Os ex-reclusos, pessoas que já passaram pelo processo de reinserção na sociedade, conseguem ter uma visão mais concreta do que os reclusos sobre a importância da formação e do h , já “ ” de voltarem ao contato com a sociedade após o cumprimento de uma pena de prisão. Tendo por base a análise do Anexo I e do Anexo J, podemos concluir que todos os entrevistados consideraram importante a existência de trabalho e de formação profissional nos Estabelecimentos Prisionais. Cada um deles focando em especial algum aspeto, desde a ocupação do tempo, a aquisição de rotinas e de hábitos de cumprimento de horários, a questão financeira, aprender novas competências e, de alguma forma, sair do isolamento a que os remete a prisão.
“(…) z-se para os ex-reclusos em benefícios psicossociais e económicos, para q ã í v ív .” (Pereira
et al, 2009). Pelo contato com os entrevistados percebeu-se que a questão financeira torna-se um
imperativo de sobrevivência à saída da prisão e é fundamental para que não haja reincidência criminal, mas a componente psicossocial assume também uma enorme importância, uma vez que tem que haver uma readaptação a um ambiente social que após os anos de ausência se torna num ambiente novo para o ex-recluso.
Um dos entrevistados, Álvaro, dá-nos uma perspetiva interessante do trabalho enquanto fator orientador, integrador e formador pois, como refere, o trabalho na prisão para algumas pessoas pode
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ajudá-las a deixarem de estar tão à margem assim como as pode ajudar no seu relacionamento com os diferentes atores dentro da prisão. Menciona também a escassez de trabalho dentro da prisão.
Sobretudo se a pessoa que está presa não tem vontade de lá voltar e tem vontade de sair o mais depressa possível, é imprescindível o trabalho. Só assim é que pode ter um maior apoio desde o chefe de é à é á h (…) há pessoas que têm tão pouca orientação na vida, há pessoas que só lá dentro é que conseguiram aprender a escrever ou a ler ou aprender a fazer qualquer coisa porque há pessoas que não tiveram a sorte de ter apoio de nenhum familiar e começaram a ser tão marginalizadas pela sociedade que nunca z (…) o trabalho não chega para todas as pessoas, o trabalho lá dentro é escasso, não há estruturas para todas as pessoas poderem trabalhar e não há incentivo. Eu penso que era uma boa forma de a sociedade lidar com quem lá está e era uma muito melhor forma de as pessoas que lá estão compreenderem que têm outras opções na vida e poderem usá-las.
Bernardo salienta a importância do trabalho na aquisição de hábitos e de rotinas e como um indicado ã “ v ”:
Começando pelo hábito de acordar cedo, tomar o pequeno almoço, habituar o corpo a trabalhar, a uma rotina. Se não for assim como é que chegamos cá fora e encaramos o mundo? O que eu pensava era: se h q 20€ 30€ q ã h á ? (…) u por exemplo tive oportunidade de trabalhar no lenhador e adorei. Quando dava por ela já tinha passado o dia (…) v z ã v . ã q h h . v v z (…) ã ó provar que quero mudar de vida mas também porque ganhava qualquer coisa. O ordenado era pequenino mas era qualquer coisa. Na altura pensava que v z h . C 15€, 19€ h máximo que foi 40€. C Câ , q á no Estabelecimento Prisional.
César relaciona a importância ou não de trabalhar, com o tamanho da pena de prisão. Considera que o trabalho é importante para quem tem penas longas mas pouco relevante para quem tem penas curtas:
Depende da maneira de pensar da pessoa e do tempo que tenha de pena. Se for uma pessoa que esteja lá pouco tempo e que a família o ajude, eu acho que não. Se for uma pessoa que não tenha ajuda da família e tenha que estar muito tempo, acho que sim. Quem está de passagem quer é passar o tempo depressa e entreter-se sem ter horários e obrigações, dar justificações, quem não queira fazer daquilo vida e queira sair dali o mais depressa possível. Quem está muitos anos é que já é diferente. Também não consigo responder porque tive uma pena pequenina.
Defende ainda a ocupação do tempo, a aprendizagem de novos saberes e, tal como Álvaro, menciona o relacionamento com os funcionários da prisão. No entanto acha que os reclusos trabalham essencialmente para ocupar o tempo e, a maioria, pela questão financeira, “ poderem mexe á ”.
Sim, sim, na minha opinião eu acho que sim porque a pessoa mantem-se ocupada e acima de tudo aprende alguma coisa lá dentro e é afastado um bocado do meio de estar a conviver com as outras pessoas. É uma mais-valia para a pessoa encurtar o seu tempo lá dentro e estar ocupado, e as pessoas começarem a ter um bocado de confiança e serem respeitados. Quem trabalha é visto de outra forma, e está mais tempo aberto. Tomamos banho 3 ou 4 em vez de ser aquela gente toda, podíamos circular à
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v (…) muito honestamente, acho que a maior parte era só para passar o tempo e para ganhar algum para se poderem mexer lá dentro. Muitos não tinham visitas e as visitas é que dão dinheiro, dão tabaco, dão comer e muita gente não tinha. Não era o meu caso nessa altura mas muita gente trabalhava por necessidade, para se poderem mexer melhor lá dentro. Há outras pessoas que não mas a maior parte h q (…) eu nunca tive conhecimento que as pessoas se interessassem. Isso já vai de cada um mas eu achava que alguns tiravam partido disso. Dava para aprender alguma coisa, isso dava. Por exemplo uma pessoa que ia para a serralharia ou para a cozinha, aprendia.
David, “ ” ó q ã . R isolamento de quem não trabalha:
Ocupação é bom demais para ocupar o recluso porque se um recluso não tem ocupação fica só a pensar na liberdade, dá mais descanso. Cria mais problema psicológico mas se uma pessoa já tem ocupação ou está na escola ou num trabalho, o tempo passa e você não sente aquela dor psicológica da cadeia. Com çã j (…) já v q ã ê h , ã ê ocupação, são as pessoas que sofrem mais na cadeia do que os que estão a trabalhar. Ficam isolados, quase uma pessoa incomunicável. Têm vida mais dura. Quando tem ocupação, sente mais alívio, fica mais aliviado.
, h ó . “(…) ó (…)”. M é cto de nas prisões a possibilidade de trabalho só chegar a uma pequena minoria de reclusos e o benefício que trás aos reclusos em termos psicológicos:
Para além do matar do tempo, o trabalho funciona como matar do tempo. É pedagógico, faz bem. T h ã v j q é q , h q v h (…). Em Vale de Judeus estávamos 500 e qualquer coisa homens, creio que eramos 500 e qualquer coisa e se trabalhávamos cerca de 50, ou 60, não me lembro de ver muito mais gente a trabalhar. O resto era tudo (…). Eu já disse que era pedagógico, faz bem, faz muito bem mentalmente porque a vida da cadeia é ansiosa como toda a gente o sabe. É muito parada, muito morta e o corpo vai render, vai cedendo a essa ociosidade. É natural que o trabalho funcione como uma cura para o ócio. E não só, mentalmente ajuda muito. A capacidade de raciocínio nas cadeias vai-se perdendo, com o passar do , ã h h . É , h (…), por outro lado também é bom porque não deixa que as pessoas pensem noutras situações. Pensam mais no trabalho, naquilo que têm que fazer amanhã e a cabeça vai afastando porque é fácil numa cadeia haver sentimentos de revolta, sentimentos de vingança, isso é facílimo de acontecer, acontece em 95% dos casos. O pensar como é um pensar parado, ocioso, o que é que acontece? nunca é um pensar como devia ser, é sempre um bocadinho mais ao lado e por maus caminhos. É bom que as pessoas trabalhem porque evitam muito essa situação (…)
Edmundo reforça a ideia de que todos os reclusos deveriam trabalhar:
Todas as pessoas que vão para a cadeia deviam trabalhar, todos aqueles que querem evidentemente porque lá nin é é h (…) udo o que é trabalho dentro da cadeia só ajuda a formar a pessoa, não só fisicamente porque o físico também se acaba dentro das cadeias. Tem que fazer qualquer coisa para se ir mantendo. Não só fisicamente como dá moral, ajuda na questão da moral, ajuda e muito. Ensina-nos o civismo, também nos ensina isso. Eu só dentro da cadeia é que aprendi o velho adágio que
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já não é bem adágio, é um pensamento qualquer de alguém que se lembrou que a minha liberdade acaba quando começa a do vizinho. E eu aprendi isso lá dentro.
Flávio é mais um dos ex-reclusos que menciona a ocupação do tempo e a possibilidade de ter uma ajuda financeira. Tal como Edmundo, também considera que o trabalho deveria ser obrigatório nas prisões e que pode ser estruturante para os reclusos:
Acho sempre que sim e quanto mais melhor. Assim as pessoas estão mais ocupadas. Passam melhor o tempo lá dentro, infelizmente. Mas havendo trabalho, sentem-se melhor, estão mais distraídos, é diferente (…), é para ocupar o tempo, só. É para a gente passar da melhor maneira. Para quem não souber, pode ser que aprenda mas não era o meu caso porque já era a minha arte, portanto eu era chefe de oficina (…). É para aprender e para ganhar dinheiro também. Toda a gente precisa mas há alguns que não têm é h v , q z (…). Devia ser mesmo obrigatório trabalhar dentro dos estabelecimentos porque muitos entram lá para dentro e se vão para lá e não têm vontade, saem de lá sem vontade. Devia ser obrigatório trabalhar, não é, só trabalha quem quer. É importante para tudo, para se aprender uma profissão, para se ter vontade, para incentivar as pessoas a trabalhar porque se as pessoas vão para lá e não têm nada que as puxe voltam à vida do crime. Se não houver incentivo, voltam à vida do crime. Eu acho que devia ser obrigatório mesmo. Da análise dos testemunhos dos ex-reclusos, podemos assim concluir que todos consideram importante o trabalho durante a privação de liberdade, não só pela ocupação do tempo, como também como uma atividade estruturante e que contribui para a sua reinserção social.