09, em anexo).
Sendo assim, pode-se verificar que, para esse ex-aluno da Faculdade de Odontologia de Uberlândia, significou uma oportunidade de ingressar em uma Escola de Ensino Superior possibilitando uma inserção no meio social, enquanto que para o dentista prático da primeira turma de Odontologia, parafraseando os dizeres de Odorico Coelho da Costa Neto ao relatar o exemplo do colega de classe, o Curso foi uma oportunidade de regularizar sua profissão que já se encontrava consolidada e prestigiada com uma clientela Classe A.
Ao ser questionado como foi visto o Curso de Odontologia pela sociedade uberlandense e quais repercussões na sociedade, Paulo César Azevedo69 relatou que:
Já existiam outros cursos em Uberlândia, mas a Odontologia veio beneficiar muito a comunidade em termos de repassar para os demais cidadãos aquela Odontologia moderna, aquela Odontologia que na época eram mais dentistas práticos do que os profissionais, então eu acho que foi não só para Uberlândia, mas para as regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, isso tudo veio trazer para nós um enriquecimento cultural, enriquecimento de atendimento aos pacientes, novos recursos e técnicas, tratamentos diferenciados, e isso trouxe crescimento, pois a Faculdade mais perto que tinha, agora estou me lembrando, era a Faculdade em Uberaba que era particular e é até hoje. Então, eu acho que para nós da comunidade de Uberlândia ela só veio enriquecer, não só de Uberlândia, mas da região também. Eu acho que a sociedade em si começa a respeitar um pouco mais
68 Cirurgião dentista, ex-aluno da sexta turma – 1978; Nome da Mãe: Alaide Rezende Alvarenga, do lar. Nome
do Pai: Osto de Oliveira Jannus, comerciante. Local de Nascimento: Araguari/MG, o entrevistado relatou que pertencia na época do curso a classe baixa.
69 Cirurgião dentista, ex-aluno da primeira turma – 1973. Doutor em Odontologia pela USP/Bauru; Mestre em
Endodontia pela USP/Bauru em 1984, Especialista em Endodontia pela Faculdade de Odontologia de Araraquara; Professor Titular da Universidade Federal de Uberlândia.
aquela Odontologia que fazia-se naquela época, não que seja empírica, porque naquela época existiam muitos dentistas fracos, eu me recordo bem que quando eu era aluno na Faculdade, algum dentista foi autuado, foi preso, teve seu consultório tomado. Então a gente via que a Odontologia não tinha aquelas condições em que podia se passar ao paciente recursos maiores de técnicas. E eu acho que a Faculdade veio trazer aos nossos uberlandenses uma motivação muito peculiar de melhorias e com isso a população foi vendo que a Odontologia podia ser diferente daquela dos anos 50, 60. Naquela época eram os anos 70 e a Odontologia foi uma transformação. (AZEVEDO, 2006). (Entrevista 03, em anexo).
Fica perceptível que a criação da Faculdade de Odontologia ia ao encontro do discurso político do progresso por meio da Educação, disseminado pelos grupos dirigentes, enfatizando-se sempre a atuação conjunta para se conseguir atender as necessidades do povo. Infere-se da citação que as práticas acadêmicas despertaram na população uma possibilidade que ia além do simples acesso à Odontologia, mas a oportunidade de atendimento com diferencial técnico.
Durval Garcia70, em entrevista concedida ao Projeto Pró-Memória UFU, apresentou um entendimento diferenciado ao avaliar a prestação de serviços à população uberlandense naquele momento, para ele, foi possível verificar uma boa relação entre o poder executivo municipal e os criadores das escolas de Ensino Superior, afirmou que essa interação foi além da aprovação de leis, pois ocorreu até mesmo troca de funcionários e serviços entre eles, contudo, conforme destacado a seguir a Universidade precisava melhorar sua atuação direta beneficiando a sociedade uberlandense.
Hoje a universidade cede muito de seu pessoal ao poder público, e de outro lado, em contrapartida, o poder público também cede muita gente sua, aos diversos campos de atuação da universidade. [...] Ela hoje está a serviço dos que a compõem, no sentido de que ela é uma prestadora de serviços ao seu alunado, ela é uma prestadora de serviços aos seus docentes, e ela é um engajamento de trabalho para os seus funcionários, para os seus administrativos. Mas, aquela prestação de serviço aberta em várias áreas, não existe ainda, existe alguma coisa na área da Medicina, na área médica já existe alguma coisa do ponto de vista das pesquisas. A universidade está servindo a sociedade, mas eu acho que ainda falta. (GARCIAL, 1988, p. 17- 18).
Assim como a Faculdade de Medicina propiciou a prestação de serviços para a comunidade, a Faculdade de Odontologia além do acesso ao tratamento dentário da comunidade, significou oportunidade de emprego para funcionários, técnicos e professores da
70 Ex-vice-prefeito de Uberlândia, agente ativo na fundação da faculdade de Filosofia de Uberlândia, professor
instituição, que passaram a participar ativamente no processo de aprendizado e melhoria da saúde bucal uberlandense.
Para Vanderlei Luiz Gomes71:
O que eu lembro é que todas as Escolas Superiores eram muito bem recebidas pela população. E todos os movimentos que a gente fazia eram movimentos que vinham ao encontro a fortalecer o vínculo com a sociedade. O trote de nossa turma foi para a época um trote avançado. Nos saímos com nossos veteranos nas ruas de Uberlândia, com auxílio dos militares do quartel fazendo angariações de bens, como roupas, e esse material depois foi distribuído para a sociedade. Recebemos também muitos eletrodomésticos. Isto marcou nossas vidas e fez com que a Faculdade chegasse muito mais próxima ao povo. Sempre nossa Faculdade teve um caráter social muito grande. Tivemos muito tempo, e ainda temos, uma grande carga horária na disciplina de Odontologia Social e Preventiva, que faz este contato com a sociedade. Portanto a Odontologia esteve sempre próxima da sociedade, em trabalhos em grupos escolares, em ajuda ao atender a população com a parte de cirurgia, de prótese removível por um bom período de tempo, enquanto duraram as UDAS (Unidades de Diagnóstico e Assistência Social), a gente fazia parte das UDAS, isso trouxe muita coisa pra sociedade. A nossa turma foi no ano de 1973/74, veio trabalhando pelo inicio da fluoretação de água em Uberlândia, nós participamos dos primeiros levantamentos e depois do acompanhamento dessa fluoretaçao. Simultaneamente, a Odontologia voltada para crianças que era trabalhada nos grupos escolares. (GOMES, 2006). (Entrevista 05, em anexo).
Sendo assim, com o relato apresentado pelo depoente, verifica-se uma sintonia nas práticas realizadas pelos alunos da FOU com os interesses da população e o apoio dos militares, corroborando o discurso de que tanto a Escola de Odontologia, como a Universidade, resultariam em benefícios para o crescimento e desenvolvimento da cidade e região.
Cotejando as entrevistas e as reportagens jornalísticas apresentadas, percebe-se que a criação da Faculdade de Odontologia possibilitou inúmeros avanços na área da saúde, e foram possíveis pela atuação conjunta dos grupos dominantes, população, alunos, professores, funcionários, idealizadores, entre outros que atuavam em consonância com os interesses pautados na ordem, progresso e Educação como veículo de desenvolvimentos social.
71 Cirurgião dentista, ex-aluno da terceira turma – 1975. Mestre em Clínicas Odontológicas pela USP/SP em
1986; Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela UFU/MG em 1979; Professor Titular da Universidade Federal de Uberlândia.